quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Meu Meio-Diálogo




Pensar dói.

E por causa dessas cefaléias de pensamento, a maioria das pessoas sabiamente opta cada vez mais por mergulhar suas inquietações nas percepções sensoriais. Você sabe que faria companhia  a elas de bom grado nessa alienação do Eu, mas tem de lidar com seu inferno íntimo. Seus olhos dizendo que as cores choram de dia e as trevas entoam aleluias a noite. Sente o sabor azedo do linho em contato com sua pele e seus ouvidos atestando o tempo todo que tudo o que você come, tem a cor do desespero. 
E você, que nem aspirina toma, parece ter nascido com LSD nas veias.

Existem  aquelas coisas que você quer e pode compartilhar com aqueles que ama. Geralmente, amenidades, coisas pouco ou nada perturbadoras que não tiram o sono de ninguém. Outras, em muito mais densas, você só pode , na falta das bem treinadas orelhas de um Analista, gritar para dentro de você mesmo e num exercício de imaginação acreditar que não é o eco reverberando no vazio, mas uma voz interior te respondendo.

E você teima em ser denso num mundo de suavidades.

Daí você se move apenas porque ficou tempo demais na mesma posição e suas pernas têm cãibras (falta de potássio e perspectivas) Estivesse sentado numa praça, sua imobilidade confundiria os pombos e você seria obrigado por uma razão ainda mais desagradável do que cãibras a mover-se.  Não há um só lugar neste planeta onde possa aquietar a sua tranqüila monotonia.

Você só precisa da ferramenta certa para demolir essa fortaleza onde se encastelou a sua vaidade. Talvez uma pesada marreta de bom senso com que filosofar a sua solidão. Porque é tão importante ser bem visto aos olhos alheios quando aos seus próprios olhos você é invisível? E continua invisível ainda que te vejam com olhos bons ou maus, porque nunca verão além daquilo que desejam.
Você teima em ser profundo, num mundo de superficialidades.

Compre um livro de auto-ajuda, compre um carro bonito, consiga títulos e honras, colecione  palavras doces e pensamentos felizes e todo mundo vai te amar. Ou pode fazer o oposto e vitimizar-se além do humanamente digno e atrair compaixão, que é a mais ínfima migalha de respeito que lhe podem legar.

Pardais podem viver de migalhas, mas e se você tiver a natureza de uma águia ou de um corvo? Um poleiro seguro e afagos na sua cabeça outrora orgulhosa são um preço justo a se pagar pela perda da sua liberdade?
Sem mais vento no rosto?
Sem mais a alegria louca da queda livre?
Sem mais a divina perdição das almas vadias?

Livre- o Céu de ver-se repentinamente livre do seu céu!

Alguém passou por você numa esquina na Savassi e te olhou com um ar atrevido. Sentiu imediatamente o antagonismo e se perguntou  em que pesadelo ou sonho, (posto que nunca o viu cá, deste lado da realidade)  aquela alma contendeu consigo para sustentar assim o seu olhar de desafio em recíproca. Você gostou dele! Estivessem ambos livre das amarras sociais, teriam entabulado estranha conversa e é possível que se tivessem atracado em violenta fúria irracional. E você sente vergonha em admitir que já passou da idade de sentir vergonha em confessar que teria gostado disso. É o selvagem inerte em si, latente, domado por mil minúcias mundanas. Tanto quanto as mesmas que debelaram o espírito do  sujeito de quem se sentiu imediatamente irmanado. Que brutal mundo civilizado esse em que você vive!

E foi engraçado, porque ao vê-lo partir levando em si uma sufocada antipatia por você, sentiu tornar-se  mais real aos olhos deste estranho que te antipatizou, do que aos da maioria que lhe demonstram afeto .
Fugindo por entre a selva de concreto e lojas bacaninhas, esgueirando a sua estranheza por entre carros e pequenas iniqüidades do cenário urbano, vai...

Celebre a sua singular condição de estranho numa terra estranha, que é ao mesmo tempo sua casa e sua prisão. Subversão também é isso: amar em si aquilo que te ensinaram a odiar por razões não suas...