terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Os Meus Amados Inimigos



"Minha disposição é a mais pacífica. Os meus desejos são: uma humilde cabana com um teto de palha, mas boa cama, boa comida, o leite e a manteiga mais frescos, flores em minha janela e algumas belas árvores em frente à minha porta; e, se Deus quiser tornar completa a minha felicidade, me concederá a alegria de ver seis ou sete de meus inimigos enforcados nessas árvores. Antes da morte deles, eu, tocado em meu coração, lhes perdoarei todo o mal que em vida me fizeram. Deve-se, é verdade, perdoar os inimigos - mas não antes de terem sido enforcados".
                                                                                Heinrich Heine
Talvez não seja um habito razoável, mas gosto de escrever cartas aos meus autores favoritos ou a outros cujas obras me emocionem ou me atinjam de algum modo comentando trechos de sua obra. É um tanto ousado, para não dizer que é uma tolice de minha parte, uma vez que não envio tais cartas e a maioria desses autores já morreu. É apenas um modo de demonstrar apreço ou dissecar o efeito que teve em mim tais obras. Hoje me ocorreu de enviar uma ao grande  Heinrich Heine, comentando a sua poesia acima que muito me impressionou.

Julho, Inverno de 2010
Caro Herr Heine
Eu deveria começar dizendo que não tenho palavras para expressar o meu apreço por sua intrigante poesia, mas isso, além de uma gabolice que deve cansar a vista de um escritor, seria uma inverdade, posto que tanto tenho, que delas farei uso para atrever-me a fazer algumas considerações. O senhor naturalmente não me conhece, portanto não estou no direito de fazer qualquer censura as suas palavras que diga-se, são a expressão de uma inquietante verdade. No entanto, tenho de indagar; 
Se o senhor foi  honesto o bastante para confessar o desejo, por muitos tomado como repreensível, de ver enforcados os seus inimigos, ora, porque não fez uso desta mesma honestidade para admitir que, não, não lhe bastaria apenas uma cabana humilde e boa comida, mas agradar-lhe-ia em muito em vez disso, habitar o mais esplendoroso palácio de prata e cristal, tendo a sua disposição um lauto banquete servido por um batalhão de bailarinas?

Certo... É bem possível que se trate mais de um desejo exclusivamente meu e que minha prepotência atribua igual anseio a todos os homens e que o senhor seja de uma estirpe menos mundana, porem, não consigo entender por que diabos iria um homem contentar-se com uma choupana quando poderia muito bem dispor de todo um reino, caso lhe fosse oferecida a oportunidade de escolha!  Eu de minha parte, não julgaria mal o seu caráter caso tivesse demonstrado um desejo inicial mais de acordo com a índole humana, como o senhor fez magistralmente em sua conclusão e me sentiria menos desconfortável por ter de ver-me em posição inferior, de homem ambicioso e fútil que almeja sonhos de grandeza enquanto ao senhor que é um totem entre gigantes, tão pouco bastaria. Mas é evidente que ao forjar a sua perturbadora e genial poesia, o senhor de modo algum estava interessado nos sentimentos de anônimos admiradores de sua obra, dentre os quais me incluo. Deixemos de lado.

A parte a humilhação minha por ter de confessar-me um homem cobiçoso de coisas que talvez sejam futilidades, também fiquei desconcertado quando imaginei-me em seu lugar, tendo prontamente atendido o meu íntimo desejo de levar ao cadafalso os meus inimigos.  O primeiro fato é imaginar que Deus me tenha em tão alta conta que vá, a guisa de fazer-me feliz, pendurar pelo pescoço seis ou sete pessoas, desconsiderando o fato de que elas dificilmente estariam tendo a sua felicidade realizada em tal posição. Eu teria de ser um prodígio e valer mais do que sete pessoas, um elemento dentre o universo da humanidade por quem o Criador tivesse um afeto e consideração excepcional. Porém minha constante e severa avaliação de mim mesmo me impossibilita de iludir-me a esse respeito. Nunca fui um santo ou um homem dotado de virtude piedosa. E se há uma sorte de homens assim, supondo que o senhor se inclua nessa confraria de portentos, livre-me Deus de estar contado dentre os inimigos de tais homens! Estaria eu contado dentre os seis ou sete dependurados nas belas árvores em frente a sua porta. A minha consternação seguinte está no fato de que nunca soube com exatidão quem eram os meus inimigos, com exceção de um.  Veja o senhor que ainda hoje andei lendo um sábio conselho que há muito me persegue: Cuidado com o que desejas, pois podes acabar o conseguindo.

