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quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Da Minha Necro-linguagem





A minha lógica morre junto as coisas que anseio vivas
E a vida vai perdendo batalhas, deixando a paisagem cinza
E o ar impregnado de vazio.
E enquanto mastigo a familiar sensação de incompreensão,
Moscas vivas empesteiam o ar da manhã
Enquanto folhas secas embelezam o chão da tarde com sua morte.

E é  assim talvez o modo de se darem as coisas,
A pedra beija a vidraça, a vela queima as asas da mariposa,
A alma em êxtase na queda,
O chão subindo violentamente contra a fragilidade do corpo,
Afagos ocultando vilezas e o amor ali, na ponta aguda do açoite.

Mundo louco!
É o ritmo estranho em que o universo dança,
Enquanto vou tropeçando em meus próprios pés
E nas palavras que me explodem a jugular em fogo.

Natural que tudo tenha lá a sua natureza.
E redundância ortográfica ou licença poética que seja,
Lego aos Poetas e aos Semânticos encontrar
As formas  mais exatas de definir
A indefinição,
A singular natureza do nada. 

A minha fala é por vezes  ininteligível e mortal
(mesmo para mim, quando não quero e tenho que falar)
Meus versos são de um embotamento cruel
(Mesmo para mim, quando quero e não posso calar)
E assassino lentamente as coisas quando nelas falo.

É essa, lamento dizer, a minha natureza
Sem semântica, sem poesia...
Mas o universo sabe, não sou nem quero ser poeta.
Somente queria ser mudo e surdo para isso que me ferve as entranhas
Para a febre dos meus sentidos. 

E porque todos os meus espelhos mentem,
Sou um EU atordoado na busca por outro EU.
Talvez  excessivamente encantado
Pelo próprio atordoamento.

sábado, 8 de setembro de 2012

A Alegria da Queda



Toda a natureza tende para baixo.
É a lei da gravidade e das muitas humanidades.

Caia.

Nada há de mais divino que isso.

Caem folhas das arvores no outono, caem anjos nos verões do céu.
Seja feliz na queda, abrace o precipício.
E goze a alegria louca nos poucos instantes
Da queda livre alucinada!

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Um Sopro em Minha Estupides




É uma situação desconfortável.
Saber tanto sobre o quão pouco se sabe sobre tudo.  A maioria das pessoas não sabe disso. A maioria das pessoas tem uma sorte danada. Receio que eu não esteja incluído no grupo dos afortunados ignorantes da própria ignorância. A maioria das pessoas é sabia. Eu sou, penso em meu errôneo pensar,  de uma estupidez atroz, tão mais aguda quanto mais ciente dela estou.

Mas tem momentos em que eu quase chego a me esquecer de me lembrar do quanto sou tolo. Tem momentos em que posso sem constrangimento dizer, “Foda-se!”, que é expressão grosseira, mas catarticamente a mais perfeita.
Infelizmente, são momentos bem raros.

Porém, tive um momento meio...místico esta tarde.
Estava sentado num velho e gasto banco de concreto bem de frente para um pequeno  bosque (se posso chamar assim, porque na verdade, trata-se de um jardim com algumas árvores que me agrada pelo seu aspecto meio selvagem) que há onde eu trabalho.  A tarde estava ensolarada e ventava o maravilhoso bafo de agosto. Sei lá como, mas consegui por um momento não pensar em coisa alguma. Nem percebi que estava (ou não estava) pensando em nada quando o vento soprou pelas arvores e uma chuva de folhas secas flutuou em diagonal até o chão do “bosque”. Parecia um instante em câmera lenta e eu acompanhei a queda das folhas até o chão como que hipnotizado. Era agosto (mês de desgosto, de cachorro louco e de ventania) agonizando e enchendo o ar de beleza com seus últimos suspiros.

Foi só então que, alucinando ou não, percebi que por um minuto deixei de ser extemporâneo, desconectei das lembranças do passado e das angustias do futuro e existi dentro daquele exato momento em que vivi  a queda das folhas. Foi bastante estranho  (bonito, reconfortante como uma boa noite de sono, mas estranho) e como na ultima postagem eu disse ( lembrando de uma fala ótima do filme ”V de Vingança”) que Deus(a) está no vento, talvez seja Ele(a) brincando com a minha descrença (como se fosse escolha minha acreditar ou não...) dando uma pequena mostra de sua existência.

