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sexta-feira, 20 de abril de 2018

Outra nota sobre a coragem...


Em uma postagem anterior,  falei sobre coragem, como um dom a ser perseguido.

E em outra, não sei se nesse blog ou em espaço perdido nas minhas antigas e perdidas veredas da net eu raciologiquei que coragem não é a ausência de medo. Ausência de medo é burrice, se não for patologia.
Coragem, é ter medo e, não obstante, enfrentá-lo.
É o kamikazi caindo voluntariamente do céu, é o guerreiro sozinho com uma espada se lançando contra um mar de escudos e lanças, é a mãe se jogando sobre o filho para protegê-lo das balas, é o rato acuado brigando como um leão.

É arriscar e talvez morrer por algo maior do que a si próprio.

Talvez seja uma coisa difícil de se fazer, porém, asseguro que é bem mais difícil viver com medo.

Anos atrás, após uma discussão breve, alguém gritou por socorro de madrugada, na rua em frente a minha casa. Me levantei imediatamente e ia sair mas minha ex-esposa me convenceu a não o fazer. Ela argumentou algumas coisas; que era briga de gente ruim, que era obrigação da polícia prestar socorro e que eu tinha esposa e filha e que devia pensar nelas ao invés de me colocar em risco por "gente que não presta".
A briga silenciou na rua e eu me deixei convencer pela minha ex-esposa.
A verdade, bem o sei, é que se eu estivesse resolvido, ela não teria conseguido me deter. Deixei o medo me segurar e me impedir de socorrer alguém. A verdade é que prezei mais a minha segurança do que o fazer o que é correto.
Passados tantos anos, não consigo me recordar deste episódio sem sentir náuseas de desprezo por mim mesmo. E faço questão de contar isso pra que eu nunca me esqueça.

Viver com medo é uma morte lenta, uma tortura silenciosa e uma escolha de covardes que preferem se acomodar quentinhos junto á lareira do que olhar o sol de frente. É coisa de quem quer um universo seguro e ordenado, de quem prefere as sombras projetadas na caverna do que sentir e viver a marcha selvagem da vida.

Viver a verdade das coisas é algo que tenho procurado ha muito tempo.
Penso que já nasci com essa veia moral, de encontrar significado, de olhar atrás do cenário, de tentar saber o que faz a marionete se mexer.
A mentira, a ilusão e a desonestidade são coisas pavorosas, que me reviram o estômago e me gelam o sangue de ódio. E é pior quando tento fazer isso comigo próprio.

Nunca soube de nada mais odioso do que a mentira.
Exceto, talvez, o medo.
Viver com medo ou viver uma vida de mentira é mil vezes pior  do que morrer.

Melhor está o leão morto do que o cão vivo.

O meu maior gesto de coragem foi olhar nos olhos de uma pessoa e lhe falar a verdade, sabendo que isso ia libertá-la e a mim, mas também lhe ia partir o coração e destruir sua zona de conforto.
Colhi as consequências.
Não poderia ser de outra forma.
Mas o alívio que eu senti por não mentir compensou em muito a dor que causei e senti.
Foi a coisa certa a fazer e não posso sequer me orgulhar de o ter feito, porque não é como se eu tivesse escolha.
Mas as pessoas em geral, pensam que têm.
A escolha de mentir.
A escolha de viver o conforto e a segurança.
A escolha do medo.

Mentir é roubar ao outro a liberdade de escolher um caminho a tomar.
Não é uma opção.

Ainda assim, este e outros atos de coragem, paradoxalmente me levam a seguir minha outra veia moral, uma que me move desde criança: O desejo por redenção.

Que pecados tem a purgar um criança?
Talvez o de ter nascido?
Quando aqueles que te trazem ao mundo manifestam, mesmo inconscientemente, o arrependimento por o ter feito, você é um desgraçado se por acaso tem sensibilidade o suficiente para perceber isso.


Deixando de lado minhas fantasias pueris de culpa filial, eu penso muito em redenção.

Não quero ir pra cova carregando essas dores que causei. É um fardo pesado demais.

Viver corajosamente tem um preço, é claro, e eu ainda prefiro ter a consciência atormentada pelos efeitos de uma atitude correta a ter de passar a vida tendo de contar a terceira para justificar a segunda mentira que justificou a primeira que serviu para esconder o fato de que sou um merda!

Ainda não vi um abismo que eu não tenha sentido vontade de me atirar ao fundo.
É a esperança que quando der por fim com o corpo nas pedras, silencie junto com minha respiração, o peso de tantas culpas.

São 16:22 agora...

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Como Nossos Pais


Não quero lhe falar
Meu grande amor
Das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi, e tudo o que aconteceu comigo

Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto
É menor do que a vida de qualquer pessoa

Por isso cuidado, meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal está fechado pra nós
Que somos jovens

Para abraçar meu irmão
E beijar minha menina na rua
É que se fez o meu braço
O meu lábio e a minha voz

Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantado com uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade, não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento cheiro de nova estação
Eu sinto tudo na ferida viva
Do meu coração

Já faz tempo eu vi você na rua
Cabelo ao vento, gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança é o quadro que dói mais

Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais

Nossos ídolos  ainda são os mesmos
E as aparências não enganam não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém

Você pode até dizer que eu tô por fora
Ou então que eu tô inventando

Mas é você que ama o passado e que não vê
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem

Hoje eu sei que quem me deu a idéia
De uma nova consciência e juventude
Está em casa
Guardado por Deus, contando o vil metal

Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo, tudo, tudo o que fizemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos

Como os nossos pais

(Belchior 1976)

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Graal

(...)Você precisa entender um fato (contra o qual, de todo o coração espero que se rebele);

Que há basicamente dois tipos de ser humano sobre a terra: os que nascem para pensar e os que nascem para serem felizes.

