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domingo, 30 de março de 2014

Dos restos dos meus diálogos oníricos


...e mesmo que a gente não venha a este mundo aparelhado com uma tecla f5, é necessária atualização constante do que nós somos e isso implica longos auto-diálogos para dentro. Então conhece a si mesmo para tornar-se o que você é.

Isso requer mudança, porque sem mudança há a extinção do que somos, porque a moeda de troca pela aceitação do mundo e (pasme) até de nós  mesmos, é a nossa identidade. Não  a cristalize, pois, em modelos.

O que não muda, desaparece e você tem sim de mudar constantemente para estar cada vez mais parecido consigo mesmo. "Só o mutável pode perdurar", lembra?

..e antes que o despertador grite para que você vá (ainda) mal aparelhado para a batalha do mundo, me deixe dividir com você uma quase-verdade que troquei por uma imperfeição de que gostava muito:

O Amor tal como nos é ensinado não existe. O que existe é desejo de posse.

É só pensar que se você diz amar algo ou alguém, ficará apavorado com a ideia de ter de partilhar com outro esse objeto do seu amor.
Talvez até o faça, por razões que só o inferno compreende, mas não sem uma quota considerável de sofrimento.

Houvesse um mandamento contra essa idéia, seria: "Não chamarás 'amor' o teu desejo de exclusividade emocional ou sexual sobre nada ou ninguém".

Não é um pensamento confortável, mas talvez te desperte mais eficientemente do que as xícaras de café amargo e o banho frio.

O único amor real, é o que se tem pelas ideias, porque essas, você ama e faz questão de partilhar e de soprar ao vento como dentes-de-leão.


sábado, 29 de março de 2014

Da minha coleção


Tem gente que coleciona selos, moedas, namoradas...

Eu coleciono defeitos.

Todo dia esbarro em um pelas esquinas e como o adulo e lhe faço carícias, o bandidinho me segue até em casa e daí fica difícil me livrar do bicho. 

Então minha coleção aumenta exponencialmente, enquanto meu estoque de amigos diminui na mesma proporção.

Hora ou outra tenho de fazer um puxadinho moral para colocar em ordem essa coleção e para tanto, terei de demolir um cômodo ou dois onde tenho alojado qualidades mentirosas.

É um inferno, porque a unica coisa que tenho para amar em mim mesmo atualmente são meus defeitos, porque eles são muito mais genuínos do que as minhas qualidades reais ou imaginárias, então fica difícil desfazer-me de um item dessa coleção, mesmo os que tenho repetidos e que poderia trocar num escambo de más qualidades. 


Quer dizer, a gente até pode mentir para os outros ou para nós mesmos, sobre as próprias virtudes e embora as pessoas possam ter ilusões a seu respeito, você é uma pessoa bem desafortunada se tiver uma repulsa natural pelas auto-mentiras.

Se eu fosse um sujeito esperto, colecionaria selos, , namorada, moedas ou falsas qualidades. 
São coisas muito úteis e as pessoas em geral gostam bastante de quem ostenta um bom estoque dessas coisas.

Mas quem disse que eu sou esperto?
Sei lá se alguém disse. 
Foi uma pergunta meramente retórica.

Mas se alguém tivesse realmente dito, estaria falando, é certo, de uma das poucas falsas qualidades minhas que pretendo desalojar para ampliar minha coleção de defeitos genuínos.

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Ah e só pra constar, não, não sou adepto da misoginia ou da misandria.
Sou misantropo mesmo e minha birra de gente (que oscila para um absoluto fascínio e simpatia) não conhece e não reconhece gênero.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Um momento de chauvanismo místico




Apesar de ser um incrédulo fanático e apóstata de tudo o que é "bonitinho" e esteticamente doce, sou, penso, um sujeito de muita fé.

Tenho fé na minha descrença e acredito que muita falta me faz o dom divino de ter fé. 
No que quer que seja.
Por exemplo, contrariando a todo o pensamento corrente (ao menos no ocidente que tem a pretensão de ter a palavra ultima sobre tudo), acredito piamente que Deus não é Ele, mas Ela.

E olha que eu nem acredito em Deus.
Não mais do que não acredito em mim mesmo e nas minhas descrenças.

Eu nunca entendi essa coisa de "deus-pai", como se o ser superior tivesse testículos e gametas para preenchê-los e (já fui até aqui em minhas heresias sem que um raio me caísse na cabeça, então, vou me permitir ir adiante!) fecundasse a criação como um homem "fecunda" uma mulher.

A lógica me diz que se deus existe, ele só pode ser mulher.
E não é porque o ato de gerar seja um atributo tipicamente feminino ou porque o universo seja maravilhosamente caótico e cheio de minúcias, porque estou convencido de que a unica coisa que um homem faz melhor do que uma mulher é urinar em pé (embora eu saiba de umas que se tem aprimorado nesta técnica e de uns que nunca a aprenderam corretamente, como se verifica nas tampas de sanitários) e um deus macho pode ser igualmente capaz de ser confuso e minucioso como o é aquele(a) ser que talvez esteja neste momento preparando um relâmpago destinado a me abater (é, eu me acho sim! Na verdade, não me acho. Me tenho certeza, ainda que duvide dela!).

E nem adiantaria enumerar os aspectos positivos e negativos da divindade, porque neste sentido, tudo o que se diz de uma mulher pode igualmente ser dito de um homem, embora em instâncias diferentes.

Mas o que me convence, a mim que não me permito convencer de nada, de que Deus é fêmea, é por uma razão muito pessoal:
E nunca me dei bem com as mulheres, do mesmo modo que não me dou bem com Deus(a).

Temos, penso, uma mútua incompreensão, sua lógica é confusa para mim e a minha confusão não se acerta com Sua lógica, tenho um desejo muito profundo de acreditar nele(a), papagueio um monte de asneiras no afã de chamar sua atenção (ainda que seja um raio como castigo pelas heresias), acho que a existência dele(a) é a coisa mais necessária neste universo (embora as evidências A MIM mostrem que no céu só tem estrelas e aliens e vácuo), amo (a idéia de) Deus(a), mas Ele(a) sequer tem idéia do que eu amo ou odeio.

Deus(a) me ignora completamente (apesar do discurso de que Ele[a] tem um plano qualquer que me envolva pessoalmente, trata-se de plano obscuro demais e muito mais da cabeça dos que dizem ser Seus porta vozes do que o que a realidade das coisa me tem revelado) e é a mais maravilhosa musa a me inspirar a mais profunda angustia existencial.

