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quarta-feira, 23 de outubro de 2013
Sobre os seus olhos azuis...
É claro que te amam, e é claro que é por causa dos seus olhos azuis...
O grande problema é que, a menos que seu datolnismo moral se tenha infiltrado pela córnea adentro, meu caro, você absolutamente não tem olhos azuis. Eles são tão castanhos quanto seu espírito indócil. Se não me acredita vá lá se olhar ao espelho e esquece a vermelhidão e os relâmpagos.
Eles são resultantes dos dias de sonambulismo, de pesadelos despertos, da fumaça e poluição dessa BH de papel e da sua necessidade há muito negligenciada de óculos e sono.
Não. Definitivamente você não tem olhos azuis.
Então o quê...?
Você é um príncipe feliz por acaso?
É uma alma doce?
Afinal as pessoas te amam...
É o que te dizem...
Mas as pessoas amam coisas demais.
Elas amam sorvetes, cachorrinhos e dias ensolarados. A suavidade das ilusões cantadas em versos e trovas, as fantasias que empurram para longe os terrores imaginários das longas noites...
Elas amam praticamente tudo o que é doce, macio, suave e "bom".
E, bom, não há e nem nunca houve muita suavidade nas suas palavras ou doçura no seu olhar feroz.
Poderíamos imaginar que talvez seja essa sua elegância meio pedante, essa sofisticação decadente (a sofisticação de um super-vilão de primeira linha) ou talvez seja esse seu ar zombeteiro e o humor mordaz, que passa a impressão de que talvez você seja o tipo de diamante bruto a ser lapidado, uma alma carente e boa que, privada de calor desenvolveu espinhos, mas que em terreno fértil de afagos e mimos faria germinar um menestrel delicado e gentil.
...
...!!
(Ceeeerrto... Reconheço que eu mereci isso. Assim que você conseguir parar com essa risada demoníaca, eu continuo)
...
Seja sincero, ao menos no que lhe pesa a verdade das coisas...
Não há que se deter em miragens ou andar em transe pelo deserto.
Há qualquer coisa de equivocado nessas declarações de amor e você não deve repousar em ninho alheio a asa da sua inquietação.
Porque a menos que alguém te diga:
"Eu te amo, por sua constante e cortante dor de viver, pelo amor que ferve em suas entranhas junto ao ódio que gela sua alma, pela visão trágica e poética que você tem do mundo, pela sua inadequação, pelas suas contradições, pela sua sabedoria um tanto louca, pela sua ignorância sábia, pelo seu olhar perdido e pelo fato de que está sempre a deriva e naufrago de si mesmo, pelos seus balbucios e pelo seu tatear na vida e por detestar a si mesmo tanto quanto ama tudo o que você é sem o saber: por tudo isso e mais e além; eu te amo!"
A menos que ouça isso, meu caro, dito por alguém que te olha nos olhos e vê-se refletido no seu castanho, tem de saber, por triste que seja ao seu coração e doloroso ao seu ego, que definitivamente, você nunca foi amado, porque amam uma ficção do que você é...
Fumaça na neblina...
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
Raciologicando ao cubo...
Pensamento breve, para uma quinta-feira de brevidades:
O maravilhoso neste universo terrível, é que algumas coisas mudam sempre, e o fazem (por uma necessidade inconsciente).
E qualquer coincidência disso com a realidade, está longe de ser uma mera semelhança.
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
Da Anatomia Da Ordem e do Caos
E o caos, contraditoriamente, está na ordem do dia.
Acho que aquela parte metafísica do homem que costumeiramente chamamos
de “coração” é o mais vigoroso agente e também morada do caos em
nós.
Por outro lado, se existe um órgão humano que está ligado à ordem das
coisas, esse é o estômago. Porque é o estômago a doer quando as coisas estão
caóticas, um formigamento próximo ao diafragma que pede desesperadamente para
que as coisas se aquietem de alguma forma.
Elas tendem a aquietar-se, porque a diferença entre o homem e o universo
que o cerca (e também o que nos torna singulares), é que o homem tende ao caos,
mas o universo tende a ordenar-se e a aquietar-se, daí o homem ser, para
prejuízo seu, um ser rebelde por natureza, contra a regularidade das coisas.
Nós só existimos porque "balançamos o barco". Dói como o inferno, mas
é a nossa natureza ser contrários a natureza.
Tudo se aquietará, mas nada será como antes. E a mudança traz medo, que
é o sentimento básico por detrás do desejo por ordem.
Há hora para tudo. Essa é talvez uma hora de escuridão e de tempestade.
Uma hora de incertezas e de tempo fluido. A impressão doida e doída de que o
furacão talvez esteja ainda no olho e sei-lá-o-que nos espreita a espera de
mais um poderoso e doloroso golpe.
Por dentro do emaranhado de neurônios e hormônios, demônios
dançam na confusão de um monte de sentidos e o mundo interno está de
ponta-cabeça invertida e ao contrário.
Mas lá fora, o sol ainda brilha, o vento balança nas árvores, a bolsa de
valores oscila, “os homens fazem guerra e Mona Lisa continua sorrindo”.
É estranho...
Mas o caos está só nas entranhas do homem.