Os primeiros, uma diminuta, sublime e desgraçada raça a olhar sonhadora para as estrelas, espécie triste, sem a qual  sequer teríamos descido das árvores.

Os segundos, uma animália que nem chega a ter consciência  de que não tem senão impulsos de  ter impulsos e de manter a cabeça rente ao chão,  a cata de forragem (...)

terça-feira, 20 de março de 2018

O Sagitariano Decrépito





"Que mais há que ocupemos nossas horas, que cair em contradições enquanto esperamos o tecido  fino da vida desfiar?" 
Eu sou um rato. Já percorri essa merda de labirinto trinta vezes e, diabos, eu sei que não há saída, mas vou continuar procurando mesmo assim! E quando por fim me cansar de correr atrás de portas que não existem, vou esburacar essas paredes com os dentes, até que não me restem dentes ou que do limiar do meu desespero surja uma porta qualquer. 

Você desperta com essas palavras reverberando de algum sonho ou lembrança. Como um soldado cujo sono foi mais profundo do que o adequado, salta da cama ouvindo essas palavras, um clarim anunciando mais um dia de guerra.

Anda pala casa como um espectro de madrugada...
De madrugada...Todas as falsas madrugadas em que uma luz difusa e cinza cobre o mundo, você acorda ouvindo palavras, ecos de discursos oníricos ou lembranças, não sabe dizer, e o som de ondas baixas lambendo a areia da praia.

Isso seria confortador, caso o mar não estivesse a várias centenas de quilômetros da sua janela e da sua sanidade (tão cinzenta e incerta como a luz da falsa madrugada e o falso som das ondas que escuta mesmo depois de já estar de pé, na cozinha, se empanturrando de café e solidão).
E você não quer pensar que chegou ao ponto de procurar consolo em devaneios alucinatórios.

Pela janela da cozinha observa sua nova e silenciosa vizinhança.
Talvez a ausência de barulho aqui tenha despertado em sua mente, acostumada a algazarra de sua antiga morada, esse som fantasma de uma praia alhures...

Cioso e agradecido da consideração de seus vizinhos, evita acender as luzes enquanto olha pela janela enorme em meio ao escuro da cozinha. Vê  lá fora, o mar de luzes acesas em uma BH que não dorme. 
Não de todo.

Se recua o olhar por um instante, para a intimidade da sua casa, um fantasma te olha de volta refletido no filme do vidro escuro da janela. Tenta ouvir qualquer som que denuncie vida; criança chorando, buzina de carro, seu coração batendo, um cão latindo, mas tudo que ouve é o zumbido da geladeira e esse som de ondas tão fantasma quanto o homem refletido no vidro segurando a caneca.

Tanta vida lá fora e você aqui, se sentindo esvair como um balão furado.
Agarra-se à caneca com uma força fanática, quase como se o amargo e o calor do café fossem lastro no ar, uma ancora ao inverso, para impedir o inevitável da sua queda.

Sente-se hoje mais perto da morte do que do dia do seu nascimento e é em choque que constata que este é um pensamento que já lhe ocorria aos oito ou nove anos de idade.
Um sentimento de iminência, de ir embora, uma ansiedade que não se configura nem em medo e nem em esperança, semelhante a um ruído branco no fundo da consciência...

Tem poucas expectativas agora.
Você, que era feito essencialmente de fogo e de esperança.
Corre-lhe pelas veias o sentimento de estar inacreditavelmente velho e cansado, como se os fios fracos que te ligam as coisas do mundo estivessem se rompendo um a um

Um dia desses se levantou mesmo antes de saber que havia acordado e antes de ir à cozinha, viu seu corpo ainda deitado e desde então não olha mais para a cama antes de ir pra cozinha ou pra onde quer que seus devaneios o levem de madrugada.

Se seu corpo experimenta cansaço demais para lhe acompanhar, pois que fique. Nunca quis mesmo arrastar consigo presenças relutantes.

Pobre do seu corpo. Anda tão farto da sua companhia...

Fossilizado em cansaço, tão largado quanto o edredom caído ao chão.
Uma casca que você abandona para devanear na janela e no amargo do café que nem mesmo tem certeza estar bebendo ou sonhando que o faz, enquanto fica imaginando onde diabos iriam as pessoas que estavam naquele jato que de madrugada deixava uma trilha reta de nuvem no céu. 

Você sabe que o mundo não inicia e nem termina em si.
Mas você iniciou e terminará em si mesmo.

O que te atormenta é imaginar como subirão as letras finais da droga do filme da sua vida.
Há pensamentos que gostaria de evitar.
Por exemplo, não quer pensar que morrerá tal como nasceu e como viveu: Chorando, com raiva e com medo.

