segunda-feira, 29 de abril de 2013

Ainda sobre relógios e sobre o que eu não compreendo...





Acho que talvez uma ampulheta meça melhor a passagem dessa coisa fluida que é o tempo do que qualquer relógio, exceto talvez o relógio de sol. Mesmo que um relógio de corda, habilidosamente sacado do bolso orgulhoso de quem ostenta um mimo desses tenha certo charme ou que a tecnologia de relógios digitais tire o fôlego por sua versatilidade, ainda penso nos finos grãos de areia dourada, caindo mais rápidos do que segundos frios pela cintura voluptuosa de uma ampulheta tenham uma carga de tempo que é quase palpável...

É isso ou eu, pelo meu gosto por coisas arcaicas, sou mesmo “jurássico” , como na definição graciosa de uma afilhada que gosta de me chamar a atenção para o fato de que sou um "velho retrógrado". Como se eu pudesse por um momento sequer ignorar isso...
Só para constar, ela está errada, porque estou certo de que sou pré-crambriano e ela errou por um  bilhão de anos ou dois.
Coisa de pouca monta.

E enquanto a areia caia pela cintura da ampulheta, fiquei distraído ao sol observando crianças montarem um castelo de cartas e depois derrubá-lo. Ficaram nisso por muito tempo e admirei-me que ainda continuassem crianças depois de tanto tempo fazendo e desmontando castelos de cartas. Eu sei que meus cabelos embranqueceram muito naquele tempo em que a areia caiu e castelos de carta se erguiam e eram derrubados e em volta, no mundo para alem daquele playground, coisas grandes aconteciam, guerras e revoluções e vida e morte, mas sinceramente? !?
Duvido que entre todo aquele espetáculo humano algo fosse mais fascinante do que a alegria meio louca de crianças a montar e desmontar castelos de cartas.

Pensei em Sísifo e sua pedra e acho que ele certamente teria aprendido algo com aquelas crianças.
Então compreendi (novamente tardiamente como é da minha natureza) que a alegria daquele ato de desmontar para depois montar é algo que os adultos tentam reviver, em conversões espirituais ou de caráter, como se fosse possível desfazer a si próprio e se remontar novamente em unidade renovada com  os cacos que fizemos de nós mesmos e daqueles sonhos ridículos que nos venderam como nossos.

Pensei em todo o discurso grandioso de gente que em certo dia resolve que vai ser diferente, que vai mudar de vida e que vai se erguer das cinzas como uma fênix e sai por aí, andando em direção contrária a do mundo achando que está fazendo grande coisa, quando nem percebe que a direção que tomou agora, ainda é referenciada pelo mundo e não pelo próprio desejo.
Talvez castelos de carta sejam infinitamente mais honestos.

A vida cansa. E é tediosa e chata.
E  mente maravilhosamente bem quem diz para si mesmo que ela é uma sucessão de folguedos e alegrias. Geralmente é o tipo de gente que acorda quase sempre de ressaca etílica e bebe mais, para não ter de lidar com a ressaca moral que certamente vai se somar a dor de cabeça e estômago ruim para atormentá-lo.

Eu?
Sou um velho cansado, cansado de aprender de velhos cansados o que é no fim, apenas mais e mais cansaço.
Melhor aprender das crianças, porque estas enquanto não cresceram, não esqueceram completamente  o que é ser verdadeiramente  humano.

E enquanto “convicção” não for um artigo vendável e comprável em farmácias e estabelecimentos afins (aparentemente o é em igrejas, partidos políticos e movimentos ideológicos, mas já falei demais disso e me cansei desta vereda), permaneço um ateu da vida eminentemente prazerosa e um apóstata do deus felicidade, cujo culto absurdo transforma crianças alegres a desmontar castelos de carta em adultos decepcionados consigo mesmos, tentando todo dia desmontar a si próprios e com vergonha do que são.

A areia cai e as crianças brincam. Essa é toda a sabedoria que existe no mundo.

E para encerrar a minha perplexidade, acho que caiu um Saara de areia por aquela ampulheta enquanto eu envelhecia olhando as crianças.

Levantei-me com dificuldade por ficar tempo demais na mesma posição. Olhei para o mundo e percebi que preciso me atualizar, porque até onde me lembrava, o Brasil era um país laico, homofobia e racismo ou preconceitos religiosos eram crimes morais (se ainda não legais) velados e não escancarados, um beijo (entre pessoas do mesmo sexo ou não) era uma manifestação de desejo e/ou de amor e não uma arma política, “vadia” era um termo insultuoso para as mulheres, tal como "ladrão", "malandro" ou "safado" era para os homens; honra era uma bússola para a conduta de pessoas fortes e não uma palavra meio esquecida num dicionário ou um atributo de que se envergonhar; onomatopeia musical (do tipo; Lá-ri-lá-lá ou Tan-tan-ran ou tê-rê-tê-tê) era apenas um recurso para quando se esquecia a letra das músicas e não  A letra da “música” em si e a sociedade caminhava para uma evolução de valores e liberdades e não para uma involução a cata de hedonismo. Oh e a lista segue!
E quando fiquei na ponta dos pés, tentando divisar mais ao longe, vi que o oceano de absurdos não parecia ter fim.
E eu sequer havia compreendido a marola na beira da praia.

“Não entendo.
Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco.
Não demais:
mas pelo menos entender que não entendo.”

Clarice Lispector

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