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terça-feira, 28 de março de 2023

Ao Menino Manco Diante de Quem Fechou-se a Porta No Monte Kolppenberg




Nasci ao mundo, terra estranha, para nele estar estrangeiro, talvez em papel mais confortável, do que o anterior, de apátrida na minha terra natal.

E nessa, que era então uma terra de espinhos morais, por um longo tempo caminhei com alma e pés descalços.

Mas agora, caminho por palácios gigantes de concreto e vidro e aço polido e percorro os salões enormes, onde homens tambem polidos, duros como concreto  e com corações de aço, que veem a si como gigantes, sentam-se em tronos outorgados e decidem o destino de muitos.

Nesta seara igualmente espinhosa, eu caminho no piso de mármore frio, ressoando com meu  pisar o  do som dos passos de muita gente em pressa.

Nos pés levo sapatos que custam o salário de um trabalhador e na alma, a certeza de estar vivendo em vão.

Desgostoso, deixo a mente escorregar, deslizo para os reinos da memória e me lembro...

Foi me dito que no início, Deus criou o céu e a terra e então, dentre tudo isso, dedicou especial atenção em meio a ordem criada, ao que seria  o meu quinhão de caos e de dor.

Destinaram-me a uma vida servil, de costas e cabeça curvadas, mãos e alma embrutecidas a lavrar do solo o sempre insuficiente pão.

Deram-me na saída, aspirações subalternistas com que me distrair nos momentos de folga  e me estenderam a garrafa onde, por sonhos etílicos, no esquecimento da minha miséria, também desapareceria nas minhas alienações do eu, a consciência da dureza da minha servidão destinada.

Apontaram-me altares vazios diante dos quais eu deveria me curvar e oferecer com fé orações que seriam frequentemente ignoradas. Mostraram-me deuses indiferentes ou surdos, aos quais eu deveria oferecer lágrimas e súplicas e paradoxalmente os temer e os amar.

E, nos arremates da minha sina, entre os atos de nascer sozinho  e morrer violentamente,  existiria um hiato de tempo em que meu corpo serviria ao conforto dos que seriam os eleitos à grandeza e seria para mim o palco do espetáculo amargo das minhas dores e do meu desamor.

Algo, no entanto, falhou e eu me tornei ainda mais miserável, estando o tempo todo dolorosamente consciente de mim mesmo e do que poderia ser o meu destino.

Na infância, no jardim interno que toda criança leva na alma, vicejava em meus pensamentos uma chama a que eu não tinha o direito.

Como um pequeno Prometeu mal nutrido, de pele marrom e cabelos crespos, roubei-a ao diabo ou a deus e com ela atormentei-me com pensamentos de grandeza, de nobreza talvez ilusória, enquanto me apunhalava o estômago em estocadas dolorosas a fome comum daqueles tempos.

Era a alma-em-espinhos desejando florir  de um menino pardo, os pés descalços na poeira vermelha do tempo, em uma terra árida e de homens ásperos, fotografia velha em que o tempo levou as cores e as memórias, nos anos de mil novecentos e setenta e tantos sofrimentos gravados na cabeça cheia de sonhos, a margem da vida, quando não havia alimento para o corpo, amor para a alma ou futuro para o mundo.

E lá, na poeira vermelha, por entre ruas sem calçamento, agua poluída, fome, doenças, miasmas  e gente sem metafísica, poderia haver poesia onde sequer havia pão?

E ainda assim, teimava em surgir na pulsação do meu espirito ainda indomado, o impossível dentro do possível, o infinito ardendo na palma da mão pequena, magra e de unhas sujas. 

Nos limites invisíveis da minha prisão sem grades ou trancas, um mundo vasto delineava-se no anseio de ser mais do que o corpo frágil, constantemente carente de nutrientes e afagos, o estômago roncava e eu sonhava com a Terra do Nunca, poesia brotava na mente no mesmo ritmo que se estragavam na boca os dentes sem tratamento, e passava a paralisia cinza do tempo entre as  paredes sem reboco e por entre almas sem abstrações.

Para onde foram esses dias perdidos? Em que passado refeito no meu emaranhado de traumas perdeu-se minha pequena e brilhante alma, o futuro e a chama verde e teimosa da esperança? 

Fecho os olhos para o passado e os abro ao presente e olho para meus sapatos lustrosos, que custaram o salario médio de um trabalhador, (talvez um homem enorme,  melhor do que eu, alma simples de  mãos calosas que  ergueu do nada esses palácios em que seu destino é decidido) e sinto por mim mesmo um desprezo profundo, próximo ao rancor e fujo pelos corredores sentindo o olhar acusador e atemporal de um menino marron, criança parda perdida na poeira do tempo.

quinta-feira, 23 de março de 2023

Sândalo Caído 2- (ou sobre como a fábula da vida é contada sem zelo)

 


Da extinção do sândalo caído compus um poema tolo,

Em momentos de febre de sentimentos.

O gume frio do machado perfumado,

Que me inspirou versos tão insípidos

Nada valia sem o cabo que o empunhava.

O cabo, fora feito de um galho do sândalo,

E o Sândalo o forneceu à mão que o deitou.

E eu me juntei a camarilha sem inspiração para dar voltas no entorno de contradições vazias.


Mas à beleza daquela mulher insana já haviam cantado demasiados poetas ...

E ela ficou fria, bocejou votando aos meus versos banais - oração sem fé de uma alma atéia - justa indiferença.

E foi brincar de ser vento e dar nós nos pensamentos daqueles a quem sua loucura inspirava mais verdadeira e violentamente.


O sândalo caído e minha fé perdida…

A despeito da minha inércia, 

Sobre a trilha antiga, a vida se ergueu novamente em floração

Tempos e silêncios deram as mãos e as muitas chuvas lavaram da terra o perfume de sua queda.


E eis,

Tudo tem um início e nesse inicio já está delineado o seu fim.

Isso se aplica a chama da lareira, ao sândalo caído e a coisas em demasia.

Sinto isso, mesmo que minha razão teimosa fraqueje em aceitá-lo.

Reviro as cinzas da lareira a cata de uma ultima brasa e repito, sussurrando baixo, tentando convencer a mim mesmo:

Não foi a minha mão, não foi meu o machado”

E não serei cúmplice da minha própria queda hoje,

Mais do que fui dessas linhas sem inspiração, que minha impaciência lança ao fogo do meu esquecimento.

Talvez quando esta derradeira labareda se extinguir por fim,

Eu finalize esses versos bem como a tentativa de não pensar na sensação estranha de que minha história está sendo reescrita por mão invisivel e displicente.

