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segunda-feira, 29 de abril de 2013

Ainda sobre relógios e sobre o que eu não compreendo...





Acho que talvez uma ampulheta meça melhor a passagem dessa coisa fluida que é o tempo do que qualquer relógio, exceto talvez o relógio de sol. Mesmo que um relógio de corda, habilidosamente sacado do bolso orgulhoso de quem ostenta um mimo desses tenha certo charme ou que a tecnologia de relógios digitais tire o fôlego por sua versatilidade, ainda penso nos finos grãos de areia dourada, caindo mais rápidos do que segundos frios pela cintura voluptuosa de uma ampulheta tenham uma carga de tempo que é quase palpável...

É isso ou eu, pelo meu gosto por coisas arcaicas, sou mesmo “jurássico” , como na definição graciosa de uma afilhada que gosta de me chamar a atenção para o fato de que sou um "velho retrógrado". Como se eu pudesse por um momento sequer ignorar isso...
Só para constar, ela está errada, porque estou certo de que sou pré-crambriano e ela errou por um  bilhão de anos ou dois.
Coisa de pouca monta.

E enquanto a areia caia pela cintura da ampulheta, fiquei distraído ao sol observando crianças montarem um castelo de cartas e depois derrubá-lo. Ficaram nisso por muito tempo e admirei-me que ainda continuassem crianças depois de tanto tempo fazendo e desmontando castelos de cartas. Eu sei que meus cabelos embranqueceram muito naquele tempo em que a areia caiu e castelos de carta se erguiam e eram derrubados e em volta, no mundo para alem daquele playground, coisas grandes aconteciam, guerras e revoluções e vida e morte, mas sinceramente? !?
Duvido que entre todo aquele espetáculo humano algo fosse mais fascinante do que a alegria meio louca de crianças a montar e desmontar castelos de cartas.

Pensei em Sísifo e sua pedra e acho que ele certamente teria aprendido algo com aquelas crianças.
Então compreendi (novamente tardiamente como é da minha natureza) que a alegria daquele ato de desmontar para depois montar é algo que os adultos tentam reviver, em conversões espirituais ou de caráter, como se fosse possível desfazer a si próprio e se remontar novamente em unidade renovada com  os cacos que fizemos de nós mesmos e daqueles sonhos ridículos que nos venderam como nossos.

Pensei em todo o discurso grandioso de gente que em certo dia resolve que vai ser diferente, que vai mudar de vida e que vai se erguer das cinzas como uma fênix e sai por aí, andando em direção contrária a do mundo achando que está fazendo grande coisa, quando nem percebe que a direção que tomou agora, ainda é referenciada pelo mundo e não pelo próprio desejo.
Talvez castelos de carta sejam infinitamente mais honestos.

A vida cansa. E é tediosa e chata.
E  mente maravilhosamente bem quem diz para si mesmo que ela é uma sucessão de folguedos e alegrias. Geralmente é o tipo de gente que acorda quase sempre de ressaca etílica e bebe mais, para não ter de lidar com a ressaca moral que certamente vai se somar a dor de cabeça e estômago ruim para atormentá-lo.

Eu?
Sou um velho cansado, cansado de aprender de velhos cansados o que é no fim, apenas mais e mais cansaço.
Melhor aprender das crianças, porque estas enquanto não cresceram, não esqueceram completamente  o que é ser verdadeiramente  humano.

E enquanto “convicção” não for um artigo vendável e comprável em farmácias e estabelecimentos afins (aparentemente o é em igrejas, partidos políticos e movimentos ideológicos, mas já falei demais disso e me cansei desta vereda), permaneço um ateu da vida eminentemente prazerosa e um apóstata do deus felicidade, cujo culto absurdo transforma crianças alegres a desmontar castelos de carta em adultos decepcionados consigo mesmos, tentando todo dia desmontar a si próprios e com vergonha do que são.

A areia cai e as crianças brincam. Essa é toda a sabedoria que existe no mundo.

E para encerrar a minha perplexidade, acho que caiu um Saara de areia por aquela ampulheta enquanto eu envelhecia olhando as crianças.

Levantei-me com dificuldade por ficar tempo demais na mesma posição. Olhei para o mundo e percebi que preciso me atualizar, porque até onde me lembrava, o Brasil era um país laico, homofobia e racismo ou preconceitos religiosos eram crimes morais (se ainda não legais) velados e não escancarados, um beijo (entre pessoas do mesmo sexo ou não) era uma manifestação de desejo e/ou de amor e não uma arma política, “vadia” era um termo insultuoso para as mulheres, tal como "ladrão", "malandro" ou "safado" era para os homens; honra era uma bússola para a conduta de pessoas fortes e não uma palavra meio esquecida num dicionário ou um atributo de que se envergonhar; onomatopeia musical (do tipo; Lá-ri-lá-lá ou Tan-tan-ran ou tê-rê-tê-tê) era apenas um recurso para quando se esquecia a letra das músicas e não  A letra da “música” em si e a sociedade caminhava para uma evolução de valores e liberdades e não para uma involução a cata de hedonismo. Oh e a lista segue!
E quando fiquei na ponta dos pés, tentando divisar mais ao longe, vi que o oceano de absurdos não parecia ter fim.
E eu sequer havia compreendido a marola na beira da praia.

“Não entendo.
Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco.
Não demais:
mas pelo menos entender que não entendo.”

