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segunda-feira, 12 de julho de 2021
Texto sem data (ou ainda em busca de sentido)
terça-feira, 30 de março de 2021
O Segredo do Inferno
Então me deixe contar
uma historinha curta:
D'Ararzzen era um mago que jogava
cartas com o Diabo.
Não que ele fosse um mago "maligno"
ou das trevas.
Bem e mal era abstrações, a seu ver, das mais tolas.
Era só que o Diabo tinha um repertorio de piadas melhores do que Deus.
E Deus não gostava de perder.
("Eu que inventei essa
droga de jogo!”, obtemperava em noites de mãos ruins.)
Além
do mais, o mago era excelente jogador de
pôquer e toda vez que ganhava de Deus sentia aquela ameaça velada...
Em noites em que Deus perdia muitas rodadas, resmungava furioso e ao longe ressoava um trovão.
“Vem chuva por aí...”, comentava D'Ararzzen, utilizando um subterfúgio pra se levantar e ir embora.
“Vai nada!”, o Onipotente determinava.
“Senta aí! Se eu quisesse, chovia quarenta dias e noite e acabava o mundo. Mais aí eu não ia poder recuperar minha grana nessa mesa. Revanche?”
D'Ararzzen se sentava e , ainda que não fosse um sábio (se fosse não estava jogando cartas com aqueles dois), era inteligente o suficiente para rir sem graça das piadas sem graça de Deus e sair daquela jogada perdendo de proposito, mesmo tendo cartas melhores.
O Diabo ria e debochava mentalmente da cautela do mago: “Bundão!”
Enfim.
Uma
noite, Deus não conseguiu uma desculpa boa para comparecer ao jogo,
e na mesa em que só dois jogavam, o diabo estava em uma onda de
azar.
Em resumo, o mago já tinha ganhado várias rodadas e o diabo estava ficando sem grana até pro taxi.
Estava tarde e
D'Ararzzen decidiu encerrar a jogatina.
Mas o diabo teimoso insistiu em uma ultima cartada.
"O dobro ou nada!"
"Sem essa! Você já não tem mais um vintém nos bolsos...Vai apostar o que?"
O diabo pensou e não ia deixar barato. Afinal, era um mal perdedor assim como Deus.
Havia perdido até as calças no carteado, mas apostou o
segredo mais bem guardado do inferno.
O mago, que era além
de bom jogador, um excelente trapaceiro, topou e após o Diabo vitoriosamente lançar
um Flush sobre a mesa, com um Straight Flush esmagador venceu e obrigou o diabo a contar o
tal segredo.
Puto da vida ('Eu que inventei a trapaça, merda!!"), o
diabo pegou seu chapéu da mesa pra ir embora, virou o último trago de conhaque
(com cinzas de cigarro dentro, pois foi usado como cinzeiro pelo mago
e por ele próprio minutos antes) e ao sair, contrariado, mas fiel a
sua palavra, vociferou entredentes o tal segredo.
Que vou dividir com vocês agora.
"O segredo do
inferno", disse o diabo,
"É que ele é completamente
facultativo...”
quinta-feira, 23 de julho de 2020
Aos Gatos que Guerreavam em dança mortal no teto do...Bairro Esplanada
Evitar uma briga furiosa e mortal!
Berrou uma ameaça gélida, como o grito de uma Banshee e após esse aviso, imprudentemente ignorado por Saruman que sibilou um desafio, Nero desferiu o primeiro golpe.
Gente tola só aprende com a experiencia. Gente sábia aprende com a história (sua e dos outros).
Expectador estava e expectador fiquei.
Na janela, sussurrei um:
sábado, 11 de julho de 2020
E Mais Ainda Sobre Relógios - Variação do Velho Tema
Tic e Tac
Era 19 de dezembro de 1973.
Dia em que o Estatuto do índio foi promulgado, terroristas
libertaram reféns em um aeroporto do Kwait, a gasolina estava mais cara no
mundo todo e morreu o “Seu Amâncio”, velho rezador da rua de baixo.