E talvez por fim, o frio me expulse dessa janela,

E va dormir um sono silencioso e sem sonhos.


quarta-feira, 1 de março de 2023

Ouroboros - Ou da Dinâmica Entres os Que Sonham


 

Na obscuridade das minhas linhas, em sono descuidado, sonhei que você me sonhava,
E foi dessa forma, que comecei a duvidar da certeza da minha inexistência,
Que eu era aquela ficção contada por mim mesmo ao nada, que respondia em eco com a minha voz,
Nas horas voláteis, no vazio dos dias entre o horário do almoço, o sono do divã e a sessão das dez.

Se você existia, era suposto que eu também haveria de ser o sonho sonhado por outro sonhador.
Tal qual o sonhei primeiro em dias muito antigos.
E então me pareceu haverem flores brotando em um abandonado jardim do eu,
Uma primavera implacável rompendo em verde no cinza dos meus outonos da alma.
(E se meus dedos inábeis pudessem ao piano acompanhar as batidas rítmicas do meus desejos, ao criar possibilidades onde antes nem vazio havia,
Eu faria uma música de inefável beleza que levaria o seu nome).


De alguma forma, sinto que seu nome soa como o retinir de pequenos sinos a badalar dentro de uma fantasia.
Talvez voce tenha nome de flor, de pedra preciosa que seja ou talvez quisera o amor ou a fé de seus pais dar-lhe o nome de uma rainha antiga ou o de um profeta
(E, deus!, em meu devaneio, vejo-o precioso, mas não como pedra, perfumado como uma flor reluzente, e, talvez você seja mesmo uma rainha no império do coração de alguém ou profeta incompreendido e rejeitado por seu próprio povo).


Retiro os olhos desse livro onde o crio e o sonho em letras, as tuas formas lindas e desconhecidas tomando corpo no destino de tudo o que posso desejar, 

E ainda mais sonhador olho para as direções à volta do meu cárcere suave, mas então perco-o de vista, pois sinto-o mais vivamente nestas linhas em que escrevo ha anos uma carta de amor e que você existe em um ponto cardinal que levo dentro da minha mente.


Observo escritos passados, na gaveta fechada a chave e vergonhas.
Desinvestidos dos sentimentos que lhes deram forma, parecem-me a soma de todos os olhares estrangeiros onde reconheci os teus olhos de passagem.


Penso em tudo o que eu pensava quando não estava pensando em você e me surpreendo a te ver delineado em todos aqueles pensamentos.


 
 


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Poema que Correu Fora da Realidade

 


O que há de real e verdadeiro,

há, de real e de verdadeiro,

Ainda que fora da minha percepção.

 

Filosofando versos para a escuridão sem rima, 

Me esquivo dos cumprimentos polidos de toda a gente de alma pálida,  que me quer banal e citadino.

(Se ao menos um visse que na escuridão dos meus olhos ardem estrelas…)

Naquelas horas  de êxtase místico, contando as batidas do meu coração em descompasso ou 

desenhando a rota dos pássaros em voo, eu resisto.

Existindo no esforço de existir.

Relativizando o nada.

O mesmo nada, tão vasto e tão amplo quanto o tudo.

O tudo que há, de real e de verdadeiro.


É a musa intangível, que meus devaneios querem humana,  para calar as necessidades de literatura.

É Deus inexistindo ou existindo como coisa que não compreendo,

(como não o compreendem os que o pregam em latim ou o apregoam como coisa que se venda)

Pairando como mistério  inescrutável acima das minhas orações sem fé, 

Mas reais e verdadeiras.

Os meus medos, esses são imaginados e por isso mesmo, ainda mais terríveis.

E eles doem, como a culpa daquele que quis pecar e não pecou e sofre com a certeza 

de que lhe bastou esse querer para o condenar,  

mas sofre  ainda mais pela delícia não vivida do pecado desejado mas não cometido.

 

E, talvez um pecado cometido,

Seja mais real e verdadeiro do que uma virtude que não nasceu e ficou só na intenção de ser nobre.

 

 

 

Arte: Alexander Ant, via Pexels 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

O Problema do Copo 2- (ou de como uso utensílios domésticos para forjar delírios)


 

O copo é outro, claro, eu porém, penso ser o mesmo ou, no mínimo, reconheço-me  nesses fragmentos que ficaram daquilo que eu fui. 

Renovo o meu Eu antigo dando-lhe polimento  e reestreio velharias psicológicas no afã de forjar do mofo  algo que seja novo e reluzente.

Mas a questão que me paralisou, foi que eu bebi do copo muito menos agua do que usei momentos depois, para lavar o copo no qual bebi. 

Absurdo e absorto, fiquei feliz e triste pelo dilema que iria me consumir nas próximas horas e pela água que desceu pelo ralo em maior abundância que pela minha garganta.

Os paradoxos, são o meu brinquedo favorito para passar as horas de ócio meditativo.

Uma criança a brincar com cacos de vidro e lâminas de barbear.

"Para inicio de conversa - pensei enquanto lambia o sangue dos dedos e recolhia os cacos do chão - , eu nem mesmo estava com sede de água, mas de metafísica e de poesia."

E mais ainda -  será que o que ainda em mim há,

Há de querer o que não há mais em mim? -

Não tenho o bastante que me inspire a ser generoso, 

Mas bem posso compartilhar ausências e dividir meus hiatos.


"Mas como me falta o que quero e o que tenho não me preenche, 

estou cheio de insuficiências, 

repleto de vazio e transbordante do desejo de estar cheio."


A terra girou tantas vezes em torno do sol e eu, sem eixo, em torno de mim mesmo,

E nem entrou na minha contabilidade líquida, 

As lagrimas que verti, (tolo e comovido com a própria tolice),

Quando pensei no oceano que lancei pelo ralo,

Nos meus atos de higiene equivocada.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Insone 2


Coloco  um copo de água no batente da janela.

Olho para a noite abafada que não me olha de volta.

E, na coletânea de pequenos mistérios que compõem o vitral dessa vida imensa, acresento mais este; de como é possível que as duas horas da manhã ainda esteja fazendo calor, nessa terra paralisada e sem vento…


Quente demais para dormir e quente demais para ficar acordado.


Eu estava lá, ainda agora, imerso na perfeição de um sonho. 

Era uma Ágora composta de muitas versões de notáveis raciocínios.


E tudo me estava tão claro, coeso,  límpido como um espelho novo.

Dialogava em lógica perfeita, fria, desapaixonada, desinvestida dessa voracidade e urgência que parece permear todos os meus pensamentos em febre.


