Uma curiosidade sobre férias:
Ansiedade para que elas cheguem, ansiedade para que elas terminem.
Qualquer coisa que se estenda por dias a fim, torna-se invariavelmente rotina e "nada é mais intolerável do que uma sucessão de belos dias".
Uma coisa sobre a comida mineira: Ela é pavorosa! Opinião desse mineiro que vos digita.
Tudo na comida mineira parece borbulhar em gordura animal e o exagero na fartura com que se come e se bebe em Minas, me deixa nauseado, resultado, penso, de minha educação excessivamente frugal.
Eram tempos duros, os anos 80 e receio que eu tenha aprendido bem demais uma etiqueta na qual me aferro, com consequências graves para a minha capacidade de deglutir o sem fim de comida as pessoas parecem querer que eu coma.
E, oh, deuses inexistentes, esse povo bem poderia acabar com essa besteira de "desfeita" e entender que nem todo mundo é todo mundo e nem todo mundo tem um buraco negro abaixo do esôfago.
Quando retornar ao trabalho, sentirei falta desses dias de ócio, tal qual agora sinto falta do trabalho.
...
Mentira! Não sinto falta do trabalho. Sinto falta é do isolamento que se experimenta nas grandes cidades, de poder desaparecer em uma multidão de anônimos, da diversidade, das meninas de cabelos azuis, casais de gays andando de mãos dadas, das tribos estranhas e maravilhosas que pululam em BH.
Os dias são muito vagarosos nessas cidades por onde tenho passado, uma sensação de paralisia no tempo sufocante e ao mesmo tempo em que todas as pessoas por quem passo me cumprimentam como se me conhecessem (sem me conhecerem, mas na duvida, me cumprimentando do mesmo modo), sinto falta de ser invisível, porque quando todo mundo olha pra você, na verdade ninguem está te vendo realmente.
Acho que estou cansado de ser um ser social e com desejo de voltar a ser eu mesmo, um ermitão sutil.
São 10:42 horas deste lado de cá das infinitas Gerais...
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quinta-feira, 27 de abril de 2017
domingo, 9 de abril de 2017
Diário de bordo 09/04/2017
Passados tanto tempo e tantos hiatos entre escrever ou
fitar o vazio, impressiona-me não ter muito o que dividir senão esta constante
estupefação ante a antiguidade das coisas novas.
Comprei passagens para viajar ao norte do estado e por uns
dias serei um estranho em uma terra estranha, tal como o sou em casa e no
espelho, mas desta feita, em ruas que não conheço e prédios e pessoas de
fachada alienígena.
É um mundo muito grande pra uma vida tão curta.
Finalmente consigo me enxergar como uma pessoa minimamente
inteligente, posto que após quebrar o corpo contra as rochas repetidas vezes,
convenci-me afinal de que não possuo asas.
Uma singularidade, entretanto, permaneço de pé à praia a
observar meus confrades humanos a saltar vez após vez daqueles penhascos,
agitando os braços desordenadamente, talvez a sonhar que naquele voo breve até
as rochas, possam se metamorfosear em qualquer coisa que não corpos a cair...
Algo em meu intimo se agita em grito mudo e eu me obrigo a
um silêncio que me custa, tal como me custa reconhecer que cabe a cada um a sua
queda e o seu aprendizado particular em direção ao que seja seu esclarecimento.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2016
Sobre vitaminas que não tomo e noites que não durmo...
Me afogo...
E, no entanto, não ouso descansar os braços enquanto nado
nesse abismo de água repleto de monstros que sussurram meu nome na escuridão.
Ainda sou o embaixador de mim mesmo, mas não faço proclamas
porque ainda não acredito no meu produto. Uma buzina soa, alguém dobra os
joelhos e grita aleluias e eu olho irritado o inicio do apocalipse, porque o
mundo vai acabar ainda não acabei de ler um livro que ganhei de aniversário..
Um sonho mau... Apenas isso.
E então fico aqui,inerte por um tempo...