Dificilmente  um macho, seja físico ou metafísico, seria capaz de inspirar (ao menos a mim) tanto fascínio, confusão, pavor e uma indisfarçável revolta  pelo seu aparente desdém.
Deus não gosta de mim embora eu o ame e não acredite nele.
Logo Deus é mulher.

Postagem estranha para o mês de março, mas eu sou estranho e acho que por hoje vou me permitir abrir mão do compromisso de tentar aparentar normalidade ou bom mocismo.

Não que seja necessário esclarecer, mas a postagem acima, embora seja  expressão da minha verdade particular (logo frágil e passível de mudança nos próximos segundos) é uma descarada provocação a uma amiga; criatura maravilhosa, visceral em sua genialidade, tola até a raiz dos cabelos quando se irrita, uma feminista roxa, ateia fanática, pensadora vitoriosa e o mais implacável inimigo da minha irascibilidade imbecil.




sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

E você...

...até pode pretender saber qualquer coisa sobre o amor. Mas eu ainda acho que feliz era Lili, que não amava ninguém... E J. Pinto Fernandes, que veio por fora da pista e ganhou a corrida.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Obra Maravilhosa de Fernando Esteves Pinto...



Não conheço o teu rosto de prazer, mas deve estar dentro desta frase. 

Queres existir nesta folha do tempo que viaja dentro da minha mente? 
Vou pôr um livro nas tuas mãos enquanto te despes.
Não quero que me ames se pensas que o amor é para sempre. 
Tenho uma idéia da minha vida que nem sequer é verdadeira. 
Uma história de amor.

E se eu te dissesse que amamos sempre pelas razões erradas? 
Os erros eternos fazem grandes histórias de amor. 
Não tenho uma imagem do teu sorriso. 
Não tenho um desenho da tua boca. 
Desejas amar-me em que sentido?

Que tempo queres que exista para se dar o encontro?
Um nevoeiro corporal em tudo o que nos espera. 
Tenho as tuas palavras, mas esvaziei-as da emoção que traziam. 
No fundo és uma luz no desejo de não existires.
 E eu escrevo este tempo perdido no corpo que procuro.
 Se eu deixasse de pensar e escrever, eu sei, tu não sentirias medo.

O espetáculo burlesco que vai à minha cabeça. 
Esta manhã vi teu rosto em todas as mulheres com quem me cruzei na rua.
É uma espécie de escrita em que vou abandonando pequenos pensamentos que não acho interessante. 
No fim fiquei sem nada, mulher nua com um livro a ser lido. 
Tu amas o tempo e eu não vivo no teu tempo.

Tu amas as minhas palavras e eu não sou as palavras que escrevo. 
O amor e a literatura são parecidos na mentira. E é sempre triste não amar alguém porque se tem medo da mentira.

Tenho saudades dos teus dias passados longe da minha vida, é uma verdade. Se isso não chega para se sentir o amor, nunca poderei amar a tua liberdade. 
Mulher no tempo com livro aberto no coração nu. 
Um dia encontrar-te-ei dentro duma frase que fale de amor. 


Fernando Esteves Pinto


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Raciologicando à quinta potência


(...)

... e depois de considerar o quanto pode caber no espaço ocupado por parênteses e três pontos, me convenço finalmente de que a linguagem, contraditoriamente, é talvez o maior entrave à nossa comunicação.

No espaço por entre os parênteses acima, estava um longo monólogo carregado de uma emotividade ridícula que me encheu de auto-desprezo depois de ler o que digitei. Fica pra outra hora, porque acho que já espezirritei-me a mim mesmo em demasia por essa semana (e talvez por toda uma encarnação)...

Penso que é até possível, com os meios adequados e ainda ignorados, ensinar um animal ou vegetal e até um mineral (por que não?) a falar.

Mas um homem, tendo-o aprendido a falar, lamentavelmente jamais aprenderá a calar a maldita boca, enquanto se importar com esses universos caóticos chamados "pessoas" que circundam a sua órbita e meio que parasitam seu parco estoque de auto-amor, mais do que consigo mesmo e com este estoque.

Isso é lastimável, embora não pareça fazer muito sentido.

Mas se posso afirmar (e ainda que eu não pudesse, afirmaria assim mesmo), considero que somos talvez muito afortunados pelo fato de sermos capazes de odiar, tão doida e profundamente quanto amamos.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Anacrônico



Chame a si mesmo do que quiser,  
(até porque, quando te chamas, nunca respondes!)
Nomes são palavras "e os erros são teus"
Mas você é um profeta, 
Quando faz poesia,
Poeta, 
Quando vem anunciar para ouvidos moucos o absurdo das pequenas vilezas dos homens,
Sábio, quando compõe odes a sua ignorância,
Tolo, quando pensa estar pensando que sabe o que pensa sem o saber.

Você pode estar confuso, mas não o bastante para andar sem rumo,
E há tantos caminhos a escolher, que não é difícil se perder por entre escolhas. 

Você é o portador de uma estranha verdade:
  - Estar perdido é o modo de esbarrar consigo mesmo numa esquina qualquer.

E afinal este não é um mundo alucinado?
Você pode ter certezas, mas fatalmente irá desconfiar delas, porque é a sua natureza ir contra a sua natureza de ser contra a sua natureza (e por aí vai...)

Mas isso que você faz,
Isso que você é,
É uma tentativa comovente criança,
De dar a si mesmo o que tão fartamente dá a outros sem receber,
Um meio de amar a si mesmo, ainda que através do amor dos outros,
E de ver a si mesmo, mesmo que com olhos que não te enxergam...

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Considerações antes de uma capitulação...

Caso alguém me leve a mal,
Penso e advirto
Que me divirto imenso
Escrevendo isto.
(A rima é proposital)
...

E quem haveria de pensar em tal coisa...?
A verdade, e eu me lembro bem, que fomos meio lubridiados no advento do ano 2000, ano que segundo os afeitos ao apocalipse, o mundo acabaria em fogo e enxofre. “Mil passará, dois não chegará e blá-blá-blá...”
E nós ainda estamos aqui.

Mas, claro, nosso fascínio pela nossa destruição não cede mesmo quando o Armagedon não venha nos próximos cinco minutos, como quer a nossa fé. O mundo não foi pras cucuias. Deus nos decepcionou e não nos mandou fogo dos céus...
Mas continuamos a espera.

