quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Pra não dizer que não falei de flores...




Aqueles estão lá a colher flores.

E eu chafurdando a terra a cata de raízes de beladona (esqueci-me para  que é que  delas necessitava, mas  continuei a procurar assim mesmo).

Aspiram o pólen como abelhas grotescas, mas duvido que aquelas narinas sôfregas produzam mel ao invés de muco. 
É um pensamento tão nojento quanto engraçado.

Não entendo e nem gosto de flores mais do que entendo os homens que gostam de flores. A  beleza delas é efêmera e suas cores virulentas. Talvez seja antipatia advinda da inveja, porque eu sou efêmero, mas não belo, embora seja virulento sem ser colorido além da melanina.

Mas sim, elas são bonitas, porém, não me comove a sua beleza, e sim a morte sutil  e sem sentido delas nos bouquets, nas lapelas, nos cabelos dos enamorados e nas coroas fúnebres.
As pessoas tem gostos assombrosos ou então é assombrosa a minha incapacidade de entender  o gosto pela morte da beleza por capricho. Acho que nunca compreenderei os símbolos mais do que compreenderei aqueles que deles se servem para serem mais e mais incoerentes.

Mas eu falava de flores...
Não tenho mestres, eu, que sou discípulo de toda a gente.
Há quem me queira  ensinar o caminho para a virtude, para o paraíso, para Shambhala, para os Eldorados do ego e há sempre um  dedo que aponte a ponte que me levaria ao Übermensch . Há sempre quem me queira salvar a alma, mas ninguém que me explique flores.

Eu entendo o húmus da terra, o solo negro a me sujar as unhas enquanto busco raízes, a degeneração e decadência da vida da qual brota mais e mais vida. Mas parece a esses que amam flores, que elas brotam do nada (como se o nada pudesse gerar alguma coisa além  alem de nada).

É...Não amo flores e não as entendo, mas gosto delas por não haver talvez o que entender, além da fugacidade de sua beleza. Aqueles lá amam flores e as arrancam da terra para iluminar brevemente o olhar e a vaidade.

Fico feliz por não ser belo, embora seja efêmero. Fico contente por ser virulento, sem ser colorido. Talvez ninguém venha a me amar, como aqueles lá a arrancar flores amam as flores que arrancam. Mas pelo menos não me arrancarão de lugar algum.

Eu seria adereço horrível para lapelas, bouquets e afins e antes que alguém pense que estou exagerando, sugiro que se lembre que chinchilas e animais semelhantes são adoráveis e dão adoráveis casacos e botas. Nunca vou compreender, se é que há algo a se entender no incompreensível...