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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Enquanto Setembro agoniza eu conto lírios em um jardim que não existe...

Se ao menos não me fascinasse tanto os fragmentos de vida sobre os quais bocejo meu desinteresse sutil,
Se ao menos eu não estivesse tão empenhando em olhar para o vazio da noite esperando ver – o que? Gritos de socorro nas esquinas lá fora que sufoquem os gritos de socorro emudecidos aqui dentro? – sondando, tentando achar o que quer que se ache quando se olha pro vazio da noite

Se ao menos não me importunassem com conversas enfadonhas os fantasmas da minha insônia,

Talvez me aprouvesse ser menos introspectivo para fora e mais extrovertido para dentro.... Eu faria carnavais silenciosos enquanto seguraria o queixo e olharia pela janela, perdido em atitude meditativa.

Um dia desses a rotação da terra me jogou para fora da cama dela (não me lembro qual, porque estranhamente ainda me aconchego em seus edredons e sorrisos no escuro) e tive que orbitar apenas em volta daquelas perguntas que deixei de fazer e das respostas que ela não me deu.

Mas ela.... Se empenhou apaixonadamente em ser uma mulher, mas negligenciou um tanto de sua humanidade, brincando com meu espanto quando lhe dizia que as duas coisas dançavam juntas e não eram antagônicas.

Por meu lado, fiquei enredado, perdido, devotado com ardor em minha humanidade e no processo, me esqueci completamente de ser um homem...

E eis-nos aqui, no limiar de qualquer coisa entre o que somos, o que queríamos e devíamos ser.

Mas na matemática das coisas, a paixão dela deu fruto e flor e ela se tornou uma mulher notável, extraordinariamente humana em sua feminilidade.

Eu por outro lado, tanto me esforcei e como resultado, sou um ser humano sofrível e o masculino se configura para mim em mistério e não sou completamente nem uma coisa e nem outra.

Apenas levemente irritado e um tanto comovido quando ela vem me pedir auxílio com as tampas de pote de maionese e com os grandes dilemas da existência, quando sei bem que ela se vira com essas coisas melhor do que eu.
Um truque indulgente para eu não me sentir tão inútil quando os badulaques da mesa da sala de estar.

Ainda me perco, caindo infinitamente pra dentro em pensamentos, enquanto setembro agoniza, a chuva pendura no céu - e ameaça e promete -  e ela passa óleo nas pernas e ri da minha confusão.

E  eu ouço o riso que espanta as pensamentos do céu, a chuva que agoniza dentro de mim e a confusão dos meses em que me perco e penso que amar é bom...
Miseravelmente bom.
...

Mas se você amar qualquer coisa que não lhe traga uma considerável quota de dor (ainda a iminência da perda), talvez seja só uma inferência de alguém que não sabe o que é amor, mas talvez eu saiba e creio que talvez é  você que esteja chamando de amor algo que seja alheio a isso..

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Na outra ponta do divã




Talvez no fim, não seja grande coisa meu corpo estar aquecido sob edredons em quarto confortável, se minha alma está enregelada debaixo de uma ponte. 

Oh, que pensamento trágico e gracioso...
Queria ter um verso adequado para rimar com ele e então eu teria poesia e não um exercício fútil de melodrama...

Mas a manhã está boa para pensamentos trágicos e graciosos e me apetece  acrescentar mais uma pedra ao edifício das minhas aspirações natimortas... 

Pensar a vida como uma sucessão de situações venturosas equivale a lançar minha autoestima cambaleante para uma sarjeta qualquer.

Ontem, e antes disso, num tempo que já não levo na consciência, dei-me conta final e tardiamente não entendo em absoluto a dinâmica da vida cotidiana dos semi-deuses que me cercam.

O mistério das relações nesse teatro de bonecos que se chama humanidade (e se Deus é o titereiro supremo ou mais um boneco nas mãos dos bonecos, não sei dizer), não é menos esotérico do que o elixir da vida ou do que a pedra filosofal.

Mas tampouco se pode ser realmente humano sem complicar mais as já complicadas relações.

Ou talvez isso tudo seja apenas fruto de uma má disposição do espírito hoje e semana que vem e no ano passado ou a negação de ter um espírito que vá ter disposição para mais do que se desesperar diante do absurdo.

Talvez seja o nada engolindo novamente o tudo.


E eu, que nada sei sobre nada do que sei, sei que manter elevadas expectativas de mim mesmo, desejando ser moralmente belo e virtuoso, far-me-á ter ódio de mim mesmo por não conseguir jamais viver a altura desses céus onde miro minha ambição por ser.

São essas aspirações que cedo ou tarde me farão acabar com os pulsos sangrando em algum canto escuro ou pendurado numa corda, embora eu prefira pensar que ainda teria forças para fugir para o vazio de modo menos drástico e mais digno.

Nem vou pensar demais nisso, porque a essas alturas, seria uma tragédia se eu me descobrisse súbita e abjetamente religioso.
Deus me livre e me dê antes uma morte honrada!
Mais pensamentos trágicos e graciosos..

Já então, não me podem seduzir ou amedrontar as ameaças do céu e do inferno e estou mais ou menos entregue ao mesmo princípio de caos que orienta o mundo, tanto quanto qualquer um, mas ciente de que estou perdido e de que preciso me orientar.

O caminho do bem não é a minha vereda.
O caminho do mal não é chão onde ponha eu os meus pés trôpegos.

Tenho de me equilibrar sobre a linha fina sobre o abismo, enquanto de ambos os lados, voam pedras sobre mim e urram ventos querendo me derrubar.

Não, este não é definitivamente o meu momento de maior inspiração. 
E o que é que pode inspirar o nada?