O que eu acho engraçado, se é que isso tem graça ou talvez seja uma “dês” (apenas para poupar os olhos e mentes mais sensíveis as sutilezas do nosso vocabulário), é que um dos personagens do fim do mundo já deu as caras há tempos e parece que ninguém se deu conta. Aqui está a parte engraçada: Ficamos todos à espera que a tal “besta do apocalipse” surgisse entre os grandes vultos da humanidade. Uns pensavam que seria um líder político e outros tinham certeza de que seria um guia religioso.
Quem imaginaria que o dito cujo fosse um nerd dos confins de Westchester?

Esqueçam de Lex Luthor, Darth Vader ou o Coringa. O grande supervilão da humanidade é o fundador do facebook, mas diferente destes três primeiros, ele realmente conseguiu “dominar o mundo”.
Hoje em dia ninguém mais existe de fato fora do “face”.
Não há comunicação fora dali.
Ninguém te manda e-mail, carta ou mesmo telefona.
Aquelas fotos de família? “Postei ontem no face.”
O trabalho de faculdade? “Ta no face desde de manhã! Em que mundo você vive?”
“Te deixei um recado no face.” “Eu não te encontro no face?!” “Qual é o seu face?”

Da ultima vez em que acessei o facebook, foi quando das manifestações pelo Brasil no ano passado (ao final das quais mais uma vez perdemos a oportunidade de fazer história em vez de vivê-la) e eu precisava saber onde e quando as pessoas se reuniriam. Foi útil, mas atualmente esse negócio anda mais ou menos como sopa de quartel: cem gramas de carne para quatro litros de água!

O mundo real não existe mais. E é nesse mundo que ainda teimo em viver. O meu denuncismo talvez seja uma teimosia quixotesca, talvez um prazer advindo da rebeldia ou simplesmente uma tendência a andar na direção contrária da multidão. Mas o fato é que ninguém mais “compra ou vende” fora do facebook.

Até então eu tenho me virado razoavelmente bem sem ele, mais o cerco se aperta e acontece que enquanto eu vivo e convivo em sociedade, preciso comerciar. Preciso comprar e preciso vender, logo, tenho de ter a tal marca do face, porque encontro esse logotipo “F” (coincidentemente, a 6ª letra do alfabeto. Número repleto de significados sinistros...)em tudo que é canto. Até em sites governamentais!

“Curta a porcaria da nossa página...”

O meu problema é que tenho preguiça em militar por qualquer coisa. Ficar praguejando contra as tendências da humanidade cansa o espírito já exausto de lutas inúteis, pra não falar que cansa os ouvidos alheios. O virtual superou o real (que já era confuso e duvidoso) e agora, aparentemente não temos mais carne e sangue, a não ser em situações especiais e fomos convertidos em bits e bytes, em álbuns de fotos que nada dizem e postagens sobre banalidades ou tragédias pessoais.


É magnífica a capacidade humana para transformar ferramentas potencialmente úteis em coisas perniciosas e estou pra ver coisa mais nefasta e comprometedora da privacidade do que o tal facebook.
E olha que eu já implicava com o orkut, msn (alguém se lembra?)...
E como o “funk” (outra praga que veio pra ficar) substituiu a lambada, já me arrepio pensando no que vai substituir o “face”.

Quem pode me explicar o porquê de um ser humano tirar uma fotografia de um prato de batatas (engorduradas e aparentemente fritas em óleo muitas vezes utilizado, a julgar pelos fragmentos escuros nas fritas) e postar essa porcaria numa rede social?
E me explica, por favor, os mais de trinta comentários do tipo: “Hum...Tô aí!” “Que delícia!” “Eu queeeeroooo!”, e por aí vai!?

E vai olhando;
a pessoa posta, essencialmente, piadas (que já foram compartilhadas numa centena de outros perfis), fotos suas em poses repetidas (fazendo um bico ridículo ou com os dedos em v e L)  ou em ocasiões que o bom senso diriam ser intimas (pra não dizer constrangedoras), farpas para supostos inimigos(as) (que aparentemente não tem coisa pra fazer além de fuçar o perfil de quem lhe detesta), trechos adocicados de poemas, mensagens religiosas do tipo “Jesus te ama” intercaladas com coisas como “Batom de periguete é superbonder”  e a lista segue.

Lamento, porém, que essa figura não se trate de exceção, mas representa uma grande maioria barulhenta.

Eu juro, nunca vou compreender as pessoas.

Não passa semana em que alguém não me venha dizer que teve um problema qualquer no “face”. É inacreditável, porém, como as pessoas se expõem ali e continuam a se expor não obstante os problemas que por ventura tenham.

Mas eu dizia que preciso comerciar. Preciso comprar e preciso viver e contrariando as minhas esperanças, essa rede social aparentemente veio pra ficar, aliando-se ao telefone celular para se tornar mais uma porcaria de cadeia sem a qual não é possível existir em sociedade e ter ou manter contatos.

Então, é sem constrangimento (até porque dá muito trabalho ficar constrangido) que reconheço que estou em vias de capitular.

Estou bem com isso.
Já fui um sujeito de convicções, até o dia em que percebi que é melhor não estar convencido de nada, porque obstinação é raiz de carvalho em noite de tormenta.

E como não sou um deus e nem um animal, não posso, infelizmente, viver só, daí enfiar o rabo entre as pernas e colocar-me sob o jugo de mais essa cadeia.

Paciência...
Vai ver, são apenas moinhos de vento mesmo...


“Se te é impossível viver só, nasceste escravo”.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

De (s) esperança

Esperança é um urubu pintado de verde.
O diabo é que a essa porcaria de pássaro estranho calhou de cismar que meu ombro é seu poleiro e eu persigo um meio qualquer de parar de perseguir o que quer que seja que não me permita dormir...

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Do que é melhor não saber

"Só sei que nada sei..."


Mas a pressuposição da ignorância não chega a ser um conforto, porque, mãe das contradições, a pressuposição enseja um “saber de algo” que nega a si mesmo. As autofagias desses raciocínios não chegam a melhorar a minha gastrite que faz estágio para úlcera que faz estágio para coisa pior no meu estômago e eu tenho de reiterar, embora preferisse não saber, que bênção não é a ignorância, mas a ignorância da própria ignorância.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Sensações de um Sonâmbulo Desperto





É uma manhã como todas as outras.
Uma primeira manhã como todas as ultimas. O esquisito, para início de conversa, é que escovo os dentes de maneira metódica, todas as noites antes de dormir. Depois enxaguante com o desenho de um cara queixudo no rótulo e mais um pouco de água. Ainda assim, acordo com a boca amarga, como se tivesse bebido rum ou absinto e como se tivesse passado a noite em um festim nojento na lixeira.