Clarice Lispector

domingo, 28 de abril de 2013

Jubas em travesseiros de seda

...e então talvez não seja o balido dos lobos em pele de ovelhas o grande problema. Talvez sejam os leões amansados - a quem convenceram os lobos de que também são cordeiros -  a silenciar o seu rugido diante do uivo das falsas ovelhas...

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Da Minha Quase-Embriaguês




...parto do pressuposto (na verdade uma tentativa talvez ineficaz de pensar honestamente) que falo sobre mim e somente sobre mim - porque o mundo é o que percebo e simbolizo dele, mas o que percebo e simbolizo do mundo não é de fato, e talvez, o que é o mundo, mas tampouco é o que qualquer um percebe e simboliza dele - quando penso que nós somos meros satélites em órbita da suposição do que pensamos ser.

Excessivamente sensorial -  talvez seja uma fase lunar ou hormonal ou existencial - tenho de pensar também sensorialmente e duvidar, como o faria um bêbado que não se permitiu embriagar completamente e que preserva um laivo de consciência a lutar contra a embriagues, do que vejo, do que ouço, do que falo (e sobretudo do que falo) e também do que penso, porque sinto que pensamento é sensação tanto quanto penso que sensação é uma forma rudimentar de pensamento.

É o dia em que percebi, dentre um desfile horrível de percepções sempre tardias, que os meus olhos são, não o espelho de uma alma, mas um par de lentes distorcidas que, para fora olham microscopicamente (coando mosquitos e engolindo camelos) e para dentro perscrutam o abismo telescopicamente.
O inferno saúda-me de qualquer direção em que olhar.

Acho que, na minha tendencia natural de só muito tardiamente perceber as coisas ( e chega a ser confortável  poder contar com uma estabilidade em um aspecto qualquer, ainda que seja num defeito), não entendi ainda que o mundo de fato acabou mesmo dia 21 de dezembro de 2012.

Alguém aí seria amável o bastante para me contar isso, já que ainda estou sóbrio o suficiente para honestamente duvidar dos meus sentidos?

segunda-feira, 18 de março de 2013

Um sonho entrópico



Foi um sonho do qual não tenho certeza de que despertei  e de idêntico modo, não estou certo de que tenha dormido para o sonhar.

Sonhei que eu era Deus.

Fiz o universo em seis dias e vi que era bom o que tinha feito.
No sétimo fui dormir e acordei na manhã do oitavo dia com um  excelente bom humor. Me espreguicei, e foi então que pensei: “É hora de trazer o Armagedom!”

Então desci a terra e fui buscar o homem mais santo do mundo.
Por acaso era um corretor de Wall Street e quando o arrebatei, ele sorriu surpreso e desapareceu, porque eu o absorvi de volta a mim. Depois fui buscar os outros santos. Religiosos de todo tipo, monges, filósofos, sábios, loucos...Recolhi todos os tipos de santidade que encontrei na terra. Olhava-os nos olhos, sorria e os trazia de volta a mim, absorvendo a totalidade do que eram e eles desapareciam surpresos como o primeiro, porque junto com eles, busquei todos os outros da terra. Os virtuosos e os canalhas, os éticos e os facínoras, os assassinos, as vítimas, os maus e os bons, os puros e os perversos... Todos os homens, todas as mulheres, crianças, velhos e jovens e os fieis junto com os incrédulos... 

Arrebatei a todos de volta a mim. Todos sem exceção e eles desapareceram, imersos na minha consciência.

Daí fui desmontar em um dia o que levei seis para fazer. Absorvi de volta tudo em que respirei vida. As plantas e sua seiva macia, os mínimos micróbios e os grandes monstros, cachorros com suas pulgas, pássaros em voo, peixes no mar e nos aquários, animais selvagens e domésticos e cada folha de grama e cada flor e fibra do campo, o joio junto com o trigo e cada vida escondida nos remotos da terra.

Desci mais  um pouco, e retirei a força das pedras e a consciência profunda das rochas e o calor furioso do magma. Extingui meus vulcões e suguei os oceanos de muitas águas.

E então desci ao inferno e apaguei também os seus fogos e comecei a absorver todas as almas perdidas que ali penavam. O diabo, é claro, protestou veementemente contra o que considerou uma “ingerência” em seus negócios,  mas não por muito tempo, porque o absorvi também, mesmo em protesto. 
Encrenqueiro, burocrata e rebelde até no fim...

Repeti o processo em todos os mundos, em todos os planetas do universo e então, uma a uma fui apagar minhas estrelas e nebulosas. Tirei o tampão da pia do universo e tudo redemoinhou de volta para mim. E tudo parecia surpreso e tudo parecia atordoado quando me olhou nos olhos pela primeira e ultima vez.

E depois, naquele espaço escuro sem trevas, retirei meus anjos,arcanjos e querubins das prateleiras e eles vieram em fila para que eu os absorvesse de volta a mim, um após outro.

Logo, restei apenas eu e os meus avatares e personificações dadas pelos homens. Então absorvi de volta a estes meus eus:  Shiva e Baal, Mitra e Heimmdall, Ogum e Anúbis, Epona, itzamna e Astorete...
E muito outros. Deu trabalho! Mas finalmente havia acabado.

Sem mais multiplicidade... Sem mais incompletude...
Apenas uma infinita calma e por fim, comecei a absorver a mim mesmo e a apagar a minha consciência  em espiral para dentro. Fui para a longa noite.