Não quer pensar que será um idoso tão decepcionante para si agora quanto certamente o é para o moleque que foi umas décadas para trás.
Se seu coração encarquilhar dentro desse peito magro, talvez a única paixão que lhe reste no futuro, que seja capaz de o mover, seja examinar o paradoxo de ter ficado velho sem nunca ter sido jovem.

Voce pensa se quer mesmo viver para colecionar tanto arrependimento quanto cabelo branco.
Se por um lado não curou o câncer, tampouco jogou lixo nuclear em um parque, não plantou uma floresta e nem poluiu um rio e é triste se imaginar uma irrelevância tanto para o bem quanto para o mal no ordenamento final das coisas.

Por mais intenso que tenha sido no sentir, pondera que amou em conta gotas e foi igualmente frugal em seu ódio...
Não abraçou nenhuma causa que não tenha abandonado depois, não defendeu nenhum ponto de vista que não tenha renegado.

Talvez apenas se torne mais um velhote com frio, lamuriento e nostálgico.
Ou pior! Talvez se torne desgraçadamente conformado e feliz!

Imagina-se andando por uma casa esmolando atenção e cuidados de netos que te ignoram solenemente e uma parentalha barulhenta, desconfiado intimamente de que eles, a despeito de todo o carinho, desejem inconscientemente que eu você resolva por fim a morrer e deixar o mundo aos que o herdaram.

Você se vê se recriminando pela falta de coragem, pelo apego à segurança na juventude... Imagina os longos diálogos íntimos entabulados nas suas horas vazias, com seus arrependimentos.
. 
Se um dia preferir a segurança de uma gaiola moral, conta ao menos perceber que morrerá de uma forma ou de outra exatamente no dia em que fizer essa escolha.

Você era o fogo, mas transformou-se em lenha.
Você era a seta, mas se converteu no arco.
Você desbravava caminhos, mas tornou-se gado...

Enquanto coloca a caneca na pia, você planeja e se revolta.

Tenciona encontrar a saída, pois esse labirinto não é maior do que seu desejo de fugir dele.

Mesmo tendo de o percorrer mais mil vezes, mesmo tendo de roer as paredes dessa paz pachorrenta da qual todo mundo finge se orgulhar.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O Elixir e a Pedra



“Vais arder...
E eu serei a mirra.


Uma vez em um sonho alguém me havia dito que "a beleza real de uma consciência desperta, é que em pequeno espaço dela podem caber muitas estrelas."

Houve época em que eu podia facultar ter ilusões de que poderia atribuir significado a tudo e a nada. 
Era esse o meu modo de abrir uma consciência em universo sonâmbulo.


Até que aconteceu.

Senti isso aflorar como algo que buscou passagem por um longo tempo, passando por caminhos estreitos e labirintos, cavando, fluindo por brechas e fendas na pesada armadura da razão, até vir à luz da percepção.

É daquelas coisas, que despencam nos sentidos, preenchendo espaços até então dotados de um vazio ignorado, causando reações de violentos ciúmes em toda a sua lógica, porque a razão luta com unhas e dentes para se apropriar desse território estrangeiro. 
Esse, em que sentimos um estremecimento, um reconhecimento de algo que escapa à explicação racional.

Nada nesse universo é como você espera, a não ser, talvez, a decepção advinda da expectativa.
Preso a esse dogma, um dia parei de esperar e quando o fiz, aquilo que não mais esperava veio.

Eu olhava para aquilo a que não pude dar nome, com a certeza (eu que nunca tenho certeza de nada) de que era exatamente como deveria ser e isso por si só já deveria causar um estranhamento...

Mas aquela certeza pulsava na minha mão como um coração em chamas, e crepitava à minha volta como uma translúcida neblina flamejante.

Tal qual um primeiro homem reverente ante o primeiro fogo, observei, e, no entanto, esse era um fogo que não queimava ao toque, que não servia para servir, que não espantava o terror da noite.

Era uma chama que ardia sem consumir lenha, um sol que sempre iluminaria o vazio, uma estrela que nunca cairia do céu. Espantava o terror do terror.

Fiquei atado à sina fatal dessa ambiguidade, pois Sempre e Nunca jamais deram as mãos em qualquer definição que eu pudesse dar a um grande mistério ou a um devaneio. 

Mas lá estava ela, a Definição, algo que não necessitava de palavras, mas de sentidos e ainda assim, estou inerte, sem versos, tentando determinar o que não se pode trancafiar no arcabouço limitado da linguagem...


E ainda que certo receio antigo e enraizado (nas mesmas profundezas de onde me veio aquilo de que estou certo) insista para que eu deambule em incertezas, um vácuo de calma fatalista se apossa de mim e eu, que nunca consegui silenciar as vozes da mente, me encontro final e magicamente em transe...

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Deuses, Diabos e Sapatos de Camurça


Uma vez  após outra você me prometeu amor.
Adoração.
Agora que você finalmente encontrou, o que vem a seguir?
A seguir? A seguir vem a morte.
E depois?
Depois? Depois você queima!

Deus e o diabo bebiam tranquilamente naquele barzinho lá da rua Claudio Manoel.
Tenho certeza de que eram eles! Quero dizer, é esquisito falar em certeza quando se trata de Deus ou do Diabo. Ainda mais para um Ateu relutante até em desacreditar de tudo como eu.