Isso pra não falar do corpo doendo, a cabeça latejando e a sensação de que elefantes me usaram como pista de dança por mais uma noite e que fui sparring em algum sonho perdido do Muhamad Ali...

Antes de ir tirar a sensação de esgoto da boca e desenrijecer a máquina velha que é meu corpo, tenho de me atualizar.
Me situar de novo no mundo concreto e separar as sobras de sonhos que me enxameia a cabeça como moscas em torno da lixeira que sinto no estômago; terminar diálogos que tive nesses sonhos, experimentar partes do meu corpo para ter certeza de que não vão se liquefazer ou coisa parecida e por fim decidir de vez se já acordei mesmo ou se ainda estou vivendo uma daquelas outras mil e doze vidas, mais terríveis, mais vívidas, mais sensíveis e mais preferíveis a essa em que acordo com lixo no estômago e dores nos ossos.

Esse processo não costuma demorar mais do que uns poucos minutos, mas nos últimos tempos tenha percebido com o que me resta de senso crítico nesses momentos no limiar, que tenho me demorado cada vez mais entre sonho e realidade. 

E não chego a ter certeza do quê é o quê.

Algumas vezes isso me ocorre ao longo do dia, como num sonho lúcido invertido.
Então o despertador berra uma irritante música que vivo jurando que vou mudar sem o fazer e por fim decido que sou Eu. Espanto relutante as sobras de sonho a contragosto e reitero escovação, enxaguante e mais água, apenas para minutos depois sujar novamente dentes e espírito com café e as notícias do mundo nos jornais da manhã.

Está escuro lá fora e tento me recordar se na verdade já não é noite e eu tenha dormido de dia e por algum motivo não me tenha lembrado.

Não.

É chuva.

O céu parece comigo esta manhã: Negro, ameaçador, de mau humor e em vias de desabar.
 “Bem-vindo ao clube, cara!”.

Se eu tivesse bom senso não estaria zombando do céu em manhã de tempestade. Não me lembro o que é bom senso.
Também não me lembro de ter ligado a TV ou mesmo se deixei ligada quando dormi. Mas ela zumbe uma musica qualquer que por motivo qualquer me chama a atenção.

“E a estrada fica difícil, não sei o porquê...
A estrada é longa, nós seguimos adiante
Tente se divertir nesse meio tempo”

Garota com cara anglo-saxâ e nome latino.
Bonita. O cara abraçado com ela no vídeo também. Ao fundo tem uma bandeira americana tremulando e a música não é de todo ruim. Mas o cenário é clichê demais.
Pelo modo como se abraçam, percebo que definitivamente não sou um tipo romântico ou tenho uma percepção um tanto torta do que é o amor, se é que a música fala realmente disso.

Azar!
Tenho uma percepção torta sobre quase tudo, inclusive sobre o que é percepção...
A menina no vídeo parece estar nos seus melhores anos. Mas já tem tempo que não vejo um sujeito com uma aparência mais junkie life! Se esse vídeo tiver mais de um ano, duvido que esse garoto ainda esteja vivo.

Mas é maldade minha e talvez uma pontada de inveja, por eu ser tão saudável, por não fumar ou ter tatuagens ou não ser capaz de arruinar o coração de alguém, como a letra da canção dá a entender que o garoto de aparência doentia fez ou faz.

Desligo a TV e olho pela janela. O céu está mais escuro. Embora já seja oito da manhã, as luzes dos postes ainda estão ligadas lançando o amarelo do mercúrio em desafio ao negror do céu.
Tem gente passando apressada na calçada, como se chuva fosse ácido. E nem está chovendo ainda. Sinto impulsos de gritar: É só água, caramba!

Mas quem disse que consigo atender a impulsos?

São 8:32 agora...

Acho que eu devia estar a caminho do trabalho ou coisa assim e só depois de tomar mais duas ou três xícaras de café me decido por fim de que é domingo e não tenho que sair.
É onde é que essa gente vai apressada as oito da manhã de domingo?
Queria que todo dia fosse domingo, menos as quartas, que é dia sessão de filmes estrangeiros num charmoso cinema decadente ali pelos lados do Floresta.

Espera aí...
O cinema fechou há anos. Virou uma Igreja eu acho.
E é para a igreja lá da esquina que essa gente vai, com certeza.
Desliguei a TV cedo demais.

Aos poucos me recordo de que no dia anterior estava defenestrando com alguma alegria todos os textos sobre psicologia que fui obrigado a ler nos últimos anos e em meio a estes papeis dei com uns versinhos rimados que forjei há uns vinte anos.

Havia me esquecido de que os havia escrito e bem poderia ter continuado neste esquecimento.
Que coisa tola e doce e idealista! E este era eu nestes versos.
Verdade seja dita, tenho preguiça e um desdém enorme pelos versos que já escrevi em qualquer época e que em uma vaidade entorpecida chamei de “poesia”.

É como quando se é criança e pega-se um monte de remédios dos pais, temperos e mais qualquer outra substância a mão e mistura-se, imaginando estar criando uma fórmula mágica.

Escrevo uma coisa, acho-a maravilhosa e passo um curto tempo gozando a irreal e fugidia sensação de que sei escrever.
Depois renovo a minha convicção de que sou um tolo e defenestro meus escritos, com a mesma facilidade com que gostaria de defenestrar a mim mesmo de mim.


Mas estes versos em particular me irritam demasiado.

O caso é que eles representam um Eu que já desapareceu de mim sem deixar saudades e sentir na sintaxe deles o absurdo da minha (quero crer) antiga ingenuidade, deixa-me um tanto encabulado, especialmente por me recordar de que àquela época, eu teria defendido com unhas e dentes e um fervor apaixonado essas ideias de que hoje me envergonho.
E eu era realmente assim?

Pobre e tolo Luiz...
Ocorreu-me um dos meus trechos favoritos de Waking Life e fiz as contas: Vinte anos... Troquei todas as células do meu corpo neste tempo e já não há mais nem um resquício daquele garoto em mim.

Isso porém não me consola nem um pouco e sobra-me a certeza de que, em geral, o constrangimento que se sente quando topamos com algum vestígio de um Eu nosso mais jovem é na verdade uma disfarçada culpa por termos decepcionado os anseios daquela criança que fomos um dia.
É quase como se disséssemos: “Desculpe garoto(a), mas eu fiz merda com todas as suas esperanças”.