Eu me espreguiço de tédio nesse escuro porque terror é coisa
que compreendo tão bem quanto as letras miúdas em frascos de vitaminas que meus
olhos não conseguem mais ler sem óculos e meu esquecimento não dá conta de engulir.
E a droga é que nem tenho óculos, mas tenho uma memória
elefantina...
Talvez eu devesse ter óculos...
Talvez eu devesse ter anseios, desejos de felicidade e amor,
mas sempre que penso nisso, me sinto tolo, como alguém que teima em tirar água
com que se afogar em um poço que já secou há muito tempo...
Até sinto um pouco de medo, mas não o compreendo...
Em um mundo de sensações, fico imaginando se alguém
compreende ou mesmo se alguém se importa em compreender algo, além de sentir.
E é através dessa vida vítrea que meio trôpego, me levanto
no escuro, me desvio de um ou outro fantasma lamentoso e praguejo contra o pé
da mesa no qual dou topadas no escuro.
Queria não ter bexiga, vizinhos barulhentos e sonhos
perturbadores e talvez não precisasse me levantar tantas vezes durante a noite.
Oh, deus do céu! De repente tenho 43 anos e nem sinal do
rosto grave, absolutamente masculino, olhar duro e vida segura que em minha infância
sonhava que estaria me olhando de volta neste espelho.
Um corpo lânguido, uma alma febril e um sentimento de virar
a esquina da vida a qualquer tempo. Alguma coisa deu errada na minha, mas faço
balancetes diários e ainda assim não fecho a conta, mas fecho o armário do
banheiro e la está a cara de garoto cansado me olhando...
Uma semana sem fazer a barba e nem sinal de pelos
espinhentos que me completem o ar de decadência. Preciso checar o cartão de crédito,
o cheque especial, as notas da escola da minha filha e meus níveis de
testosterona.
Deus! Que hora ruim pra ser ateu! Eu poderia fazer como
fazem seus “filhos” e culpa-lo por tudo, dizer que é um dos seus “planos
misteriosos” e me consolar de alguma forma absurda e esotérica.
Ao invés disso
fico aqui, me culpando por tudo, até
pela vitória de Trump e a queda de todos os aviões e projetos de vida do mundo...
E porque diabos estou escovando os dentes as três da
madrugada?!
Cabelos brancos desde os dezesseis anos, então não posso me
vangloriar dessa névoa no topete como uma condecoração pelo tempo de vida e eu
nunca fui vaidoso, mas que merda! Se não posso ter um rosto bonito, ao menos não
poderia tê-lo um tantinho mais viril?
Olhos tristes e cansados, cansados também de se verem a cada
manhã e agora a cada madrugada nesse espelho salpicado de creme dental.
É insano!
Sempre tem alguma porcaria de cachorro latindo, rádio ligado
em algum lugar, gente gritando em um bar próximo e eu que deveria estar
dormindo, irritado como um autêntico velhinho mal humorado que fica reclamando
do barulho.
E pra falar a verdade, fico mais incomodado é com o silêncio
nesse lugar, parecido ao silêncio da selva, como se algo inacreditável e violento
estivesse pra acontecer.
Reminiscências de uma noite insone e insana...
Sinto vontade de fumar e novamente me lembro de que nunca
fumei e que detesto o cheiro de cigarros e que detesto estar detestando tudo o
tempo todo, mas que se dane isso!
Cada qual com seu talento, não é?
O meu é estar mal e detestar, eu acho.
A única coisa que parece que sou bom.
Tenho uma inclinação patológica pra estar mal..
Tenho um buraco onde deveria haver um estômago.
Uma fome de
tudo que paralisa meus sentidos.
Tenho cãibras nos braços e nos motivos,
Tenho preguiça até de ter preguiça e me movo de volta pra
cama fria em câmara lenta enquanto sobem as letras dos créditos finais de minha
vida.
segunda-feira, 31 de outubro de 2016
Entropia em segunda feira de cinzas
Aponte a ponte que me leve
a isso dai que se parece tanto comigo como eu queria ser, sobre o meu rio de
pequenas decepções quotidianas e eu te seguirei até o começo do fim do mundo.