E me vinham filosfias - agora perdidas - tão lúcidas, alinhadas, confortáveis como o zumbido de uma máquina que se sabe, em perfeito funcionamento.


No limiar do sono, entre aquele mundo das formas perfeitas e este, em que tudo me dói,  recusei-me tão veementemente quanto me permitiu o cavalheirismo a que eu estava investido, na confraria elegante do meu parlamento onírico, a tornar a este mundo estático de pensamentos rodopiantes.


Mas privado da tenaz ferocidade com que defendo e ataco pontos de vista a vista dos pontos que se me apresentam nesse mundo, deixei-me persuadir pela lógica implacável daquele lugar, e deslizei de volta, relutante e dócil, pra este mundo insone e ilógico.

(Quente, meu Deus!)


E tão implacável quanto a milimétrica lógica na qual instantes antes eu embalava um sonho, a realidade desse mundo desabou sobre mim, lançando sobre meus olhos e sentidos, uma coritina de confusão.


Tento organizar a algazarra dos meus pensamentos em louca debandada e em atropelo; uma manada querendo passar todos ao mesmo tempo pela porta estreita da percepção, tendo atrás de si sentimentos terríveis (sempre esses malditos sentimentos terriveis!) a tanger-lhes para dentro e para fora.


(Deus, que calor! Por que é que nunca venta nessa cidade?)


Instantes atrás, dentro de compartimentos organizados nos sonhos…


Tudo o que eu pensava estava  coreografado, impecavelmente coordenado. E em uníssono acordo, polidos, políticos e éticos, esses muitos pensamentos que enxameiam agora o ar como moscas repelentes, estavam arquitetados como fileiras de átomos e eu lhes podia chamar por nome e os reconhecer como filhos, embora fossem milhares.


E essa queda, para a clivagem, para a ruptura, um exercício de catar pedaços de si mesmo chamado Vida Desperta foi acertada por um conclave que, quando deliberou me pareceu tão lógica…


Mas então aqui,  na janela, no ar quente e parado, fitando uma noite quente - e de alguma forma imunda como um pesadelo, sem barulhos noturnos, sem sons de grilos ou sirenes ou qualquer som que denuncie a vida - uma noite que não é carinhosa e cheia de mistérios como era na minha terra, organizo-me minimamente e ao tentar deslizar de volta e sem muita expectativa, para um sono sem sonhos, me pergunto...


Se é sensato que um homem deposite toda a sua esperança na mutabilidade impossível de um passado inevitável.

domingo, 12 de fevereiro de 2023

Aqueles Dezessete Segundos...



Ficou surpreso quando percebeu-se ainda irresponsavelmente sonhador…

Pensava já ter perdido em algum canto da memória ambas as capacidades; a de sonhar e a de se surpreender.

Talvez lhe devessem jubilar na vida, pois há lições que ele obstinava-se a não aprender e apreender, ainda que lhe fossem dura e constantemente ministradas, vez após vez.

Vai saber o que move a fé de um homem sem fé em si mesmo…

Os dias escorrem monótonos por semanas que se arrastam lentas, dentro de meses congelados nos anos inertes…

Dezessete segundos…

Um estremecimento dos sentidos, uma fragilidade diante da própria fome de tudo, e lá está ele a espera de um momento de êxtase, um orgasmo físico ou moral qualquer que lhe fulminasse e deste modo pudesse descer o pano da sua vida em um instante de arrebatamento sensorial.

Entre os nacos do quinhão do amargo tédio nosso de cada dia, ele conta momentos, passando o tempo no esforço de passar o tempo, a espera do intervalo da vida, naqueles segundos.

...

A dança caleidoscópica dos corpos havia terminado e cada qual, lado a lado, experimentava absorto a sensação de paz perfeita decorrente do cessar dos gritos famintos dos hormônios. 

Um silêncio dos sentidos que durava sempre, exatos dezessete segundos.

Dezessete segundos de paz inebriada.

Ele deixa a mão escorregar para o chão, os dedos a tocarem de leve no piso frio, e a mente vagar, na batida do coração na ponta dos dedos, uma fantasia delicada de que não é seu corpo, mas o planeta que pulsa e vibra suave, enquanto ele luta para não escorregar para um sono gentil.

Um sono do qual ansiava intimamente, não precisasse mais despertar.

“Se eu dormir agora, corro o sério risco de acordar e ver nos olhos dela a decepção e a certeza de que me tornei um clichê.”

Ele não queria parecer insensível e pensava sim que era coisa absolutamente linda e desejável ficarem abraçados no escuro. Que modo há de encarar o escuro, senão o de estar entrelaçado no amor do outro?

Ainda assim, esperava que ela lhe desse aquele momento.

Aquela pausa de si mesmo e de seus medos futuros de solidão pretérita.

Se ele pudesse, escorregaria para dentro daquele instante que havia entre o tic e o tac do relógio, o momento do tempo real, pois cada parada do ponteiro, era um momento que já se foi.

Cada momento lembrado é um momento morto para além do tempo.

Menos ali, naquelas batidas cada vez mais lentas do coração na ponta dos dedos, não mais o seu coração, mas o coração do mundo.

Se ao menos pudesse...Ele se perderia voluntariamente ali.

Existiria dentro um instante que fosse eterno, não como coisa que passou.

Pois todo o tempo que se tem é sempre o tempo que já passou.

Menos aqueles dezessete segundos.




sábado, 28 de janeiro de 2023

Opiniões

Tinha antes opiniões Estúpidas, como são todas as opiniões Era então um estúpido a ter opiniões estúpidas E tendo hoje essa opinião, Sou um estúpido a ter opiniões estúpidas sobre ter opiniões.

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Sobre Pontes e obturações

 Quando em meus exercícios de imaginação, nas horas de ócio pelos quais me culpo, deixo a mente deslizar e imagino-me frente a frente com meu eu.

Um Luiz, abstrato e físico, tal como eu, um conceito de qualquer coisa humana.

Ali estaria eu, ante meu doppelganger, um eu clonado à imagem e semelhança do meu tédio.

Naturalmente, entraríamos em franco ato de pugilato, coisa terrível à vista de almas sensíveis, e eu desferiria socos sobre socos na boca que nunca consegue ficar inerte sem emitir opiniões e partiria a disparos de voadoras todos os ossos do meu corpo outro e do meu difícil ofício de ser humano..

Ato contínuo, eu destruiria os meus precários dentes a pontapés, alegre, embriagado de violência e desforra, absolutamente esquecido do quanto me custaria na contabilidade do dentista todas aquelas pontes, implantes e demais obturações, para que eu pudesse continuar a me dar o prazer fugaz de comer azeitonas.