Diagnose
Multiplicamos doenças por prazer,
Inventamos uma necessidade horrível, uma dúvida vergonhosa,
Regalamo-nos na licenciosidade, nutrimo-nos da noite,
Criamos balbúrdia no íntimo – e não saímos.
Por que sairíamos?
Despojado de sutis complicações,
Quem poderia encarar o Sol senão com temor?
Este é o nosso refúgio contra a contemplação,
Nosso único refúgio contra o simples e o claro.
Quem irá sair rastejando de sob o escuro
Para ficar indefeso no ar ensolarado?
Não há terror da obliqüidade tão certo
Quanto o mais notável terror da desesperança
De saber como é simples a nossa mais profunda necessidade,
Como é intensa, e como é impossível satisfazê-la.
Marcia Lee Anderson
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
Raciologicando ao quadrado
Tinha sonhos aos cacos,
Pela ladeira ingrime por onde o bom senso escorria junto com pensamentos...
A natureza de um homem o trai tanto quanto mais ele luta contra ela.
Pela ladeira ingrime por onde o bom senso escorria junto com pensamentos...
A natureza de um homem o trai tanto quanto mais ele luta contra ela.
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
sábado, 14 de setembro de 2013
Ainda sobre a Rua da Bahia
...E foi nos perigosos cantos escuros da Rua da Bahia, cintilados
pelas sombras da noite e povoados por almas perdidas, que em noite escura tive
uma iluminação:
A vida e a morte dançam juntas, e a primeira dança ainda mais
belamente quando na presença da segunda;
A percepção disso certamente mexeu e retorceu os meus sistemas
nervoso, sanguíneo, filosófico, poético e outros tantos sistemas para os quais
ainda não há nome.
Certas coisas não têm mesmo de ter nome.
Fui para casa meio a dançar, no gozo dessa perfeição anônima.
Eu sou um meio-meta-pseudo-qualquer-coisa-de-poesia.
E se não tenho uma definição para mim mesmo, como posso significar
o que é indefinível?
Há sensações que a palavra não alcança e se alcançar, mataria
a sensação pela frieza de uma palavra que se pretende calorosa.
Afinal, ha mais do que poeira e cansaço correndo pelas
minhas veias.
É outra percepção que me deixa atordoado.
Há, nos hiatos abismais da minha memória, o que a poesia
não é forte o bastante e nem profunda o suficiente para dar forma.
...
É só e apenas que certas coisas são perfeitas...
E têm
uma perfeição que lhe é própria, fugindo a qualquer nomenclatura.
Eu sinto...
E o resto é poeira...
domingo, 25 de agosto de 2013
Fumar aos Quarenta
...ainda não entendi....Porque diabos você
quer começar a fumar agora?
Ora, por que! Porque, eu posso, porque não tem lei me proibindo de
fazê-lo, porque todo mundo acha que não devo... Tenho um porrilhão de motivos,
mas a verdade é que eu quero. Simples assim. E se não tem lei em contrário, o meu querer e o meu não-querer
tem de ser razão o bastante para que eu faça ou deixe de fazer qualquer
coisa....
Mas você sabe que isso vai te ferrar,
né? Vai ficar com os dentes amarelados, o cabelo e a roupas fedendo e nem vai
conseguir subir uma escada sem por os bofes pra fora!
...E blá-blá-blá! Você se esqueceu de falar do câncer de pulmão.
Tem isso também! E não é coisa que se
despreze!
Bom, eu não ligo de não conseguir subir escadas (pra isso existem os
elevadores) e meus dentes (caso não tenha notado) já são amarelos (e sem o
“benefício” do fumo) e quanto ao fedor... Ah, eu vou fumar charutos! Charutos
não fedem tanto assim! E o cheiro, dizem, é até gostoso...
Nem! Fala só por você!
O Freud fumava charutos...
E morreu de câncer na boca!
Com 83 anos, caramba! Ele tinha de morrer de alguma coisa! Teve o prazer
de fumar por décadas e depois morreu. Acha que ele devia viver pra sempre?
Não. Só acho que é um jeito bem
desagradável de se morrer...
Rá! Você fala como se existisse um jeito agradável de se morrer.
Não, mas tem jeitos e jeitos... E ainda
acho que fumar é má ideia.
Bom, acho um tanto tolo esse negócio de viver em função de como se vai
morrer, pra não falar que é paradoxal e um tanto... Religioso...
Fumar talvez seja má idéia, mas se te preocupa que eu vá morrer, advirto
que fumando ou não fumando, vou morrer de qualquer jeito.
Você vai fazer merda!
Vou. Mas eu nunca fiz merda na vida. E sou de opinião que quem nunca fez
merda na vida, teve muita merda e pouca vida...Ou uma vida de merda, se me
permite dize-lo.
Então, se está mesmo tão decidido a
fazer alguma asneira, porque não faz uma tatuagem ou foge com um circo?
E desde quando fazer tatuagens é asneira? E qual foi a ultima vez que você
viu um circo que aceite gente sem talento para o picadeiro? Cara, você anda
vendo TV demais...
Certo, mas é que, fumar, sabendo que é
besteira, me parece um tanto irresponsável.
(...)
Quero dizer, a gente faz merda na vida,
mas geralmente faz inconscientemente.