Mas eu vou seguir seu dedo
e seu sexo e seu nexo, então não ponha as mãos nos bolsos antes que eu me ponha
a andar para lá, para o ponto onde aponta ou me perderei entre as miudezas dos
seus bolsos e da minha vida.
Eu vou mudar e vou me
tornar mais parecido comigo e então não vou me reconhecer mais do que me
reconhece você, quando olha o rosto estranho nesse espelho trincado.
Ainda cato rimas
desconexas e moedas perdidas com que comprar um sorvete de limão ou compor um
poema. Mas eu tento rimar com palavras que não rimam e o dia está frio para um
sorvete.
E no refrão da minha
consciência, "amor" ainda rima melhor com "Dor", mesmo porque não há calor, ardor
ou muito sabor em um dia frio.
Ao menos, não pra o tipo de pessoa que você quer que eu seja, mas que eu teimo em não me tornar...
E para falar a verdade, já
que estamos sozinhos aqui na multidão que se aperta neste inicio do fim do
mundo, você meio que matou meus motivos para ter motivos e eu me deliciei,
porque então tive motivos para ficar sentado no meu trono de autopiedade, e
pude escrever por horas a fio esta carta que não te enviarei...
“… A senhora me desculpe, mas no momento não tenho muita
certeza. Quer dizer, eu sei quem eu era quando acordei hoje de manhã, mas já
mudei uma porção de vezes desde que isso aconteceu. (…) Receio que não possa me
explicar, Dona Lagarta, porque é justamente aí que está o problema. Posso
explicar uma porção de coisas, mas não posso explicar a mim mesma …” - Alice no
País das Maravilhas
Fonte da imagem: http://nexus-wallpaper.com/wallpaper/abstract/digital-art-colorful-circles/
quarta-feira, 5 de outubro de 2016
Dia tanto, do mês tal, de dois mil e sei lá...
Foi só começar a chover e eu fiquei feliz como um masoquista
de coração partido.
Pensei que a água lavando vidraças e pecados de BH
finalmente me tiraria desse hiato de escrita e eu poderia me inspirar na atmosfera
intimista que a chuva proporciona ao nos prender em casa.
Posso bem me lembrar de umas duas ou mais postagens de que
me orgulhei de ter escrito e que me vieram em dias ou noites de chuva, quando o
mundo parece aquietar e se recolher um pouco.
Mas qual o quê!
Duas horas olhando a janela e só me veio à mente o vazio
suave que me tem comido pensamentos, porém aflorado lembranças que bem poderia
apagar junto aos pensamentos que me comem. Eu fiquei hipnotizado pela queda da
água, mas afora a beleza do vazio contemplativo, não me ocorreram linhas que
partilhar.
Um desânimo que até do desânimo me desanima me abraçou os
ombros e só então desisti de tentar arrancar da chuva o que o cansaço de
existir aparentemente calou em mim.
Uma musa...
Tem uma musa que tenho procurado evitar.
A única que não me abandona nunca e a única que me inspira
longas horas e muitos textos que deixo apenas nos repartimentos mofados da
minha consciência porque a ninguém interessa de fato.
A Morte.
Contrário a maioria da minha geração, nunca fui um caçador
de sensações, mas de conhecimento, ainda que tente obter esse conhecimento
mesmo através de sensações.
Sensações são inúteis...
Mas que é que sei de sensações?
Que é que eu sei de qualquer coisa?
Pouco, eu acho, de pouco.
E quanto mais eu sei, mais me sinto tolo e mais quero saber,
porque o acúmulo de conhecimento me torna ainda mais consciente da minha
estupidez...
