domingo, 9 de outubro de 2011

Desencontros



Foi  numa fala de um filme (acho que “Heart of América”), que um dos personagens resume a coisa desse modo; "A vida é chata, e aí você morre".
Parece simples. Pessimista, mas verdadeiro. Simplista, mas não tão breve quando se sofre, nem tão longa, quando venturosa...
A vida às vezes parece mesmo  ser uma sucessão de tentativas diárias de driblar a morte e viver parta temê-la por  mais um dia. E é extremamente chato viver com medo.
Pesa menos, quando não se está só. Mas dentre essa multidão que te aperta, esses que te sorriem e perguntam como foi o seu dia, esses que te adicionam em redes sociais e vão as festas de aniversários dos seus filhos e amigos, quem destes realmente te olha nos olhos sem recuar apavorado porque contemplou o abismo de uma alma humana?
Quem destes cujo sangue lhe corre nas veias ou lhe estão ligados por genuínos laços de afeto; quem destes que até apreciam seu modo mordaz e critico de encarar certas coisas, destes que sempre se lembram de algo espirituoso que tenha falado ou te citam positivamente em conversas quando você está ausente; quem destes sabe o que lhe vai ao espírito quando o mundo se encolhe na noite íntima por detrás dos seus olhos fechados?
Você ama essas pessoas, mas fica envergonhado às vezes, quando sente que está mais intimamente ligado àquela pessoa que cruzou o seu caminho um dia e o olhou de modo enigmático e se foi; alguém que você provavelmente nunca mais verá, mas que numa esquina ou rua qualquer, compartilhou realmente com você um instante no tempo, do que àqueles que te conhecem a décadas. E você sente saudade dessa pessoa em cujo olhar sua alma mergulhou por um momento...
A questão, é que aquilo que te poderia servir de referencial, sua ponte para as estrelas, sua tribo, aquilo que te poderia dar ou ser o seu lugar no mundo morreu, ou ainda não nasceu. Você está extemporâneo, eternamente  apartado do que lhe é caro. Sozinho como todo mundo, mas diferente de todo mundo, miseravelmente consciente de sua solidão, bem como de outras coisas. Não há fuga.
Aquilo, aquela coisa sem nome,  grandiosa como o sonho de um poeta, aquela marca indelével do potencial humano, morreu ou não nasceu (nascerá no exato momento em que você expirar e você sabe disso) ou então está tão alhures de si, perdida, tateando nessa humanosfera apartada da própria humanidade, que, é certo, está sempre um passo atrás, a frente ou fora da linha torta que desenha o seu caminho.
Talvez haja caído para cima, como é próprio da tribo, como um dia você cairá, mas o céu é vasto demais para possibilitar um encontro. Então não se fie numa esperança acima das nuvens enquanto você não for leve o bastante para alcançá-las.