 Se foi assim, gostei, especialmente pelo fato de ser (em teoria) uma prova de que Ele(a), caso exista,  ao contrario dos que dizem adorá-lo(a), tem senso de humor.

Lembrei-me de uma conversa antiga com uma grande amiga, uma dessas pessoas maravilhosas que a vida nos arranca de um modo ou de outro (como o vento arranca folhas das árvores), que me disse:
“Quem quer buscar a Deus, na maioria das vezes, deve-se afastar das religiões. O pensamento deve desligar-se dos preceitos acanhados; deve rejeitar as formas grosseiras e irrefletidas que as religiões envolveram o supremo ideal.”

 “Deve estudar Deus na majestade de suas obras”.

Era uma pessoa de grande fé, coisa de que ainda sou incapaz, mas hoje compreendi um pouco mais do que ela queria dizer. Eu acho.

E acho que implico demais com Deus(a). 
E na possibilidade de Ele(a) existir, dá o troco do seu modo.

Eu também tenho senso de humor , mas embora tenha apreciado muito  aquele momento, ainda preferia um desfile de anjos na Praça Sete  ao meio dia ou então que a Pampulha se dividisse ao meio mostrando o  leito normalmente  elameado  limpo e coberto por Maná.
Mas acho que isso seria esperar demais.

 Então, partindo do principio de que (segundo dizem), para Ele(a) tudo é possível, possível é que  nas horas de ócio em que não está distribuindo pragas ou bênçãos para a humanidade (segundo dizem 2), tire algum tempo para ler blogs obscuros.

Nesse caso Deus(a),  caso passe por aqui, saiba que agradeço pelo momento mágico da tarde de sol e vento, pela paralisia do tempo na queda das folhas e pelo instante de silêncio que me proporcionou; e se possível (já que para si tudo o é), gostaria de pedir  que me concedesse a graça de poder ficar inconsciente desse tanto que sei sobre o que não sei, ignorante da minha ignorância e não tão certo da minha própria estupidez.. Faça-o por capricho, por compaixão ou por misericórdia (a mim não interessa tanto o atributo quanto o resultado), mas faça. 
Ser-lhe-ia muito agradecido...

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Príncipes Universais em Lascaux




Você é uma montanha a ser conquistada?
Tem uma montanha perto da minha casa. Bem...Na verdade, não é bem uma montanha (não para os padrões mineiros).
Trata-se de um morro próximo (bem íngreme)  de forma cônica levemente lembrando aqueles desenhos estilizados de montanha,  que na minha infância  minha imaginação atribuía as proporções de um verdadeiro Himalaia.

Passei meus primeiros anos querendo subir lá, sem permissão e para a minha tragédia, eu era o tipo de garoto "obediota" e bem comportado. Não me admira que eu não fosse muito popular entre os outros garotos...E eu nunca subi a tal "montanha". 
Já fazia um bom tempo que eu sequer olhava para lá. Hoje, mais cedo, parei de digitar isso por um tempo e fui à janela. Ainda é um morro de proporção considerável, mas de modo algum lembra aquele simulacro de kilomanjaro, que minha pouca idade ansiava por conquistar.

Engraçado como o tempo parece privar as coisas de sua imponência....Quando eu era garoto e passava horas a fio olhando para lá era um espetáculo: Coberta com uma vegetação rasteira, algumas árvores  miúdas, grama verdinha...Ah e lá  ventava sempre o sol chegava mais cedo e se punha mais tarde ( e se Deus{a} existe, deve morar no vento e no sol!).
O topo parecia estar sempre iluminado e era delicioso  imaginar-me lá no alto dela, sentado como o rei do mundo...
Agora está cheio de casas e tem uma antena de operadora de celular no topo. E embora eu tenha passado a infância sonhando e eu levasse talvez menos de quinze minutos para chegar lá, nem um eco daquele anseio por subir até o alto daquele morro eu sinto.
Comecei com estes devaneios  da  minha infância  para falar sobre o anseio humano por desbravar  florestas ou escalar montanhas, internas, externas, psicológicas, espirituais, morais, filosóficas, físicas e metafísicas. Penso que  todo mundo gosta inconscientemente da sensação quase mágica de ser o primeiro a pisar num chão, vencer um desafio, romper uma resistência, ganhar uma peleja, um debate.