Era de manhã bem cedo.
Sei lá como ninguém parecia perceber os dois ali.
Deve ser porque ninguém estava procurando por eles (daí talvez se permitirem uma folga na sua rivalidade e procurarem um boteco underground para relaxar e tomar uma bebida). Ou então e porque com frequência quem procura algo dificilmente encontra, mesmo aquilo estando perto (como o caso da caneta que você procura e acaba constatando constrangido que a porcaria estava atrás da sua orelha o tempo todo).

Bem, eu certamente não estava à procura deles. Gente inteligente evita a sombra de deuses e diabos e eu quero realmente crer que não sou um completo estúpido, apesar de rotineiramente fornecer a mim mesmo provas em contrário.

O que eu procurava era um lugar para me abrigar da chuva, porque o mundo inundava e eu na pressa de sair de casa, esqueci botas e bom senso e calhei de sair de sapatos de camurça. Coisa ridícula a se fazer em tempo de chuva (ou em qualquer tempo, pensei agora olhando com desgosto para meus sapatos).

A caminho do trabalho há esse bar decadente, mas que serve ótimo café.  Como já estava lá, resolvi pagar a minha estadia consumindo ao menos um copo de uma porcaria qualquer que fingi beber no espaço de tempo em que lá estive. Refrigerante, já que estava a caminho do trabalho, mas soubesse o que estava para se suceder, teria pedido vodca, rum ou whisky ou mesmo cachaça! Sob risco de perder o trabalho!

Quando aquelas pessoas passaram por mim, senti o mesmo que se sente ao ficar perto de um dínamo ou caixa de som. Arrepiei pelos do corpo que nem mesmo sabia que tinha. E olhando para eles não tive dúvidas sobre quem ou o que eram, o que me fez ficar um tanto surpreso com a aparente amistosidade entre ambos quanto a escolha do lugar onde foram ter seu happy hour.
E às sete da manhã!!

Pensando bem, acho que só gente mortal pensa haver algum mérito em tomar um drink caro em uma boate chique de algum lugar elegante, mas se você for um dos jogadores cósmicos da vida humana, acho que tanto faz champanhe em Milão ou cachaça em uma birosca em Itacaxeroca.

Passei ao exame de ambos...

Conversavam como bons camaradas, contavam alguma coisa que os divertia. Talvez alguma fofoca sobre deuses ou demônios.
Vai saber sobre o que conversam demiurgos...!

Notei que Deus tomava um líquido dourado e translúcido e que por mais que ele bebesse daquele copo, este nunca ficava vazio. Ninguém o servia e ainda assim seu copo estava sempre cheio.

Já o Diabo era servido por um pobre garçom que no tempo em que enchia o copo daquela coisa, envelhecia a olhos vistos e suava, transpirava, como se estivesse carregando pedras. E não importava o que derramasse naquele copo, o líquido se transmutava em cor carmesim, que o Diabo levava aos lábios igualmente rubros e perfeitamente delineados. E como bebia aquele demônio! O pai e mãe de todo o alcoolismo, sem dúvidas!

Deus era um velho barbudo que se você olhasse direito parecia tomar todo o ambiente e não apenas ocupar uma cadeira. Tinha aquele ar de magnata, de gente muito rica que está habituada a receber todo tipo de deferência. Acho que ele notou que eu o observava, mas aparentemente não se importou. Tinha olhos bondosos, tenho que reconhecer, mas era aquela bondade um tanto tola que você vê nos olhos de crianças cujos pais não ensinaram a não serem imediatamente simpáticos com estranhos.

A pele formigava ao olhar para ele e eu senti aquela sensação de queda iminente, um frio no estômago como quando se está diante de uma cachoeira imponente ou olhando a beira de um abismo.
A voz dele, como seria de se esperar, parecia-se a um trovão ribombando, e ele ria alto deixando a mostra perfeitos dentes madrepérola. Instintivamente passei a língua sobre a ruína que trago por detrás dos lábios um tanto invejoso. O plano odontológico dele era, aparentemente, melhor que o meu.  Juro que não sei dizer que roupa ele vestia, se é que vestia alguma, porque quando se olha na direção daquilo, a única coisa que se pode ver é o rosto que inspira bondade e pavor.

Receoso das implicações de ficar encarando Deus, passei a observar o Diabo.

Devia ter continuado a olhar pra Deus!
O Diabo era uma coisa andrógena e um tanto...Reptiliana. Parecia uma mulher bem bonita (acho que seria um homem bonito, caso eu fosse de outro gênero), mas uma beleza que assustava porque vinha carregada de ameaça.  Se movia de modo gracioso e mortal, parecendo uma cobra ou um chicote e tal como uma cobra, sua voz era um sussurro e sibilava alguma indiscrição divertida nos ouvidos de Deus, ao que este ria alto dando tapas no joelho.

E o cheiro que o Diabo exalava é algo difícil de descrever. Uma coisa doce e putrefata. Um odor animalesco...Cio e festim de alguma fera que acasalava ou matava e aquilo apavorava e atraia, como se eu me descobrisse repentinamente dentro da toca de uma ursa... Não era bem isso. Como eu disse, difícil de descrever...
Mas sei que aquele cheiro horroroso mas viciante me entrou violento pelas narinas e involuntariamente me fez ter uma dolorosa e constrangedora ereção e também uma vontade profunda de vomitar.