Está me dizendo então que uma idiotice é legitima quando feita
inconscientemente?
Ei, não coloca palavras na minha boca!
Não vem com essa de psicologia reversa barata para justificar o fato de que está
para fazer uma estupidez!
Não estou justificando nada. Só estou me dando o direito de arruinar
minha saúde. Mas pensa nisso: Dizem que se você começar a fumar com doze anos
de idade, aos quarenta vai ter, provavelmente, um monte de problemas de saúde,
né?
É o que dizem...
Pois então! Já tenho quarenta, o que significa que vou começar a ter
problemas lá pela casa dos setenta anos. É a época em que qualquer um começa a
ter problemas de saúde, fumando ou não!
Não acredito!!
O que?
Essa é a coisa mais estupidamente maniqueísta
que você já disse!
Diz isso porque me ouviu falar relativamente pouco... Mas não negue a
lógica de um pensamento apenas porque ele te desagrada.
Isso não tem lógica nenhuma! E você é um
idiota!
Talvez, mas sou um idiota bastante ciente de que se é idiota, o que não
se pode dizer da maioria dos idiotas.
Bem, se quer que eu diga, sim, isso
certamente conta a seu favor.
Autorização pra fumar então, "majestade"?
Que se dane! O funeral é seu!
O pulmão também. E olha lá... A tabacaria fica ali, perto da redação do "Estado de Minas".
(...)
Quié?!!
Tem um estúdio de tatuagem lá no "Edifício Maleta que"...
sábado, 18 de maio de 2013
Umas Coisas que Talvez sejam Uma
Olha lá pra trás...!
Foi uma tediosa e longa estrada caminhada e no decurso dela, mais de uma vez você confirmou a sua inabilidade para se passar por gente.
Porque diabos ser gente é tão complicado?!
Você admira as feministas, os machistas, os idealistas, os românticos e todos os que tomaram um partido ou outro e todo e qualquer um que levante uma bandeira e diga com orgulho "EU SOU!, porque deve ser algo extraordinário pensar que se é uma coisa só.
Imagina isso!
Acordar pela manhã e reconhecer aquele corpo como o seu, sem adendos, sem ausências, sem fragilidades acrescentadas ou enrijecimentos súbitos....! Delicia isso de ser uma coisa só!
Bem, deve ser...
Dias desses você olhou-se ao espelho e viu um par de olhos azuis te olhando de volta daquele reflexo do seu rosto afroamerindio confuso, e ao fim da tarde, o castanho do seu espírito saltou de volta para a sua íris e você já não tinha mais os cabelos verdes de seis semanas atrás.
Ah...Ser uma coisa só!
Hoje, é um dia de merda.
Jesus, que inveja dos que creem em qualquer coisa!
Ou dos que não acreditam em nada ou de qualquer um que possa viver sem arrependimentos ou sem a consciência de motivos para se arrepender.
Que inveja dos que tem certeza de qualquer coisa e enfrentam a vida com o mesmo desdém com que você tromba na morte sempre a espreita pelas esquinas escuras de BH.
Que inveja dos que não tem inveja e dos que podem fingir não ter e de qualquer um que, esteja onde estiver, pode abraçar a si mesmo com o afago de auto-enganos doces e pensamentos de poder e independência enquanto sonha ser abraçado por outro...
Maravilhoso!
Se você rezasse, mesmo sem fé, algum deus ouviria?
Seria algo então, encher o saco dos deuses com orações sem fé, como eles enchem a sua cabeça de sonhos quebradiços ao menor sopro de realidade e seu coração de esperanças que se despedaçam saltando do quarto andar de qualquer repartição publica onde há formulários e mais formulários a preencher.
Será que vai ter de preencher questionários e reconhecer firma para poder descansar em paz no inferno?
E enquanto todo mundo parece te dizer que deve ser deste ou daquele modo e tomar esta ou aquela direção, você pensa, por que, meu deus, é tão complicado ser gente?
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Daí aquelas gotas de sangue na calçada da Avenida dos Andradas.
O que chamou a atenção?
Todo mundo passa por gotas ou rios de sangue em sarjetas mal frequentadas e dão menos atenção a isso do que a pessoas caídas em meio ao lixo e em meio ao luxo dessa selva de concreto BH.
O odor acre de urina velha e vômito e lixo...Quem dirá que é mais ou menos nauseante do que o daquelas lojas perfumadas dos shoppings repletas de vendedores ensabonetados?
Talvez algo no modo como as gotas caíram nos paralelepípedos lembrasse a configuração de umas estrelas que lhe custaram uma dor no pescoço, quando em noites atrás e a frente, você ficou de boca aberta olhando com seus olhos invejosos para aquele mar de luzes inalcançáveis.
Não, não foi isso.
Aquilo não eram estrelas na calçada (e que sabe você da configuração de estrelas?).
Era sangue de alguém, uma marca de alguma dor infligida. Alguém sofreu ali horas antes e deixou tatuado no chão a assinatura de um momento de vida e de morte.
"Sangue de mendigo ou maloqueiro", diriam uns, e "essa gente nunca morre direito", diria Paulo Honório do seu São Bernardo amarelado. E quem vive ou morre direito afinal?