Eu disse: Faça-se o silêncio.
E houve silêncio

quarta-feira, 13 de março de 2013

Meu momento Dom Quixote




Havia me esquecido de como eu ria cada vez que lia sobre como Dom Quixote se estrepava todo ao se chocar contra as pás dos moinhos, contra as quais ele se batia valentemente ao ver nelas a figura de gigantes. Foi um esquecimento proposital, porque minha visão de mim mesmo estava envolvida na questão. Que tipo de pessoa se diverte com o sofrimento alheio? Ainda mais quando esse sofrimento era advindo de um ato de equivocada coragem e elevada nobreza de espírito...

Por outro lado, mesmo naquela época,  eu lutava contra os meus próprios  moinhos, sem o recurso da loucura de Dom Quixote para me convencer que pelejava contra gigantes. Não...Eu sabia bem lá no fundo, que eram moinhos e me sentia estúpido por não conseguir fingir que eram gigantes ou mesmo por não conseguir deixar de lutar contra eles mesmo sabendo.  

Era um tempo estranho, quando havia muitos ideais e poucas ideias, época em que eu erguia símbolos e bandeiras, seguia este e aquele líder, me pautava por um excesso de “ismos” e vontades de mudar um mundo que eu nem mesmo compreendia.

Qualquer um que tenha certeza do que quer que seja para fora do círculo do seu eu, mente maravilhosamente bem para si mesmo. Tem então uma verdade particular e o universo todo é um brinquedo lindo, uma pedra de afiar a arrogância.

Temos verdades demais no mundo e ele está indo ladeira abaixo, então talvez seja o caso de fazermos uma sutil apologia de um modo mais complicado de criarmos à imagem e semelhança de nossas dúvidas.

Quer ajudar a humanidade? Não tema gigantes disfarçados de moinhos.

Redistribua metafísica. Talvez o grande problema do mundo seja a metafísica.
É o grande mal da humanidade a sua concentração em tão poucas mãos.Uma iniqüidade o excesso dela numa minoria silenciosa e a total ausência numa maioria barulhenta, que faz tanto ruído que já não escuta a própria voz.





segunda-feira, 4 de março de 2013

Eu sou "Do Mal"


“Eu sou do Bem!”

O sujeito, recém-chegado, disse isso tocando solenemente no próprio peito e com um tom de voz tão afetado que deixava claro o orgulho que sentia de si mesmo. Isso era tão evidente que era possível ver que se postando assim, do lado das luzes e das virtudes piedosas, estava acima da ralé humana cheia de vícios e defeitos. E eu sou, lastimo dizer, desgraçadamente humano.

Já ia ficando de má vontade para com a gabolice dele, porque tenho uma antiga e desarrazoada antipatia para com os deuses, e ver um semideus de carne e osso e tão superior bem na minha frente, atiçou todas as cascavéis que tenho no estômago.

Discursava efusivamente, com gestos teatrais, com a eloquência de um pregador religioso e a verborragia maçante de um palestrante motivacional.

E como a criatura era bastante performática, literalmente saltando por entre as cadeiras e mesas, papagueando o tempo todo um discurso hiper-positivo, claro que cativou imediatamente os corações e mentes de todos os presentes, exceto um, que, como era sabido por todos os presentes, não tinha coração e duvidava mesmo que tinha uma mente a ser conquistada.

De minha parte, tentei simpatizar com ele tão logo me foi apresentado. É do tipo que sorri fácil, tem um aperto de mão firme e olha nos olhos quando o faz, embora o seu olhar não dure nem um segundo, caso se olhe de volta.

Mas era aparentemente do tipo que não suporta não ser o centro das atenções e tão logo lhe foi dada a palavra, iniciou o seu monólogo auto-afirmativo. Falava alto e com gestos tão largos e espalhafatosos (fazendo círculos e curvas rápidas com os braços), que temi por várias vezes que fosse fazer voar pelos ares a bandeja de um dos garçons.

Meu primeiro incômodo foi ver que o tal sujeito, a quem todos gabavam como “um  figuraça”, gostava dessa alcunha, que no meu entender  não tinha nada de elogiosa. Era uma pessoa extravagante e positiva demais para ser levado a sério, mas a voz alta, o sorriso largo, mais aquela meia dúzia de frases doces e sedutoras que papagueava para que todos soubessem o quanto ele era “do bem”, claro, tornaram-no o centro das atenções. Tal como ele, aparentemente, queria...

Estaria tudo bem, não fosse o fato de que as pessoas na mesa, habituadas a minha visão niilista e pouco ortodoxa da vida, imediatamente alçaram o tal sujeito “do bem”, a posição de meu nêmesis: “Tá vendo Luiz!?? É assim que você TEM que ser!”



E eu, por entre resmungos mal humorados, fazia pequenas e silenciosas preces para os deuses em que não acreditava e antipatizava: “Da boca do lobo, da pata do tigre, da vingança das mulheres e dos 'homens de bem', livrai-me senhor!”

Aquele sujeito, segundo meus “queridos amigos” a mesa diziam, era a minha antítese (e logo, um modelo de virtude e bondade que eu devia seguir) e insistiam que eu Devia ser como aquele cara, porque não tenho certeza do porquê, mas pessoas próximas que gostam de mim pelas suas razões (equivocadas ou não), cismam de salvar-me a alma, tentando fazer com que eu seja um anjinho de candura e bondade cristã, apoiador de boas causas, alguém que professa fé em Deus, na moral, nos bons costumes e na porcaria do modo de vida americano e blá-blá-blá... Como se eu não soubesse que gostam de mim exatamente por eu ser “mau” como sou...