Irritado e nauseado, engoli mais um pouco do que quer que eu estivesse bebendo, lutando para não colocar pra fora o frugal café da manhã que havia tomado. Nunca pensei que o diabo pudesse ser tão odioso!

Achei revoltante o modo como conversavam como se fossem comadres velhas.
O mundo lá fora perdido, necessitando de salvação e de tentação e eles ali, indolentes em uma manhã de quinta-feira, em boteco decadente como se nada lhes dissesse respeito.
Isso e mais o incômodo físico provocado pela presença deles fez olhar com hostilidade para ambos quando saíram.
Deus me sorriu amistoso e complacente. O Diabo mandou um beijinho todo coquete, carregado de deboche e promessas. Sumiram na chuva...

Fiquei na dúvida, depois que saíram. Talvez fossem apenas um velho rico conversando amigavelmente com um rapazola (ou moça) em manhã de chuva.
Quero dizer, tinha mais gente lá no bar e ninguém parecia notar aquelas figuras extravagantes ou o impacto que causavam no ambiente.
Estava quase duvidando do meu juízo, afinal, eu sou um ateísta. Que sei de deuses e diabos para reconhecer quaisquer deles?
Mas olhando em derredor, encontrei cumplicidade e apoio nos olhos de uma garota de piercing que parecia tão atordoada quanto eu.
-Você reparou naqueles dois? – Perguntei como se fosse evidente de quem falava. A garota, no entanto, pareceu acompanhar meus pensamentos.

-Claro que vi! Inacreditável, né? Por essas e outras é que sou atéia!!

terça-feira, 21 de novembro de 2017

O Abismo por Detrás do Vazio



Finalmente chove...
O ar está impregnado de umidade, as sarjetas estão quase suportáveis, o frio obriga todos a se abrigarem e um silêncio pesado se instala no mundo, quebrado sutilmente pelo gotejar leve das folhas das árvores encharcadas nas pedras e calçadas...

É realmente um tempo lindo...

Nem mesmo os cães barulhentos dos meus vizinhos parecem dispostos a fazerem a costumeira algazarra.

Partidário da época de chuva, sou quase levado a crer que mesmo as taxas de criminalidade diminuem em tempos assim, em que tudo parece se recolher e as noites parecem mais longas que os dias....

Queria apenas estar de férias, sem tv ou internet, sem telefones ou compromissos, esquecido de tudo que não fosse o cair hipnotizante da água do céu, no qual eu poderia passar os dias com a mente longe, perdido em lugares inacessíveis.
De repente me sinto imobilizado e de tal forma apaixonado por essa letargia, que me obrigo a levantar de rente a janela e ir fazer qualquer coisa.

Qualquer inutilidade que me tire desse transe pelo qual tanto ansiei enquanto pondero se meu desejo de morte se tornou agudo de tal forma que quase tenho de me lembrar de respirar...

Não, não é melancolia e nem depressão.
Se fosse isso eu saberia reconhecer e haveria certo aconchego nessas condições, porque são coisas reconhecíveis e mesmo a presença de monstros, quando familiares, são reconfortantes, porque há nisso um quê de reconhecimento.

Não é tristeza que me faz nutrir esses pensamentos lúgubres, mas uma paixão estranha pelo que se avizinha, um sentimento de término que assusta porque está permeado tanto de iminência quanto de incerteza...

Fazem algumas horas desde que comi alguma coisa. A cabeça e os motivos giram e me sinto subitamente divino. 

Hipoglicemia e solidão são sempre fontes excelentes de ilusões de transcendência...

Um enlevo súbito, um sentimento de me estender ao infinito, enquanto silenciosamente desmorono para dentro, caindo entre os cacos do que até segundos atrás foram sentimentos de grandiosidade...
(mas não tem nada nessa geladeira que não esteja vencido ou com “gosto de geladeira”?)
...
Psicodellias... 
Meu blog surreal...
Um voo no meu desamparo e na minha perplexidade por estar existindo.
Estou aqui há quase oito anos agora e leio em retrospecto tudo o que já lancei no ar da net e, em coisas antigas, por entre os bytes dessa tela encontrei motivos de me sentir orgulhoso.

Sem contar o que escrevi muito antes, em outros lugares e que em minha infantilidade deletei sem cópias, coisas e sentimentos dos quais eu quis me divorciar e no processo não percebi que joguei muito de mim fora...

Lastimo, mas releio o que ficou.

Vejo a maneira como procurei me ocupar do meu universo íntimo, desbravando ao longo dos anos o grande mistério de mim mesmo e percebo a discrepância que fica entre o que sou por dentro (como coisa real, ainda que tudo seja sonho) e meu Eu menor, com o qual me movo neste mundo.

Porque ainda que me veja muitas vezes transcendente, pateticamente profético e que me arvore em poesias e trovas - com as quais assassino a estética e a língua - não ouso mentir a mim mesmo em toda instância e tenho de reconhecer que no mundo ordinário e vulgar, por entre gente ordinária e vulgar, sou igualmente ordinário e vulgar, com desejos e aspirações ordinárias e vulgares.