Culpa sua, menino!
Quem mandou ter tão altas expectativas em relação a si e ao mundo?

Finalmente começa a chover e uma garota passa na calçada.
Diferente dos demais, ela não tem pressa e vai na direção contrária. Fuma e eu sinto inveja dela e sentir inveja duas vezes numa só manhã me deixa ainda mais irritado.

Nas costas nuas ela levava a tatuagem de uma fênix, a mais mal feita que já vi e por isso a achei linda. Que direito essa menina tem de passar diante do meu mau humor como um raio de sol naquelas nuvens escuras? (penso nisso e intimamente digo: "Mais versos dos quais me envergonhar amanhâ...")
A beleza das mulheres é um tormento e um tormento a mais quando emoldurada em almas rebeldes como aquela.

Deus, tem dias que ser um homem é um saco!

Também é um saco controlar emoções o tempo todo então enquanto rasgo meus antigos e rejeitados versos dou livre rédea a minha inveja.
Sinto inveja do menino que fui e do cigarro daquela menina, da igreja para onde as pessoas iam apressadas em busca de salvação, do mundo de onde essa garota provavelmente vinha com uma nova cota de pecados e do céu, que depois de muito ameaçar, desaba pesado sobre o mundo.








quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

De quando quase meti a colher



Praça de alimentação, Shopping Cidade às três da tarde. 
Casal jovem. 
Ele, cara  bonitinho, como as pessoas entendem a beleza masculina. 
Sentaram bem perto de mim, brigando sei lá por qual motivo, mas meio que ocuparam o banco em que eu estava sentado, me “convidando” a sair dali. Mas como não chegaram a me solicitar polidamente e se permitiram me ignorar, deixei-me ficar por minha vez, ignorando-os também. 
Ou tentando pelo menos.

Brigavam.

Na verdade, era o garoto que gritava como um lunático, coisa bastante desagradável em se tratando de um local público e ainda mais sentado a centímetros de alguém que já estava lá e nada tinha a ver com a lide.

Mas, meu deus, esses “playboys” todos tem o mesmo cheiro! Cheiro de sabonete, mas um cheiro nauseante, como se esses caras comessem uma dieta qualquer que os fizessem suar uma murrinha esquisita...

Certo. Estava de má vontade (e nunca vi um ser humano completamente isento de antipatias e não sou exceção!) para com aquele tipo e tudo nele me desagradaria, ainda que ele exalasse sândalo em vez de almíscar azedo...

Ela, garota linda (como meus olhos entendem a beleza feminina). 
Cheirava maravilhosamente bem, mas acho que meu nariz tem predileção especial pelo aroma doce da progesterona, mesmo por debaixo daquela camada de perfumes e cremes todos. Discutiam acidamente por alguma coisa e não, não estou orgulhoso por, mesmo sem querer, ter ouvido sorrateiramente conversa alheia. 

Azar.

Casal discutindo todo lugar tem. E se a eles não ocorre lavar a droga da roupa suja em casa, problema deles caso  orelhas involuntariamente curiosas estejam ali, ávidas por perscrutar os detalhes do entrevero.

Mas minha bisbilhotice não foi completamente saciada. Chegaram ali já no ápice da questão, naquele momento tenso em que em muitos casos a coisa já culminou para as vias de fato.

Mas era uma briga de casal e jamais me ocorreria que a coisa pudesse descambar (em se tratando de uma rixa homem – mulher) para a violência física. Mas o sujeito gritou com a garota um “vai tomar no @#%! “ com tanta fúria  na voz, que tive um súbito mal estar. “Que diabos esse cara tem? Está drogado?”

Mulheres são criaturas deliciosas e enervantes, isso é certo.
Por vezes, tanto mais deliciosas quanto mais enervantes. Posso listar dúzia e meia de ocasiões, e só no ultimo semestre, em que uma ou outra mulher, nas muitas instâncias da minha vida, me tirou do sério. Mas nada, nada mesmo justifica uma atitude de violência, mesmo moral ou vocal, de um homem contra uma mulher. 
Não da parte de um homem de verdade. 

E isso pode até ser um chauvinismo tolo da minha parte, mas senti ânsias de partir pra pancada com o sujeito e com certeza o faria, se ele tivesse tocado naquela garota, que fosse lá namorada dele ou não, não lhe dava direto de gritar aquela grosseria. E num shopping  cheio de crianças!

Pensando nisso, me ocorre que é a segunda vez em menos de um semestre, fico excitado com a possibilidade de me meter numa briga e levar uns socos, o que talvez mostre preocupantes sinais de sentimentos de autodestruição de minha parte. Mas é maçante ficar o tempo todo indagando das próprias motivações como se a droga do mundo fosse uma extensão da droga do divã.

Azar(2)!

Olhei para os lados. 
Nada de seguranças ou coisa semelhante. Certos profissionais têm o dom de desaparecer de vista quando mais se precisa deles. Isso tudo aconteceu no espaço de minutos, tempo insuficiente para se tomar decisões que poderiam acabar na delegacia ou no hospital. 

É só que tem horas que, ou se mete  colher  ou se encolhe como um covarde e depois vai pra um canto qualquer remoer um desagradável auto-desprezo.
Acho que ia me meter em confusão dos diabos.

E a coisa ia por aí...Eu já sentindo engulhos de partir pra pancada com o sujeito, quando a menina levantou-se do banco, olhou-o com um olhar triste e num meio sorriso disse com suavidade:

“Espero que você tenha câncer...”

E foi embora.

“Espero que você tenha câncer”!!!!

Jesus! Fiquei ali paralisado, sentado com aquele sujeito cheirando a sabonete e murrinha! Nós dois com a boca aberta e olhos arregalados.

Quase quatro décadas de vida e nunca vi ninguém desejar semelhante coisa a alguém. Nunca vi ninguém sentir um ódio tão profundo por alguém a ponto de desejar-lhe que tenha câncer. Ah...Em outra situação, teria rido do tal sujeito, pois era um tipo estúpido que bem merecia um insulto, mas enquanto ele se afastava com a cabeça baixa (talvez digerindo aquelas palavras ditas com gelo na voz), senti dele uma inveja enorme.

É fato, o cara era um FDP², mas o era de tal modo, que conseguia inspirar naquela moça bonita o ódio mais maravilhosamente autêntico que já vi alguém expressar.


E ódio autêntico é certamente muito mais doce de ser usufruído do que um amor por vezes titubeante.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Do que escrevi em caixa de sugestões....