Um dia ordinário, na história ordinária de um mundo ordinário.
Em um hospital igualmente ordinário, a enfermeira olhou para o relógio na parede e sentenciou que eu nasci as 10:15.
Se ela pudesse olhar para meu relógio interno, teria
anotado na cadernetinha que naquele mesmo instante, ele marcava 68 anos.
Exatos 68 anos.
Aos 67 anos, 11 meses, 29 dias, 23 horas e 18 minutos, constatei surpreso e agradecido, que minha mãe, apesar de três gestações anteriores, vida difícil e má nutrição, ainda era capaz de gerar leite para alimentar mais uma cria.
Marcava 67 anos, 11 meses, 29 dias, 22 horas e alguns minutos, quando exausto de tanto berrar, com frio e irritado, tive meu primeiro sono extra-utero.
Aos 66 anos e dois meses mais ou menos, saltei da fase quadrúpede para bípede e deus sabe, que se eu soubesse o que me sucederia nos anos seguintes, teria continuado um milhar de passos depois daquele primeiro, e mais outro milhar e mais outro depois e estaria agora dando minha terceira ou quarta volta no planeta, feliz como só um desgraçado sem pátria, e também sem lastro, pode ser...
Quando completei 65 anos e algumas semanas, perdi meu
pai. Nao para a morte, mas para a vida, o que dói mais ainda. O canalha viveu
ainda algumas décadas depois de abandonar a prole ao se desentender com a esposa. Viveu o suficiente para que eu
alimentasse justificado rancor contra ele pelo abandono, mas não o bastante
para que eu o alcançasse com o tardio perdão, que me livrou finalmente do peso
daquele rancor. A falta dele me inaugurou como pessoa e me estruturou por sobre
um vazio de referencias que ainda é algo com que tenho de lidar.
Aquele filho da puta!
Aos 63 anos e 11 meses e 16 dias, quando finalmente se lembraram que meu aniversario havia passado, compreendi que jamais teria uma festa de aniversario. Que talvez jamais teria festa alguma.
Com 60 anos e 10 meses fui pra escola. Aos 58, fugi da mesa escola e não voltei senão depois de vagabundear pelos brejos e descampados do meu bairro, (gosto de pensar que eu era uma versão tupiniquim de Huck Finn), até completar 55 anos. E então eu era um adolescente estudando com crianças. Deslocado e extemporâneo. Mas isso nao chegava a ser novidade para mim.
Aos 54 anos olhei para uma garota na porta de escola, senti vespas de fogo no estômago, uma vontade doida de sair correndo.
Não corri.
Nunca mais senti vontade de correr e na sequencia de paixonites sazonais que se seguiu, nunca mais fui feliz.
Um pouco depois dos 50 anos, dei o meu primeiro e memorável beijo. Lastimo lembrar que passaram-se alguns anos antes que o segundo viesse e mais alguns anos para que o terceiro o sucedesse a assim foi, até que um pouco depois de completar 43, juventude, carência e inexperiência me levaram a um casamento prematuro.
Aos 39 anos,7 meses e 12 dias a vida dá uma guinada feliz, o destino se distrai , eu roubo um pouco de felicidade e me torno pai, sem nunca ter sido filho. Pego minha filha no colo, rezando para que ela nao repita minha vida. Comecei neste dia a não ser mais uma criatura solitária.
Com mais ou menos 33 anos eu pego em um teclado e digito um apelido idiota em um fórum da internet. Aos 27 anos e seis meses, no rastro de um acúmulo de rancor mútuo, vem o divórcio. Sentimentos de culpa, raiva, e um tardio reboot em uma vida que nem parecia ter começado ainda.
