terça-feira, 30 de março de 2021

O Segredo do Inferno

 


Então me deixe contar uma historinha curta:

D'Ararzzen era um mago que jogava cartas com o Diabo.
Não que ele fosse um mago "maligno" ou das trevas. 

Bem e mal era abstrações, a seu ver, das mais tolas.


Era só que o Diabo tinha um repertorio de piadas melhores do que Deus.

E Deus não gostava de perder.

("Eu que inventei essa droga de jogo!”, obtemperava em noites de mãos ruins.)

Além do mais, o mago era excelente jogador de pôquer e toda vez que ganhava de Deus sentia aquela ameaça velada...

Em noites em que Deus perdia muitas rodadas, resmungava furioso e ao longe ressoava um trovão.

“Vem chuva por aí...”, comentava D'Ararzzen, utilizando um subterfúgio pra se levantar e ir embora.

Vai nada!”, o Onipotente determinava.

Senta aí! Se eu quisesse, chovia quarenta dias e noite e acabava o mundo. Mais aí eu não ia poder recuperar minha grana nessa mesa. Revanche?

D'Ararzzen se sentava e , ainda que não fosse um sábio (se fosse não estava jogando cartas com aqueles dois), era inteligente o suficiente para rir sem graça das piadas sem graça de Deus e sair daquela jogada perdendo de proposito, mesmo tendo cartas melhores.

O Diabo ria e debochava mentalmente da cautela do mago: “Bundão!”


Enfim.
Uma noite, Deus não conseguiu uma desculpa boa para comparecer ao jogo, e na mesa em que só dois jogavam, o diabo estava em uma onda de azar.


Em resumo, o mago já tinha ganhado várias rodadas e o diabo estava ficando sem grana até pro taxi.

Estava tarde e D'Ararzzen decidiu encerrar a jogatina.
Mas o diabo teimoso insistiu em uma ultima cartada.

"O dobro ou nada!"

"Sem essa! Você já não tem mais um vintém nos bolsos...Vai apostar o que?"

O diabo pensou e não ia deixar barato. Afinal, era um mal perdedor assim como Deus.


Havia perdido até as calças no carteado, mas apostou o segredo mais bem guardado do inferno.

O mago, que era além de bom jogador, um excelente trapaceiro, topou e após o Diabo vitoriosamente lançar um Flush sobre a mesa,  com um Straight Flush esmagador venceu e obrigou o diabo a contar o tal segredo.


Puto da vida ('Eu que inventei a trapaça, merda!!"), o diabo pegou seu chapéu da mesa pra ir embora, virou o último trago de conhaque (com cinzas de cigarro dentro, pois foi usado como cinzeiro pelo mago e por ele próprio minutos antes) e ao sair, contrariado, mas fiel a sua palavra,  vociferou entredentes o tal segredo.


Que vou dividir com vocês agora.


"O segredo do inferno", disse o diabo,
"É que ele é completamente facultativo...”

11 comentários:

  1. Merecia uma lapidada, mas ficou legal

    Abs!

    ResponderExcluir
  2. Concordo com você, Scant...
    A historia é boa, mas não foi meu momento mais feliz escrevendo.
    Eu podia ter me esmerado em detalhes, aprofundado diálogos, contextualizar melhor muita coisa.

    Na verdade, eu criei essa historia em segundos em um debate em um grupo de Whatsapp, no qual eu argumentava que a dor inerente a dor é inerente a condição de estar vivo. Porem, o sofrimento é escolha. Se você estiver no inferno, está lá, não por ser castigado, mas por pensar que está lá porque merece.

    Voce escolhe ser punido. Escolhe seu sofrimento como se o merecesse ou para justificar sua existencia, o que é uma coisa louca qe a gente herda da cultura e da religião...

    Mais ou menos como a maioria das nossas mazelas quotidianas.
    Escrevi, me diverti e quis postar aqui, mas está claro que não foi o melhor que eu poderia fazer.

    A bem da verdade, estou pensando em dar uma lapidada em todos os meus textos.
    Obrigado por ler...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Faz tempo que não leio algo atual tão atual, Saghe, tão inteligente e psicanalítico e filosoficamente simples e lúcido, através do chiste, esse estratagema que se vale da piada, da comédia, para solucionar o mal estar. Se Sofisticado e, fiquei pasma, vi o Diabo e Deus perderem para um Mago que era um sujeito que sabia "trucar", o que torna o jogo imprevisível, pois depende de se saber ler as entrelinhas e as diversas linguagens- corporal, especialmente. A lógica do jogo não está na regra, mas na capacidade de jogar com o bem e com o mal.Arrasou, palavra de psicanalista!

      Excluir
    2. Prefiro troco a pôquer, gosto da anarquia!

      Excluir
    3. Insigths (alguns ao menos) são como a tal metáfora do Cavalo Branco da Oportunidade: Devemos montar nele quando ocorre porque sabe-se lá quando o próximo virá.

      Atualmente eu me considero um pós-ateu (sem ter me tornado teísta), então Deus e Diabos são arquétipos perfeitos para a gente se debruçar sobre muitas questões.

      Especialmente a natureza dualista do universo e das coisas.
      O diabo é a face má de Deus.

      São elementos muito bons para construções filosóficas e artísticas.




      Excluir
    4. Meu amigo Luiz... Pq vc sumiu? Sinto-me feliz em reve-lo!!

      Excluir
    5. Minha querida amiga Luciana!
      Oh, eu não sumi. Estava onde sempre estive: Em órbita de mim mesmo.
      Rs!
      Me mande um email, minha amiga. A alegria do reencontro é mútua e temos uns tres ou quatro verões para atualizar!

      Excluir
  3. "voce escolhe ser punido. Escolhe seu sofrimento como se o merecesse ou para justificar sua existencia" - me lembrou o que li sobre budismo - está tudo na mente

    estórias de jogo com o diabo são sempre legais. tem uma estória com o hellraiser (http://www.guiadosquadrinhos.com/capas/hellraiser/hel0301) onde, durante um jogo de cartas com o diabo, um cara aposta a própria vida pelo cubo que o diabo carrega na mãos (o cara não sabe que é o diabo)

    quando o cara vence o diabo nesse jogo, o diabo não entrega o cubo e meio que diz pro cara se dar por satisfeito e continuar a viver. daí o diabo levanta e vai embora.

    o que o cara não sabia também, é que o cubo era um portal direito pro inferno.

    hoje pensando nessa estória, imagino que o diabo tinha que cumprir sua palavra, pois se desse o cubo ao jogador acabaria tendo que levar a vida/alma dele, contrariando o resultado do jogo

    não sei se consegui descrever direito a estória

    abs!



    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Quando o Diabo é leal, pode-se pensar que o jogo ainda não acabou? 😉

      Excluir
    2. Marta, o Diabo é sempre leal a sua condição de ser o Diabo (talvez a única lealdade que realmente tem) e não pode fugir dela tanto quanto Deus não pode fugir a sua condição de ser Deus.

      Se o Diabo aposta, é pra valer. Mas como é o pai das mentiras, eu preferia desafiá-lo no xadres ou gamão.
      Pôquer é pra quem sabe blefar, daí ser o jogo no qual o Diabo vai se sobressair.

      Excluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...