...E se posso recomendar, perca o hábito de ter hábitos...

Os dilemas de um homem sutil




"Ouse, ouse... ouse tudo!!! Não tenha necessidade de nada! Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém. Acredite: a vida lhe dará poucos presentes. 

Se você quer uma vida, aprenda... a roubá-la! Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer. Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso: algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!!"


Lou Andeas Salomé


Eu ia dizer que é engraçado como, diferente dos cérebros que os pensam, certos pensamentos nunca envelhecem.  Como esse de Lou Salomé...
Mas a verdade é que isso não chega a ter graça.
Isso sequer é uma coisa extraordinária.
Isso simplesmente é.

E a natureza de um homem por vezes se volta contra a simplicidade das coisas e ele se rebela contra a simplicidade, quando talvez fosse mais sábio rebelar-se contra a sua natureza. 
Intimamente, arde-lhe uma certeza velada e uma voz lhe sussurra: "Não é assim. Deve haver algo mais".
E com uma frequência desconcertante ele tem confirmações excessivas da simplicidade do mundo, enquanto anda as cegas, procurando o sentido profundo das coisas.
O que quer que isso seja.

Há no mundo um tipo de lógica matematicamente cruel.
Verdades cruas, que só o paladar de um selvagem pode apreciar com refinamento.

Por exemplo, que não se pode aparentemente obter uma quota de alegria sem que em algum lugar a balança pese em sentido contrário e como resultado, o seu deleite se converte em desespero para outrem.

A vida dá mesmo poucos presentes.
Em compensação, pode tirar tudo o que você consegue obter. Pisque os olhos e já foi.
Você ficou velho, perdeu muito e ainda não encontrou a droga do sentido profundo das coisas.
A duras penas vem, facilmente se vai.
E tem verdades que incomodam, mesmo quando se passa pelo próprio julgamento.
Deve certamente, haver algo de errado quando você começa a pensar que ver alguém se desvencilhar de ideias velhas é tão ou mais sedutor do que uma mulher se despindo.

E quando se começa a questionar, sem aquele constrangimento próprio de quem se pensa virtuoso, a natureza do que chamamos de bem e mal e se percebe que é tudo uma questão de tempo e momento histórico e retórica e cultura, põe-se em cheque a própria concepção do que é ser humano.

Princípios são coisas traiçoeiras e submeter-se a eles é meter-se numa paralisia moral enquanto sua vida cai a sua volta como um castelo de cartas.

Então as veredas, diferentes daquela trilhada tão teimosamente, se abrem como um mar de possibilidades quando se quebra certas correntes, mas a paralisia está não somente no apego as ideias velhas, mas na consciência de que ha preços que não se pode pagar.


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Da musica de Gonzaguinha e do que me falta





Na manhã do dia 19 de dezembro de 1973, Saturno devia estar dando um “rolê” ali pela  casa de Plutão e Sagitário estava alinhado com a constelação de peixes....

E eu estou fingindo pessimamente que sei qualquer coisa de zodíaco para explicar coisas para as quais não encontro explicação.

Por exemplo, o fato de que, sendo um modelo da safra de 73, vim com itens de série, mas diferente dos demais que saíram daquela fornada, aparentemente me fabricaram desprovido do dispositivo singular chamado coloquialmente de “botão-do-foda-se”.

E olha que já revirei cada canto metafísico meu a cata do dito cujo, porque quantas e tantas vezes me exortaram a ligar o danado, perdi a conta. Ou então eu estou procurando no lugar errado, e esse item esteja escondido somaticamente, por detrás do baço ou por dentro do pâncreas ou em qualquer outro lugar inacessível a minha percepção ou toque e, portanto, inviabilizado de ser acionado.

Talvez seja o caso de fazer um recall, mas meus pais, em tese, tinham justamente função de me fazer negar a existência do meu inexistente “botão-do-foda-se” e ser miseravelmente responsável. Então como vou lá eu aos enta anos pedir que me equipem com algo que deveriam - em tese(2) - prover-me na concepção?

Talvez devesse pedir pra Deus então, mas ainda que eu soubesse a qual dessa miríade de seres superiores que existem - em tese(3) -acima do céu monoteísta – em tese(4) –  pedir, até o momento, ele(a) tem solenemente ignorado todas as orações sem fé que tenho deixado em secretária eletrônica.

Até onde posso ver, sou despossuido desse dispositivo.

Isso talvez explique o porquê de eu nem mesmo conseguir ouvir uma musica sem pensá-la.
Diabos, deve ser bom demais estar dentro da própria pele sem senti-la como a um casaco velho grande ou pequeno demais que lhe deram!

Tem dias em que o desassossego metafísico é uma goteira na cabeceira em noite chuvosa.


“Cantar a beleza de ser um eterno aprendiz...”.

Saudoso Gonzaguinha...
Que há de belo em ser um sempre e sempre a-luno (sem luz) é coisa que me escapa, justamente porque talvez eu não tenha aprendido a aprender e a fruir prazer do aprendizado.
Ou da ignorância.

Acho que estava ocupado demais medindo e remoendo as dimensões da minha angustia por ser tão ignorante.

E no processo acabei, contrário ao que diz a sua bela canção, desenvolvendo uma sutil vergonha de ser tão infeliz ou (in)feliz, até que compreendi que essa é, essencialmente, a minha natureza. E só às vezes ouso pensar que essa é a condição de qualquer ser humano, o que nos move como criaturas desejantes e insatisfeitas, mas ao que parece, também me falta, além do tal “botão-do-foda-se” (e talvez justamente por isso), a capacidade de fingir para mim mesmo que não ligo para isso.

Melhor que o corvo ame o negrume de suas penas, ou vai passar uma vida miserável tentando piar como a um canário.

Não aprendi e não sei o que é aprender.
Talvez também nem mesmo saiba o que é belo. 
Eu sei o que me atrai e com alguma certeza, posso dizer que nem sempre é o que se chamaria de “bonito”.

Minhas respostas nunca foram puras, mesmo quando eu era - em tese(5) - criança.

Acho que sequer tive respostas a dar, só (até o momento) irrespondíveis perguntas puras.

Mas, é claro, isso também não impede que eu repita:

É a vida, é a vida e é a vida!



segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Dividindo o que me ocorre (pura e simplesmente)

...E estou quase me alforriando de uma labuta de cinco anos.
E se tempo é dinheiro, reitero que ando sem sequer um minuto nos bolsos.
Não dá pra escrever nada que seja minimamente decente...

Mas me ocorreu algo e senti impulsos de dividir.