E um pouco mais adiante, uma alma gigantesca forrou uma daquelas horríveis bolas de concreto sob o viaduto Santa Tereza de papel laminado dourado, e quem se deteve para olhar, mesmo tendo ignorado o sangue uns metros antes, teve um pequeno momento de sonho que não se despedaçou.
Talvez não seja um dia de merda afinal...
Talvez seja só um dia...
Obs; Fotos tiradas com pressa e da câmera ruim de um celular ruim na mão de um "fotógrafo" ruim às 07:42 de uma manhã de 17/05/2013.
Deus, eu detesto e amo Belo Horizonte!
sábado, 4 de maio de 2013
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Ainda sobre relógios e sobre o que eu não compreendo...
Acho que talvez uma ampulheta meça melhor a passagem dessa coisa fluida
que é o tempo do que qualquer relógio, exceto talvez o relógio de sol. Mesmo
que um relógio de corda, habilidosamente sacado do bolso orgulhoso de quem
ostenta um mimo desses tenha certo charme ou que a tecnologia de relógios
digitais tire o fôlego por sua versatilidade, ainda penso nos finos grãos de
areia dourada, caindo mais rápidos do que segundos frios pela cintura
voluptuosa de uma ampulheta tenham uma carga de tempo que é quase palpável...
É isso ou eu, pelo meu gosto por coisas arcaicas, sou mesmo “jurássico”
, como na definição graciosa de uma afilhada que gosta de me chamar a atenção
para o fato de que sou um "velho retrógrado". Como se eu pudesse por
um momento sequer ignorar isso...
Só para constar, ela está errada, porque estou certo de que sou
pré-crambriano e ela errou por um bilhão de anos ou dois.
Coisa de pouca monta.
E enquanto a areia caia pela cintura da ampulheta, fiquei distraído ao
sol observando crianças montarem um castelo de cartas e depois derrubá-lo.
Ficaram nisso por muito tempo e admirei-me que ainda continuassem crianças
depois de tanto tempo fazendo e desmontando castelos de cartas. Eu sei que meus
cabelos embranqueceram muito naquele tempo em que a areia caiu e castelos de
carta se erguiam e eram derrubados e em volta, no mundo para alem daquele
playground, coisas grandes aconteciam, guerras e revoluções e vida e morte, mas
sinceramente? !?
Duvido que entre todo aquele espetáculo humano algo fosse mais
fascinante do que a alegria meio louca de crianças a montar e desmontar
castelos de cartas.
Pensei em Sísifo e sua pedra e acho que ele certamente teria aprendido
algo com aquelas crianças.
Então compreendi (novamente tardiamente como é da minha natureza) que a alegria
daquele ato de desmontar para depois montar é algo que os adultos tentam
reviver, em conversões espirituais ou de caráter, como se fosse possível
desfazer a si próprio e se remontar novamente em unidade renovada com os
cacos que fizemos de nós mesmos e daqueles sonhos ridículos que nos venderam
como nossos.
Pensei em todo o discurso grandioso de gente que em certo dia resolve
que vai ser diferente, que vai mudar de vida e que vai se erguer das cinzas
como uma fênix e sai por aí, andando em direção contrária a do mundo achando
que está fazendo grande coisa, quando nem percebe que a direção que tomou
agora, ainda é referenciada pelo mundo e não pelo próprio desejo.
Talvez castelos de carta sejam infinitamente mais honestos.
A vida cansa. E é tediosa e chata.
E mente maravilhosamente bem quem diz para si mesmo que ela é
uma sucessão de folguedos e alegrias. Geralmente é o tipo de gente que acorda
quase sempre de ressaca etílica e bebe mais, para não ter de lidar com a
ressaca moral que certamente vai se somar a dor de cabeça e estômago ruim para
atormentá-lo.
Eu?
Sou um velho cansado, cansado de aprender de velhos cansados o que é no
fim, apenas mais e mais cansaço.
Melhor aprender das crianças, porque estas enquanto não cresceram, não
esqueceram completamente o que é ser verdadeiramente humano.
E enquanto “convicção” não for um artigo vendável e comprável em
farmácias e estabelecimentos afins (aparentemente o é em igrejas, partidos
políticos e movimentos ideológicos, mas já falei demais disso e me cansei desta
vereda), permaneço um ateu da vida eminentemente prazerosa e um apóstata do
deus felicidade, cujo culto absurdo transforma crianças alegres a desmontar
castelos de carta em adultos decepcionados consigo mesmos, tentando todo dia
desmontar a si próprios e com vergonha do que são.
A areia cai e as crianças brincam. Essa é toda a sabedoria que existe no
mundo.
E para encerrar a minha perplexidade, acho que caiu um Saara de areia
por aquela ampulheta enquanto eu envelhecia olhando as crianças.
Levantei-me com dificuldade por ficar tempo demais na mesma posição.