A Morte é, talvez, a única coisa que realmente sacie a
necessidade de conhecimento. Talvez seja uma musa um tanto lúgubre, mas isso é
o que pensaria a gente que se apavora com a ideia da própria finitude (como se
se pudesse honestamente ignorar isso por um momento que seja), mas andei
pensando que afinal, tudo o que a gente tanto se esfola para buscar e alcançar
está em vias de passar, ainda que o consigamos.
Nenhum alimento sacia de vez a necessidade de comer, nenhum
beijo elimina a vontade de beijar e nenhuma paixão cala de vez a necessidade
idiota do nosso coração de se apaixonar.
Vivemos e morremos com fome de tudo e de nada e nada sacia a
fome, mesmo que tenhamos tudo.
E eu quero saber tudo.
Tudo o que há pra saber.
Mesmo as coisas mais dolorosas, me
angustia até o limite do suportável não saber de algo.
Mas suponhamos que eu soubesse que no dia tanto do mês tal
de dois-mil-e-sei-lá eu fosse morrer. Esse conhecimento suplantaria toda a
minha necessidade de conhecimento e eu teria então um pouco de paz para olhar
pra chuva sem ansiar que ela me inspirasse nada que não fosse o vazio lindo que
me absorveu por horas. Se eu soubesse quando vou morrer, não iria por aí, como
todo mundo diz “vivendo a vida ao máximo”, porque quando alguém diz isso, está
na verdade, sendo fiel à minha geração, fazendo apologia a um modo de vida
hedonista, como se o prazer fosse tudo o que houvesse para torna a vida o
máximo.
Sei lá...
Entre o último parágrafo e esse eu fiquei absorto por mais
uma hora olhando a chuva e pensando na minha finitude. Nem sei como terminar
esse texto e nem sei se devo ou não o postar.
Atualmente me sinto alienígena até de mim mesmo e tão
desconectado de tudo que suspeito que só estou ancorado neste mundo por causa
das roupas e nu, cairia pra cima e pro vazio.
Fiquei em um beco sem saída com esse texto idiota, inspirado
por uma sensação de vazio idiota em um homem idiota.
Então vou terminar compartilhando uma das minhas minha citações favoritas, e que me fará suspirar por mais umas horas
a olhar pro vazio, pra chuva:
“Gosto de desenhar os suspiros dos átomos. E colocar acentos
agudos em seus sonhos”.
quarta-feira, 21 de setembro de 2016
Enquanto Setembro agoniza eu conto lírios em um jardim que não existe...
Se ao menos não me fascinasse tanto os
fragmentos de vida sobre os quais bocejo meu desinteresse sutil,
Se ao menos eu não estivesse tão
empenhando em olhar para o vazio da noite esperando ver – o que? Gritos de
socorro nas esquinas lá fora que sufoquem os gritos de socorro emudecidos aqui
dentro? – sondando, tentando achar o que quer que se ache quando se olha pro
vazio da noite
Se ao menos não me importunassem com
conversas enfadonhas os fantasmas da minha insônia,
Talvez me aprouvesse ser menos
introspectivo para fora e mais extrovertido para dentro.... Eu faria carnavais
silenciosos enquanto seguraria o queixo e olharia pela janela, perdido em
atitude meditativa.
Um dia desses a rotação da terra me jogou
para fora da cama dela (não me lembro qual, porque estranhamente ainda me
aconchego em seus edredons e sorrisos no escuro) e tive que orbitar apenas em
volta daquelas perguntas que deixei de fazer e das respostas que ela não me deu.
Mas ela.... Se empenhou apaixonadamente
em ser uma mulher, mas negligenciou um tanto de sua humanidade, brincando com
meu espanto quando lhe dizia que as duas coisas dançavam juntas e não eram
antagônicas.
Por meu lado, fiquei enredado, perdido,
devotado com ardor em minha humanidade e no processo, me esqueci completamente
de ser um homem...
E eis-nos aqui, no limiar de qualquer
coisa entre o que somos, o que queríamos e devíamos ser.
Mas na matemática das coisas, a paixão
dela deu fruto e flor e ela se tornou uma mulher notável, extraordinariamente
humana em sua feminilidade.