Daí me irritei e pensei; "Cara, isso daí é 'felizinho' e senso-comum demais para merecer consideração". Mas como ando desconfiado até das minhas implicâncias e o que me ocorreu é importante, eis:

   Um luto devidamente elaborado é quando você pára de lamentar o fato de alguém ter morrido, (embora fique surpreso com o fato de o mundo ainda não ter caído no sol por esta pessoa ter morrido) e quando começa finalmente a celebrar o fato maravilhoso de que essa pessoa viveu.

Porque de alguma forma muito subjetiva, seria inadmissível passar a vida sem a consciência de ela ter vivido...



quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Raciologicando (por não ter nada melhor a fazer)

...E eu ainda não vi uma só vidraça que não fizesse, indecentemente, um convite a todas as pedradas do mundo.
E realmente gostaria que meus ossos fossem tão resistentes quanto a obstinação do meu orgulho.

Daí eu seria imortal e talvez estivesse ainda por aqui quando todas as vidraças, pedradas e orgulhos já estivessem extintos por sob a poeira da história..

Por outro lado, é uma manhã tépida de uma quinta-feira tépida num mundo tépido.

E essa vai ser toda a angustia a que me vou permitir por hoje...

...................................................

Um adendo tardio: Seria bom ou não tão mau, que as pessoas à minha volta, só às vezes, se lembrassem de que eu sou um Psicólogo....

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Você não sabe de nada, Luiz!



Acabo de devorar as 811 páginas de “Dança dos Dragões”, de George R.R. Martin. 
Já aviso que não vem spoiler neste post, embora eu goste de ler spoilers e fico sempre pensando na logica de comprar um livro ou assistir a um filme sem saber antecipadamente  do enredo (as chances de levar lebre por gato é sempre uma constante), mas serei cioso de quem tem fobia de spoiler ou prefere ser surpreendido pelos acontecimentos em vez de degustar com vagar as  minucias literárias ou performáticas de atores.

Também não vou falar do meu entusiasmo por George R. R. Martin (e do meu pavor que o velhinho  caprichoso morra antes de concluir sua saga ou de que ele resolva que  mais algum personagem maravilhoso morra). Além do mais, estou meio apaixonado pela saga de R. Martin e eu penso em meu torto pensar que nós sempre ficamos um tanto bobos quando estamos apaixonados. Eu sou um entusiasta muito patético e a consciência disso dói e eu estou em dúvidas se existe algo que doa mais do que consciência. 
Tem sensações que eu prefiro, quando possível, evitar.

Então, permitam-me dividir o meu estranho reconhecimento por uma frase que surgiu por varias vezes ao longo do texto:
Você não sabe nada, Jon Snow.

O porquê de destacar essa frase de todo o enredo maravilhoso de “Dança dos Dragões” eu explico após uma breve e tediosa história:

No comecinho da década de 90 um grupo de garotos se reunia na Praça da Savassi umas duas vezes por mês para jogar RPG. Até então as cartas e os dados eram difíceis de conseguir, sendo a maioria importada e em inglês ou em japonês. O detalhe é que nenhum dos garotos sabia falar essas línguas, o que tornava o jogo ainda mais desafiador. Um desses meninos era uma esquálida criatura de hábitos. Deu-se razoavelmente bem jogando e ganhando algumas rodadas usando um personagem Wizard ou Sage ( como vinham nas cartas), resultado que não conseguiu repetir usando outras categorias de avatar. Essa persistência em utilizar esse tipo de personagem (mais a mania de falar demais e de estar, irritantemente, sempre certo) valeu-lhe a infeliz alcunha de Sage, apelido que lhe acompanhou até a vida adulta e que, para mal de seus pecados, manteve, quando começou a se aventurar pela internet e precisou de um nickname.

É realmente uma lástima ter muita consciência, mas pouca imaginação.

Esse garoto, agora perdido por entre o labirinto de Eus dentro deste adulto que vos digita, nunca foi e nunca se viu como alguém sábio, e na verdade, ainda o sinto em alguma dobra perdida das minhas contradições, a revoltar-se contra a ideia de ser sábio. Ele se inquieta em algum lugar ermo de mim e me causa náuseas morais  cada vez que alguém me diz que sou inteligente. A isto respondo como num vômito raivoso e cansarregado de ironias:

Mesmo? Pois eu preferia ser bonito ou então ter sorte!

 Jesus e todos os deuses sabem que eu trocaria de bom grado vinte pontos de QI por um par de ombros largos ou dentes perfeitos ou uma barriga musculosa. Ou os 1,85 m do meu irmão ou os cabelos de mel da minha filha ou a pele maravilhosa daquele rapaz que me vendeu balas intragáveis no ônibus um dia desses...
Mas que sei eu?
Não sei de nada.
Nada...
Então talvez eu não tenha nenhum ponto de QI que possa investir numa barganha por algum atributo que me faça sonambulear melhor pela vida...

Você não sabe de nada, Luiz!
Tenho ouvido isso com tanta frequência e de pessoas tão separadas por tempo, espaço, cultura e situações que sinto aquele estranhamento peculiar de quem subitamente toma consciência de uma dolorosa verdade absoluta.

Você não sabe de nada, Luiz!

Daí a minha sensação de deja vu a cada vez que li em  “Dança dos Dragões” essa frase que ficava pairando sobre a cabeça do personagem Jon Snow.

E eu não sei nada. Talvez fosse o caso de perguntar se alguém realmente sabe, mas estou quase certo de que não vou compreender a resposta.

Não que isso importe. Tenho problemas demais em lidar com a antiga e constantemente renovada consciência da minha própria ignorância, para queimar meus neurônios decadentes meditando o não-saber alheio. O que me incomoda é o fato de que quando alguém me diz: "Você não sabe de nada", está afirmando implicitamente que ela sabe, mas não está e não me parece disposta a me ensinar o que eu não sei e a partilhar o que ela sabe, porque sabendo e mantendo-me na ignorância, mantém também o seu poder e superioridade sobre mim.

E eis o que vim lhes anunciar hoje senhores:

A vossa superioridade.
São, todos vocês, superiores a mim.

Todos vocês, os que sabem, os que conhecem o que há por detrás das máscaras e das palavras. Os que compreendem os meandros e sutilezas das linguagens e das intenções humanas.

Vocês, os que tem defesas, os que conseguem dormir e olhar nos olhos uns dos outros enquanto dormem...