Olhei para o mundo e percebi que preciso me atualizar, porque até onde me
lembrava, o Brasil era um país laico, homofobia e racismo ou preconceitos
religiosos eram crimes morais (se ainda não legais) velados e não escancarados,
um beijo (entre pessoas do mesmo sexo ou não) era uma manifestação de desejo e/ou
de amor e não uma arma política, “vadia” era um termo insultuoso para as
mulheres, tal como "ladrão", "malandro" ou
"safado" era para os homens; honra era uma bússola para a conduta de
pessoas fortes e não uma palavra meio esquecida num dicionário ou um atributo
de que se envergonhar; onomatopeia musical (do tipo; Lá-ri-lá-lá ou
Tan-tan-ran ou tê-rê-tê-tê) era apenas um recurso para quando se esquecia a
letra das músicas e não A letra da “música” em si e a sociedade
caminhava para uma evolução de valores e liberdades e não para uma involução a
cata de hedonismo. Oh e a lista segue!
E quando fiquei na ponta dos pés, tentando divisar mais ao longe, vi que
o oceano de absurdos não parecia ter fim.
E eu sequer havia compreendido a marola na beira da praia.
“Não entendo.
Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco.
Não demais:
mas pelo menos entender que não entendo.”
Clarice Lispector
domingo, 28 de abril de 2013
Jubas em travesseiros de seda
...e então talvez não seja o balido dos lobos em pele de ovelhas o grande problema. Talvez sejam os leões amansados - a quem convenceram os lobos de que também são cordeiros - a silenciar o seu rugido diante do uivo das falsas ovelhas...
quinta-feira, 11 de abril de 2013
Da Minha Quase-Embriaguês
...parto do pressuposto (na verdade uma tentativa talvez ineficaz de pensar honestamente) que falo sobre mim e somente sobre mim - porque o mundo é o que percebo e simbolizo dele, mas o que percebo e simbolizo do mundo não é de fato, e talvez, o que é o mundo, mas tampouco é o que qualquer um percebe e simboliza dele - quando penso que nós somos meros satélites em órbita da suposição do que pensamos ser.
Excessivamente sensorial - talvez seja uma fase lunar ou hormonal ou existencial - tenho de pensar também sensorialmente e duvidar, como o faria um bêbado que não se permitiu embriagar completamente e que preserva um laivo de consciência a lutar contra a embriagues, do que vejo, do que ouço, do que falo (e sobretudo do que falo) e também do que penso, porque sinto que pensamento é sensação tanto quanto penso que sensação é uma forma rudimentar de pensamento.
É o dia em que percebi, dentre um desfile horrível de percepções sempre tardias, que os meus olhos são, não o espelho de uma alma, mas um par de lentes distorcidas que, para fora olham microscopicamente (coando mosquitos e engolindo camelos) e para dentro perscrutam o abismo telescopicamente.
O inferno saúda-me de qualquer direção em que olhar.
Acho que, na minha tendencia natural de só muito tardiamente perceber as coisas ( e chega a ser confortável poder contar com uma estabilidade em um aspecto qualquer, ainda que seja num defeito), não entendi ainda que o mundo de fato acabou mesmo dia 21 de dezembro de 2012.
Alguém aí seria amável o bastante para me contar isso, já que ainda estou sóbrio o suficiente para honestamente duvidar dos meus sentidos?
segunda-feira, 18 de março de 2013
Um sonho entrópico
Foi um sonho do qual não tenho
certeza de que despertei e de idêntico modo,
não estou certo de que tenha dormido para o sonhar.
Sonhei que eu era Deus.
Fiz o universo em seis dias e vi
que era bom o que tinha feito.
No sétimo fui dormir e acordei na
manhã do oitavo dia com um excelente bom
humor. Me espreguicei, e foi então que pensei: “É hora de trazer o Armagedom!”
Então desci a terra e fui buscar
o homem mais santo do mundo.
Por acaso era um corretor de Wall
Street e quando o arrebatei, ele sorriu surpreso e desapareceu, porque eu o
absorvi de volta a mim. Depois fui buscar os outros santos. Religiosos de todo
tipo, monges, filósofos, sábios, loucos...Recolhi todos os tipos de santidade que
encontrei na terra. Olhava-os nos olhos, sorria e os trazia de volta a mim,
absorvendo a totalidade do que eram e eles desapareciam surpresos como o
primeiro, porque junto com eles, busquei todos os outros da terra. Os virtuosos e os canalhas, os éticos e os facínoras, os assassinos, as vítimas,
os maus e os bons, os puros e os perversos... Todos os homens, todas as
mulheres, crianças, velhos e jovens e os fieis junto com os incrédulos...
Arrebatei
a todos de volta a mim. Todos sem exceção e eles desapareceram, imersos na minha consciência.
Daí fui desmontar em um dia o
que levei seis para fazer. Absorvi de volta tudo em que respirei vida. As
plantas e sua seiva macia, os mínimos micróbios e os grandes monstros,
cachorros com suas pulgas, pássaros em voo, peixes no mar e nos aquários, animais
selvagens e domésticos e cada folha de grama e cada flor e fibra do campo, o
joio junto com o trigo e cada vida escondida nos remotos da terra.
Desci mais um pouco, e retirei a
força das pedras e a consciência profunda das rochas e o calor furioso do
magma. Extingui meus vulcões e suguei os oceanos de muitas águas.