Ser o primeiro, um príncipe do universo.

 Neil Armstrong foi bastante polido e político em sua fala, mas não foi muito  honesto: Ser o primeiro a pisar na Lua, foi um salto inacreditável para aquele homem! Ao restante da humanidade coube o pequeno passo e o incômodo papel de  coadjuvante (contra o que rebela-se toda a nossa vaidade).

Ou como me afirmou um garoto religioso outro dia “somos todos príncipes universais”. Na minha atual queda para o existencialismo, tenho de “concordar” com ele (embora não veja vantagem alguma em ser um "príncipe" num universo onde supostamente todo mundo o é), porque se existe uma força maior que impera sobre o coração do homem, é a ilusão mal disfarçada de ser um “herói cósmico”. O primeiro e mais importante ente a ser considerado pelo universo (razão pela qual já não tenho impulsos de conquistar aquele morro, porque agora mesmo tem uns moleques lá no alto).

"Príncipes do universo". Por muito que tenho visto, sou levado a pensar que todos os seres humanos se vêem assim, embora disfarcem esse sentimento megalomaníaco por detrás de uma tonelada de recursos ideológicos, dentre os quais o mais bonito, comovente e mentiroso é a humildade.
Temos de justificar para o universo a nossa existência. De um modo ou de outro.  É o que nos move e é a nossa maneira de vencer a morte. E é para isso que criamos os deuses: Para sermos através deles, nós mesmos, eternos, incorruptíveis,  mais importantes do que as estrelas gigantescas ou as milhões de galáxias criadas por Eles, que foram ciados por nós.

Acho que pior do que arrogância é a falsa humildade e, ah...Como somos habilidosos em fingir que somos humildes quando isso contraria toda a nossa natureza!



E eu fico aqui, tendo movimentos peristálticos, produzindo gametas, desenvolvendo (possíveis e ignorados) tumores que dia desses darão cabo da minha raça e ainda me imaginando o ser mais importante para os deuses, motivo de rivalidade entre eles e ator principal da tragicomédia do Universo.
O problema é que parece que TEMOS de funcionar assim ou enlouqueceremos por termos de encarar a nossa finitude e efemeridade. A desimportância da nossa existência e a falta do significado para a mesma é peso demais para nós.
Fugindo e voltando ao assunto:Você por acaso é uma montanha?
Bem, se for o tipo de pessoa que declara abertamente as suas dúvidas em relação à própria situação de primícia universal do homem, vai se tornar uma montanha a ser conquistada por qualquer um que se sinta ameaçado em sua posição de “príncipe universal” pelo seu raciocínio.


Você é também um daqueles estraga o natal contando as criancinhas que Papai Noel não existe? Saiba que você tem irmãos no mundo, meu amigo. Eu não o conheço, mas já gosto de você!

 Todo mundo tem um amigo nervosinho com quem os outros gostam de implicar, porque é divertido vê-lo irritado. Bem, se você não exatamente o tipo nervoso, mas sofrer de uma fibromialgia intelectual , então o princípio é o mesmo.  Eles têm que deslegitimar as suas dúvidas, porque elas os ameaçam de algum modo.Elas poem em xeque as certezas deles, das quais consciente e inconscientemente duvidam.

E se existem montanhas inalcançáveis, sempre vai ter alguém disposto a arriscar a vida (em ambos os casos, literalmente), para ser o primeiro a conquistá-la.

Você é uma montanha a ser demolida e reduzida às proporções de um morro ou uma colina. Você tem de ser vencido, conquistado, abatido sem piedade e o primeiro a conseguir fazer isso se sentirá um herói. Se fosse possível, moral e legalmente, é provável que empalharia a sua cabeça e a colocaria como um adereço numa parede, diante do qual contaria as vantagens da vitória sobre si.

Como a lei proíbe, o recurso mas usual é te converter em qualquer coisa que não seja você mesmo e se necessário, deixar por modos subjetivos, escrito em sua mente a seguinte frase imortalizante que podemos encontrar em árvores em meio a florestas ou nos parques: “Fulano esteve aqui”!