Oh, que maravilha seria poder represaliar a mim mesmo de todas as vergonhas e constrangimentos, de todas as paixões e febres da alma...

Nesses exercícios, quase sempre vejo a mim, este quase cinquentenário a destruir o menino tolo que fui, sempre encantado por tanto que ignorava sempre a distancia que havia e ha entre o que é e o que era o seu desejo que fosse.

Aquela minha alma de menino ardia e forjou nessas labaredas as lembranças que hoje retorcem-me as entranhas de pesar, raiva e culpa.

Vendo-me hoje vergar as costas, coração e motivos, pelas mesmas forças que me moviam ha tanto tempo, sentindo a perdição em devaneios meus que não ressoam no real, os nervos aflorando em busca do nada, criando como uma criança, fantasias (bem mais coloridas do que esta na qual me atraco em homicídio-suicídio de mim mesmo, mas tão frívolas quanto), sinto uma revolta surda contra meu eu ja velho e implacavelmente tolo.

Que ridículo!

Então minha perspectiva recua ainda mais, torno-me ainda mais alheio, observando a essa imaginada batalha de mim comigo mesmo,  e esse outro, terceiro eu, agora observador da lide auto-imposta, vendo o embate, talvez torcesse para que o eu mais jovem, ciente do que se tornaria na figura do seu adversário mais velho e absurdamente irado, talvez encontrasse forças o bastante e levasse à morte a triste versão de si mesmo na qual inevitavelmente se tornaria.

 É viver o bastante para considerar-se um ser absolutamente repelente.

domingo, 11 de setembro de 2022

Ensaio sobre a dúvida e outros vícios

 ...e naqueles momentos em que consigo colocar a cabeça pra fora do lodo da auto-culpa e fico um tanto sóbrio das carraspanas de autopiedade, me atrevo a me imaginar uma pessoa cuja opinião seja relevante o bastante para que alguem gaste os olhos a lendo.

Passo muito tempo com os dedos inertes neste teclado, olhando para a tela procurando intimamente argumentos que me convençam de que ainda há algo que valha ser dito.

Algo que eu me atreva verdadeiramente a dizer.

É sempre mais fácil colocar a alma nua diante de estranhos cujo julgamento a gente não teme do que confessar pra si mesmo que aquelas pessoas mais próximas te colocaram dentro de um modelo no qual a sua fragilidade humana vai, decerto, decepcioná-las cruelmente.

Os estranhos, aqueles que te leem em lugares alhures (supondo-se, é claro, que alguém o leia), podem olhar com simpatia para suas incongruências e colocar seus sonhos e pesadelos na esfera da literatura. E com tais devaneios, no conforto dessa desculpa, me permito derramar meus inconstantes escritos neste espaço e, ao mesmo tempo em que diminuo a necessidade de sentir o que escrevo, posso ampliar através dessas letras, o universo íntimo de quem me lê.

Se não pensasse dessa forma, a culpa de tudo e de nada que me deixa uma sensação de podre na alma, não me permitiria escrever.

No último ano, a vida deu uns saltos. 

Passei em um concurso do judiciário do meu estado e tive que sair de Belo Horizonte e vir morar em uma cidade do interior. 

Moro há uns três quarteirões do Fórum, para onde vou a pé em caminhada tranquila e onde dou expediente de seis horas para receber de salário cerca de duas vezes o que eu recebia em meu antigo trabalho.

Haveria de se esperar algum senso de realização pessoal nisso, porém, receio que haja mesmo uma classe de criaturas que não foram talhadas para estarem satisfeitas e que eu pertença a essa fauna lamentável.

Em minha defesa só posso afirmar que sucesso material nunca foi o meu alvo na vida, embora eu esteja ciente de que minha situação agora confortável, está aquém do que eu poderia ter alcançado se não tivesse a mente constantemente atolada em um charco emocional.

Vou completar 49 anos em dezembro e seria redundante dizer que me sinto velho e cansado, embora fisicamente eu pareça (na opinião alheia) uma pessoa com trinta e poucos.

Sou redundante.

Me sinto velho.

Me sinto cansado.

E depois dos trinta e cinco anos, todo ser humano está mais perto do dia em que vai morrer do que do dia em que nasceu.

É uma conversa lúgubre, eu sei. 

Mas só garotos cuja idade ainda não completou uma "trintena" podem se dar ao luxo de fingir que são imortais e deixar conversas sobre a morte para os filósofos e os velhos decadentes, como eu sou nos pensamentos e sentimentos.

Em 2018 eu comecei a experimentar fenômenos psíquicos que abalaram todo o meu sistema de não-crenças.

Tive e documentei muitas experiencias neste sentido e tendo vivenciado o que eu vivi, não seria honesto da minha parte me agarrar a um ceticismo obstinado e eu substituí a certeza de nada haver depois da vida física se encerrar por uma dúvida saldável.

Não existe morte. O que existe é o encerramento da vida física. Eu não acredito. Eu sei. E saber é melhor do que acreditar. Embora eu esteja ciente de que este saber em mim parecerá a olhos outros mais uma crença.

Se me aprouver, contarei minhas experiencias aqui, pois quem sabe não seja útil a outros como as de outros foram úteis a mim?

Não tenho mais medo de morrer. Se é que algum dia tive. E gostaria de dizer que não tenho também ansiedade neste sentido, mas isso não seria coisa honesta de se dizer.

A vida tem sido uma carreira de dissabores que compuseram muito do que penso e do que sinto, me dando uma natureza até então, irremediavelmente melancólica e embora existam pessoas a quem amo além do que posso descrever e eu tenha tido os meus bons momentos, não vou lamentar quando essa aventura chegar ao fim.

O que me deixa realmente amedrontado, é não ter vivido a vida que deveria ter vivido e se não o fiz, não foi por falta de desejo de a viver, mas por estar profundamente ignorante do que afinal seria essa vida. 

Não quero partir tal qual eu nasci, com medo, ignorante e sozinho.

Sinto necessidade de descanso.

Mas não sei dizer se haverá descanso ou o início de outra jornada, mas espero ao menos, não levar comigo nessa nova viagem a bagagem pesada dos meus atuais pensamentos.

Talvez por estar ciente de que me aproximo pouco a pouco do desfecho do que quer que seja a vida, eu a tenha tornado uma coisa mais responsável, como se cada ato meu tivesse de ser uma linha do tecido que comporá a minha mortalha.

