terça-feira, 21 de outubro de 2014

Uma reflexão sobre a minha humanidade...

Eu havia prometido não falar mais de deus ou dos deuses.

Eu já prometi não prometer nada. 
Tem muito que eu já disse que não mais faria e faço e farei (e aqui estou eu, na minha trocentésima postagem quando me vem a memória a promessa de não escrever mais nada).

E tem tanta coisa que eu já me propus a não fazer (ou mesmo sentir) mas eis que me encontro sempre e sempre de volta a velhos hábitos, como um maldito viciado, que sim, me assumo uma pessoa volúvel (desgraçadamente ciente de que o é, para azar meu) e lá vai:
Sobre os deuses...

Religiosos enchem o saco.
Ateus idem e com a mesma virulência.

E eu sou um apóstata de todas as minhas crenças e descrenças e por vezes, defendo com tanta veemência os meus não-pontos de vista, que me irmano a camarilha irritante de gente que teima em impor a sua visão de mundo aos outros. 

Mas como já falei deles e me causam preguiça mortal, quero mais é que se danem. Ou que me permitam danar-me em paz...

Mas hoje tenho de abjurar da crença em um último deus em que eu depositava alguma fé.
E desconstruir outro que eu sequer sabia que recebia culto e reverência.

O primeiro é o deus Diálogo. 
Confesso que o altar deste recebia de mim as mais fervorosas orações e súplicas.  Eu pensava ( e alguma parte quase perdida de mim ainda pensa) que qualquer coisa entre as pessoas poderia e seria resolvida, compreendida, apaziguada, conciliada, sancionada em comum acordo ou de outra forma, que o Diálogo era a ponte que uniria e a marreta a quebrar os muros entre os seres humanos...

Mas a nossa era é uma era de medo do Diálogo, das conversações em poucos caracteres, porque as pessoas não mais falam, por medo de se expor e não ouvem, por receio de não compreender aquele que por ventura se arrisca a mostrar que não é um super-homem e que chora e que ama e que sangra...

O medo e a resultante incapacidade de reflexão e consequente compreensão do outro, matou o deus Diálogo. 

Ainda que haja retórica em contrário, toda a conversa que se tem é campo de batalha para fazer valer a força, não da lógica ou da razão, mas a força da força, trincheiras onde as pessoas que querem parecer fortes se escondem com medo que o outro veja a sua fragilidade.

Homens  de vidro voluntariamente mudos e surdos em armaduras de aço.

O segundo deus a quem tenho de mandar ao limbo sou eu mesmo. 
É sério!

Fui até ontem uma divindade.
Não aos meus próprios olhos, está claro.

Mas aos olhos equivocados de pessoas que cismaram sei lá por que diabos, que eu era um tipo qualquer de Lama iluminado ou um guru espiritualizado. 

Teve gente que teve receio de me falar coisas muito simples, como se eu fosse uma coisa qualquer de pura ou muito santa que não deveria ser conspurcada por linguagem baixa ou assunto chulo.

Mais de uma garota me brindou com o maldito “amor Ágape” (e teve a feliz ideia de me contar essa porcaria, à guisa de fazer-me sentir “especial”), castrando-me, desprovendo-me  de pênis, testosterona e defeitos, me colocando numa droga de altar quando eu queria que me quisessem na cama ou no inferno, que são os lugares em que uma mulher deveria colocar o homem que lhe serve ou não lhe serve.

Mais de um homem tomou-me a bênção ou veio a mim em busca de conselho sobre coisas que eu ignorava (e ainda ignoro) ou buscando perdão por pecados cometidos, não contra mim, mas contra si mesmo, como se eu, pelo suposto da minha “idoneidade moral”, estivesse em posição de dar-lhes a absolvição que eles próprios não se davam.

As pessoas que eu conheço ficam particularmente chocadas quando me posiciono a favor do aborto, do casamento entre pessoas do mesmo sexo, da Auto-eutanásia, da liberdade irrestrita de pensamento ou contra a pena de morte (ééé... Porque "gente santa", em geral, curiosamente é a favor da pena de morte).

Acham absurdo que eu coma carne e não recicle o lixo e pensam que eu fico a vida inteira com a cara enfiada num livro, meditando, em contemplação de sei –lá que universo metafísico, procurando a solução para os grandes males da humanidade enquanto as pessoas reais vivem vidas reais.

Pro inferno com o amor Ágape! Pro inferno com toda a deferência com que me tratam!
Sou um homem, não um clichê de “ser superior”.

Eu sou desse mundo mes amis, ainda que não o compreenda.

Justo eu, o pior ser humano que eu conheço (até porque eu sou o único que realmente conheço, já que está todo mundo entrincheirado e com medo de se mostrar, mas eu não posso esconder de mim o que sou)!

A droga é ter de reconhecer em mea-culpa tardia que, se mais de uma pessoa me viu com esses olhos embevecidos e reverentes, é porque eu, de alguma forma tenho passado essa imagem a meu respeito, a despeito de todos os meus esforços para dizer da minha humanidade.

Daí abjurar do deus diálogo e do suposto da minha divindade.


Daí estar inclinado a viver, pensar e escrever com um tanto mais de agressividade, fazendo uso dos atributos que são considerados “humanos”, não para convencer meus confrades de que sou gente, mas para o reafirmar para mim mesmo, por que seria o fim da picada se eu me deixasse convencer pela opinião corrente de que não sou...