Nossos antepassados  em Lascaux (os mais antigos e famosos grafiteiros da história) sabiam disso .
É, ao que parece, outro jeito de se imortalizar.

sábado, 18 de agosto de 2012

Florbela e a Noite do Meu Niilismo



Abaixo está um poema que uma pessoa cuja inteligencia e sensibilidade admiro mais do que posso expressar em palavras me enviou. Fiquei entre feliz e perplexo, pois lendo-o lembrou-se de mim, e de mim mesmo em uma outra instância.
E em uníssono ao espanto pelo (re)conhecimento destes versos que não são meus, mas calam tão dentro de mim que perguntar carece, como não fui eu que fiz(?), eis o que me inspiraram:
                
 ...se até o Nada é relativo, nada é relativo, logo tudo é concreto, absoluto. E o que é absoluto é absolutamente desprovido de sentido, de significado. Mais ainda que o Nada. 

O que isso tem a ver com os versos? Tudo a ver e nada a ver. Porque diabos uma coisa tem que ver com outra para fazer ou não fazer sentido (que dá no mesmo)?
Você talvez nada tenha a ver comigo ou com ninguém...Deixa de ter ou tem mais significado por causa dessa sua singular desconexão com o todo?

Se ao ler isso sentir o seu estômago revirar com essas contradições, alegre-se! 
Pelo menos você ainda tem  um estômago que embrulhar! Eu já não tenho estomago para nada (pois o Nada o devorou). Apenas uma amaldiçoada e confusa cabeça pensante (coisa que ela faz de modo cada vez  mais precário como deve ter notado por essas linhas), que não posso resetar e nem deixar em stand by para dormir um pouco como você e sonhar com amenidades.

Mas hoje é uma noite tão boa quanto qualquer outra para fazer amor com os meus paradoxos.

"Foi tudo em vão até agora!"
Não há relatividade, exceto a relatividade do Nada.
É...meu niilismo não tem futuro. E nem deseja ter.

Eu ...


Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou! 

                                                                                      Florbela Espanca




quinta-feira, 26 de julho de 2012

O Signo do Corvo



Há humanos que se pensam deuses, feras  que se pensam homens e divindades de carne e sangue, que  se sentem menores e mais ínfimos que os primeiros.

Por vezes antílopes sonham serem leões a devorar os próprios irmãos.
Por vezes os deuses erram e a esses erros, chamamos “humanidade”.
É uma massa estranha, com erros sobrepondo-se a enganos, imiscuindo- se, disfarçados de certezas.

E eis a única certeza possível:
Hás de morrer, criança,  e com o substrato da tua decadência alimentarás a terra  e, por um tempo,  também a saudade daqueles que lamentando a tua sorte, fingirão não estarem sob o julgo da mesma sina .

Dar-te-ão guirlandas, a erva da terra por teto e o nome no mármore ou uma moeda para que pagues ao barqueiro do Estige, e apiedando- se de ti com velas e orações, esquecer-te-ão, pois dali em diante a dor da tua ausência será a constante lembrança de suas próprias finitudes.

Deixa-os brincar de eternidade e de incorrupção enquanto os cabelos se lhes tornam brancos e a poeira do tempo lhes enevoa os ombros.
Deves perdoá-los, para o teu bem.
É coisa pequena que te esqueçam.
Que importa se olvidam de ti, se tanto e com mais freqüência, esquecem a si mesmos para perscrutar o céu a cata de presságios?

E a terra lamenta uma ausência tanto quanto a mata lamenta a folha que cai ou  o perdulário chora  o centavo perdido.
Mas a noite escura se apieda de todos os que têm a coragem necessária
Para admitir que a teme.

Abraçá-la-á a negra terra e terás repouso, então, é tolice  ir-se aos prantos ao seio que recebeu  os teus antes de ti e que receberá a teus filhos e os filhos destes.
Deixasses pedaços de pão para encontrar o caminho de casa, os pássaros os comeriam e ainda estarias perdida.

O esmo é a direção que deves tomar, a única vereda digna dos teus passos.
Alegra-te por estares perdida, criança!
Apenas o que o sabem podem orientar os próprios caminhos.