Sim, estou me sentido absolutamente velho e cansado, mas de alguma forma misteriosa, a percepção deste cansaço tem tornado também o tempo que me resta algo de precioso, pois eu não tenho mais tempo a perder com "vinhos e velas". Preciso ir direto ao ponto;

Urge que eu faça o que preciso fazer, o que é de minha natureza fazer. O que é o meu projeto de vida, esquecido em meio a esse turbilhão de carências e receios em que manquei ao longo de quase meio século.





quarta-feira, 2 de março de 2022

RETICÊNCIAS - Alvaro de Campos

Organizar a vida... 
Pôr prateleiras na vontade e na ação. 
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado; 
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa! 

Vou fazer as malas para o Definitivo! 
Organizar Álvaro de Campos. 
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem — um antes de ontem que é sempre... 

 Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei. 
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir... 
Produtos românticos, nós todos... 
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada. 
Assim se faz a literatura... 
Santos Deuses, assim até se faz a vida! 

Os outros também são românticos, 
Os outros também não realizam nada, e são ricos e pobres, 
Os outros também levam a vida a olhar para as malas a arrumar, 
Os outros também dormem ao lado dos papéis meio compostos, 
Os outros também são eu. 

 Vendedeira da rua cantando o teu pregão como um hino inconsciente, 
Rodinha dentada na relojoaria da economia política, 
Mãe, presente ou futura, de mortos no descascar dos Impérios, 
A tua voz chega-me como uma chamada a parte nenhuma, como o silêncio da vida... 

Olho dos papéis, que estou pensando afinal em não arrumar, para a janela por onde não vi a vendedeira que ouvi por ela, 
E o meu sorriso, que ainda não acabara, acaba em metafísica. 
Descri de todos os deuses diante de uma secretária por arrumar, 
Fitei de frente todos os destinos pela distração de ouvir apregoando, 
E o meu cansaço é um barco velho que apodrece na praia deserta... 

E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secretária e o poema... 
Como um deus, não arrumei nem uma coisa nem outra...

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Destes pedaços de Luiz que Vou largando Enquanto me perco - ou sobre uma tela em branco

 

Paralisia súbita, nos dedos e nas ideias, enquanto olho impassível a tela em branco. 

...

"Que diabos estou tentando fazer?"

É difícil dizer honestamente o que move a maior parte das nossas ações. Só o ato de pensar nisso já nos paralisa.

Como agora ha pouco, diante da tela em branco.


Olhei o vazio na tela e pensei:

"Que lindo! Imagine esse nada magnífico na cabeça e nas artérias". 

Senti um calafrio agradável e involuntário deixar minha pele arrepiada enquanto navegava neste devaneio...

Mas não. O niilismo barato não vai me salvar no dia de hoje.

E então os dedos se movem e lá vou eu, tanteando no escuro e no teclado, deixando mais fragmentos de minhas dúvidas emporcalhando a existência...

As vezes fico furioso e nostálgico... Saudoso, não de situações e nem necessariamente de pessoas, mas da época em que eu me iludia de que no fim, conseguiria inferir algum sentido nessa loucura chamada "vida". 

O fim se aproxima, vou descrendo de tudo e sinto saudades do meu otimismo militante e fanático.

No entanto, um dos resultados trágicos do amadurecimento é a perda da capacidade de se auto-iludir. 

Abala mais do que rugas e dores nos joelhos.

Gosto de pensar que sou movido por motivos nobres ou virtuosos, mas como fugir da sensação amarga de que na verdade sou só mais um animalzinho assustado com medo da noite, com a barriga roncando de fome, procurando me aquecer e atender a urgência do cio?

...

Tenho evitado ler ou conversar com pessoas que amo e admiro, porque sei que tudo o que vou pensar em seguida, qualquer coisa que me saia da boca ou dos pensamentos que enxameiam o meu cadáver cerebral, será então um diálogo íntimo e intuitivo com essas letras e com essas pessoas. 

Traçarei a linha das minhas ideias reagindo por dias com lirismos alheios e vou afirmar envaidecido pra mim mesmo, que sou qualquer coisa de extraordinário como pensador, enquanto meu desamparo debocha e afirma o contrário... 

Quando na verdade, minha maior ambição seria não pensar em nada. Não reagir a nada. Ficar tal qual essa tela que minutos atrás estava limpa das contradições cansativas que nela digitei.

Quando tudo parece encolher como em um outono perene...

Quando na verdade tudo no mundo me confunde  e eu ainda que eu ame, já estou meio farto de amar as pessoas de maneira tão súbita e ardentemente. 

E me pergunto se alguém já esteve realmente farto de amar ou se foi só uma  maneira melodramática e menos poética de dizer que "o meu cansaço é um barco velho apodrecendo em praia deserta..."

Além do mais, amor não solicitado dificilmente é bem recebido ou valorizado (se tolerado)

Talvez pensando nisso, andei relendo algumas coisas que escrevi ha mais de uma década atrás, época em que eu ainda me permitia apaixonar pela ficção que eu criava das pessoas e só o diabo sabe como me diverti lendo aquilo.

Já consigo olhar com simpatia para o moleque de  trinta e poucos anos que eu fui (o que já e um avanço), mas não consigo fazer as pazes com minha versão de cinco anos atras e sinto um rancor profundo da pessoa que eu era na semana passada.

Talvez eu possa concluir disso que provavelmente  daqui a 12 anos (Deus!), aos sessenta anos serei indulgente para com este ser por quem agora sinto exagerada repulsa, mas é quase certo que nesta mesma época terei pensamentos amargos sobre mim mesmo aos cinquenta e tantos anos.

Acho que na verdade, se vivermos o bastante vamos concluir que nunca somos o que queremos ser.

Só reinventamos o personagem que até ontem interpretávamos e seguimos o roteiro da vida que nos convenceram de que era a nossa.


Agora são 16:21

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Texto sem data (ou ainda em busca de sentido)

É, eu sei que já fui mais caprichoso aqui...
Tanto na arte gráfica quanto na qualidade do que escrevo.
"Mas se eu esperar ter novamente aquela chama criativa que me acometia em momentos de epifania, em que eu estava em êxtase por reinventar a roda, acho que nunca mais escrevo."
Não há nada de novo debaixo do sol...

Reconheço que me esmerava mais para que vir aqui fosse interessante a quem por acaso me lesse, porque intimamente eu tinha consciência de que plagiava a mim mesmo constantemente, compartilhando vez após vez a minha estupefação por estar vivo.

Estou vivo. 
Vivo e faminto de viver.
Isso resume praticamente todos os meus textos ao longo dos anos.
E passado tanto tempo, desde que ficava absorto olhando pro céu da minha infância imaginando como diabos aquelas nuvens enormes pairavam acima, livres, enquanto eu,  pequeno e esquálido,  não conseguia sair do chão, estou estarrecido por ter aprendido tão pouco e já quase no limiar de minha vida, ainda não saber como viver neste mundo de regras tão absurdas.