E então desci ao inferno e
apaguei também os seus fogos e comecei a absorver todas as almas perdidas que ali
penavam. O diabo, é claro, protestou veementemente contra o que considerou uma “ingerência”
em seus negócios, mas não por muito
tempo, porque o absorvi também, mesmo em protesto.
Encrenqueiro, burocrata e rebelde
até no fim...
Repeti o processo em todos os
mundos, em todos os planetas do universo e então, uma a uma fui apagar minhas
estrelas e nebulosas. Tirei o tampão da pia do universo e tudo redemoinhou de
volta para mim. E tudo parecia surpreso e tudo parecia atordoado quando me
olhou nos olhos pela primeira e ultima vez.
E depois, naquele espaço escuro
sem trevas, retirei meus anjos,arcanjos e querubins das prateleiras e eles
vieram em fila para que eu os absorvesse de volta a mim, um após outro.
Logo, restei apenas eu e os meus avatares
e personificações dadas pelos homens. Então absorvi de volta a estes meus eus: Shiva e Baal, Mitra e Heimmdall, Ogum e Anúbis,
Epona, itzamna e Astorete...
E muito outros. Deu trabalho! Mas
finalmente havia acabado.
Sem mais multiplicidade... Sem mais incompletude...
Apenas uma infinita calma e por
fim, comecei a absorver a mim mesmo e a apagar a minha consciência em espiral para dentro. Fui para a longa
noite.
Eu disse: Faça-se o silêncio.
E houve silêncio
quarta-feira, 13 de março de 2013
Meu momento Dom Quixote
Havia me esquecido de como eu ria
cada vez que lia sobre como Dom Quixote se estrepava todo ao se chocar contra
as pás dos moinhos, contra as quais ele se batia valentemente ao ver nelas a
figura de gigantes. Foi um esquecimento proposital, porque minha visão de mim
mesmo estava envolvida na questão. Que tipo de pessoa se diverte com o
sofrimento alheio? Ainda mais quando esse sofrimento era advindo de um ato de
equivocada coragem e elevada nobreza de espírito...
Por outro lado, mesmo naquela
época, eu lutava contra os meus próprios moinhos, sem o recurso da loucura de Dom
Quixote para me convencer que pelejava contra gigantes. Não...Eu sabia bem lá
no fundo, que eram moinhos e me sentia estúpido por não conseguir fingir que
eram gigantes ou mesmo por não conseguir deixar de lutar contra eles mesmo sabendo.
Era um tempo estranho, quando havia muitos
ideais e poucas ideias, época em que eu erguia símbolos e bandeiras, seguia este e aquele
líder, me pautava por um excesso de “ismos” e vontades de mudar um mundo que eu
nem mesmo compreendia.
Qualquer um que tenha certeza do
que quer que seja para fora do círculo do seu eu, mente maravilhosamente bem para si mesmo. Tem então uma
verdade particular e o universo todo é um brinquedo lindo, uma pedra de afiar a
arrogância.
Temos verdades demais no mundo e
ele está indo ladeira abaixo, então talvez seja o caso de fazermos uma sutil
apologia de um modo mais complicado de criarmos à imagem e semelhança de nossas
dúvidas.
Quer ajudar a humanidade? Não tema gigantes disfarçados de moinhos.
Redistribua metafísica. Talvez o grande
problema do mundo seja a metafísica.
É o grande mal da humanidade a
sua concentração em tão poucas mãos.Uma iniqüidade o excesso dela numa minoria
silenciosa e a total ausência numa maioria barulhenta, que faz tanto ruído que
já não escuta a própria voz.
segunda-feira, 4 de março de 2013
Eu sou "Do Mal"
“Eu sou do Bem!”
O sujeito, recém-chegado, disse isso tocando solenemente no
próprio peito e com um tom de voz tão afetado que deixava claro o orgulho que sentia de si
mesmo. Isso era tão evidente que era possível ver que se postando assim, do
lado das luzes e das virtudes piedosas, estava acima da ralé humana cheia de
vícios e defeitos. E eu sou, lastimo dizer, desgraçadamente humano.
Já ia ficando de má vontade para com a gabolice dele, porque tenho uma
antiga e desarrazoada antipatia para com os deuses, e ver um semideus de
carne e osso e tão superior bem na minha frente, atiçou todas as cascavéis que
tenho no estômago.
Discursava efusivamente, com gestos teatrais, com a eloquência de
um pregador religioso e a verborragia maçante de um palestrante motivacional.
E como a criatura era bastante performática, literalmente
saltando por entre as cadeiras e mesas, papagueando o tempo todo um discurso hiper-positivo, claro que cativou imediatamente os corações e mentes de todos os presentes,
exceto um, que, como era sabido por todos os presentes, não tinha coração e
duvidava mesmo que tinha uma mente a ser conquistada.
De minha parte, tentei simpatizar com ele tão logo me foi
apresentado. É do tipo que sorri fácil, tem um aperto de mão firme e olha nos
olhos quando o faz, embora o seu olhar não dure nem um segundo, caso se olhe de
volta.
Mas era aparentemente do tipo que não suporta não ser o
centro das atenções e tão logo lhe foi dada a palavra, iniciou o seu monólogo
auto-afirmativo. Falava alto e com gestos tão largos e espalhafatosos (fazendo
círculos e curvas rápidas com os braços), que temi por várias vezes que fosse
fazer voar pelos ares a bandeja de um dos garçons.