Nem é o tédio a corroer as minhas horas, mas o desejo de silêncio que vem da certeza de que lá na outra ponta do divã, dormita o analista e eu falo para os meus próprios ouvidos surdos.


sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Para aquelas noites



Para aquelas noites em que você deixa que tudo  transborde em si, o amor e o ódio na mesma medida;

Para aquelas noites em que você faz as pazes com o que em si te ensinaram a desamar, desarmar e temer;

Para aquelas súbitas e infernais noites em que toda a sua  lógica falha, toda a razão vai tomar chá com o diabo e deus vai colher flores por entre as suas estrelas ,

Para aquelas noites meu caro, em que você se permite desejar derreter-se e inundar o mundo com as ondas do seu Eu,

Para essas noites de embriagues metafísica e principalmente, para a modorra dos dias que as seguirão, 
dou-te este conselho:

Tenha coragem! 

Acima e antes de qualquer coisa tenha coragem! Mesmo e principalmente nos momentos de maior pavor e de dor! 
Não se ajoelhe aos pés do carrasco, olhe-o e desafie-o diretamente nos olhos e o  faça tremer enquanto desce o machado! 

Fique de pé!

Essa é a segunda e mais cara e preciosa moeda do mundo; um nível abaixo do autoamor e um acima do conhecimento.

Coragem, especialmente para SER, seja lá quem você for ou o que você for.

Se souber disso, o que e quem você é, você é (provavelmente) a criatura mais genuína e importante num raio de muitos milhares de séculos-luz. 

E não, não finja que não o é, porque falsa humildade é repugnante. 
Melhor que sejas honesta e verdadeiramente soberbo na simplicidade de quem se sabe único, Alfa e ômega de si mesmo.

Sê corajoso e tudo irá bem.
Mesmo quando tudo parece desprovido de sentido e valor.

E para aqueles momentos em que pensa estar só ...
Ah, meu caro...
Está muito perto de compreender o quanto você está enganado nos seus momentos de maior certeza.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Da impossível vida


Viver... é uma tarefa difícil...
Eu digo isso para o nada e para ninguém porque no fundo penso que talvez eu queria convencer a mim mesmo ou descobrir alguma verdade libertadora quando digito ao acaso o que me ferve...

Essa blogosfera as vezes se parece em muito com um cemitério ou um livro antigo onde alguém grafou uma frase qualquer e você o lê e fica meio paralisado pelo suposto do que e de quem foi a pessoa que escreveu aquilo e que já então sumiu nessa fluidez dolorosa do mundo virtual.

Diabo, tudo flui afinal...!

As vezes as pessoas simplesmente somem na vida e as vezes elas somem da vida e é sempre perturbador ficar imaginando o que se deu neste ou naquele caso.

Estou tergiversando...
É só que anda me incomodando demasiado a insinceridade com que tenho vivido, fingindo sentimentos e pensamentos unicamente para que não sofram as pessoas a quem amo.

Como seria sublime não ser chicoteado pelas lágrimas dos outros.

Eu ando por BH invejando conscientemente a inconsciência desses fantasmas humanos, gente que se acotovela nas filas de ônibus a caminho de casa e das novelas e futebol e mundanices nas quais fingem viver.

Tal qual Fernando Pessoa, eu invejo qualquer um que não seja eu.
Eu invejo as cordas invisíveis (ao menos para eles) presas às mãos do titereiro que os tange qual gado e invejo de um modo muito doloroso a irresponsabilidade alegre com que aparentemente vivem.

Porque eu tenho também cordas, mas não me foi concedido ignorá-las nem por um instante e não me foi concedido a capacidade de render-me a elas e eu luto uma luta perdida, para me livrar dessa cortante dor de viver.

"Ha barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer".
Talvez seja o cinza lá fora, no céu escuro dessa manhã nublada ou talvez sejam as cinzas dentro de mim, restos da cremação da minha juventude...

Mas estou me lembrando (novamente) do porquê escrevo neste lugar: pelo descompromisso com a estética e com a preocupação daqueles que pensam e mentem para si mesmos.
Eu quero ser genuíno, nem que seja para dançar na escuridão.

Viver é uma tarefa impossível, ao menos para quem ama.
E por hoje essa é toda a verdade que encontro por debaixo do céu escuro dessa BH...
E se soo pessimista, não ligo em absoluto que o pensem.
Se eu tivesse digitado pensamentos felizes e mentirosos, minha vida não seria mais genuína.

O que estou fazendo, é tecendo uma teia para tentar resgatar fragmentos meus soltos no vento.
E entoando uma ode ao que eu sou e ao que eu poderia ser se não estivesse tão subjugado de amor pelos outros...

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Tem alguém aí?

Dei uma revirada em uns posts meio apagados em blogs cujos autores alhures me encheram de saudades de gente que nunca conheci.

Senti a mesma sensação de perda sentida em paginas amarelas de livros antigos cujos autores nos deixaram com sua morte um tanto órfãos de humanidade.

Mas essas pessoas estão ai, vivas da Silva como eu, ou Pereiras, ou Bittenncourtts ou sobre outros sobrenomes sobre o mundo.

Onde estão vocês que me deixam tão órfão da sensação de humanidade?

As salas vazias desses corredores aparentemente vazios me fizeram mandar ao diabo a minha preguiça de ser qualquer coisa que não um observador e poupar a quem por ventura ou desventura me lê, a sensação de que também evaporei no mundo e no nada e vir até aqui manifestar a minha contínua existência.

Eu ainda teimo em ser.

Espero que eles também, porque nós já perdemos demais.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Um Não-poema

Ainda não sei rimar, então desenho formulas matemáticas durante um tempo considerável, até perceber perplexo que tampouco sei resolve-las e isso se soma aos demais enigmas em minha cabeça e me sinto pequeno. Gavetas de meias a arrumar, reparos miúdos em uma casa miúda, contas mensais e os grandes enigmas da existência se revesam em noites mal dormidas na função de me deixar por horas a fio a olhar para a escuridão pensando em que devo fazer.