Tic e tac
Passam semanas, meses, anos...As estações se confundem em invernos quentes e verões frios, a poeira do tempo se acumula sobre perguntas sem respostas e móveis sem uso, minha filha cresce, se torna uma mulher extraordinária, se apaixona, eu agradeço a vida que ela leva, fico orgulhoso, fico feliz, fico triste, envelheço, meu gato morre, meus ideiais morrem antes do gato, enterro ambos, tenho experiencias espirituais, (mas Deus, se existe, continua alhures) e eu vejo os ponteiros correrem ao contrario inexoráveis...
Tic e tac
Reencontro o amor, ou o encontro pela primeira vez. Conheço o medo, com dificuldade aprendo a receber o que sempre dei, estranho e desconfio da dedicação que me é votada, como se não fosse merecedor dela, duvidando o tempo todo que o destino olhe em outra direção pela segunda vez. Acordo e vejo-a ali, linda e tranquila, como eu nunca fui, medito, me critico intimamente, duvido novamente que a mereça, sinto que o mundo vai desabar a qualquer momento, ou que as coisas voltem para seus devidos lugares e ela me seja arrebatada, entristeço e fico arredio, ela percebe, me conhece, me atura, me acalenta, me ama e me ajuda a voltar aos trilhos da sanidade.
Faço 25 anos e minha antiga profecia mostra-se falha, pois finalmente recebo uma festa de aniversario. De presente natalício recebo a percepção de que nunca completamos mais um ano de vida, mas um a menos.
O cansaço se acumula e eu me sinto velho aos 24 anos. Semanas depois de completar 23, encontro um fio de cabelo branco na barba antes impecavelmente negra, olho pro espelho e debocho: Então é isso, cara! Voce tá morrendo sem nem ter vivido! E rio diabólico e triste da minha decadência.
Meu relógio interno marca um pouco mais de 22 anos agora e eu sinto que esse resto de tempo é quase uma eternidade. Tempo demais para eu fazer merda na vida, mas tempo de menos para me reconciliar comigo mesmo, com a humanidade, com o mundo...O mesmo mundo que está paralisado por uma pandemia e isso intensifica essa sensação de tempo em slow motion.
No fim do dia me recordo divertido do meu deboche antigo e mordaz das pessoas que cismavam de se reinventar o tempo todo, como meio de fugir a própria estranheza.
Ti e Tac...
quinta-feira, 9 de julho de 2020
Do Fim do Meu Cansativo Sabbath
Uma vez me disseram, que na raiz de toda ação está, ou a necessidade ou
a vontade.
A pessoa que me disse isso está mais qualificada do que eu para falar sobre a motivação do movimento ou inércia das coisas outras do universo afora, posto que é estudioso dessas coisas. Só posso falar por mim, embora não seja sequer graduado em mim mesmo.
Na raiz de quase todas as minhas ações ou inações, está o cansaço.
Me movo por estar cansado de estar parado e paro por estar cansado de me mover.
Tenho quase certeza de que foi o cansaço, mais do que o fim do período natural de gestação, que me fez sair já com uma preguiça enorme, da barriga da minha mãe, onde acabei entrando por estar também cansado de ser sempre a possibilidade de ser uma pessoa.
Depois desse ultimo ano, cansei de falar pra mim mesmo o tempo todo, coisas que bem poderiam azucrinar cabeças alheias. Lá no fundinho da consciência há um dedo acusatório, um dentre milhares de filhos-da-puta-acusadores, que me denuncia a mentira velada, que está disfarçada mas que no fim é apenas o velho desejo de ser relevante que move meus dedos neste teclado novamente.
Mas estou certo de que justifico pra mim mesmo.
Não há uma só promessa que tenha feito a mim mesmo que não tenha quebrado. Posso viver com isso. Enquanto eu viver, prometo solenemente quebrar todas as promessas que a mim mesmo fizer. Ha outro modo de admitir os próprios erros?
Bem, aqui estou.
Nesse hiato de tempo entre minha ultima despedida deste espaço e hoje, aconteceram algumas coisas. Ninharias, é claro, mas quando você reencontra algum conhecido na rua, só se interessam pelas ninharias da sua vida.