Então, se lhe aprouver hoje adornar-te com esta tristeza,
Ora, que sejas linda e triste como a lua de outono,
Mas ergue-te amanhã, poderosa e inclemente, 
Como o mais rubro e implacável  sol de verão.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Das Alegrias e das Paixões




“Irmão, quando tens uma virtude e essa virtude é tua, não a tens em comum com ninguém.
Na verdade, a queres chamá-la pelo seu nome e acariciá-la; queres puxar-lhe a orelha e divertir-te com ela.
E vês! Dás-lhe agora um nome, que é comum a ti e ao povo, e tornaste-te povo e rebanho nas relações com a tua virtude!
Melhor seria que dissesses: “Inexpressável e sem nome é o que constitui o tormento e a doçura da minha alma, e o que é também a fome das minhas entranhas”.
Que  tua virtude seja demasiado alta para a familiaridade de denominações; e se necessitas falar dela não te envergonhes de balbuciar.
Fala e balbucia assim: “Este é o meu bem, o que amo; só assim me agrada inteiramente; só assim é que quero bem!
Não o quero como mandamento de um deus, nem como uma lei e uma necessidade humana; não há de ser para mim um guia de terras transcendentes e nem para  paraísos.
O que eu amo é uma virtude terrena, que se não relaciona com a sabedoria e menos ainda com o senso comum.
Este pássaro, porém, construiu o seu ninho em mim; por isso lhe quero e o estreito ao coração. Agora incuba em mim os seus dourados ovos”.
É assim que deves balbuciar e elogiar a tua virtude.
Dantes tinhas paixões e as chamava más. Agora, porém, só tens as tuas virtudes: que brotaram das tuas paixões.
Puseste nessas paixões o teu objetivo mais elevado; então passaram a ser tuas virtudes e alegrias.

Ainda que fosses da raça dos coléricos, ou dos voluptuosos ou dos fanáticos, ou dos vingativos, todas as tuas paixões acabaram por se mudar em virtudes, todos os teus demônios em anjos.
Dantes tinhas no teu antro, cães selvagens, mas acabaram por se converter em pássaros e aves canoras.
Com os teus venenos preparaste o teu bálsamo; ordenhaste a tua vaca de tribulação e agora bebes o doce leite dos seus úberes.
E nenhum mal nasce em ti, a não ser aquele que brota da luta das tuas virtudes.

Irmão, és bem-aventurado quando gozas uma virtude, e nada mais, pois assim mais rapidamente passarás a ponte.
É uma distinção ter muitas virtudes, mas é sorte bem árdua; e mais de um foi morrer no deserto por estar farto de ser batalha e campo de batalha de suas virtudes.

Irmão, a guerra e as batalhas são males? Pois são males necessários; a inveja, a desconfiança e a calúnia são necessárias entre as tuas virtudes.
Repara como cada uma das virtudes deseja o mais alto que há: quer todo o teu espírito para seu arauto, quer a tua força toda na cólera, no ódio e no amor.
Cada virtude é ciosa das outras virtudes, e os ciúmes são uma coisa terrível. Também há virtudes que podem morrer por ciúmes.
O que anda em redor da chama dos ciúmes, acaba qual escorpião, por voltar contra si mesmo o aguilhão envenenado.
Ah, meu irmão! Nunca viste uma virtude caluniar-se e aniquilar-se a si mesma?
O homem precisa ser superado. Por isso deves amar as tuas virtudes, porque por meio delas perecerás”.

Assim falou Zaratustra

Friedrich Wilhelm Nietzsche

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Cognitio




Minha historia foi a seguinte:

Eu nasci, vivi e eu morri.
Vivi como um homem de fé, procurei a virtude piedosa e quando morri, estava certo de entrar numa outra vida e num modo melhor de existência, mas quando a luz se apagou...nada! Não havia nada lá e  eu estava morto e acabado e...

Espere aí! Isso não pode estar certo! Como eu poderia ter acabado se estou aqui a contar isso??