Minha poesia me abandonou ou então fui eu quem deixei de lado o propósito firme de viver e morrer por grandes coisas, naquele período em que me perco entre bater o ponto pela manhã e devanear a caminho de casa no fim da tarde.

Ha ideais em abundância atualmente e eu até lutaria por um deles se não estivesse tão na moda ter ideais e se eu não achasse tão repugnante seguir modas e se eu considerasse sensato falar por qualquer um que não fosse eu mesmo.

Tenho experimentado grandes ausências de mim , hiatos de tempo em que passo os dias a deixar passar os dias, intuindo por entre esse vazio se não me perdi em uma grande fenda qualquer que me deixou nesse limbo de onde escrevo a você mais uma vez o meu desamparo.

Dia desses observei uma mulher grávida a alisar o ventre inchado sonhando um grande futuro para o filho e a invejei e também me apiedei dela.  Não tenho certeza se parir uma ideia ou um ideal é menos ou mais doloroso do que ter um filho e eu já sinto as contrações da minhas ideias ha décadas, mas não as dores do parto. No fim, tanto um filho quanto uma ideia podem dar em nada.

Ainda espero aqui o soar de alguma trombeta que me desperte desse grande sonho modorrento que é a vida, um messias qualquer a apontar um caminho ou uma razão melhor pra levantar pela manhã que não seja o horário dos ônibus ou a bexiga cheia demais aos domingos.

Espero, ardentemente,que por entre esse desfile de espectros fingindo ser gente, você ainda exista

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Poema sem Título e Sem Data


Não há de me atormentar para sempre
O desejo de ser atormentado.
Pelo desejo que me atormenta.
.
Beijo lábios frios, desejando que sejam frios.
Mas escrevi teu nome em letras de fogo, como num sortilégio,
Distraindo-me em adivinhar no céu da sua angustia
Mil motivos para que não me veja olhando-te de volta
Quando te miras num espelho.

Oh, éramos a erva e o sol, o canto rouco do vento
E o silêncio da tarde.
Ela se arrasta preguiçosa e eu conto nuvens no azul.
Eu recordo dos dias felizes em que eu era como esse sol
E te banhavas em minha luz.
E todas as tardes eram preguiçosas como essa.

Todos os dias minha loucura grita.
Que eu tenho o direito de esquecer o ângulo perfeito de teu rosto
E o circulo maravilhoso desse olhar febril que me despe sem me ver.
Mas que homem em sua sanidade
Escuta o que berra a sua loucura?

Imaginei o mundo como um louco carrossel multicolor
E  eu a girar com ele,
Vejo o mundo em cores indistintas.
Um bêbado num carrossel.
Imaginei tuas formas sensuais sendo esculpidas em marfim,
Conseguido ao custo do sangue de muitos homens.
Sangue parece ser sempre o preço a se pagar pelo maravilhar dos olhos.

Seja por vicio poético, seja por escassa imaginação
Comparo-te aos materiais deleites que meus dedos podem tocar.
Que alegria!
Alegria?
 – Poesia!

Então, não te tenho e nem te toco,
Senão com um ou outro delírio fugaz que me permito.

Então se és toda poesia, se és feita de amor,
De que me serve todo o ouro e o delicado marfim do mundo?


quarta-feira, 18 de maio de 2016

1978, Elis Regina e uma mulher em manhãs de sábado



O ano era 1978.

Eu acho. Não se deve confiar demais na memória de alguém que procura memórias suas aos cinco anos de idade. Há gente que, com efeito, se recorda de lembranças de idade mais tenra ainda, prodígios capazes de voltar no tempo até seus dois ou três anos ou, caso não haja exagero, até mesmo meses de idade ou memórias intrauterinas.

Vai saber...
Lamento informar que não me encontro no rol de tais fenômenos e até o que comi no almoço me é tão indistinto quanto a camisa que usei em 15 de abril de 1993 ou, sei lá, minha adolescência que passou quase como um sopro de sonho. Daí eu ter de advertir que muito provavelmente, minhas memorias de 1978 são muito mais sensoriais (nisso eu posso me gabar de ter uma habilidade notável) do que de fatos concretos.

Eu tinha, pois, cinco anos e já era uma criança bem estranha, para os padrões da minha comunidade.

Muito grave, quase nunca ria e nunca chorava e se o fizesse, era em silêncio, no máximo um murmúrio de protesto sentido. Há que se pensar que eu esteja me vangloriando.... Ledo engano! Eu era uma criança “odiosa”. Os adultos me evitavam. As outras crianças também.  Era quieto demais. Silencioso demais. Adultos gostam de crianças barulhentas e dependentes, que lhes acreditem em todas as contradições e mentiras e que os façam sentir-se necessários e as crianças igualmente gostam de outras que lhes desafiem em jogos ou lhes apoiem as gatagens.

Eu era uma coisa que observava, indagava e aprendia. Por isso enquanto a matilha de irmãos e primos gritava lá fora atrás de cachorros, pipas e encrencas, eu me sentava e olhava pro céu, pras nuvens e pra dentro do meu pequeno e curioso eu.

A exceção, o que me arrancava de dentro da minha introspecção era o meu espetáculo favorito. Minha mãe.

Deus inexistente, como eu amava aquela mulher! 
Ela era linda, ora sofrida, ora alegre e vibrante. 
Aos fins de semana, depois de se matar a semana inteira para alimentar a ninhada, ela se matava para limpar a sujeira que a mesma ninhada fazia em suas ausências da semana.
Ela lavava roupas, limpava a casa, fazia a comida e limpava o terreiro, num ritual que lhe comia o dia todo.