Eu por outro lado, tanto me esforcei e
como resultado, sou um ser humano sofrível e o masculino se configura para mim
em mistério e não sou completamente nem uma coisa e nem outra.
Apenas levemente irritado e um tanto
comovido quando ela vem me pedir auxílio com as tampas de pote de maionese e
com os grandes dilemas da existência, quando sei bem que ela se vira com essas
coisas melhor do que eu.
Um truque indulgente para eu não me
sentir tão inútil quando os badulaques da mesa da sala de estar.
Ainda me perco, caindo infinitamente pra
dentro em pensamentos, enquanto setembro agoniza, a chuva pendura no céu - e
ameaça e promete - e ela passa óleo nas pernas e ri da minha confusão.
E eu ouço o riso que espanta as
pensamentos do céu, a chuva que agoniza dentro de mim e a confusão dos meses em
que me perco e penso que amar é bom...
Miseravelmente bom.
...
Mas se você amar qualquer coisa que não
lhe traga uma considerável quota de dor (ainda a iminência da perda), talvez
seja só uma inferência de alguém que não sabe o que é amor, mas talvez eu saiba
e creio que talvez é você que esteja chamando de amor algo que seja
alheio a isso..
terça-feira, 30 de agosto de 2016
Na outra ponta do divã
Talvez no fim, não seja
grande coisa meu corpo estar aquecido sob edredons em quarto confortável, se
minha alma está enregelada debaixo de uma ponte.
Oh, que pensamento trágico
e gracioso...
Queria ter um verso
adequado para rimar com ele e então eu teria poesia e não um exercício fútil de
melodrama...
Mas a manhã está boa para
pensamentos trágicos e graciosos e me apetece acrescentar mais uma pedra
ao edifício das minhas aspirações natimortas...
Pensar a vida como uma
sucessão de situações venturosas equivale a lançar minha autoestima cambaleante
para uma sarjeta qualquer.
Ontem, e antes disso, num
tempo que já não levo na consciência, dei-me conta final e tardiamente não
entendo em absoluto a dinâmica da vida cotidiana dos semi-deuses que me cercam.
O mistério das relações
nesse teatro de bonecos que se chama humanidade (e se Deus é o titereiro
supremo ou mais um boneco nas mãos dos bonecos, não sei dizer), não é menos
esotérico do que o elixir da vida ou do que a pedra filosofal.
Mas tampouco se
pode ser realmente humano sem complicar mais as já complicadas relações.
Ou talvez isso tudo seja
apenas fruto de uma má disposição do espírito hoje e semana que vem e no ano
passado ou a negação de ter um espírito que vá ter disposição para mais do que
se desesperar diante do absurdo.
Talvez seja o nada
engolindo novamente o tudo.
E eu, que nada sei sobre
nada do que sei, sei que manter elevadas expectativas de mim mesmo, desejando ser
moralmente belo e virtuoso, far-me-á ter ódio de mim mesmo por não conseguir
jamais viver a altura desses céus onde miro minha ambição por ser.
São essas aspirações que
cedo ou tarde me farão acabar com os pulsos sangrando em algum canto escuro ou
pendurado numa corda, embora eu prefira pensar que ainda teria forças para
fugir para o vazio de modo menos drástico e mais digno.
Nem vou pensar demais
nisso, porque a essas alturas, seria uma tragédia se eu me descobrisse súbita e
abjetamente religioso.
Deus me livre e me dê
antes uma morte honrada!
Mais pensamentos trágicos
e graciosos..
Já então, não me podem
seduzir ou amedrontar as ameaças do céu e do inferno e estou mais ou menos
entregue ao mesmo princípio de caos que orienta o mundo, tanto quanto qualquer
um, mas ciente de que estou perdido e de que preciso me orientar.
O caminho do bem não é a
minha vereda.
O caminho do mal não é
chão onde ponha eu os meus pés trôpegos.
Tenho de me equilibrar
sobre a linha fina sobre o abismo, enquanto de ambos os lados, voam pedras
sobre mim e urram ventos querendo me derrubar.