Na verdade não foi assim que aconteceu. Eu vivi e eu morri.
Mas eu vivi como um Ateu fundamentalista, victo e convicto e morri assim. Em meus momentos finais escarneci da morte, ri-me das preces dos meus tolos entes queridos por minha alma inexistente e apaguei. Esperava depois de morto...Nada. Mas para a minha surpresa, havia um depois, um além. Cheguei a um lugar que não era um lugar, mas um conceito. Daí pensei:
“Diabos! E não é que aquele bando de religiosos tinha razão?”
E agora?


Ah, cometi um equivoco aqui. Devem me perdoar. Não se pode se fiar na própria memória depois de morto. A verdade é que eu morri. Mas havia vivido como um cristão devotado e sincero. Quando segui a luz e cheguei perto do trono de Deus...Essa não! Jesus não estava ali. Era o Ganesha sentado no trono! E eu havia até mesmo debochado daquele deus-menino-elefante de quatro braços enquanto estava vivo! 
E agora?

Não.... Agora tenho certeza. Foi assim. 
Eu vivi e depois morri. 
Mas havia vivido a vida toda como um Budista fiel. Depois que abandonei minha carne, sabia que depois de ter vivido corretamente no caminho óctuplo, iria alcançar o  Nirvana, mas cheguei num lugar onde havia um trono e sentado no trono, reconheci de imediato aquela figura. 
Por todos os sagrados Lamas, aquele era Jesus!
E agora?

...

Eu morri como vivi.
Na dúvida. Nunca encontrei um modo mais honesto de se viver, o que talvez tenha sido um erro. Talvez meu único acerto. Estava prestes a descobrir.
Ou não...

Estava apavorado diante do novo, do incerto, daquilo do qual tudo e tanto especulei, mas nada sabia de fato. 

Eu estava saindo do mundo tão ignorante e desamparado quanto quando nele entrei. E assim como estava preparado para nele entrar, mesmo indefeso e com medo, estava preparado para dele sair. Engraçado como a morte e a vida parecem  portas de passagem para as mesmas incertezas...

Fiquei feliz pela minha vida não passar diante de mim como num filme, como eu ouvi certa vez que acontecia. Eu conhecia bem o roteiro e no geral, odeio reprises. E seria maçante ter de repassar todo o tédio de uma existência de desequilíbrio, alegrias, tristezas, rever rostos amados apagados pelo tempo e circunstâncias e idade; e apegar- me à lembrança renovada deles, o que tornaria minha morte mais dolorosa do que devia. Se é que deveria haver alguma dor na morte, como tanta houve na vida. Eu devia abandonar aquilo, do mesmo modo que abandonei o conforto do útero, para correr a corrida humana.

Mãos dadas com o meu medo e desamparo, havia uma esperança, tão tênue quanto o fôlego que me abandonava.

Torcia no meu intimo, que todos, absolutamente todos aqueles que ao longo da vida me apontaram dedos acusadores e caminhos para a salvação, estivessem certos e eu entrasse numa outra vida, ainda que fosse para ser punido num inferno porque qualquer forma de existência, mesmo penosa, parecia-me preferível a desaparecer para sempre. Supondo que há uma alma, a alma não reconhece o nada.

Mas torcia ainda mais, para que os deuses, se existissem, fossem mais piedosos e compreensivos do que seus muitos arautos, que condenaram a minha humanidade frágil por eu nunca estar a altura de sua semi-divindade, e se apiedassem de mim, antes poderoso e viril, agora quebrado, sozinho.

Pensei na minha mãe. Fazia muitos, muitos anos que eu não pensava nela. Talvez esperasse que ela estivesse lá para me embalar, me segurar e cuidar de mim, como fez antes, mas, claro, era uma espera tão imersa na incerteza quanto a que experimentei naqueles segundos traumáticos depois do parto. Eu esperava, mas duvidava que ela estivesse lá; uma estranha esperança na qual não podia me apegar. Uma esperança desesperada.

Apaguei como uma vela soprada e não houve nem túnel de luz e nem um coro de anjos a me saudar. Tudo bem. Eu já estava, depois de uma longa carreira no mundo humano, desprovido da vaidade de esperar cerimônias e honrarias. Eu não esperava um coro. Apenas esperava que houvesse alguém lá que me recebesse. Que houvesse um lá e que houvesse um alguém.