Um deus tentando controlar os gastos do cartão de crédito...

Ainda está chovendo e vai chover o dia todo.

Chove, está frio e eu aprecio o contraste entre o frio e o calor da caneca de sopa nos meus dedos e que aos poucos espanta o frio das minhas veias... Gosto do contraste de tudo, na verdade, porque no contraste podem bem se confundir o que é pano de fundo do que é tema, a ribalta e a plateia, a personagem e o enredo e por fim, creio que tudo é mais real quanto mais se distingue daquilo que o cerca...

Sentei-me de novo e deliciei-me com a chuva.
Tento gravar na memória a mágica do constante cair da água, porque tempos de seca devem se sobrepor a essa primavera. Me sinto tal qual essa chuva, sem forma e em queda, vazio como minha casa, perdido e preguiçoso demais para fazer esforço de me encontrar.  
Olho para o vazio (o vazio olha de volta) e para o abismo além dele sem temor.


Já sei que por preguiça ou por excesso de dignidade, jamais me ocorrerá atirar-me em seus profundos. Posso, no entanto, ter em perspectiva que um monstro qualquer se chateie o bastante para achar que valha o esforço de ele subir à tona e me arrastar para o fundo.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Uma chuva que não vem...


Dir-se-ia ter eu seiva nas veias, pois outubro agoniza e eu anseio o desabar do céu em chuva, para me tirar desse estupor e me lançar em outro...
Uma chuva que não vem...

Onde foram o negro céu, a tempestade majestosa e o uivo furioso do vento de outubro?
Algo floresce mais do que plantas, nesses dias em que costumo desabar pra dentro de mim enquanto olho pela janela o mundo inteiro se recolher fugindo da chuva.

Uma chuva que não vem...

O sol impera absoluto no céu e impossibilitado de fazer meus voos labirínticos pra dentro, olho pra fora, pro leste, pra brisa fresca dessa tarde quente, soprando, balançando a copa das árvores com a suavidade de um balançar de cabelos e penso no que eu não queria pensar.

Penso no tempo e no que ele levou e trouxe...
Em tanta coisa que foi e não foi dita e não pensada e não vivida e nessas encruzilhadas todas onde é certo, assombram os espectros das direções que não tomei.
Faço balancetes silenciosos e uma sensação de frio, no calor dessa tarde, percorre minha espinha e eu anseio pela chuva...

Uma chuva que não vem...

Mas me vêm essa inquietação teimosa, fruto de lembranças a que o tempo já deveria ter esmaecido, e orbita sobre minha cabeça em trajetória elíptica .

Algures, em ermo que só deus sabe, alguém olha pro tempo e anseia também e eu penso se é fatal essa sina de estar sempre se sentindo alheio.

E não obstante a carência de fé nos gestos e nos motivos, escrevo como em um ritual e deixo rastros, migalhas de pão a indicar o caminho de casa...

Talvez na esperança de que mesmo na chuva ou na falta dela, não se percam nem o caminho e nem aqueles que estão destinados a percorrê-lo...


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Os Whashaii e Meu Interesse por Física Quântica


No século IX antes de cristo, em um lugar ermo, próximo de onde é hoje a Polinésia, existia uma tribo peculiar, os Whashaii (pronunciá-se "uuuaaakaii-e"), que em em sua linguá nativa significava "aqueles que caçam o sol".

Essa tribo, dentre seus muitos costumes peculiares, tinha uma forma de culto que envolvia a escolha de um ser humano para encarnar seu deus-menino, Huakthalah. 

Huakthalah era um deus-menino eternamente com 17 anos e como era necessário manter seu deus tanto ao alcance das orações quanto dos dedos, os Whashaii, que consideravam absurdo simbolizar em matéria morta um deus vivo, escolhiam uma vez a cada ano, um dos seus filhos com essa idade para encarnar seu deus.

Ao garoto que cabia essa honra eram atribuídos todos os benefícios da divindade, a saber, um templo, acólitos para o servirem, adoração, tratamento especial dado pelos acólitos que em tudo atendiam o deus-menino no que este necessitasse ou em seus caprichos mínimos.
Homens vinham em busca de seu conselho para a pesca e para a caça, agricultores o consultavam sobre a ocasião propícia para o plantio e a colheita, mulheres vinham acasalar com o deus menino como garantia de que seriam sempre férteis e que seus filhos seriam fortes.

O menino que fosse escolhido para por um ano ser o avatar do deus Huakthalah, recebia tudo o que seu coração desejasse, enquanto era a encarnação do deus e esse tratamento tinha um motivo:
Era uma compensação, porque ao término do ano solar dos Whashaii (que era de 383 dias), o deus menino completava a maioridade e necessitava ser substituído.

O problema, era que não havia um plano de aposentadoria para deuses depostos e ocorre que Huakthalah era o deus da fertilidade, da virilidade e da mudança, então, quando terminava seu ciclo de 383 dias como um deus, o garoto era levado, em uma grande cerimônia que envolvia a tribo inteira (com exceção dos garotos com menos de 18 anos), até a beira do mar.

Ali era castrado (e seus testículos e pênis eram depois cremados e as cinzas bebidas junto com vinho de banana por todos os homens) e morto com golpes de um remo cerimonial na nuca.