Conselho valioso e sábio e atento a ele, não posso deixar de imaginar que baseado no conhecimento do meu desconhecimento acerca de quem são os meus inimigos, eu possivelmente tendo um tal desejo atendido, veria ali seis ou sete das pessoas a quem mais tenho amado nessa vida. Oh, não é exagero imaginar cena tão dantesca, porque o único inimigo que conheço e reconheço em qualquer campo de batalha, aquele que trabalha para a minha ruína noite e dia e com quem tenho me batido há muitos e cansativos verões em guerra aberta é o meu coração estúpido. Esse, herr Heine, é o único inimigo que eu gostaria de ver pendurado no cadafalso, supondo é claro, que eu poderia viver sem as suas batidas infernais dentro do meu peito. Como sei que a coisa não se dá assim, teria de contentar-me com as belas árvores unicamente por sua sombra e flores ou frutos e pela força de seus troncos e galhos onde poderiam pousar os meus corvos.

Inimigos não são tão facilmente identificáveis porque constantemente estamos esperando destes uma adaga fria na noite, uma flecha a nos fender o fígado ou o sabor amargo do ferro quente, mas nunca um beijo, um afago ou uma palavra amiga. Seis ou sete dos meus amados pendurados pelo pescoço não é cena que eu gostaria de ver e nem completaria a minha felicidade. Primeiro porque, sem inimigos imagino que a vida de um homem deva ser menos desafiadora e embora eu já não seja tão jovem, me apetece um bom desafio, uma luta em que triunfar ou tombar em glória e coragem ( Como vê, não abandonei totalmente o idealismo da juventude). E em segundo, porque seria trespassado por dores agudas ao descobrir que aqueles a quem dediquei amor, abstinência e abnegação e muitos dos meus pensamentos são justamente as pessoas que mais se empenharam para que eu permanecesse infeliz.  Posso muito bem perdoá-los sem que para isso tenham de morrer, porque inimigos ou não, são pessoas a quem amo e se inimigos se mostrassem... Diabos! Não seria dar-lhes a vitória final sobre mim, causando-me com sua morte brutal uma dor profunda a  que meu coração estúpido que não sabe diferenciar amigo de inimigo iria fatalmente me submeter?  Há coisa mais patética do que sofrer pelo inimigo enforcado? Há coisa mais terrível que descobrir que amou quem em secreto te odiava?

Ah, se ao Criador (por compaixão ou por diversão ou por simples tédio, posto que por merecimento dificilmente me concederia alguma graça) aprouvesse fazer-me feliz, seja numa choupana com teto de palha ou num palácio de prata e cristal, deixaria meus amados, meus muito amados inimigos vivos, mas penduraria pelas artérias,( já que pescoço não possui) o meu coração estúpido e me permitiria viver sem ele. Talvez eu não criasse mais, talvez eu nem mesmo tivesse algo como um arremedo de vida, mas é possível que tivesse algumas boas noites de sono.  Bom outono para o senhor e parabéns pela bela e incômoda poesia!

Atenciosamente
Sahge.

PS: Caso o pedantismo e atrevimento de minhas palavras o tenham exasperado além do humanamente suportável, peço desculpas e renovo a minha estima e consideração mesmo se  o senhor, justamente movido pela irritação mandar-me ao inferno, advertindo-lhe contudo que é inútil fazê-lo. Sou um poeta, mein freund. Já vivo no inferno há algum tempo e acostumei-me a esta vizinhança.

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