Raramente eu a via, durante o dia, se sentar para comer ou para passar óleo nas pernas e cuidar do cabelo, coisa que ela só fazia durante a noite quando a ninhada já estava dormindo. Minha mãe primeiro cuidava do mundo. Depois cuidava de si. Depois disso, ela se sentava próximo a lamparina (não tinha luz elétrica em alguns bairros de BH nessa época) e se dedicava ao vicio que me legou: ler livros.

O menino estranho e a mulher sozinha a cuidar de seis filhos...

1978...

Minha mãe sempre canta quando está triste. Minha mãe está sempre cantando.

Em 1978 ela estava recém separada do meu pai. História comum em bairro comum de uma cidade comum de um mundo comum: Homem “abandona” mulher com filhos e cai no mundo. Lega a mulher o cuidado com os filhos e vai viver a vida com outra. Minha mãe amava aquele homem inconstante. Até onde eu sei, ele fazia um sucesso inacreditável com a mulherada. Charmoso, bonitão e absolutamente canalha, atributos que bem poderia ter me deixado de herança, já que não me deixou pecúnia.

Oh, aos cinco anos de idade eu amei pela primeira vez e pela primeira vez eu vi como era tolo o coração de uma mulher apaixonada. Minha mãe havia sido traída mais de uma vez. E meu pai ia e voltava uma história pra lá de clichê e não vou aborrecer ninguém com esses detalhes porque é basicamente a história de milhares, senão milhões de famílias...

Minha mãe cantava. Tinha uma radiola antiga a pilhas, onde ela ouvia Benito di Paula, Valdir de Azevedo e Elis Regina.

Elis. Se minha mãe foi meu primeiro amor, Elis foi o segundo.

Naquelas manhãs de sábado em que o sol entrava em casa pelas frestas do telhado desenhando moedas de ouro nas paredes e caindo em raios de poeira levantada pela vassoura da minha mãe, eu a ouvia cantar lá fora.

Na radiola, Elis cantava com minha mãe.
Eu já ouvi todas as músicas de Elis. Ouvi várias vezes e nunca consegui ao certo saber qual era aquela que minha mãe duetava com Elis. Talvez seja porque minha memória de cinco anos é emocional e sensorial. Eu ainda não tinha um arcabouço linguístico elaborado o bastante para saber sobre o que cantavam aquelas duas mulheres lindas. Eu apenas intuía. Eu hoje sou ateu, mas penso que aquelas manhãs de sábado eram momentos religiosos. Havia algo de muito místico naquilo. 

Eu saltava da cama irritado por ter dormido demais e ia lá pra fora, pro sol, pra poeira, pra Elis e pra minha mãe.
Elis cantava como um anjo e como um demônio, como uma amante, como uma assassina...!

Não sei qual era, mas minha mãe repetia tanto aquela música que não sei como o disco de vinil não gastava. E na voz de Elis, embora eu não soubesse e nem saiba a letra, eu ouvia a alegria e a dor, Elis amava naquela música e também odiava. Ela parecia implorar e amaldiçoar. Elis gritava sua angustia e seu deleite de um modo absolutamente mágico e parecia protestar e desafiar seja lá qual o destino lhe arrebatara a pessoa amada.

Era prata, cristal e fogo no ar em forma de música. Eu não entendia como meus irmãos ou qualquer pessoa podia fazer ou olhar ou ouvir qualquer coisa que não fosse aquilo. Era minha mãe, ainda lamentando a perda do “amor de sua vida”, chorando junto a Elis Regina em manhãs de sábado de 1978. Eu não sabia bem como reagir a beleza triste daquilo. Algumas vezes eu desejava poder fazer algo, por que em idade edípica, eu também lamentava do meu pai uma ausência qualquer. Venci meu inimigo pelo coração da mulher que eu amava. 

O que eu não sabia, era que eu amava o meu inimigo vencido e que ao expulsá-lo, fiquei com a mulher, mas o coração dela se foi com ele. Saudades do meu pai morto ainda em vida e de minha mãe, morta como mulher... Coisas que o divã revela...

Eu nada podia fazer, mas ao longo dos anos, sempre que minha mãe estava muito triste, eu permanecia calado ao lado dela, numa solidariedade muda, porque a mim parecia em minha fantasia de criança, que ficando perto eu poderia pegar um pouco daquilo que lhe pesava ao coração, absorver parte da tristeza dela para que ela risse mais, porque minha mãe chorando com Elis Regina era uma primavera, mas rindo, ela era as quatro estações e mais algumas.

Foi uma verdadeira lástima que minha mãe, assim como muita gente ao longo do meu caminhar, não compreendesse bem meu modo sutil de amar e de viver. Nunca entendeu o filho calado e profundo e embora ela tentasse muito, nunca conseguiu gostar dele ou o amar como pessoa.

Não me levem a mal (levem-me para Pasárgada!). Eu lhes asseguro que amor de mãe é coisa inútil para mim. Segundo dizem, se uma mãe tiver doze filhos, 11 psicopatas sádicos e um virtuoso, há de amar igualmente aos 12. Então qual o mérito do filho virtuoso no que tange ao amor de sua mãe?

Esse amor ideal de mãe, que tudo suporta, que tudo aceita e blá blá blá.... Isso nunca me interessou de modo que embora ela tenha sido excelente e ido além de suas forças ao cuidar de mim, não chego a lamentar que ela não me tenha amado como um filho. Eu já vi o que os filhos fazem as mães e como o amor por eles é pesado para elas. Todas essas besteiras que li no dia das mães, sobre esse ideário de amor quase transcendental, mãe que ama incondicionalmente, que tudo suporta, como se fosse realmente um martírio qualquer abrir o útero para uma criança, sofrer no parísio; ideário que talvez venha do mito de Maria mãe de Jesus, isso tudo me deixa nauseado, por que parece negar a uma mulher, uma vez sendo mãe, a humanidade própria.