Os guerreiros levavam o corpo do deus morto até o mar, onde o entregavam às ondas.

Naquela noite havia uma grande festa na tribo e os homens dançavam em volta da fogueira, orgias aconteciam na luz das labaredas e nas cabanas, amedrontados os meninos de 16 pra 17 anos suavam de pavor, porque no dia seguinte, um deles seria um deus.

Se você procurar referências sobre os Whashaii e seus deus-menino Huakthalah no Google, não irá encontrar por dois motivos:

O primeiro é que a tribo é do século IX antes de cristo e não foi catalogada e se o foi, estava decadente, recebeu outro nome e nada se soube sobre seus costumes e seu deus.

O segundo e principal motivo, invalida o primeiro motivo e tudo o que foi dito até agora é o seguinte: Eu inventei essa história toda!

Nunca existiram Whashaii e menos ainda Hukthalah.

Inventei essa potocada em uma conversa divertida com uma namorada.
Foi mais ou menos assim. Eu estava fazendo graça e me gabando, daí ela:

(...)
-Que você pensa que é? Um deus?
...
-Que foi?
-Nada...
-Fala logo!
-Tá bom, mas prometa que não vai me interromper enquanto falo...
-Ai ai.. tá, fala,

-Eu não sou um deus, mas já fui um, em uma encarnação passada... Foi assim, no século IX antes de cristo..."

E lá me vieram na hora os Whashaii e Huakthalah na cabeça.
E dei tantos detalhes na coisa, que ela depois custou a acreditar que inventei tudo.
Foi só pra ter uma conversa interessante e diverti-la com o suposto da minha megalomania, porque eu nem acredito em reencarnação, mas em uma vida anterior teria sido um deus...

Semanas depois assisti a um documentário que falava de física quântica e universos alternativos.
Postulavam lá que cada vez que você escolhe seguir um caminho, cria-se outro universo, um em que você tomou o caminho que não escolheu neste.
E isso faz toda a diferença.
Claro, estou fazendo uma interpretação rasteira de uma teoria que mal compreendo.
Ainda estou tentando entender a teoria quântica e também o sedutor trabalho de Robert Lanza, mas se ele estivere certo e a consciência criar o universo (e não o oposto, como estamos acostumados a pensar), é possível que eu tenha criado um universo à parte, apenas por pensar nele - embora não seja esta a afirmação do Biocentrismo ou da física quântica, mas inferência minha- (deixa eu devanear, pô!), um em que centenas de meninos serão sumariamente emasculados e mortos. 
Condenei essa gente toda a uma morte cruel, só para distrair minha namorada.

É possível que algum palerma em universo anterior, tenha ferrado a nós todos, contando-nos como história para alguém, por um motivo ainda mais fútil...
E a gente chamando o cara de Criador...
Putz!

Por outro lado, de certa forma, é reconfortante pensar que em algum universo as coisas que deram errado para mim neste tenham dado certo.
Em algum desses universos aí, pode ser que eu esteja vivendo, livre do peso de tantas culpas carrego neste.
Todas as escolhas que eu não fiz e pelas quais lamento, é possível que não estjam mortas.
Se Lanza estiver certo (tomara que esteja) é possível que nada morra!

Claro, há, seguindo essa linha de raciocínio, universos em que estou pior, ou em que nem estou, mas ainda assim, consola meu coração pensar que no infinito ha universos em que eu tenha na alma a calma que não consegui neste e em outros eu tenha finalmente consumido o mundo em chamas e  destruído tudo, como frequentemente desejo fazer neste.

E me perdoem Lanza e os teóricos quânticos (cujos trabalhos mal comecei a conhecer e pelos quais sou fascinado), mas o genial Álvaro de Campos/Fernando Pessoa já no comecinho do século vinte esboçava os conceitos sobre os quais agora se debruçam.

Pois se vocês lerem as linhas abaixo e tiverem como eu um conhecimento mínimo sobre a teoria de universos alternativos da física quântica, compreenderam as similaridades. Leiam, porque eu vou dar um tempinho aqui e tentar consertar a lambança que fiz no universo dosWhashaii.
Não que eu me sinta culpado, é claro. Afinal, fui o deus deles. É minha prerrogativa divina ferrar com o universo deles ou consertá-lo, ao meu bel-prazer.

Na noite terrível, substância natural de todas as noites,  
Na noite de insônia, substância natural de todas as minhas noites,  

Relembro, velando em modorra incômoda,  
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.  
Relembro, e uma angústia  
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.  
O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!  
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.  
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.  
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,  
Na ilusão do espaço e do tempo,  
Na falsidade do decorrer. 
Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;  

O que só agora vejo que deveria ter feito,  
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido —  
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,  
Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver ... 
Se em certa altura  

Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;  
Se em certo momento  
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;  
Se em certa conversa  
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —  
Se tudo isso tivesse sido assim,  
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro  
Seria insensivelmente levado a ser outro também. 
Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,  

Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;  
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;  
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,  
Claras, inevitáveis, naturais,  
A conversa fechada concludentemente,  
A matéria toda resolvida...  
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói. 
O que falhei deveras não tem sperança nenhuma  

Em sistema metafísico nenhum.  
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei,  
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?  
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.  
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos, 
Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca  

Como uma verdade de que não partilho,  
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p'ra mim.




terça-feira, 10 de outubro de 2017

É um convite pra dançar

(...)


