terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Reminiscencias de uma carraspana 2 - By Sahge


“Eu não bebo
Pelo sabor do vinho ou para debochar da fé
Mas para esquecer, nem que seja por um momento
De mim mesmo”


Lastimo não me lembrar de onde li isso e de quem é a autoria, mas recebo com certo impacto e a devida reverência a totalidade do significado desses versos. Um brinde ao autor!

Já comentei, até recentemente pelo que me lembro, de que evito beber. Tenho razões várias e até então, não tenho motivo algum para arrepender-me de estar me privando dos deleites etílicos, embora se comparado com outro tipo de embriaguês, recomendo a todos, como um remédio do qual não faço uso. Não fazia.
Bem, estava ali no fim de tarde com alguns amigos, gente paciente que por longos anos tem suportado como cabe a bons amigos, a minha obstinada abstemia. Fico sempre desconcertado tentando entender para onde vão tantos litros de bebida, porque até onde sei, a cavidade estomacal do seres humanos tem lá seus limites embora minhas observações digam o contrário. Bebiam como se toda a bebida do mundo estivesse acabando e eu bebericando um copo de refrigerante por horas a fio. O chato em ser o único de uma turma na mesa de um bar que não bebe, é que à medida que o álcool sobe pelas têmporas  do grupo, você acaba se tornando, por ser o único a estar sóbrio, ininteligível. Ninguém mais compreende o que você fala e você fica ali, sozinho na multidão, privado do conforto da irmandade (porque a tribo dos “pinguços” é muito irmanada), afastado da afável confraria etílica.

Sei lá porque nesse dia resolvi mandar ao diabo toda a minha prudência em relação ao álcool e resolvi acompanhar  o grupo. “Uma cerveja, faz favor!”.  
Detesto o sabor de cerveja e de outras bebidas, principalmente as “secas”. O fato de todo mundo falar que “é uma delicia” me leva a concluir que deve haver algo de muito errado com meu paladar. Penso intimamente: “ Eu sou um ignorante ou isso aqui é mesmo uma porcaria?”


E como o sabor daquela cerveja estava longe de ser o que eu definiria como “delícia”, tomei de uma vez, como se fosse remédio. Não precisei de muita para ficar completamente embriagado, porque bebedores de ocasião são “fracos” e a relação dose/embriaguês é relativamente desproporcional. Em resumo, fiquei bêbado “como  um gambá” com uma quantidade ridícula de bebida.
Antes que eu passe às minhas impressões sobre o meu estado de embriaguês, permitam-me contar que ao que me recorde, fiquei bêbado por duas vezes, mas foi há tanto tempo e os resultados foram tão negativos (física e moralmente falando) que tenho destes episódios lembranças muito vagas, talvez por tê-las  bloqueado em função dos maus resultados.


Levantei-me para ir ao banheiro (ritual que os bebedores executam diversas vezes quando em culto etílico) e senti imediatamente o chão sair de debaixo dos meus pés. Não vou perder-me em descrições fisiológicas do meu estado, porque considero isso desinteressante em comparação com minhas outras impressões. Então...Uma pequena dose de “filosofia de buteco”.

Bêbado...
O mundo se torna repentinamente mágico e dores que eu nem sabia que tinha (ou são tão freqüentes que já não as noto) desaparecem. Fico desorientado e me parece estranho pensar que o que me orienta seja justamente a união de todas essas dores. Olho para os lados e acho que todo mundo que está a minha volta é lindo. Como as pessoas são bonitas quando estão alegres!  Não tinha me dado conta. E de repente, amo todo mundo e se já odiei alguém, me parece absurdo que o tenha feito e gostaria nesse momento que essa pessoa estivesse ali comigo para nos reconciliarmos em volta daquela mesa. Um brinde!


Rio como um desvairado de qualquer tolice, mais pelo prazer de rir do que pelo significado do que foi dito. Esqueço-me do significado. Esqueço-me de lembrar qualquer coisa. Esqueço de que existe coisa como lembrança  e falo alto e em bom tom tudo o que me vem à língua, porque à cabeça, nada me vem, exceto talvez aquela sensação agradável de que o mundo é um carrossel, um caleidoscópio maravilhoso. Tudo o que tenho vontade de fazer eu faço, porque me parece absurdo não atender aos meus desejos. Que é conseqüência? Estando amparado pela perfeita desculpa de estar completamente bêbado, atrevo-me a destilar amores. De repente, eu amo todo mundo, até a quem odeio e especialmente estes.

Bêbado...
A alma não dói (não mais), a mente não mais fervilha. Desfaço-me de angustias com uma facilidade absurda, que nem em vinte anos de análise daria conta. Analiso o mundo pelos meus sentidos. Que há além do que podem eles perceber?  De repente me sinto despossuído do dom de mentir e me torno um livro aberto (coisa assustadora e possivelmente acarretará graves conseqüências) , não pela expectativa da reciprocidade, mas porque me parece natural fazê-lo. Amo, e descubro para a minha surpresa que também sou amado e recebo tal amor com a mesma naturalidade com que recebo mais um copo. “ Mais um copo!”
Arrisco-me pelas ruas e tenho uma crise de risos cada vez que sinto a Morte dançar perto de mim. Buzinas, faróis e gritos: “Saia da rua seu louco!”

Bêbado.
Como um desvairado num carrossel em giro lento. Dentro de mim, como que encarcerado numa jaula invisível, o meu bom senso se debate como um animal. Grita, esperneia, mas o ignoro. Todos os chatos têm de ser ignorados. “Amanhã, é certo que vou ficar extremamente constrangido”, digo a alguém que um impulso vindo sei-lá-de-onde, levou-me a ser mais carinhoso do que permitiria meu bom senso engaiolado, mas no momento não me parece importante. Eu quis fazer e fiz. Que há de constrangedor nisso? Que ha de constrangedor em decidir por um minuto não mais violentar a sua vontade? A vida é curta, a noite é longa e BH não tem mar, mas tem bar, portanto...

Manhã seguinte, a ressaca foi o menor dos meus problemas. (mentira! A ressaca foi o maior dos meus problemas!) Não fiz nada que não tenha conserto ( a não ser que eu esteja sofrendo de amnésia etílica. Muito comum em casos de abstêmios que enfiam o pé na jaca.) e cheguei intacto em casa. Mas recordando-me da sensação de liberdade... liberdade da angustia e de outras coisas pelas quais passamos a vida em luta constante, compreendo melhor as pessoas que bebem.  E tive impulsos de fazer a solene e sagrada promessa de nunca mais voltar beber, mas estou um pouco receoso quanto a fazer promessas, portanto,  em vez de tomar decisões, tomo um analgésico, porque minha cabeça está explodindo. E fico indeciso se estar bêbado é um modo de roubar artificialmente um pouco de felicidade num mundo de dor ou apenas mais um modo de ser mais estúpido.




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