Mães não podem odiar, não podem se permitir uma canalhice, mães não tem orgasmos (supostamente a concepção de filhos deve ser “pura”), momentos de fraqueza ou força, mães estão condenadas à santidade em vida e não são absolutamente, mulheres. 
Pobres mães...

Ah, eu amava aquela mulher que chorava o amor perdido enquanto colocava lençóis azulados de anil na grama para quarar ao som absolutamente mágico da voz incrível de Elis Regina. Amava a força esmagadora dela ao enfrentar o mundo, ao levantar de madrugada no escuro para arrancar sozinha do mundo o com que alimentar os filhos; suportando bravamente enquanto o ser mãe ia lentamente minando o ser mulher dela.

Muita chuva e vento e verões transcorreram desde 1978.


Morreu Elis, morreu meu pai, morreu a mulher que cantava com Elis e chorava pelo meu pai. 

Ficou a mãe, que me olha com olhos gentis, vasculha no fundo da alma algum amor que possa dar ao filho estranho tão “indiferente” e diferente dos outros filhos e pergunta como vou indo, nas raras vezes em que nos vemos. Abraço-lhe o corpo ossudo, os ombros cansados e sinto raiva de mim mesmo por ser seu filho e assim como os outros filhos, ter arrancado dela tanto que não posso devolver. 

Quase como se eu tivesse entrado no Louvre e, extasiado de amor, tivesse arruinado a Mona Lisa...

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Em Três Tempos




(Tarde)
Letárgico, olhava para dentro em queda livre, sentindo a vertigem própria de quem se abisma em si mesmo.

Sentia e ponderava a impertinência que é o sentir.
Me sentia impertinente...

E divagava em meu divagar, me concentrando em me concentrar, extraordinariamente perdido de mim, acendendo cigarros esquecido de que não fumo...

E olhava para a janela fechada tentado me recordar do que era o ânimo para abrir a janela.
Tentando me lembrar do que é lembrar.
E enquanto olhava, entrou pela janela o sol e uma bola
Estilhaçando vidro e letargia.

Pela janela quebrada por onde entrou sol e bola eu olhava a me olhar uma menina com o sol nos olhos e nos cabelos.
O mesmo sol que me entrou pela janela junto a bola.

(Noite)

Experimento estar desperto depois de semanas de sonambulismo insone,
Estico os nervos adormecidos da literatura
E me flexiono atordoado em linhas novamente...
A bola ainda está no chão com o vidro quebrado e o sol arde agora em algum lugar da china e de mim.

(Manhã)

E o que lhe posso dar, criança antiga como as histórias que se contam às crianças?
Há alguma novidade que eu possa contar que já não esteja embolorada de antiguidade?
Há algum presente que eu lhe possa legar no futuro que não esteja enraizado ao passado?
Há perguntas que lhe possa fazer cujas respostas não tenha adivinhado em seus jogos solitários de advinhas?

Eu lhe poderia amar, mas que é o amor que eu conheça, que não seja essa fome ardente que consome até as cinzas e continua a consumir mesmo quando já não há o que consumir?

Tenho um Everest  de motivos, um labirinto de livros não escritos na memória com todas as histórias ainda por contar, mas que esquecemos.

Sei por instinto, como o sabem as feras, todas as alegrias e agruras do mundo na última hora.
Ainda tenho uma garrafa daquele vinho transformado, que antes fora água, e que antes fora chuva, e que antes fora a lágrima de alguém que bebia vinho sozinho...

Cigarros meio fumados, em meios cinzeiros nas cinzas de uma meia manhã cinzenta...
Uma vida meio vivida...

Enquanto recolho do chão os cacos de vidro quebrados e fragmentos da minha consciência adormecida, corto os dedos, conto as horas e me movo em câmara lenta enquanto tento decifrar o mistério que te faz tão jovem e tão antiga.

Sobe a fumaça evolando do meu cérebro em ebulição, esses meus cabelos brancos subitamente pueris diante do seu corpo pós adolescido...

Em dó menor eu desafinei minhas angustias numa sinfonia muda de letras por dias infinitos.
Houve alguma vez dentro ou fora de um poema, palavra que descrevesse o assombro?
Se houvesse, haveria o assombro e haveriam palavras, mas não poesia...
Não haveria você e não haveria eu a escrever sobre escrever sobre você.

Eu faço um poema que rasteja por debaixo dessa prosa e saio do meu transe e entro no seu.
Faço cópulas com as palavras, tentando rimar o que vejo quando olho pra você, com o que eu deveria estar vendo.

E te destino essas linhas e entrelinhas e o que há entre elas e que não escrevi.
E amanhã devolverei a bola, mas acho que reterei o seu sol...



Para Lili, pelo resgate...









sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Uns minutos de silêncio...


...e então você começa a compreender o pensamento dos supervilões clássicos e aquele desejo de destruir o mundo e reconstruí-lo ao seu modo torna-se bastante atraente. Você meio que se delicia com o pensamento desse planeta ardendo, e depois que tudo silenciar, você pegaria uma pá, removeria o entulho e olharia para o céu, ciente de que tudo está como deveria. São sete e vinte da manhã e eu estou me deliciando agora é com um inesperado silêncio na minha vizinhança que parece que jamais tem um minuto de silêncio.

A gente que mora por aqui é odiosa! Solta foguete por qualquer motivo, por velório ou gol do seu time de futebol, em dias santos ou por puro tédio; e escuta funk e breganejo no ultimo volume por qualquer motivo desses ou por nenhum, mas escuta, estuprando os ouvidos alheios com essa droga!