Meu primeiro incômodo foi ver que o tal sujeito, a quem
todos gabavam como “um figuraça”, gostava
dessa alcunha, que no meu entender não
tinha nada de elogiosa. Era uma pessoa extravagante e positiva demais para ser levado
a sério, mas a voz alta, o sorriso largo, mais aquela meia dúzia de frases
doces e sedutoras que papagueava para que todos soubessem o quanto ele era “do
bem”, claro, tornaram-no o centro das atenções. Tal como ele, aparentemente,
queria...
Estaria tudo bem, não fosse o fato de que as pessoas na
mesa, habituadas a minha visão niilista e pouco ortodoxa da vida,
imediatamente alçaram o tal sujeito “do bem”, a posição de meu nêmesis: “Tá
vendo Luiz!?? É assim que você TEM que ser!”
E eu, por entre resmungos mal humorados, fazia pequenas e
silenciosas preces para os deuses em que não acreditava e antipatizava: “Da
boca do lobo, da pata do tigre, da vingança das mulheres e dos 'homens de bem',
livrai-me senhor!”
Aquele sujeito, segundo meus “queridos amigos” a mesa diziam, era a
minha antítese (e logo, um modelo de virtude e bondade que eu devia seguir) e
insistiam que eu Devia ser como aquele cara, porque não tenho certeza do
porquê, mas pessoas próximas que gostam de mim pelas suas razões (equivocadas
ou não), cismam de salvar-me a alma, tentando fazer com que eu seja um anjinho
de candura e bondade cristã, apoiador de boas causas, alguém que professa fé em
Deus, na moral, nos bons costumes e na porcaria do modo de vida americano e
blá-blá-blá... Como se eu não soubesse que gostam de mim exatamente por eu ser
“mau” como sou...
Para a minha sorte, aquele homem continuava metralhando-nos
impiedosamente com suas bravatas auto-afirmativas, proclamando dentre outras
coisas: a defesa da liberdade do Tibete (coisa que todo mundo apoiou sem sequer
saber localizar o Tibete num mapa), a proteção da floresta Amazônica, da fauna,
da flora, das crianças, das baleias, dos rios, a camada de ozônio, os escoteiros, os animais
em extinção, os meninos de rua, os pobres, as minorias, o UNICEF e mais um
porrilhão de outras boas causas.
Estava entretido demais consigo mesmo, encantando com o próprio
coração bom e virtuoso e duvido que fosse capaz de perceber a presença de mais
alguém além de si mesmo, doutro modo teria percebido que as pessoas naquela
mesa se divertiam à custa dele e as minhas, alçando-nos a posição de
antagonistas involuntários.
E eu tinha decidido gostar do sujeito! E eu apoiava quase
todas as “boas causas” que ele defendia!
Mas uma coisa que li há muito tempo num livro do Balzac, foi
o conselho de jamais permitir que digam que você seja um sujeito “divertido”,
porque esta é uma expressão de disfarçado menosprezo. Mas meu brilhante Sir
Galahad, meu belo e encantador “inimigo” do outro lado da mesa, parecia estar
indiferente aos sorrisos sardônicos dos que o aclamavam. Acho que aplausos
devem tornar- nos surdos e cegos para as vaias que rastejam por debaixo dos
mesmos. Mas, claro, essa é uma inferência meramente teórica, posto que não sei e nunca quero saber o que é ser aplaudido.
A bem da verdade, penso que eu estava mais irritado é por
ter aceitado o convite para a bebida e não conseguir encontrar um modo elegante
de cair fora daquela mesa sem parecer estar irritado e mais irritado ainda por
ficar preocupado com o que eu aparentaria ou não.
Olhava para a pregação de boas causas daquele homem e quase
podia ver um halo sobre a sua cabeça e, por comparação e por maioria de votos, constatei que definitivamente, eu sou um sujeito “do mal”.
Pensar nisso e colocar- me nessa posição, fez com que eu me sentisse razoavelmente confortável e menos irritadiço. Porque se algo me dava alguma satisfação naquele momento, era me distanciar, no que pudesse, da aura de santidade patética daquele sujeito. Foi então que, para coroar uma frase de efeito ele soltou emocionado essa pérola:
Pensar nisso e colocar- me nessa posição, fez com que eu me sentisse razoavelmente confortável e menos irritadiço. Porque se algo me dava alguma satisfação naquele momento, era me distanciar, no que pudesse, da aura de santidade patética daquele sujeito. Foi então que, para coroar uma frase de efeito ele soltou emocionado essa pérola:
“Porque uma célula feliz, convida a célula do lado: ‘Vem ser
feliz comigo!’ E elas convidam outra e outra e logo todo organismo do sujeito
está iluminado de felicidade!”
Ovação total. Ouviu-se o costumeiro “ohhhh” na mesa, mas
desta feita, alguém que estava ao meu lado teve a feliz ideia de me cutucar
(fisicamente! Praticamente me cravou o cotovelo por entre as costelas.Tem gente que arrisca a vida por pouco...!) quase berrando em
meus ouvidos:
“Tá veeeenndo Luiz!!!”