“Já casou?” é a favorita das pessoas e nove entre dez que te encontram na rua te perguntam isso. Dá vontade de responder, “Não, não casei, mas atropelei um cachorro sem querer, atrasei a entrega da declaração de imposto de renda, minhas plaquetas estão baixas e um cara com quem troquei socos anos atrás fez cirurgia e agora é mulher e estou me sentindo um canalha por ter brigado com uma garota (e envergonhado também, porque no fim das contas, ela, que era ele na época, era boa de briga e eu apanhei mais do que bati)...Quer saber mais alguma coisa?”
Tudo isso aconteceu no ultimo ano (com exceção do atropelamento, que inventei apenas para horrorizar meu suposto interlocutor).
A idade cronológica finalmente me alcançou neste ultimo ano e como sinal da minha decrepitude, agora tenho que usar óculos. Disseram que minha higiene é duvidosa e eu correria riscos se teimasse em usar lentes de contato. Depois de agradecer o aviso com um sonoro “vá se foder”, resolvi acatar o conselho, porque posso não ser um exemplo na higiene, mas não sou completamente estúpido. Ou perderia a porcaria das lentes ou pegaria uma infecção nos olhos. Relutei, refuguei e fiquei horrorizado quando os óculos ficaram prontos, mas, caramba! A maldita coisa é excelente! Consigo enxergar maravilhas com essa droga no rosto e só depois de voltar a enxergar direito, é que percebi como estava sofrendo pra ler.
Ademais, como vou brigar com bolsomínions no Twiter se não enxergo a porcaria das letrinhas do celular?
Uma saliência incomoda se alojou um pouco acima da minha cintura no ultimo ano e, vida tranquila e comida demais me instalaram uma ‘pochete” adiposa na linha da cintura, que meus detratores (os mesmos que sentenciaram minha higiene duvidosa) insistem que “só sai com cirurgia”. Ao que eu digo: Esperem só! Tiro essa merda com caminhadas e abdominais em tres meses!
Isso foi ha um ano...E a pochete continua aqui, infelizmente.
Mais novidades?
Na ultima semana peguei COVID. Não obstante litros e mais litros de alcool gel, caminhando quatro quatro quilômetros e meio a pé na ida e volta ao trabalho para evitar ônibus e demais cuidados, sou diagnosticado com a porcaria do vírus e embora não tenha tido até o momento maiores problemas, (a não ser febre noturna nos primeiros dias, durante as quais creio que tenha brigado feio com deuses e diabos) estou assintomático..
Fiquei um tanto mais corajoso no ultimo ano, coisa que, espero, fique evidente na minha escrita.
Não o tipo de coragem que me faria saltar de pára-quedas ou mergulhar com tubarões, mas ...Não sei dizer...A coragem que vem da admissão da transitoriedade de tudo o que se ama.
E também o desejo de tacar pedras psicológicas no ideário incorruptível que criei dentro de mim mesmo, para prestar culto e reverencia, enquanto virava as costas as outras coisas que me ensinaram que eu deveria reverenciar. Decidi que isso igualmente é digno do meu desdém.
Pensei em escrever algo digno do meu desejo de retorno a esse teclado, mas eu sabia que ia me repetir aqui.
Coisa que ja faço desde de 2011.
Lá se vão doze anos de loop nas minhas ideias e, relendo, bem, ha coisas
das quais efetivamente me orgulho de ter escrito.
Em outras eu sinto aquela frustração advinda do divã, quando, depois de anos de análise, já me imaginado um ser humano ressignificado, me pego novamente a falar de minha mãe, como se estivesse na primeira consulta ainda.
É muito frustrante e ainda que minha vida tenha sido uma coletânea de frustrações, não envelheci o bastante para as aceitar com o estoicismo necessário a não tomar decisões baseadas no cansaço de dar voltas em torno de mim mesmo.
Mas se eu esperar que me surja o ímpeto ou aquela velha ilusão de que eu poderia reinventar a roda, acho que nunca mais escreveria nada...
Isto dito, vamos as letras...