Para a minha sorte, aquele homem continuava metralhando-nos impiedosamente com suas bravatas auto-afirmativas, proclamando dentre outras coisas: a defesa da liberdade do Tibete (coisa que todo mundo apoiou sem sequer saber localizar o Tibete num mapa), a proteção da floresta Amazônica, da fauna, da flora, das crianças, das baleias, dos rios,  a camada de ozônio, os escoteiros, os animais em extinção, os meninos de rua, os pobres, as minorias, o UNICEF e mais um porrilhão de outras boas causas.

Estava entretido demais consigo mesmo, encantando com o próprio coração bom e virtuoso e duvido que fosse capaz de perceber a presença de mais alguém além de si mesmo, doutro modo teria percebido que as pessoas naquela mesa se divertiam à custa dele e as minhas, alçando-nos a posição de antagonistas involuntários.

E eu tinha decidido gostar do sujeito! E eu apoiava quase todas as “boas causas” que ele defendia!

Mas uma coisa que li há muito tempo num livro do Balzac, foi o conselho de jamais permitir que digam que você seja um sujeito “divertido”, porque esta é uma expressão de disfarçado menosprezo. Mas meu brilhante Sir Galahad, meu belo e encantador “inimigo” do outro lado da mesa, parecia estar indiferente aos sorrisos sardônicos dos que o aclamavam. Acho que aplausos devem tornar- nos surdos e cegos para as vaias que rastejam por debaixo dos mesmos. Mas, claro, essa é uma inferência meramente teórica, posto que não sei  e nunca quero saber o que é ser aplaudido.

A bem da verdade, penso que eu estava mais irritado é por ter aceitado o convite para a bebida e não conseguir encontrar um modo elegante de cair fora daquela mesa sem parecer estar irritado e mais irritado ainda por ficar preocupado com o que eu aparentaria ou não.

Olhava para a pregação de boas causas daquele homem e quase podia ver um halo sobre a sua cabeça e, por comparação e por maioria de votos, constatei que definitivamente, eu sou um sujeito “do mal”.

Pensar nisso e colocar- me nessa posição, fez com que eu me sentisse razoavelmente confortável e menos irritadiço. Porque se algo me dava alguma satisfação naquele momento, era me distanciar, no que pudesse, da aura de santidade patética daquele sujeito. Foi então que, para coroar uma frase de efeito ele soltou emocionado essa pérola:

“Porque uma célula feliz, convida a célula do lado: ‘Vem ser feliz comigo!’ E elas convidam outra e outra e logo todo organismo do sujeito está iluminado de felicidade!”

Ovação total. Ouviu-se o costumeiro “ohhhh” na mesa, mas desta feita, alguém que estava ao meu lado teve a feliz ideia de me cutucar (fisicamente! Praticamente me cravou o cotovelo por entre as costelas.Tem gente que arrisca a vida por pouco...!) quase berrando em meus ouvidos:
“Tá veeeenndo Luiz!!!”

Engasguei com o ultimo gole de bebida amarga (que a essas alturas, comparada à bile e à raiva que percorria o veneno vermelho das minhas veias, estava quase doce), mas terminei a bebida. Até então havia me limitado a resmungar. Era a minha deixa para ir embora. Disse levantando-me da mesa:

“Isso tem lá sua lógica...Por exemplo, uma célula em metástase também convida a célula ao lado; ‘Vem fazer um tumor comigo!’ E elas juntas fazem um câncer que f@#%m o cara. “

Dito isso, deixei uma nota em cima da mesa para pagar a minha parte da conta e fui embora. Não ia dar oportunidades para réplicas e essa era uma atitude de óbvia covardia dialética, mas acredito que por umas dez encarnações já esgotei minha cota de pérolas a lançar aos porcos.

 Ia emendar um sonoro “vão para o inferno, vocês todos” ou  coisa semelhante, mas já estava longe da mesa e meio arrependido por ter falado aquilo. Não pelos meus amigos convivas, mas pelo tal “príncipe feliz”.

Certamente não merecia aquilo e não era um "mau" sujeito.
Eu era.
Eu sou.
E o inferno vai congelar antes que eu mude.

Mas não mau o bastante para não me importar em ferir os sentimentos dos “bonzinhos” (ai meu deus!Que gente irritante!) com palavras ásperas. Também me senti levemente contrariado por ter participado contra a minha vontade daquele espetáculo lamentável.

Aquietei minha atormentada consciência com a constatação que, muito provavelmente, aquele rapaz sequer ouviu minha grosseria. Como eu disse, duvido muito que ele ouvisse qualquer coisa que não fossem elogios ou a própria voz entoando loas a si mesmo.
Quanto aos meus "amigos" que fizeram a gentileza de se divertir as minhas expensas,  não disse, mas reitero o que não disse;
Vão para o diabo sem mim.
Ou deixem-me ir ao diabo sozinho.
Por que haveríamos de ir juntos?

Fora isso, tenho de aceitar que em grande parte a culpa é minha por ser tão previsível em minhas irritações e por insistir em partilhar companhias que fazem com que eu, por minha natureza, acabe sendo grosseiro e tenha cada vez menos (em companhia deles) simpatia por mim mesmo.


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O Problema do copo / Outra Conclusão Desconfortável




Se pela metade está o copo meio-cheio ou meio-vazio, é questão que ha que se legar ao debate entre otimistas e pessimistas.

Curiosamente a parte que está sem nada (ou com nada, dependendo de que lado da realidade você olhe) é sempre o foco destes entreveros verbais entre gente que tem certeza de que, ou o mundo é maravilhoso e uma festa ou o mundo é horrível e campo de batalha.

E "eu, que não tenho certeza alguma, sou mais certo ou menos certo?"