Ontem foi véspera de natal e esse bairro horroroso que não tem nem de longe o charme de uma Las Vegas, mas igualmente nunca dorme, parece ter finalmente silenciado um pouco e, ou algum demônio camarada ouviu minhas súplicas e matou todo mundo num raio de kilômetros, ou então estão todos em coma, entupidos de comida gordurosa (churrasco, pernil, chester e porcarias semelhantes),emborcados em uma ressaca daquelas, porque, papagaiadas de "espirito natalino" a parte, tudo parece motivo para se entupir de bebidas e derivativos (por velório ou gol do seu time de futebol, em dias santos ou por puro tédio).

(E se você estiver pensando "se ele odeia tanto a sua vizinhança, por que diabos não se muda?", eu digo, dê-me a chave do seu apartamento de cobertura no Belvedere cara, e eu me mudo imediatamente! Mas essa vizinhança me apetece, porque a odeio e a humanidade é coisa que eu odeio amar, mas amo odiar! Cada qual com seu vício!)

De repente descubro que não sei o que fazer com esse silêncio que se instala e, como uma criança que come um doce bem devagar para que dure mais, teclo devagar nesse teclado e ouço o silêncio. Tenho um minuto para parar de me manter na superfície das coisas do mundo que amaçam me afogar se eu parar de nadar e venho aqui dividir sei-lá-o-quê com sei-la-quem, porque sinceramente? Quem lê blogs hoje em dia?
Quem lê qualquer coisa que não sejam linhas curtas de whatsapp?

Mas-que-merda!
Algum cretino pelo jeito não bebeu o bastante e acabou de ligar o som às 7:38 da manhã!

Durou pouco e eu fiquei desanimado de continuar a escrever.

Que vontade de morrer...Só espero que o diabo seja mesmo o pai do rock e que não toquem funk no inferno...

Vou ali, tentar me manter na superfície dessas coisas que odeio e me consolar com o pensamento de que não sou eterno e uma hora dessas eu morro e deixo pra trás esse planeta, que não posso destruir por mais que o queira e nem reconstruir ao meu modo.

Uma hora dessas vem lá um ataque cardíaco, um crime passional ou não, câncer, falência múltipla dos órgãos ou um raio de um deus me punindo pelas minhas heresias  e eu morro...

Mas numa praia solitária ou na boca de um tubarão. De jeito nenhum afogado nesse mar de lixo psicológico chamado "vida comunal"


Fonte da imagem: http://canaltech.com.br/

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Vamos conversar...




...e para finalizar uma conversa que ainda nem começamos, eu lhe asseguro que a luta do fanático é mais válida do que a do soldado relutante, ainda que eu pense que a justeza ou não da luta travada nada tenha a ver com sua validade...

domingo, 6 de setembro de 2015

Saudações do futuro pretérito!


Meu caro Luiz

Este que te escrevo sou tu.

Saudações do futuro.

Hás de perdoar-me o modo sofrível como te escrevo, mas já vão muitos verões que não sou tu, de sorte que, receio, a linguagem dos dias tais é por demais diferente destes teus tempos verdes. lembro-me de que tinhas cáries e esperanças, mas não como escrevias ou falavas nesses anos idos. Sê indulgente para  com meus erros de concordância e demais pecados ortográficos, pois já carregas consigo nestes dias meus, uma quota considerável de pecados e o acréscimo de mais estes pouca diferença farão a uma alma cansarregada de pecados. Orgulha-te, pois o neologismo é teu!

Há dois fatos curiosos acerca desta carta, a saber, o fato de eu escrever a mim mesmo nos dias da minha meninice e o fato de alguém em pleno século vinte e um ainda escrever cartas. Sou, pois, um dinossauro!

Saudações meu rapaz, do ano 2015! 
Descortino-te o futuro.

Sim. É correta a tua decepção. Nostradamus, tal como os da sua honrada estirpe de profetas, errou e cá estamos nós, ansiosos e esperançosos de que o mundo acabe, ele porém, teima em permanecer eternamente moribundo. Cá ainda estamos.

Fosse eu um sujeito esperto, enviar-te-ia números da bolsa de valores ou resultados de loterias, mas bem sabes que não sou esperto. 

És agora um jovem tolo. Converter-te-ás em um velho tolo.

Escrevo-te como um exercício de inutilidade, posto que essa carta sequer sairá do meu computador, quanto mais adentrar a consciência minha aos 15 e poucos anos, época em que eu tinha um apreço especial pela minha consciência.

Mas todos os exercícios feitos atualmente, são inúteis, pelo que posso escrever a mim mesmo na flor do meu tempo e fingir, no processo, que sou uma pessoa extraordinária.

Já não temes a morte, a vida porém, te apavora.

A esperança quase acabou e também a honra, por outro lado, ainda temos petróleo e música ruim, mas a união soviética já não existe.

Tu que estás ojerizado com a Lambada, recomendo que a cultue como o mais fino produto cultural de nosso país, porque os ritmos musicais que a sucederão, não me acreditarias se os contasse.

De mesma forma, ama as sílfides luminosas por quem te apaixonas em teu tempo e bebe lhes o frescor do espirito, a vaidade e a beleza enquanto podes, porque hão de converter-se em matronas grotescas, com o corpo cheios de excessos e estrias e a alma cheia de ressentimento e desânimo e tu, tu as desprezarás, não pelas estrias, excessos e amarguras, nem pela beleza e frescor perdidos, mas pelo desânimo de pensarem que não podem ser coisas melhores (ah, a Daniela gosta de ti, seu tolo! Deixa de lado a irmã dela e ama quem te ama. Por um tempo conveniente).

Os homens a quem admiras não terão sorte melhor e decepcionar-te-á saber que o destino não é destino, mas escolha e todos, tu inclusive e em grande medida, escolhemos a mediocridade por preguiça, porque é de um trabalho considerável ter fé em coisas reais e na grandeza humana.

O comunismo fracassou.
O capitalismo também, mas ainda não se tomou consciência disso.
O romantismo se tornou coisa abjeta e te envergonharás de todos os poemas de amor que vieres a criar (cria-os, ainda assim!)