Não, este não é
definitivamente o meu momento de maior inspiração.
E o que é que pode
inspirar o nada?
Nem é o tédio a corroer as
minhas horas, mas o desejo de silêncio que vem da certeza de que lá na outra
ponta do divã, dormita o analista e eu falo para os meus próprios ouvidos
surdos.
sexta-feira, 26 de agosto de 2016
Para aquelas noites
Para aquelas noites em que você deixa que tudo transborde em si, o amor e o ódio na mesma medida;
Para aquelas noites em que você faz as pazes com o que em si te ensinaram a desamar, desarmar e temer;
Para aquelas súbitas e infernais noites em que toda a sua lógica falha, toda a razão vai tomar chá com o diabo e deus vai colher flores por entre as suas estrelas ,
Para aquelas noites meu caro, em que você se permite desejar derreter-se e inundar o mundo com as ondas do seu Eu,
Para essas noites de embriagues metafísica e principalmente, para a modorra dos dias que as seguirão,
dou-te este conselho:
Tenha coragem!
Acima e antes de qualquer coisa tenha coragem! Mesmo e principalmente nos momentos de maior pavor e de dor!
Não se ajoelhe aos pés do carrasco, olhe-o e desafie-o diretamente nos olhos e o faça tremer enquanto desce o machado!
Fique de pé!
Essa é a segunda e mais cara e preciosa moeda do mundo; um nível abaixo do autoamor e um acima do conhecimento.
Coragem, especialmente para SER, seja lá quem você for ou o que você for.
Se souber disso, o que e quem você é, você é (provavelmente) a criatura mais genuína e importante num raio de muitos milhares de séculos-luz.
E não, não finja que não o é, porque falsa humildade é repugnante.
Melhor que sejas honesta e verdadeiramente soberbo na simplicidade de quem se sabe único, Alfa e ômega de si mesmo.
Sê corajoso e tudo irá bem.
Mesmo quando tudo parece desprovido de sentido e valor.
E para aqueles momentos em que pensa estar só ...
Ah, meu caro...
Está muito perto de compreender o quanto você está enganado nos seus momentos de maior certeza.
terça-feira, 23 de agosto de 2016
Da impossível vida
Eu digo isso para o nada e para ninguém porque no fundo penso que talvez eu queria convencer a mim mesmo ou descobrir alguma verdade libertadora quando digito ao acaso o que me ferve...
Essa blogosfera as vezes se parece em muito com um cemitério ou um livro antigo onde alguém grafou uma frase qualquer e você o lê e fica meio paralisado pelo suposto do que e de quem foi a pessoa que escreveu aquilo e que já então sumiu nessa fluidez dolorosa do mundo virtual.
Diabo, tudo flui afinal...!
As vezes as pessoas simplesmente somem na vida e as vezes elas somem da vida e é sempre perturbador ficar imaginando o que se deu neste ou naquele caso.
Estou tergiversando...
É só que anda me incomodando demasiado a insinceridade com que tenho vivido, fingindo sentimentos e pensamentos unicamente para que não sofram as pessoas a quem amo.
Como seria sublime não ser chicoteado pelas lágrimas dos outros.
Eu ando por BH invejando conscientemente a inconsciência desses fantasmas humanos, gente que se acotovela nas filas de ônibus a caminho de casa e das novelas e futebol e mundanices nas quais fingem viver.
Tal qual Fernando Pessoa, eu invejo qualquer um que não seja eu.
Eu invejo as cordas invisíveis (ao menos para eles) presas às mãos do titereiro que os tange qual gado e invejo de um modo muito doloroso a irresponsabilidade alegre com que aparentemente vivem.
Porque eu tenho também cordas, mas não me foi concedido ignorá-las nem por um instante e não me foi concedido a capacidade de render-me a elas e eu luto uma luta perdida, para me livrar dessa cortante dor de viver.
"Ha barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer".