A irrelevância está sempre na parte que está preenchida, porque este que é meio não pode ser tudo. O problema do copo é a parte que está vazia e o consequente desejo do copo de estar cheio e transbordar.
É como dissesse a si mesmo:

"O que eu quero não é o que tenho, embora haveria de o querer se isto que tenho quisesse que eu o quisesse. Seria o suficiente se o quisesse ser. Mas como me falta o que quero e o que tenho não me preenche, estou cheio de insuficiências, repleto de vazio e transbordante do desejo de estar cheio."

...

Uma questão que me surgiu nos últimos minutos, mas fermentou-me no simulacro de cérebro durante muito tempo, a parte do que eu estava consciente. Cresceu como uma droga de câncer, até que pela violência de seu sintoma, não o pude mais ignorar. Mais ou menos me atropelou em meio a uma conversa em que fiquei atordoado pela milionésima vez em como o mundo é uma seara labiríntica. E fico tecendo uma teia intricada de angustias e dúvidas com a tenacidade de uma aranha desejando abrigar-se do vento: 

       Porque é que tenho sempre a percepção das coisas quando estas (senão todas as coisas do mundo) existem apenas ao e para o alcance da sensação? Por que diabos tento encontrar sentido naquilo que não tem sentido além de que deve ser apenas sentido e não simbolizado?

Que tem coisa errada com minha inteligência é fato, contra o qual não tenho como argumentar, mas será que tenho alguma alteração nos órgãos sensoriais e essa anomalia salta daí para a minha capacidade de compreensão das coisas?

Posso muito bem andar de cabeça baixa em meio a um tiroteio e não perceber o zunir de balas a minha volta, do mesmo modo que tenho insensibilidade para o que, em tese, me deveria emocionar.
É possível que se trate de um tipo de cegueira completamente novo e nesse caso, minha anomalia consiste em ter olhos que enxergam demais para dentro e no processo, ficam perdidos em brumas quando olho para fora.


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Pra não dizer que não falei de flores...




Aqueles estão lá a colher flores.

E eu chafurdando a terra a cata de raízes de beladona (esqueci-me para  que é que  delas necessitava, mas  continuei a procurar assim mesmo).

Aspiram o pólen como abelhas grotescas, mas duvido que aquelas narinas sôfregas produzam mel ao invés de muco. 
É um pensamento tão nojento quanto engraçado.

Não entendo e nem gosto de flores mais do que entendo os homens que gostam de flores. A  beleza delas é efêmera e suas cores virulentas. Talvez seja antipatia advinda da inveja, porque eu sou efêmero, mas não belo, embora seja virulento sem ser colorido além da melanina.

Mas sim, elas são bonitas, porém, não me comove a sua beleza, e sim a morte sutil  e sem sentido delas nos bouquets, nas lapelas, nos cabelos dos enamorados e nas coroas fúnebres.
As pessoas tem gostos assombrosos ou então é assombrosa a minha incapacidade de entender  o gosto pela morte da beleza por capricho. Acho que nunca compreenderei os símbolos mais do que compreenderei aqueles que deles se servem para serem mais e mais incoerentes.

Mas eu falava de flores...
Não tenho mestres, eu, que sou discípulo de toda a gente.
Há quem me queira  ensinar o caminho para a virtude, para o paraíso, para Shambhala, para os Eldorados do ego e há sempre um  dedo que aponte a ponte que me levaria ao Übermensch . Há sempre quem me queira salvar a alma, mas ninguém que me explique flores.

Eu entendo o húmus da terra, o solo negro a me sujar as unhas enquanto busco raízes, a degeneração e decadência da vida da qual brota mais e mais vida. Mas parece a esses que amam flores, que elas brotam do nada (como se o nada pudesse gerar alguma coisa além  alem de nada).

É...Não amo flores e não as entendo, mas gosto delas por não haver talvez o que entender, além da fugacidade de sua beleza. Aqueles lá amam flores e as arrancam da terra para iluminar brevemente o olhar e a vaidade.

Fico feliz por não ser belo, embora seja efêmero. Fico contente por ser virulento, sem ser colorido. Talvez ninguém venha a me amar, como aqueles lá a arrancar flores amam as flores que arrancam. Mas pelo menos não me arrancarão de lugar algum.

Eu seria adereço horrível para lapelas, bouquets e afins e antes que alguém pense que estou exagerando, sugiro que se lembre que chinchilas e animais semelhantes são adoráveis e dão adoráveis casacos e botas. Nunca vou compreender, se é que há algo a se entender no incompreensível...


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A tardia ignição do meu Desconfiômetro



Tenho cérebro de esquilo.
 Fato.

É o que sempre digo a mim mesmo quando tenho uma opinião desfavorável a meu respeito e como isso é quase uma constante, admira-me o fato de eu não ter ainda me mudado para um desses parques de BH e ido fazer parte de uma comunidade de caxinguelês. 

Injustiça minha, é claro. Estou sendo duro demais nesse juízo de valor.
Esquilos são criaturas espertas e agradáveis, o que é mais do que posso dizer a meu respeito. Na verdade, devo ter é um cérebro de avelã (se é que tenho cérebro) e por associação, acabei difamando a honrada raça dos esquilos.

Mostre-me uma pessoa com elevada autoestima e eu te mostrarei alguém com baixíssima autocrítica (e consequentemente, uma pessoa feliz, tal como as pessoas em geral compreendem a quimera da felicidade)

Tenho um retardo patológico para coisas importantes. Constatação triste e que, como de costume, chega- me tardiamente.

