segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Os dilemas de um homem sutil




"Ouse, ouse... ouse tudo!!! Não tenha necessidade de nada! Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém. Acredite: a vida lhe dará poucos presentes. 

Se você quer uma vida, aprenda... a roubá-la! Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer. Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso: algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!!"


Lou Andeas Salomé


Eu ia dizer que é engraçado como, diferente dos cérebros que os pensam, certos pensamentos nunca envelhecem.  Como esse de Lou Salomé...
Mas a verdade é que isso não chega a ter graça.
Isso sequer é uma coisa extraordinária.
Isso simplesmente é.

E a natureza de um homem por vezes se volta contra a simplicidade das coisas e ele se rebela contra a simplicidade, quando talvez fosse mais sábio rebelar-se contra a sua natureza. 
Intimamente, arde-lhe uma certeza velada e uma voz lhe sussurra: "Não é assim. Deve haver algo mais".
E com uma frequência desconcertante ele tem confirmações excessivas da simplicidade do mundo, enquanto anda as cegas, procurando o sentido profundo das coisas.
O que quer que isso seja.

Há no mundo um tipo de lógica matematicamente cruel.
Verdades cruas, que só o paladar de um selvagem pode apreciar com refinamento.

Por exemplo, que não se pode aparentemente obter uma quota de alegria sem que em algum lugar a balança pese em sentido contrário e como resultado, o seu deleite se converte em desespero para outrem.

A vida dá mesmo poucos presentes.
Em compensação, pode tirar tudo o que você consegue obter. Pisque os olhos e já foi.
Você ficou velho, perdeu muito e ainda não encontrou a droga do sentido profundo das coisas.
A duras penas vem, facilmente se vai.
E tem verdades que incomodam, mesmo quando se passa pelo próprio julgamento.
Deve certamente, haver algo de errado quando você começa a pensar que ver alguém se desvencilhar de ideias velhas é tão ou mais sedutor do que uma mulher se despindo.

E quando se começa a questionar, sem aquele constrangimento próprio de quem se pensa virtuoso, a natureza do que chamamos de bem e mal e se percebe que é tudo uma questão de tempo e momento histórico e retórica e cultura, põe-se em cheque a própria concepção do que é ser humano.

Princípios são coisas traiçoeiras e submeter-se a eles é meter-se numa paralisia moral enquanto sua vida cai a sua volta como um castelo de cartas.

Então as veredas, diferentes daquela trilhada tão teimosamente, se abrem como um mar de possibilidades quando se quebra certas correntes, mas a paralisia está não somente no apego as ideias velhas, mas na consciência de que ha preços que não se pode pagar.