Isso é cansativo. 
Eu não viajo muito. Se viajasse mais, teria fotos na praia ou coisa que o valha para postar em rede social. Que eu não tenho. 
Também não tenho cachorros. As pessoas gostam de fotos de cachorros e de gente na praia, creio.
Ainda que eu suportasse o sol a pino, areia na sunga e em todas as minhas cavidades corporais, e pêlos nas roupas e cheiro de xixi pela casa, não consigo imaginar que motivos alguém teria para ficar olhando minha vida desinteressante, meu vira-latas pulguento dentre tantas vidas desinteressantes e vira-latas que já pululam nas redes sociais.

Na falta dessas coisas (que,  contrariando minha falta de imaginação,  aparentemente é tudo o que interessa as pessoas hoje em dia), compartilho como sempre fiz meu desamparo diante da minha vida que se esvai e da fome de viver que se torna aguda como uma coceira que não se pode coçar. 

Tenho estado em guerra com a minha humanidade. Batalhando ferozmente contra meus instintos (que perto de completar 48 anos, penso que já deveriam ter se arrefecido), pensamentos,  vontade de agir ou de inércia e me sinto perdido.
Como se ser gente fosse errado. 
Talvez seja mesmo. 
Talvez a nossa humanidade seja um crime.

Do contrario eu não receberia tanta sanção da minha consciência apenas por querer, como toda a gente, exercê-la.
Somos pois, uma raça de criminosos naturais?
Isso é o que posso dividir hoje...
Amanhã talvez eu me atreva de novo a ser gente e a reinventar roda.



terça-feira, 30 de março de 2021

O Segredo do Inferno

 


Então me deixe contar uma historinha curta:

D'Ararzzen era um mago que jogava cartas com o Diabo.
Não que ele fosse um mago "maligno" ou das trevas. 

Bem e mal era abstrações, a seu ver, das mais tolas.


Era só que o Diabo tinha um repertorio de piadas melhores do que Deus.

E Deus não gostava de perder.

("Eu que inventei essa droga de jogo!”, obtemperava em noites de mãos ruins.)

Além do mais, o mago era excelente jogador de pôquer e toda vez que ganhava de Deus sentia aquela ameaça velada...

Em noites em que Deus perdia muitas rodadas, resmungava furioso e ao longe ressoava um trovão.

“Vem chuva por aí...”, comentava D'Ararzzen, utilizando um subterfúgio pra se levantar e ir embora.

Vai nada!”, o Onipotente determinava.

Senta aí! Se eu quisesse, chovia quarenta dias e noite e acabava o mundo. Mais aí eu não ia poder recuperar minha grana nessa mesa. Revanche?

D'Ararzzen se sentava e , ainda que não fosse um sábio (se fosse não estava jogando cartas com aqueles dois), era inteligente o suficiente para rir sem graça das piadas sem graça de Deus e sair daquela jogada perdendo de proposito, mesmo tendo cartas melhores.

O Diabo ria e debochava mentalmente da cautela do mago: “Bundão!”


Enfim.
Uma noite, Deus não conseguiu uma desculpa boa para comparecer ao jogo, e na mesa em que só dois jogavam, o diabo estava em uma onda de azar.


Em resumo, o mago já tinha ganhado várias rodadas e o diabo estava ficando sem grana até pro taxi.

Estava tarde e D'Ararzzen decidiu encerrar a jogatina.
Mas o diabo teimoso insistiu em uma ultima cartada.

"O dobro ou nada!"

"Sem essa! Você já não tem mais um vintém nos bolsos...Vai apostar o que?"

O diabo pensou e não ia deixar barato. Afinal, era um mal perdedor assim como Deus.


Havia perdido até as calças no carteado, mas apostou o segredo mais bem guardado do inferno.

O mago, que era além de bom jogador, um excelente trapaceiro, topou e após o Diabo vitoriosamente lançar um Flush sobre a mesa,  com um Straight Flush esmagador venceu e obrigou o diabo a contar o tal segredo.


Puto da vida ('Eu que inventei a trapaça, merda!!"), o diabo pegou seu chapéu da mesa pra ir embora, virou o último trago de conhaque (com cinzas de cigarro dentro, pois foi usado como cinzeiro pelo mago e por ele próprio minutos antes) e ao sair, contrariado, mas fiel a sua palavra,  vociferou entredentes o tal segredo.


Que vou dividir com vocês agora.


"O segredo do inferno", disse o diabo,
"É que ele é completamente facultativo...”

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Aos Gatos que Guerreavam em dança mortal no teto do...Bairro Esplanada



Os gatos tem fuso horário curioso.
Fossem como as corujas ou morcegos e demais coisas noturnas, eu até compreenderia os entreveros travados as tantas da madrugada.
Mas eu tenho gatos desde que me lembro e contrariando o consenso geral, suas excelências felinas não são absolutamente animais noturnos. Então, é favor não confundir as trinta e tantas cochiladas durante o dia com preguiça. São apenas as pausas necessárias ao exercício da sua majestosidade.

Eram cerca de três e meia da madrugada.
Despertei com um barulho bem familiar.
Este bairro em que vim morar é extraordinariamente silencioso, o que tornou o ato de dormir algo penoso nos primeiros meses.
Esse é um subúrbio de classe média, sossegado, quintais grandes e bem cuidados, cheios de árvores frutíferas, pracinha bem cuidada onde crianças igualmente bem cuidadas correm atras de cachorros; aposentados que após o estranhamento inicial com o elemento estranho (e provavelmente ameaçador, pois essa gente costuma associar pele com mais melanina a ameaça), cumprimentam com um “bom dia” de fina cortesia.
Bem diferente do barulho efervescente e infernal do meu antigo bairro, onde o silêncio era e ainda é um luxo tão escasso quanto saneamento básico. A não ser que seja o silêncio que antecede o desastre, em noites de tretas resolvidas a bala, facada ou barbaridade semelhante.
Mas o som que me despertou era o já conhecido debate que antecede uma guerra de extermínio travada entre dois gatos.
Da janela enorme da cozinha eu tinha (e tenho) uma vista panorâmica da cidade e da vizinhança. Vejo diversos telhados, sacadas e varandas, os prédios iluminados da cidade ao longe e mais alguns aqui perto.
Ali estavam, no telhado do vizinho, dois velhos conhecidos meus. Um gato branco enorme, que na falta de referencias, apelidei de Saruman. O outro, era o gatarrão dominante desse território, um preto e branco, tipo Frajola, que mais de vez observei por a correr desafiantes atrevidos. A esse eu sempre chamei de Néro, pois suas guerras colocam fogo no seu império.