Estou dando informações que não interessam a ninguém, mas a exceção do meu metabolismo, tudo em mim funciona com uma lentidão que parece que vejo e levo a vida em tedioso slow-motion. Mas, criatura de extremos que sou, quando engreno uma marcha, adquiro uma compreensão supersônica  do que até um segundo atrás ignorava completamente. Não é uma coisa vantajosa e muito menos um processo indolor.

Então o meu “descofiômetro”, aparelho subjetivo de existência duvidosa, resolveu finalmente funcionar e agora está próximo a velocidade da luz.

Pegou no tranco e para tanto, precisei de uma ladeira onírica e me recuso a pensar que sempre necessitarei de recursos metapsicológicos para inferir coisas que deviam vir de ponderação e raciocínio. Mas que posso esperar do meu diminuto cérebro de avelã?
Meu Deus!

Como também tenho queda para exageros e melodrama, penso em Édipo arrancando os olhos quando descobre que matou o pai e casou com a mãe, mas é apenas uma outra associação inadequada. Sou um sujeito de extremos, mas nem tanto.

Mas tragédia é tragédia e não sei de condição mais trágica do que a do barril consciente de que está cheio de pólvora e que o pavio está aceso e se aproximando perigosamente.

Então, não é exatamente por não saber dançar, mas por não poder ignorar que o chão é de gelo fino, que me agarro apavorado nesses lapsos de consciência de onde olho para mim mesmo com certo desprezo. Seria bem mais digno e menos cansativo simplesmente deixar-me cair. Duvido que a queda doa tanto quanto o medo da queda...

A consciência de certas coisas é constrangedora, mais ou menos como entrar nu numa sala cheia de tias anciãs e carolas. E pior, ficar lembrando-se desse fato o tempo todo. 

Putz! Parafraseando Mafalda: “Justo a mim me coube ser eu”.
É o meu dia de Hardy, a hiena...
"Oh, dia, oh vida...."

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Devaneios Em Noite de Chuva e Devaneios




Está chovendo a cântaros por aqui...
Se existir um deus da chuva, devo lhe dizer que sou grato por esses  dilúvios- lágrimas-do-céu que aquietam um pouco o mundo e no processo, lavam as calçadas imundas de Belo Horizonte que só nessa época chuvosa ficam realmente limpas. Acender-lhe-ia uma vela, se eu não fosse um maldito cético-incrédulo-infiel-ateu (cansei de dizer que sou agnóstico e ter de ficar explicando a diferença, então, dane-se!) e além do mais, só tenho uma vela em casa e a energia costuma faltar em noites de chuva, então não vou desperdiçá-la num ritual sem fé.
Vai ter de bastar um cordial “muito obrigado”.

Tem essas horas que o mundo realmente encolhe (como em agradáveis e insones noites  de chuva) e então, tenho uma ilusória sensação de conforto, como se as asas do mundo se fechassem em torno de mim, como num abraço...

Mas não são asas e sim tentáculos e o mundo não abraça afavelmente, ele estrangula impiedosamente.

E tem também essa...Coisa.
Esse sentimento de estar na iminência da percepção de algo novo e revelador, como um conhecimento íntimo de qualquer coisa que não se apresenta claramente à consciência, mas esgueira-se como um fantasma furtivo a nos observar no canto da visão periférica, e que desaparece caso o olhamos diretamente. E é coisa bastante  irritante esse saber-sem-saber e acabar descobrindo algo por intuição, depois de quase uma vida pensando e meditando sobre o assunto.

Isso, mais o silêncio por debaixo do telhado, por debaixo da chuva, por debaixo do céu, por debaixo de tudo, encharca o espírito de uma melancolia fria, tanto ou mais que as sarjetas lá fora estão encharcadas de água. Então toda a minha capacidade de abstração desaparece e fico refém dos sentidos, vivendo trôpego como num sonho embriagado.

Acho que nos últimos anos acabei ficando muito tempo andando em ruínas. E apenas quando lá não encontrei, tive noção de que buscava algo, que não encontrei onde o buscava sem saber.
Ou então encontrava vestígios, rotos de presença, fiapos de um “quase” alguém aqui e ali, mas no fim, no meio da multidão não havia ninguém.

Toda vez que penso ter encontrado alguém, que na falta de uma definição mais precisa tenho de chamar de “meu povo”, esse alguém já se foi; está morto ou alhures ou não é do Meu Povo, mas apenas um suposto, filho do meu desejo de que este suposto seja alguém do Meu Povo.
Ou então esse Eu foi engolido pelo mundo e rendeu-se ao desejo/desespero de ser aceito e mergulhou na inconsciência da massa fingindo não ser uma Pessoa, tornando-se Nós, mas por esses últimos, compreendo, mas não me permito lamentar.

Então o mundo para onde tenho olhado a cata de outro Eu, me parece ser uma sucessão de casas vazias, de lugares vazios por onde alguém passou e deixou marcas. E tudo que escuto são ecos muito longínquos desses outros, sorrisos congelados em fotografias, olhos que já não estão ali a olhar para o vazio,  pegadas quase cobertas pela poeira nas ruínas que rondo como um espectro.

Mas pegadas não são tão profundas quanto os pés que as gravaram e nem os ecos são realmente vozes e nem o suposto de alguém é alguém e nem quem deseja se perder na multidão merece ser encontrado.
E fico pensando se não estou eternamente passageiro parado na estação a espera de um trem que já passou e levou todos os meus embora...