Talvez seja o cinza lá fora, no céu escuro dessa manhã nublada ou talvez sejam as cinzas dentro de mim, restos da cremação da minha juventude...
Mas estou me lembrando (novamente) do porquê escrevo neste lugar: pelo descompromisso com a estética e com a preocupação daqueles que pensam e mentem para si mesmos.
Eu quero ser genuíno, nem que seja para dançar na escuridão.
Viver é uma tarefa impossível, ao menos para quem ama.
E por hoje essa é toda a verdade que encontro por debaixo do céu escuro dessa BH...
E se soo pessimista, não ligo em absoluto que o pensem.
Se eu tivesse digitado pensamentos felizes e mentirosos, minha vida não seria mais genuína.
O que estou fazendo, é tecendo uma teia para tentar resgatar fragmentos meus soltos no vento.
E entoando uma ode ao que eu sou e ao que eu poderia ser se não estivesse tão subjugado de amor pelos outros...
segunda-feira, 8 de agosto de 2016
Tem alguém aí?
Dei uma revirada em uns posts meio apagados em blogs cujos autores alhures me encheram de saudades de gente que nunca conheci.
Senti a mesma sensação de perda sentida em paginas amarelas de livros antigos cujos autores nos deixaram com sua morte um tanto órfãos de humanidade.
Mas essas pessoas estão ai, vivas da Silva como eu, ou Pereiras, ou Bittenncourtts ou sobre outros sobrenomes sobre o mundo.
Onde estão vocês que me deixam tão órfão da sensação de humanidade?
As salas vazias desses corredores aparentemente vazios me fizeram mandar ao diabo a minha preguiça de ser qualquer coisa que não um observador e poupar a quem por ventura ou desventura me lê, a sensação de que também evaporei no mundo e no nada e vir até aqui manifestar a minha contínua existência.
Eu ainda teimo em ser.
Espero que eles também, porque nós já perdemos demais.
Senti a mesma sensação de perda sentida em paginas amarelas de livros antigos cujos autores nos deixaram com sua morte um tanto órfãos de humanidade.
Mas essas pessoas estão ai, vivas da Silva como eu, ou Pereiras, ou Bittenncourtts ou sobre outros sobrenomes sobre o mundo.
Onde estão vocês que me deixam tão órfão da sensação de humanidade?
As salas vazias desses corredores aparentemente vazios me fizeram mandar ao diabo a minha preguiça de ser qualquer coisa que não um observador e poupar a quem por ventura ou desventura me lê, a sensação de que também evaporei no mundo e no nada e vir até aqui manifestar a minha contínua existência.
Eu ainda teimo em ser.
Espero que eles também, porque nós já perdemos demais.
quarta-feira, 27 de julho de 2016
Um Não-poema
Ainda não sei rimar, então desenho formulas matemáticas durante um tempo considerável, até perceber perplexo que tampouco sei resolve-las e isso se soma aos demais enigmas em minha cabeça e me sinto pequeno. Gavetas de meias a arrumar, reparos miúdos em uma casa miúda, contas mensais e os grandes enigmas da existência se revesam em noites mal dormidas na função de me deixar por horas a fio a olhar para a escuridão pensando em que devo fazer.
Minha poesia me abandonou ou então fui eu quem deixei de lado o propósito firme de viver e morrer por grandes coisas, naquele período em que me perco entre bater o ponto pela manhã e devanear a caminho de casa no fim da tarde.
Ha ideais em abundância atualmente e eu até lutaria por um deles se não estivesse tão na moda ter ideais e se eu não achasse tão repugnante seguir modas e se eu considerasse sensato falar por qualquer um que não fosse eu mesmo.
Tenho experimentado grandes ausências de mim , hiatos de tempo em que passo os dias a deixar passar os dias, intuindo por entre esse vazio se não me perdi em uma grande fenda qualquer que me deixou nesse limbo de onde escrevo a você mais uma vez o meu desamparo.