Porque vocês sabem algo que eu ignoro e eu sempre serei um ignorante. E não falo de ignorância socrática, não é o princípio da sabedoria, mas de uma terrificante consciência de que não posso me fiar nem mesmo na minha capacidade de levantar dúvidas.

Eu não sei.
Mas vocês sabem.
Sabem e não vão me ensinar nada e nem eu tenho as condições reais e necessárias para aprender sozinho ou com preceptores.
 Possivelmente, algum defeito na minha capacidade cognitiva ou esse excesso de ligação com o absurdo, fazem-me refém de um autismo moral e eu permaneço em transe, meditando meus próprios processos enquanto a minha volta o mundo gira e muda, as pessoas amam, odeiam, vem e vão e eu permaneço perplexo com os grão de poeira em suspensão nos raios de sol da tarde.

Fiz a mim mesmo uma piada cruel quando nomeei-me Sage, porque intimamente eu sabia que de sábio eu nunca tive nada.  Era, não uma afirmação do que eu pensava ser, mas a de um desejo e uma busca.
Quando o meu ridículo ficou auto-evidente, criatura de hábitos que sou, acrescentei um singelo “h”, para mudar o sentido e transformar o que era um inadequado apelido em algo parecido a um nome. Sahge, porém,  não é menos ridículo ou mais adequado. Por outro lado, se chegarem-se a porta de onde trabalho e perguntarem: “Quem é o Luiz?” cinco ou seis pessoas (dependendo do dia) olharão em sua direção, mas uma delas, e apenas uma delas, é o Luiz que não sabe de nada.
Você não sabe de nada, Luiz.

Verdade absoluta.

Não sei lidar com verdades absolutas.
Não sei de nada, mas bem podiam ter me deixado na ignorância disso também.
Talvez, contrário ao que diz a fé de muitas pessoas, Deus tenha inventado o álcool.
Mas veio o Diabo (sacana dos infernos literais e imaginários) e inventou a solene e ridícula promessa de não beber mais.
E os dois sabem bem que eu, ainda na temporada de trocas, negociaria a receita da Pedra Filosofal e do Elixir da Vida, pelo esquecimento da minha própria ignorância que me proporcionaria uma garrafa ou duas de qualquer bebida ordinária.






domingo, 3 de novembro de 2013

Talvez (elevado a sexta potência)


Dialetizemos as nossas discordâncias na imagem acima.
O que você chama de "felicidade" está aparentemente à esquerda.
O que eu penso ser "liberdade" segue à direita...
É possível que estejamos ambos  em erro e que nem você seja tão feliz quanto pensa e tampouco eu seja verdadeiramente livre.
Talvez eu acabe ficando prisioneiro de minha singularidade,
Talvez você se torne livre do compromisso de ser alguém único...
Talvez seja alto o preço a se pagar por ser livre e, consequentemente, solitário.
Talvez a felicidade da multidão seja uma alegria menor ao que deseja a sua alma...
E talvez eu que busco a liberdade, acabe por me tornar feliz por ter a mim mesmo
E ao abraçar o mundo, você perceba que ficou de mãos vazias,
Ou privando-se de si mesmo você tenha tudo...

Mas aqui, nessa encruzilhada onde nossos caminhos se separam (e porque apenas eu questiono)
Me questiono, e ao fazê-lo penso
Que talvez eu, que questiono, já seja livre, porque ter certeza é ser prisioneiro.
E você, que segue o mundo sem questionar, já seja feliz, porque ser prisioneiro é, de alguma forma, estar seguro...


Fonte da imagem http://www.caulos.com/

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Sobre os seus olhos azuis...


É claro que te amam, e é claro que é por causa dos seus olhos azuis...
O grande problema é que, a menos que seu datolnismo moral se tenha infiltrado pela córnea adentro, meu caro, você absolutamente não tem olhos azuis. Eles são tão castanhos quanto seu espírito indócil. Se não me acredita vá lá se olhar ao espelho e esquece a vermelhidão e os relâmpagos.

Eles são resultantes dos dias de sonambulismo, de pesadelos despertos, da fumaça e poluição dessa BH de papel e da sua necessidade há muito negligenciada de óculos e sono.

Não. Definitivamente você não tem olhos azuis.
Então o quê...?
Você é um príncipe feliz por acaso?
É uma alma doce?
Afinal as pessoas te amam...
É o que te dizem...

 Mas as pessoas amam coisas demais.
 Elas amam sorvetes, cachorrinhos e dias ensolarados. A suavidade das ilusões cantadas em versos e trovas, as fantasias que empurram para longe os terrores imaginários das longas noites...
Elas amam praticamente tudo o que é doce, macio, suave e "bom".
 E, bom, não há e nem nunca houve muita suavidade nas suas palavras ou doçura no seu olhar feroz.

Poderíamos imaginar que talvez seja essa sua elegância meio pedante, essa sofisticação decadente (a sofisticação de um super-vilão de primeira linha) ou talvez seja esse seu ar zombeteiro e o humor mordaz, que passa a impressão de que talvez você seja o tipo de diamante bruto a ser lapidado, uma alma carente e boa que, privada de calor desenvolveu espinhos, mas que em terreno fértil de afagos e mimos faria germinar um menestrel delicado e gentil.
 ...
...!!
 (Ceeeerrto... Reconheço que eu mereci isso. Assim que você conseguir parar com essa risada demoníaca, eu continuo)
 ...
Seja sincero, ao menos no que lhe pesa a verdade das coisas...
Não há que se deter em miragens ou andar em transe pelo deserto.
Há qualquer coisa de equivocado nessas declarações de amor e você não deve repousar em ninho alheio a asa da sua inquietação.

 Porque a menos que alguém te diga:

 "Eu te amo, por sua constante e cortante dor de viver, pelo amor que ferve em suas entranhas junto ao ódio que gela sua alma, pela visão trágica e poética que você tem do mundo, pela sua inadequação, pelas suas contradições, pela sua sabedoria um tanto louca, pela sua ignorância sábia, pelo seu olhar perdido e pelo fato de que está sempre a deriva e naufrago de si mesmo, pelos seus balbucios e pelo seu tatear na vida e por detestar a si mesmo tanto quanto ama tudo o que você é sem o saber: por tudo isso e mais e além; eu te amo!" 

A menos que ouça isso, meu caro, dito por alguém que te olha nos olhos e vê-se refletido no seu castanho, tem de saber, por triste que seja ao seu coração e doloroso ao seu ego, que definitivamente, você nunca foi amado, porque amam uma ficção do que você é...

Fumaça na neblina...


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