Tinha alguém ali na esquina, mas virou à esquerda do mundo enquanto eu me distraí olhando as horas e acabei virando à direita.
Estou sempre e miseravelmente atrasado para tudo...

É uma sorte estranha ser um quase extinto, ultimo de uma espécie em vias de desaparecer, indivíduo que, por sua estranheza, exerce sobre a casta dominante um fascínio que tem um misto de repulsa e atração, admiração disfarçada de desdém e menosprezo mascarado de compaixão. Isso tudo enche-me de tédio e sono, mas curiosamente não consigo dormir.

É possível que no fim das contas, façamos amor e guerra pelo mesmo motivo:
Falta de espaço.
Precisamos mesmo ocupar os espaços internos dos outros já que os nossos a nós não bastam.

Talvez seja hora conveniente para ampliar minhas fronteiras internas mais para dentro, já que aparentemente o mundo encolheu demais para fora e já não há (se é que um dia houve) espaço algum para ser.


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

O Velho do Fim da Rua





Meio que tive uma visão por esses dias...
Foi em um diálogo em que me impacientei comigo mesmo por causa da  eloquência raivosa com defendi um ponto de vista e cansei-me demasiado por estar certo e desejar intimamente estar errado (ou ter companhia nesse meu “estar certo”) e irritei-me pela consciência desse desejo.

Foi então que olhei para o meu futuro.

Pessoas que  tem algum tipo de crença podem dar N-explicações sobre este ou aquele fenômeno, mas como sou/estou aparentemente desprovido da capacidade de acreditar em qualquer coisa, sou levado a interpretar diversos eventos a que alguns chamariam “mediúnicos”, à luz crua do Cid-10 de F00 a F99.
É provável que seja o meu caso.

Um tanto mais prematuramente do que eu esperava.

E seja por uma patologia ou evento místico ou simples lógica advinda da experiência, foi-me revelado num insight cuja natureza eu me esforçaria em desvendar se não estive acometido por uma preguiça monumental, que estou em vias de tornar-me um “velho do fim da rua”.

É um tipo de personagem muito comum em quase toda comunidade. Trata-se do ermitão local, velhote excêntrico,  rabugento e um tanto rude que habita casa mal cuidada e suspeita de ser assombrada por todo tipo de aparição. Diz-se que esses tipos viram porcos na quaresma e lobisomens em sexta-feira santa e mais outros tantos sortilégios, de modo que são evitados pelas senhoras e crianças da região e vistos com reserva e certo receio  pelos homens.

Essa qualidade de velho bruxo tem sempre um jardim de ervas daninhas, pois em geral odeia plantas domesticadas, como odeia quase tudo o que é domesticado. Responde com um resmungo ofendido caso lhe dirijam a palavra e nunca devolve as bolas de futebol ou pipas que por acaso caiam em seu quintal e, no geral, só recebe visitas munidas de mandado judicial.

Muito provavelmente é este o meu destino. É só olhar para trás para ver por onde tenho andado e por onde ando atualmente para saber para onde meus passos me levarão.

Listando; Uma aversão por convívio social que vai se instalando pouco a pouco, uma impaciência com as contradições humanas que vai se convertendo lentamente em franca misantropia, um apego cada vez maior por momentos de solidão, uma antipatia profunda pelo som da minha própria voz (desejo velado por um mutismo intelectual também) e uma sensação ácida de ter sido estúpido por ter sempre me pautado por uma questão de Nobless Obligue, na maioria das vezes em meu próprio prejuízo.

Essas são mudanças que vão se alojando pouco a pouco, mas das quais tenho cá uma incômoda e dolorosa percepção. Será que não é possível entrar em decadência sem ter noção da dita cuja?

Bem, há dias em que acho que todo o mundo é lindo, que tenho uma compreensão quase espiritual dos paradoxos da vida, que desejo me expandir e estender-me e abraçar tudo a minha volta.
Esses dias têm tornado-se cada vez mais raros...

Há dias em que acho tudo horrível, que fico atordoado e confuso com toda a lógica e que fico perdido em meio à ordem e simetria das coisas e que desejo retrair-me e encolher até desaparecer em espiral para dentro de mim mesmo.
Esses dias, também têm tornado-se cada vez mais raros...

E enquanto essa letargia estranha vai se ocupando de transformar meu corpo em pedra e poeira e minha cabeça em nuvens cinzentas, penso que o fato de aprender a falar e ouvir ,não melhorou em nada minha capacidade de comunicação com os seres humanos. Até aí, nada demais. Mesmo que eu compreendesse os mecanismos que fazem um pássaro voar, estaria preso ao chão do mesmo modo.

Não preciso ser quiromante ou vidente para saber que isso sem duvida vai me levar a ser um desses velhos eremitas, habitantes de casa isolada em rua erma que vivem sós, balbuciando incoerências sábias, cercados de livros e lembranças encardidas.

O pensamento não chega a me assustar, (embora não seja um prognóstico animador para o que eu tenho ambicionado) quando muito me aborrecer , mesmo porque, a bem da verdade, já sou um ranzinza com quase todo o ônus de um ermitão, sem necessariamente ter as benesses advindas desse papel.

Eis-me à beira da estrada, à beira do mundo
Sem eira e sem alforge.
Trago um silêncio enfastiado 
Ensurdecedor, no desejo de calar-se com voz.
Trago somente um olhar para rostos próximos:
Vejo-os léguas além dos poucos centímetros
que separam seus olhos dos meus.