Dia desses observei uma mulher grávida a alisar o ventre inchado sonhando um grande futuro para o filho e a invejei e também me apiedei dela. Não tenho certeza se parir uma ideia ou um ideal é menos ou mais doloroso do que ter um filho e eu já sinto as contrações da minhas ideias ha décadas, mas não as dores do parto. No fim, tanto um filho quanto uma ideia podem dar em nada.
Ainda espero aqui o soar de alguma trombeta que me desperte desse grande sonho modorrento que é a vida, um messias qualquer a apontar um caminho ou uma razão melhor pra levantar pela manhã que não seja o horário dos ônibus ou a bexiga cheia demais aos domingos.
Espero, ardentemente,que por entre esse desfile de espectros fingindo ser gente, você ainda exista
Minha poesia me abandonou ou então fui eu quem deixei de lado o propósito firme de viver e morrer por grandes coisas, naquele período em que me perco entre bater o ponto pela manhã e devanear a caminho de casa no fim da tarde.
Ha ideais em abundância atualmente e eu até lutaria por um deles se não estivesse tão na moda ter ideais e se eu não achasse tão repugnante seguir modas e se eu considerasse sensato falar por qualquer um que não fosse eu mesmo.
Tenho experimentado grandes ausências de mim , hiatos de tempo em que passo os dias a deixar passar os dias, intuindo por entre esse vazio se não me perdi em uma grande fenda qualquer que me deixou nesse limbo de onde escrevo a você mais uma vez o meu desamparo.
Dia desses observei uma mulher grávida a alisar o ventre inchado sonhando um grande futuro para o filho e a invejei e também me apiedei dela. Não tenho certeza se parir uma ideia ou um ideal é menos ou mais doloroso do que ter um filho e eu já sinto as contrações da minhas ideias ha décadas, mas não as dores do parto. No fim, tanto um filho quanto uma ideia podem dar em nada.
Ainda espero aqui o soar de alguma trombeta que me desperte desse grande sonho modorrento que é a vida, um messias qualquer a apontar um caminho ou uma razão melhor pra levantar pela manhã que não seja o horário dos ônibus ou a bexiga cheia demais aos domingos.
Espero, ardentemente,que por entre esse desfile de espectros fingindo ser gente, você ainda exista
quarta-feira, 8 de junho de 2016
Poema sem Título e Sem Data
Não há de me atormentar para sempre
O desejo de ser atormentado.
Pelo desejo que me atormenta.
.
Beijo lábios frios, desejando que sejam frios.
Mas escrevi teu nome em letras de fogo, como num sortilégio,
Distraindo-me em adivinhar no céu da sua angustia
Mil motivos para que não me veja olhando-te de volta
Quando te miras num espelho.
Oh, éramos a erva e o sol, o canto rouco do vento
E o silêncio da tarde.
Ela se arrasta preguiçosa e eu conto nuvens no azul.
Eu recordo dos dias felizes em que eu era como esse sol
E te banhavas em minha luz.
E todas as tardes eram preguiçosas como essa.
Todos os dias minha loucura grita.
Que eu tenho o direito de esquecer o ângulo perfeito de teu rosto
E o circulo maravilhoso desse olhar febril que me despe sem me ver.
Mas que homem em sua sanidade
Escuta o que berra a sua loucura?
Imaginei o mundo como um louco carrossel multicolor
E eu a girar com ele,
Vejo o mundo em cores indistintas.
Um bêbado num carrossel.
Imaginei tuas formas sensuais sendo esculpidas em marfim,
Conseguido ao custo do sangue de muitos homens.
Sangue parece ser sempre o preço a se pagar pelo maravilhar dos olhos.
Seja por vicio poético, seja por escassa imaginação
Comparo-te aos materiais deleites que meus dedos podem tocar.
Que alegria!
Alegria?
– Poesia!
Então, não te tenho e nem te toco,
Senão com um ou outro delírio fugaz que me permito.
Então se és toda poesia, se és feita de amor,
De que me serve todo o ouro e o delicado marfim do mundo?
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