Estavam naquela fase do embate em que apresentam suas alegações para legitimar a posse do território. Frente a frente, caldas agitadas, focinhos em riste, orelhas levemente arqueadas para trás e pelos do corpo eriçados, para avantajar-lhes artificialmente o tamanho. Desafiavam-se com miados guturais de gelar o sangue de almas supersticiosas.

Gatos não são animais selvagens. Na verdade, comportam-se como verdadeiros políticos. Discutem os pormenores da contenda em termos polidos e cavalheirescos. Não chegam as vias de fato, senão depois de esgotados todos os argumentos possíveis.

Eu estava com sono e queria voltar a dormir, pelo que deu vontade de gritar: “Calem a merda da boca e caiam não porrada de uma vez!”.
Não o fiz. Moro agora em terra de gente educada, de aposentados gentis e cachorrinhos pugs e beagles. Não posso gritar impropérios nas altas da matina.
Ademais, estou certo que os nobres felinos em contenda, votariam aos meus protestos chulos o mais frio desprezo, como é da natureza altiva deles.

Recolhi-me em silencio à minha insignificância.

Peguei um copo de água. Voltei a janela e os termos entre os gatos parecia não chegar a um acordo. Muito havia a ser debatido aparentemente. O destino e supremacia de uns dois hectares estava sendo decidido e não o podia ser feito de modo leviano. Havia na balança o governo absoluto daquela área e estamos falando de muitos ratos gordos e pássaros suculentos, gatas no cio, latas de lixo a revirar, diversos cachorros a atazanar e paparicos por parte de uns e vassouradas por parte de outros moradores e demais posses e possessões que caberiam ao vencedor do litigio.
E qual deles tinha direito?
Um argumentava:
- Eeeeeeeeeuuuuuuuuuu....EEEEEEEEUUUUUUUUUUUUUUUU!
Ao que o outro respondia energicamente:
-NO NO NO NO NO.....EEEEEEEEEEEEUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU!

E a coisa ia assim até perto das quatro horas.

Não se pode criticar esses debates barulhentos da aristocrática espécie  Felis Silvestris Catus, sem saber a que se destina;
Evitar uma briga furiosa e mortal!

Briga de gato não é pra ser assistida por almas sensíveis.
Por mais delicado e gentil pareça seu bichano, quando se mete em uma briga, o propósito não é a agressão gratuita. Busca-se a morte do outro. O “Mimi” do travesseio torna-se um huno, um Khal Drogo de bigodes e quatro patas. O gato, animal dócil e tranquilo subitamente se torna uma maquina de combate, sem compaixão pela pessoa do querelante e busca, uma vez inciada a lide física, o extermínio cabal do outro.

Por isso mesmo, por não serem selvagens e por terem ciência das regras cruéis que se impõem sobre a guerra felina, e que debatem demorada e longamente, ora sussurrando , ora subindo o tom de seus miados que apavoram corações supersticiosos.

A coisa ia por ai, eu já impaciente (e confesso que impaciente para que um deles ou desse causa ganha ao rival, ou partissem logo para a guerra, pensamento inferior de um ser inferior, que só queria dormir)

Pois aparentemente, Nero se cansou de argumentar e se recusou a ouvir as alegações finais do oponente.
Berrou uma ameaça gélida, como o grito de uma Banshee e após esse aviso, imprudentemente ignorado por Saruman que sibilou um desafio, Nero desferiu o primeiro golpe.

Avançou como uma cobra dando o bote na jugular do outro, que revidou com a mesma fúria.
Como eu disse, briga de gatos não é para almas sensíveis.
Se engalfinharam sobre o telhado vociferando, disparando tiros e mais tiros de garras, dentes e ódios.
Eram rápidos, misturaram-se em um borrão de pelos, rugidos e fúria, sendo impossível dizer quem levava a vantagem.

Amo gatos.
Se eu pudesse ter escolhido ou se alguma ocasião puder escolher, viria ou virei a este mundo como um desses animais magníficos e injustiçados.
Pois eles são políticos por natureza, pacíficos e nunca fazem gestos vazios. Evitam como podem o conflito, porem, uma vez iniciada a guerra, ela é cruel, violenta, definitiva e também rápida.

Nero e Saruman caíram de um telhado para o outro, uma queda de mais de três metros, ainda unidos na sua batalha gaticida. Tão empenhados estavam nela, que nem pareciam notar a queda. Era uma coisa terrível de se ver.
Uma vez eu vi um sujeito tentar apartar uma briga de gatos. O pobre infeliz pagou com uma tira de couro  da mão por aquela intromissão.
Gente tola só aprende com a experiencia. Gente sábia aprende com a história (sua e dos outros).

Expectador estava e expectador fiquei.

Por um momento a peleja pareceu pender a favor do desafiante. Nero soltou-se de Saruman e disparou, aparentemente em fuga, em direção a parede de uma sacada, com o outro, triunfante em seu encalço. Mas era uma estratégia calculada. 
Nero pulou em direção a parede e tendo o rival bem atrás de si, quicou como uma bola, saltando por sobre o oponente, pegando-o na sequência em parte macia e desguarnecida de defesa.
Na janela, sussurrei um:
- 'Puta que o pariu!”
Claro que descrevi porcamente um movimento que foi rápido demais para os meus olhos, mas posso afiançar que foi estratégia. Nero é um gato mais velho. 
E dizem que o Diabo sabe mais por ser velho do que por ser o Diabo.
Pois guerra se ganha com inteligencia, além da força.
Confiante de sua vitória, Saruman se descuidou e em um movimento certeiro, Nero pôs termo à escaramuça.
Desferiu golpe sobre golpe, agarrado as costas do pobre rival, que desesperado, usou suas ultimas forças para se desvencilhar do abraço mortal, e partiu como um raio saltando de telhado a telhado, lutando desta vez, não pela posse do território, mas para preservar o que sobrou de suas sete vidas.

No rastro dele foi o vencedor, ainda disparando seus golpes. Como eu disse, gatos evitam briga, mas quando se metem em uma, não querem deixar pedra sobre pedra.