Ahahahahahahahahahahaha!!!

Que...De que diabos está rindo afinal?

(De uma coisa que na verdade devia me fazer chorar, mas), porra, você está aí falando da sua preguiça de "amores impossíveis" e de gente que teima em vivê-los e estou pensando em quando vai perceber que ainda não entendeu o óbvio...

Me ilumine, então, ser superior... Não entendi o quê exatamente?


Eh...Simples. TODO AMOR É IMPOSSÍVEL!.

(...)

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Expropriado (ou 100 Sonhos)




Nada há o que comungar e nada a partilhar
Entre o Eu e os amplos espaços vazios da minha compreensão.
Há os grandes hiatos abertos 
Em meus ossos quebrados por palavras
Em meu espírito fragmentado por pedras e paus...

Um dia hei – e na ânsia desse dia, já nem como ou durmo senão em sonhos-
De livrar-me desse entorpecimento dos sentidos
Dessa fuga de pensamentos que correm em avalancha
Como se não tivesse crânio a detê-los, mas apenas o céu por teto para o cérebro.
Por certo, deveria perder-me no acaso dos caminhos que aponto
Nas direções que indico, mas nunca tomo, 
Como se a trilha para a minha alma caminhar
Começasse na ponta do meu indicador.
Todos parecem saber, mas eu...Eu não compreendo...

Mas tem uns fantasmas falando com minha voz,
Monólogos maçantes em que debato comigo mesmo e com meus medos.
Pavores absurdos, pueris, pesadelos que já nem assustam tanto
Quanto a consciência da súbita perda da capacidade
De me assustar.

Tem dois abismos doces por detrás de suas pupilas...
Há dois demônios graciosos a espreita nas suas pálpebras...
Há néctar e veneno confundidos na curva dos seus lábios...
E enquanto me corre um rio de água gelada pelo estômago,
Sorrio de volta para o inferno – Para o maravilhoso e encantador inferno!
E penso o que pensa a vidraça ao beijo da pedra:
Isso vai doer!

Devo, em meu devir repleto de reminiscências
Expropriar-me de imaginações e sepultar em baús os devaneios
Não tardará romper o dia e há tributos a serem pagos
A tudo e a todos e a corrida do mundo não toma fôlego.

Sonhos são dinheiro precioso.
Já cá, ando sem moeda alguma que jogar no Arrudas
Em troca de um desejo.
Um único.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Minha Dialética Tardia...




"A luta entre o velho e o novo, entre o que morre e o que nasce, entre o que é perene e o que evolui...
A luta dos contrários é,pois, o motor de toda a mudança."

Eu pensei que queimaria a mim mesmo na fogueira das minhas vaidades. Nunca soube de lenha mais adequada.

Isso seria um desejo mais realizável do que meu antigo anseio de ser uma lanterna para o mundo. Ou talvez apenas me tenha escapado o fato de que são desejos sinonimizados.

Mas, oh, clichês a parte, a chama ardeu alto, mas por tão pouco tempo que nem chegou a iluminar a mim mesmo ou a noite escura a minha volta. E eu cai de tão alto que já nem havia ossos na casca frágil que se rompeu de encontro as rochas..

De que é que poderia me envaidecer, eu, com a consciência aguda das minhas limitações físicas e metafisicas, estéticas e éticas, morais e acadêmicas e de outras ordens e desordens?

Eu olho para trás e vejo com antipatia e compaixão o garoto que fui há tão perdidos anos e para um pouco a frente, com temor do julgamento do velho que serei.

Paradoxalmente, sou ainda aquele garoto com ideias tão revolucionárias quanto efêmeras e também já aquele ancião repleto de cansaço e nostalgia que está há alguns outonos a frente, no horizonte do meu destino.

Há coisas inconfessáveis, que perturbam o suposto da minha maturidade, em numero similar aos constrangimentos antigos da minha meninice.

O entusiasmo sufocante por coisas que eu julgava tão apagadas em mim como a chama da minha vaidade fenecida me inquieta e tenho de me mexer.

De repente me brotam versos e trovas vindas de algum lugar, inspirada por estrelas em ascensão, quando minha alma já caiu no escuro de algum canto onde o mofo e bolor tirou-lhe o brilho..

Ah, melodrama do diabo!
Me sinto antigo e apaixonado por coisas novas, um dinossauro procurando sua versão .2 em smartphones...
Me sinto ridículo, com uns impulsos que brigam com meu desejo de imobilidade e sou ultrapassado até pela minha letargia.

Um corvo errante berra seu “Never more” e eu passo as horas tentando escrever e dar sentido à sujeira que seu pouso deixou no encosto da minha cadeira e na minha consciência...

Me releio em coisas esquecidas e lembradas, umas com ternura, outras com embaraço e rio de mim mesmo, em gargalhadas sufocadas pelo pensamento de que em alguns anos provavelmente estarei rindo deste Sahge/2017...


Talvez eu esteja mesmo é com receio de que a decadência não seja afinal tão romântica quanto a quer o meu niilismo...
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