O bom cinema faleceu e acompanhou-o à cova a boa literatura, com raras e felizes exceções.

Torna-te vegetariano, não uses suspensórios quando a moda surgir nos fins dos anos 90 (terás razões de grande amargura por isso), não roubes biscoitos na padaria do senhor Mohamed (serás pego e te envergonharás pelos próximos trinta anos).

Continua honrado, justo e paciente, mas reserva a maior parte de tais virtudes para usar contigo próprio. Tempos haverão em que precisarás muito de tais recursos e não esgote tais pérolas com os porcos quotidianos.

Exercita-te pelo menos duas vezes por semana (apenas uma conservou-te magro, porém inflexível no corpo e no espirito).

Leia Freud antes da faculdade.

Não leias Honoré de Balzac, repudia “O Pequeno príncipe” como literatura atroz e despede-te dos deuses em que tens fé titubeante, pois não tarda descobrirás vazios os altares em que depositas tuas preces nunca ouvidas.

Nietzsche, a quem conhecerás e amarás, tinha razão e em tempos esses em que vives a angustia de 2015, Deus morreu como referência e tornou-se vestimenta retórica que as pessoas vestem e despem segundo a conveniência.

Isso não chegará a dar polimento ao teu ateísmo, mas o entristecerá, não a morte de um deus em que não crês, mas a da sinceridade daqueles que dizem crê-lo.  

O Ubermensch, no entanto, ainda não apareceu e estamos vivendo um período de letárgica involução, não para a curiosidade latente do cro-magnon e nem para o vigor robusto do neandertal, mas para aquele antropoide gordo e satisfeito que seríamos sem os dentes de sabre e Era Glacial a matar nos, e já não temos o que nos inspire a sermos melhores.

Sai de casa antes dos vinte.
Sai do país antes dos trinta.
Encontra uma raison d'etre.

Não jogues foras teus escritos por impaciência. Não dês a moeda de 50 soles à Renata (é de ouro de verdade!  Será de grande valia para ti e ademais, Renata não quererá o ouro do teu amor mas tem amor ao ouro da tua moeda).

Pára de desprezar o dinheiro, mas não o ames e sabes isso: Humildade não é virtude, mas meio e meios de manterem-te dócil, imaginando te inferior aos outros.

E ao fim desta carta em que esgotei toda a minha metafisica acumulada em meses de preguiça, saúdo-te, meu Luiz pueril e nobre. E lastimo não ter que lhe enviar deste lado de cá de Nárnia, em que tudo está cinzento e vazio, coisa melhor do que o desamparo filho de uma era perdida.

Consola-te porem, com a consciência de que nãos és culpado (afinal, não podes mesmo ser culpado por tudo!) e alivia-te com esse pensamento, porque o mundo anda às cegas no escuro a beira de inacreditáveis abismos, mas descobrir-te-á otimista.

Inacreditavelmente otimista, pois a despeito da decadência nossa como povo, como indivíduos continuamos brilhantes.

Todo progresso começa com um indivíduo.

Não te torne, pois, povo.

Saudoso de tua meninice,
Tu



domingo, 16 de agosto de 2015

terça-feira, 30 de junho de 2015

Para o meu palato enjoado de coisas doces


Pode ser apenas falta de vontade ou um excesso de inspiração que me vem novamente em atropelo...
Mas essa musica...
Me preenche de uma angustia contraditoriamente alegre e eu procuro um pedaço de sol nesse cinza todo de BH, onde eu possa degustá-la com vagar...

11:06 horas de uma terça-feira em que tudo parece desimportante...

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Inércia



A terra deu umas voltas em torno de si, desde a ultima vez em que me senti confortável para escrever o que quer que seja, e meu estômago deu voltas em número idêntico quando por fim me atrevi a sair da minha letargia moral. 

Mas depois de passado um tempo razoável numa posição só, até o mais preguiçoso dos sujeitos vai querer se mexer, mesmo que seja apenas para eliminar as cãibras resultantes de se estar no conforto da inércia por tempo demais...

Eu escrevi um monte nas ultimas horas...

Lixo...
Apenas lixo. 
Entusiasmante, sincero e ainda assim, lixo..

Reconheço o monte de tralha que escrevo quando releio e percebo que lá vou eu, tentando, tateando, ensejando escrever sobre coisas que não compreendo. Isso é fácil notar pelo tom abjetamente humilde com que eu me desculpo linha a linha, pela minha incapacidade de entender aquilo sobre o que tento escrever. 

Escrever sobre as mulheres, sobre o amor, sobre o sexo, sobre a vida, sobre a morte, sobre a necessidade de se crer, escrever, entender...

Burrice pouca é bobagem, Luiz.


Você realmente necessita de atestar tão frequentemente a sua tolice?


O problema se dá justamente por ser sempre mais atraente escrever sobre o que não entendo do que sobre o que entendo penso entender.

Mas o suposto do meu entendimento sobre as coisas já não me conforta o suficiente para que eu suporte as cãibras quieto no meu canto.

Algumas vezes remexo em problemas  antigos, apenas para evitar o impulso a novos problemas, porque o bolor e mofo se acumularam por aqui de tal forma, que já até os sinto como uma coberta quentinha a proteger-me contra o inverno da alma e do frio-outono-cinza-miserável que igualmente cobre essa BH por entre as gerais...





quarta-feira, 11 de março de 2015

O que Partilhar quando nada se tem além do desejo de partilhar...

Por semanas a fio tenho raspado o fundo do caldeirão de idéias a cata de algo que valha a pena compartilhar com o mundo.
Como se o "mundo" me lesse...(Oh vaidade! Dona Modéstia mandou lembranças!)