Os perdi de vista quando saltaram por sobre muro no quarteirão de baixo, deixando um rastro de pelos e sangue pelos telhados.
Aos que se preocupam com a sorte do pobre gato vencido, lhes asseguro que ele está vivo e bem.
Essa briga já foi há umas semanas e dia desses eu o vi passeando, saltando por sobre uma arvore próxima.
O Status Quo foi mantido, Nero governa soberano no território e ao perdedor, um de uma lista de muitos, cabe aceitar o papel secundário, de macho beta, gama ou delta, porque o Alfa, segue inconteste como Gatarrão do território.

sábado, 11 de julho de 2020

E Mais Ainda Sobre Relógios - Variação do Velho Tema


Tic e Tac

Era 19 de dezembro de 1973.

Dia em que o Estatuto do índio foi promulgado, terroristas libertaram reféns em um aeroporto do Kwait, a gasolina estava mais cara no mundo todo e morreu o “Seu Amâncio”, velho rezador da rua de baixo.

Um dia ordinário, na história ordinária de um mundo ordinário.

Em um hospital igualmente ordinário, a enfermeira olhou para o relógio na parede e sentenciou que eu nasci as 10:15.

Se ela pudesse olhar para meu relógio interno, teria anotado na cadernetinha que naquele mesmo instante, ele marcava 68 anos.

Exatos 68 anos.

Aos  67 anos, 11 meses, 29 dias, 23 horas e 18 minutos, constatei surpreso e agradecido, que minha mãe, apesar de três gestações anteriores, vida difícil e má nutrição, ainda era capaz de gerar leite para alimentar mais uma cria.

Marcava 67 anos, 11 meses, 29 dias, 22 horas e alguns minutos, quando exausto de tanto berrar, com frio e irritado, tive meu primeiro sono extra-utero.

Aos 66 anos e dois meses mais ou menos, saltei da fase quadrúpede para bípede e deus sabe, que se eu soubesse o que me sucederia nos anos seguintes, teria continuado um milhar de passos depois daquele primeiro, e mais outro milhar e mais outro depois e estaria agora dando minha terceira ou quarta volta no planeta, feliz como só um desgraçado sem pátria, e também sem lastro, pode ser...

Quando completei 65 anos e algumas semanas, perdi meu pai. Nao para a morte, mas para a vida, o que dói mais ainda. O canalha viveu ainda algumas décadas depois de abandonar a prole ao se desentender  com a esposa. Viveu o suficiente para que eu alimentasse justificado rancor contra ele pelo abandono, mas não o bastante para que eu o alcançasse com o tardio perdão, que me livrou finalmente do peso daquele rancor. A falta dele me inaugurou como pessoa e me estruturou por sobre um vazio de referencias que ainda é algo com que tenho de lidar.

Aquele filho da puta!

Aos 63 anos e 11 meses e 16 dias, quando finalmente se lembraram que meu aniversario havia passado, compreendi que jamais teria uma festa de aniversario. Que talvez jamais teria festa alguma.

Com 60 anos e 10 meses fui pra escola. Aos 58, fugi da mesa escola e não voltei senão depois de vagabundear pelos brejos e descampados do meu bairro, (gosto de pensar que eu era uma versão tupiniquim de Huck Finn), até completar 55 anos. E então eu era um adolescente estudando com crianças. Deslocado e extemporâneo. Mas isso nao chegava a ser novidade para mim.

Aos 54 anos olhei para uma garota na porta de escola, senti vespas de fogo no estômago, uma vontade doida de sair correndo.

 Não corri.

Nunca mais senti vontade de correr e na sequencia de paixonites sazonais que se seguiu, nunca mais fui feliz.

Um pouco depois dos 50 anos, dei o meu primeiro e memorável beijo. Lastimo lembrar que passaram-se alguns anos antes que o segundo viesse e mais alguns anos para que o terceiro o sucedesse a assim foi, até que um pouco depois de completar 43, juventude, carência e inexperiência me levaram a um casamento prematuro.

Aos 39 anos,7 meses e 12 dias a vida dá uma guinada feliz, o destino se distrai , eu roubo um pouco de felicidade e me torno pai, sem nunca ter sido filho. Pego minha filha no colo, rezando para que ela nao repita minha vida. Comecei neste dia a não ser mais uma criatura solitária.

Com mais ou menos 33 anos eu pego em um teclado e digito um apelido idiota em um fórum da internet. Aos 27 anos e seis meses, no rastro de um acúmulo de rancor mútuo, vem o divórcio. Sentimentos de culpa, raiva, e um tardio reboot em uma vida que nem parecia ter começado ainda.

Tic e tac

Passam semanas, meses, anos...As estações se confundem em invernos quentes e verões frios,  a poeira do tempo se acumula sobre perguntas sem respostas e móveis sem uso, minha filha cresce, se torna uma mulher extraordinária, se apaixona, eu agradeço a vida que ela leva, fico orgulhoso, fico feliz, fico triste, envelheço, meu gato morre, meus ideiais morrem antes do gato, enterro ambos, tenho experiencias espirituais, (mas Deus, se existe, continua alhures) e eu vejo os ponteiros correrem ao contrario inexoráveis...

Tic e tac

Reencontro o amor, ou o encontro pela primeira vez. Conheço o medo, com dificuldade aprendo a receber o que sempre dei, estranho e desconfio da dedicação que me é votada, como se não fosse merecedor dela, duvidando o tempo todo que o destino olhe em outra direção pela segunda vez. Acordo e vejo-a ali, linda e tranquila, como eu nunca fui, medito, me critico intimamente,  duvido novamente que a mereça, sinto que o mundo vai desabar a qualquer momento, ou que as coisas voltem para seus devidos lugares e ela me seja arrebatada, entristeço e fico arredio, ela percebe, me conhece, me atura, me acalenta, me ama e me ajuda a voltar aos trilhos da sanidade.

Faço 25 anos e minha antiga profecia mostra-se falha, pois finalmente recebo uma festa de aniversario. De presente natalício recebo a percepção de que nunca completamos mais um ano de vida, mas um a menos.

O cansaço se acumula e eu me sinto velho aos 24 anos. Semanas depois de completar 23, encontro um fio de cabelo branco na barba antes impecavelmente negra, olho pro espelho e debocho: Então é isso, cara! Voce tá morrendo sem nem ter vivido! E rio diabólico e triste da minha decadência.

Meu relógio interno marca um pouco mais de 22 anos agora e eu  sinto que esse resto de tempo é quase uma eternidade. Tempo demais para eu fazer merda na vida, mas tempo de menos para me reconciliar comigo mesmo, com a humanidade, com o mundo...O mesmo mundo que está paralisado por uma pandemia e isso intensifica essa sensação de tempo em slow motion.

 

No fim do dia me recordo divertido do meu deboche antigo e mordaz das pessoas que cismavam de se reinventar o tempo todo, como meio de fugir a própria estranheza.

Ti e Tac...

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