Engasguei com o ultimo gole de bebida amarga (que a
essas alturas, comparada à bile e à raiva que percorria o veneno vermelho das
minhas veias, estava quase doce), mas terminei a bebida. Até então havia me
limitado a resmungar. Era a minha deixa para ir embora. Disse levantando-me da
mesa:
“Isso tem lá sua lógica...Por exemplo, uma célula em
metástase também convida a célula ao lado; ‘Vem fazer um tumor comigo!’ E elas
juntas fazem um câncer que f@#%m o cara. “
Dito isso, deixei uma nota em cima da mesa para pagar a
minha parte da conta e fui embora. Não ia dar oportunidades para réplicas e essa era uma atitude de óbvia covardia dialética, mas acredito que por umas dez encarnações já esgotei minha cota de pérolas a lançar aos porcos.
Ia emendar um sonoro “vão para o inferno, vocês todos” ou coisa semelhante, mas já estava longe da mesa e meio arrependido por ter falado aquilo. Não pelos meus amigos convivas, mas pelo tal “príncipe feliz”.
Certamente não merecia aquilo e não era um "mau" sujeito.
Eu era.
Ia emendar um sonoro “vão para o inferno, vocês todos” ou coisa semelhante, mas já estava longe da mesa e meio arrependido por ter falado aquilo. Não pelos meus amigos convivas, mas pelo tal “príncipe feliz”.
Certamente não merecia aquilo e não era um "mau" sujeito.
Eu era.
Eu sou.
E o inferno vai congelar antes que eu mude.
E o inferno vai congelar antes que eu mude.
Mas não mau o bastante para não me importar em ferir os
sentimentos dos “bonzinhos” (ai meu deus!Que gente irritante!) com palavras ásperas. Também me
senti levemente contrariado por ter participado contra a minha vontade daquele
espetáculo lamentável.
Aquietei minha atormentada consciência com a constatação
que, muito provavelmente, aquele rapaz sequer ouviu minha grosseria. Como eu
disse, duvido muito que ele ouvisse qualquer coisa que não fossem elogios ou a própria
voz entoando loas a si mesmo.
Quanto aos meus "amigos" que fizeram a gentileza de se
divertir as minhas expensas, não disse, mas reitero o que não disse;
Vão para o diabo sem mim.
Ou deixem-me ir ao diabo sozinho.
Por que haveríamos de ir juntos?
Fora isso, tenho de aceitar que em grande parte a culpa é
minha por ser tão previsível em minhas irritações e por insistir em partilhar
companhias que fazem com que eu, por minha natureza, acabe sendo grosseiro e
tenha cada vez menos (em companhia deles) simpatia por mim mesmo.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
O Problema do copo / Outra Conclusão Desconfortável
Se pela metade está o copo meio-cheio
ou meio-vazio, é questão que ha que se legar ao debate entre otimistas e
pessimistas.
Curiosamente a parte que está sem nada (ou com nada, dependendo
de que lado da realidade você olhe) é sempre o foco destes entreveros verbais entre
gente que tem certeza de que, ou o mundo é maravilhoso e uma festa ou o mundo é
horrível e campo de batalha.
E
"eu, que não tenho certeza alguma, sou mais certo ou menos certo?"
A irrelevância está sempre na parte que está preenchida, porque este que é meio não pode ser tudo. O problema do copo é a parte que está vazia e o consequente desejo do copo de estar cheio e transbordar.
É como dissesse a si mesmo:
"O
que eu quero não é o que tenho, embora haveria de o querer se isto que tenho
quisesse que eu o quisesse. Seria o suficiente se o quisesse ser. Mas
como me falta o que quero e o que tenho não me preenche, estou cheio
de insuficiências, repleto de vazio e transbordante do desejo de estar
cheio."
...
Uma questão que me surgiu nos
últimos minutos, mas fermentou-me no simulacro de cérebro durante muito tempo,
a parte do que eu estava consciente. Cresceu como uma droga de câncer, até que
pela violência de seu sintoma, não o pude mais ignorar. Mais ou menos
me atropelou em meio a uma conversa em que fiquei atordoado pela
milionésima vez em como o mundo é uma seara labiríntica. E fico tecendo uma
teia intricada de angustias e dúvidas com a tenacidade de uma aranha desejando
abrigar-se do vento:
Porque é
que tenho sempre a percepção das coisas quando estas (senão todas as coisas do
mundo) existem apenas ao e para o alcance da sensação? Por que diabos tento
encontrar sentido naquilo que não tem sentido além de que deve ser apenas
sentido e não simbolizado?
Que tem coisa errada com minha
inteligência é fato, contra o qual não tenho como argumentar, mas será que
tenho alguma alteração nos órgãos sensoriais e essa anomalia salta daí
para a minha capacidade de compreensão das coisas?
Posso muito bem andar de cabeça
baixa em meio a um tiroteio e não perceber o zunir de balas a minha volta, do
mesmo modo que tenho insensibilidade para o que, em tese, me deveria emocionar.
É possível que se trate de um tipo
de cegueira completamente novo e nesse caso, minha anomalia consiste em ter
olhos que enxergam demais para dentro e no processo, ficam perdidos em brumas
quando olho para fora.
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