Por "mundo", leia-se um pequeno grupo de pessoas que me honra com alguns minutos de seu tempo e que gastam outro par destes minutos torcendo os neurônios enquanto os olhos escorregam pela confusão minha de cada dia.
Pra falar a verdade, eu me daria por bastante satisfeito se ao menos uma pessoa me lesse, mas que me lesse com a sensação de familiaridade com que leio algumas pessoas...

Só uma andorinha e eu teria o verão e outono e primavera e todos os invernos do céu.

Me ocorreu (eu ia escrever "ocorreu-me", mas já me disseram que tenho de vencer minha tendência à proclisação - e ao neologismo também, pelo jeito - ) postar umas poesias que forjei em tempos róseos, em momento de febre uns anos atrás e que postei num blog perdido na memória.
Tenho numa gaveta um montante razoável de versos atordoados...

O problema foi o calor que me subiu ao rosto ao lê-las e me lembrar dos sentimentos que mas motivaram o parto e dos quais eu sinto certo constrangimento ao lembrar...
Olha a minha infância de sentimentos me acenando ali da esquina!
É um saco ser a síntese de um menino medroso e um velho preocupado, quando o assunto são as coisas do coração.

Vou deixar essas "poesias" marinar um pouco mais numa gaveta antes de me atrever a olhar de novo o meu ridículo.
Até por que, cartas de amor não seriam ridículas se não fossem cartas de amor...
Ou o inverso disso, não sei dizer no que pensava o poeta...

Preciso envelhecer.
E preciso envelhecer logo!

Então, meus caros leitores incautos e amigos invisíveis, como não tenho o que partilhar hoje, além da minha perplexidade, me permitam partilhar o sentimento de estar perplexo por ainda ter a capacidade de estar perplexo.

São 16:49 agora

domingo, 1 de março de 2015

Da minha preguiça de escrever e do que a motiva....

Peguei a caneta e uns papeis amassados e amarelecidos. O amarelo do papel mais o fato de a caneta ser uma bico de pena me deram a falsa impressão de que eu, tal qual os grandes literários a quem admiro, seria possuído por sei lá qual das musas caprichosas e engendraria algo fabuloso e digno de ser lido e de que me orgulharia...

Mas eu teclo há muito tempo e os músculos da mão desacostumados, logo se cansaram e eu abandonei neste momento de desalento as minhas pretensões de nada pretender...
É mais ou menos assim; você passa um período qualquer numa letargia literária e se vê na obrigação de fazer algo relevante, reinventar a roda e re-re-redescobrir uma América de significados.

Fiquei com preguiça de escrever e essa foi a desculpa que dei a mim mesmo para fingir que eu não estava com vergonha do conhecimento de que eu escrevo para ser reconhecido por alguém que como eu seja “da Tribo”.

Lastimo não ter de, tal qual um Odisseu moderno, passado uma vida sem encontrar e a procura destes que como eu estão conectados a essa coisa sem nome, esse sentimento de EU e de existência.

Infelizmente para mim, eu os encontrei. E assim como não posso dar nome ao que nos liga sem tornar o que nos liga algo que efetivamente não é (dar-lhe nome), também não posso com segurança descrever a sensação de decepção e pesar, por ver que a Tribo não quer ser a tribo.

O anseio por qualquer coisa é um mau juízo de toda forma e não é incomum no afã do maravilhar-se com alguém, se agigantar anões e ver montanhas onde só há colinas.
Pior ainda é ver tigres ronronando como a gatos e leões se autocastrarem para serem adulados como poodles...

Há o mundo que-se-reconhece-como-O-real e nele nós não temos lugar, a não ser o lugar ermo dos mau-ditos (ou mal ditos ou malditos mesmo) e das incompreensões. Mas a Tribo, ainda que não se reúna como tal e nem crie nenhum estatuto, estabelece por instinto os meios de como se imiscuir num mundo que não a quer; e o meio é não querer ser o que se é.

Talvez você conheça o tipo de pessoa que nega o que é e foge do que é, como o diabo foge  do diabo caso se veja ao espelho.  É mais ou menos como aquele homossexual não assumido que se por acaso encontra em ocasião social um que é assumido, evita-lhe ou mesmo o hostiliza por receio de que este olhando-o nos olhos o reconheça como um igual e reconhecendo o denuncie de alguma forma e de alguma forma ele perca o “greencard” para o mundo dos “normais”.


Em certos países, o recurso do greencard pode ser obtido, caso se case com um nativo ou de outra forma, abjure da sua cidadania e cultura anteriores. Você seria, pois, aceito, assimilado.

Não há lugar nesse mundo estranho para gente estranha, então, assimile-se.
Você não casa na tribo. Você não comercia, você não frequenta e nem é frequentado pela tribo e caso alguém se assuma como Anacrônico, há sempre o recurso de evitar-lhe amavelmente e amavelmente evitar o que poderiam ser em associação um com o outro.

Melhor casar, comerciar e viver com um a quem subreptilicamente se considera como um “normal” (seja lá que diabos isso signifique) e tentar, através desse vínculo fingir mais um pouco que não se está fingindo e fugindo de quem é você.

A vida inautêntica mata, crianças.

Tire a vírgula da frase anterior e você lerá não um aviso, mas uma verdade amarga...

A Tribo está em extinção porque merece ser extinta, porque um povo, um ser que não acredita no próprio direito de ser o que se é e de existir e que procura pelos meios de se autoanular em troca das migalhas da aceitação alheia cheia de condicionantes, não merece mesmo existir.

Não sei direito por que e o porquê faço ou deixo de fazer algumas coisas, mas o interesse em saber, penso, me distingue da manada.  

É um pensamento vaidoso, mas a vaidade é um recurso legitimo para se manter a autoestima e os motivos afiados, em tempos  de vazio e banalidades em que tudo o mais parece fraquejar e sumir a sua volta.


Ainda não tenho respostas, mas tampouco me cansei de fazer as perguntas...
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