Eu, 
Aprendiz das pedras sábias e dos inteligentes regatos
Eu, 
Para quem ladram os cães em noite escura,
Eu, 
Que cheiro o sol e a muitos suores dormidos,
Eu,
Que sigo a lua e o lobo debaixo da lua,
 e o vento e a folha que o vento sopra...,
De barba-arbusto no campo selvagem do meu rosto
Trajo andrajos qual rei vestindo oiros,
Ah, sendo rico de solidão, sou pobre de tudo, de tudo...
Exceto de mim mesmo.


    Sahge

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Esboço de um momento niilista que esqueci dentro de um livro perdido... Acabaram me devolvendo o livro e o momento junto com ele..



Tudo se inquieta debaixo do sol.
Há imponentes coisas correndo e ocorrendo  na extensão da terra 
Há questões e debates acalorados entre muitos eus nos íntimos da mente...
Então, refugio-me ali, naquele canto escuro ao fim de um corredor que dá para uma porta que dá para o nada.
Porque ali,
Naquele pedaço de nada, lugar nenhum onde nada acontece,
Naquele canto tão esquecido que nem deus e o diabo disputam,
Ali posso ouvir cantar o silêncio final de todas as coisas
E tenho espaço o bastante para ser
Nada.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Uma Pequena Nota Sobre a Coragem...


Eu te proponho algo dificílimo.
Faço-o a você, porque dentre toda a massa humana que conheço, penso que você, e apenas você, consiga carregar sobre os ombros a pesada carga de ser um indivíduo.

Comecemos pela semântica: Proponho que comece a questionar como é que surgiu em nossa linguagem (e dela para a nossa consciência) o termo "eternidade".
É uma palavra linda! Desliza pelas cordas vocais com uma agradável sensação de macies e corre pelo sangue com o calor e o gozo de uma caneca de rum em noite fria.

Mas eternidade, considerando-a honestamente, é apenas uma ficção, porque nada no universo físico é eterno e do universo que não é físico...Bem, deixemos essas abstrações para os, agora raros, dias de embriagues poética.

Nada é eterno, criança. Nem eu, nem você, nem a grama lá fora, nem o criancinha no colo, nem o ancião cansado, nem o jovem atlético, nem as borboletas de trinta dias, nem as tartarugas de cento e cinquenta anos, nem as "estrelas cadentes" e  nem as nebulosas nos ermos do céu...

Nada é eterno, então a eternidade é invenção e filha direta da consciência do quanto somos efêmeros...Do quanto somos mortais. É o nosso anseio tolo por durar mais do que as estrelas, é a maçã no Éden, o nosso grito patético de rebeldia contra o peremptório abraço da morte.

Então, proponho algo difícil a você, que é um indivíduo como nenhum outro, e propondo a você, proponho-o também a mim, que almejo ser um indivíduo igual a você na diferença com o mundo:
Tenha coragem!
É a virtude máxima.
A maior força que se pode ter não vêm dos braços, do corpo ou dos recursos, mas da coragem de enfrentar o que vier pela frente.
Com a fúria apropriada, com correta  ferocidade no olhar de quem enfrenta a morte, não para vencê-la, porque tudo o que vive morre, mas porque é da natureza de tudo o que vive brigar até  fim.

Aquele pensamento bonito está errado (como estão quase todos os pensamentos bonitos): O leão morto vale muito mais do que o cão vivo.
Porque é preferível e mais significativo morrer com coragem do que viver eternamente com medo.



domingo, 16 de dezembro de 2012

A Felicidade do Absinto



O sol expirou seus últimos raios,
O que brilha sobre as nossas cabeças é um fantasma pálido.
Caiu para cima, desaparecendo na escuridão do céu.
Foi iluminar outros satélites, mais dignos do seu brilho.
A lembrança dele e a presença de sua ausência tira a essência das coisas menores
E com ele suicidou-se o amor que eu nutria pelas pequenas coisas
Quando não sabia que eram pequenas,
Quando não sabia que eram coisas.

O fato trágico...
Visto-o como quem enverga um traje a celebrar bodas com seu desamparo.
Mas aquela árvore,
Fincou profundamente suas raízes no nada
E tem lá nas alturas a sua copa a bater-se contra os ventos.
O que a pode sustentar senão a teima em bater-se contra os ventos?
Do que nutre a sua seiva e de que serve o amargo de seu fruto sem sementes?

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E caiu uma chuva de bronze na planície cinza e o verão chegou ao mundo.
Isso assaltou meu sonho escuro como uma febre assalta o corpo
E se infiltrou como uma idéia nova a soprar longe o bolor dos meus pensamentos.
Correu-me nas veias mais rápido que absinto e me embriagou,
Sem que com isso me tornasse irresponsavelmente feliz na embriagues
Como com o absinto...
Mas forçou-me a uma alegria involuntária, violentando-me a angustia
Seguido de um desespero que olhava as raias do outono distante, ainda o outro lado do mundo...
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E eu semeio pedras num campo rochoso e ainda lamento o não germinar...
E procuro encontrar onde não está o que busco (porque não posso achá-lo em outro lugar)
Sonho com o possível dentro da impossibilidade
E quero ver atrás do suposto o que é real
Ignorado pelo suposto que se pensa real, mas não sabe o que é...
E eu  não sei.

A seiva da incompreensão nutre as folhas
E a copa larga como velas de uma nau bate-se com os ventos do mundo
Vento, nada , solo rochoso...
E uma Charybdis a esquerda do peito, entre as costelas
O resto é pó e silêncio...

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Lisbon Revisited (1926)




Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infãncia pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!...

                                    Álvaro de Campos

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