quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Enquanto Setembro agoniza eu conto lírios em um jardim que não existe...

Se ao menos não me fascinasse tanto os fragmentos de vida sobre os quais bocejo meu desinteresse sutil,
Se ao menos eu não estivesse tão empenhando em olhar para o vazio da noite esperando ver – o que? Gritos de socorro nas esquinas lá fora que sufoquem os gritos de socorro emudecidos aqui dentro? – sondando, tentando achar o que quer que se ache quando se olha pro vazio da noite

Se ao menos não me importunassem com conversas enfadonhas os fantasmas da minha insônia,

Talvez me aprouvesse ser menos introspectivo para fora e mais extrovertido para dentro.... Eu faria carnavais silenciosos enquanto seguraria o queixo e olharia pela janela, perdido em atitude meditativa.

Um dia desses a rotação da terra me jogou para fora da cama dela (não me lembro qual, porque estranhamente ainda me aconchego em seus edredons e sorrisos no escuro) e tive que orbitar apenas em volta daquelas perguntas que deixei de fazer e das respostas que ela não me deu.

Mas ela.... Se empenhou apaixonadamente em ser uma mulher, mas negligenciou um tanto de sua humanidade, brincando com meu espanto quando lhe dizia que as duas coisas dançavam juntas e não eram antagônicas.

Por meu lado, fiquei enredado, perdido, devotado com ardor em minha humanidade e no processo, me esqueci completamente de ser um homem...

E eis-nos aqui, no limiar de qualquer coisa entre o que somos, o que queríamos e devíamos ser.

Mas na matemática das coisas, a paixão dela deu fruto e flor e ela se tornou uma mulher notável, extraordinariamente humana em sua feminilidade.

Eu por outro lado, tanto me esforcei e como resultado, sou um ser humano sofrível e o masculino se configura para mim em mistério e não sou completamente nem uma coisa e nem outra.

Apenas levemente irritado e um tanto comovido quando ela vem me pedir auxílio com as tampas de pote de maionese e com os grandes dilemas da existência, quando sei bem que ela se vira com essas coisas melhor do que eu.
Um truque indulgente para eu não me sentir tão inútil quando os badulaques da mesa da sala de estar.

Ainda me perco, caindo infinitamente pra dentro em pensamentos, enquanto setembro agoniza, a chuva pendura no céu - e ameaça e promete -  e ela passa óleo nas pernas e ri da minha confusão.

E  eu ouço o riso que espanta as pensamentos do céu, a chuva que agoniza dentro de mim e a confusão dos meses em que me perco e penso que amar é bom...
Miseravelmente bom.
...

Mas se você amar qualquer coisa que não lhe traga uma considerável quota de dor (ainda a iminência da perda), talvez seja só uma inferência de alguém que não sabe o que é amor, mas talvez eu saiba e creio que talvez é  você que esteja chamando de amor algo que seja alheio a isso..

Um comentário:

Kristal disse...

Caro Luiz, ler suas palavras sempre me passa a sutil sensação de que talvez eu não possua a profundidade na sensibilidade sentir o suficiente para absorvê-las por completo.
A sua instrospecção tão autêntica é, que sinto-me puxada para dentro da sua mente ao ler o que você escreve. E reluto, um pouco, pois é bastante íntimo o seu sentir e isso me dá, não sei, a sensação de ser invasora. Mas se expõe, e se o faz também belamente, solto apenas e me delicio com palavras e com a maneira que seu uso delas me faz sentir.
Que bonito mesclado entre algo de puro e algo de mundano eu vi nas imagens que seu texto coloriu. Mas no meio de todo esse caos - que não entendo bem, mas teimo em reler - minha vontade é de abraçar suas palavras. Porque elas são sinceras e a sinceridade nesse mundo me emociona. E por isso eu as leria quantas vezes fossem e seja lá o que contasse.
Obrigada por escrever.
Um abraço.