Eu morri e fui levado pelas mãos do nada. Era o que fui a vida toda; um passarinho atordoado na tempestade, chicoteado pelo vento, desejando que depois daquela cortina de nuvens escuras, houvesse um galho qualquer de uma árvore qualquer, onde eu pudesse por fim repousar as asas cansadas.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Pétalas Quebradas




Amo versos sombrios e trovas obscuras- odes infernais, uivos para a lua-
Menos pelo que têm de obscuro ou sombrio,
E mais pelo que têm de real em sua dor que grita...
Tenho, pelos versos doces venturosos na boca e na mente
Da gente que se afoga num desespero cinza enquanto gargalha,
A mesma repulsa que me desperta
Os salmos entoados com pompa na boca dos incrédulos
Enquanto em secreto, secretam maldições.

E eu, desprovido da capacidade de entorpecer-me de alegria cinza
-quer retórica, quer genuína -
Ou de ter uma Fé - quer retórica, quer genuína-
Desdenho no meu desdenhar sutil, das pequenas alegrias e vilezas piedosas do cotidiano.

Você pode desenhar o mundo em negro numa folha branca,
Ou em branco num fundo negro.
Ainda será muitas vezes mais real, verdadeiramente mais real
Do que as cores caleidoscópicas de uma aurora para olhos míopes para o óbvio.
– ou você por acaso pensa que seus olhos podem enxergar todos os espectros da cor?

Porque este é um mundo de contrastes e não existe afetação na natureza.

E porquanto criaram barreiras entre eu e a Humanidade
E entre eu e minha própria humanidade
Repugno, sentencio ao cadafalso  todos os “nobres idealismos” por falsos;
Por não sustentarem adequadamente a humanidade,
Por me desadequarem enquanto humano que sangra,
Por deslegitimarem o fogo do meu ódio aos que me perseguem,
E por falsearem a legitimidade do amor que me legam
Aqueles que sorrindo me beijam...

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Corujices Minhas: Laura


Abaixo está o primeiro poema que já escreveram para mim. E eu não poderia estar mais orgulhoso. É muito mais do que especial, porque foi escrito pela pessoa que mais amo neste e em todos os mundos (e que é, ela própria, o melhor poema que já fiz), o que configura um caso muito feliz de amor correspondido.
 Corujices à parte, minha filha de dez anos escreveu o seu primeiro poema e acaba de desbancar no meu ranking de poetas preferidos, o imortal Fernando Pessoa, a maravilhosa Bronte, o mágico Butler Yets e muitos outros.


Um raio encontrei.
Uns pingos de chuva eu vi.
Mas eu vi o raio...E o raio...
Sempre gostei de você.
E quando eu olho pra você,
Eu vejo um raio das nuvens.
Eu amo você.


Laura Campos






Implicâncias Minhas: Fulano, Farmacêutico.



Entrei na farmácia perto das onze da noite. Era uma daquelas farmácias com uma decoração moderninha e que parece mais um mini-shopping do que uma drogaria. É uma boa estratégia essa de vender varias coisas numa farmácia, porque você entra atrás de um analgésico e acaba levando um pacote de ração para seus gatos (coisa de que, aliás, eu também estava necessitando naquele dia).  

Estava vazia, exceto por um casal de idosos que no balcão de remédios, monopolizava as atenções do único funcionário de plantão. Sujeito bonito, tal como as pessoas entendem a beleza masculina. Fortinho, cabelos muito claros e impecáveis, assim como o seu jaleco onde pendurado um crachá o identificava como Fulano de tal, Farmacêutico. Muito engomado, muito aprumado... Dir-se-ia que sua mãe ou esposa provavelmente o engomava a ferro antes de ele por o pé na rua. Atendia o casal de idosos também aprumados. Senhor bigodudo, com óculos de aro de tartaruga, calças de linho e camisa de seda. Ela, senhora muito distinta (tal como as pessoas entendem a distinção), cabelos brancos rigidamente alinhados com laquê (eu acho, porque o cabelo dela dava a impressão de coisa sólida, muito compacta), colar no pescoço e fala suave. Aquele distinto casal era do tipo de “aristocracia mineira” que freqüentemente encontramos nesses locais “metidos a besta”, como shoppings ou restaurantes “bem freqüentados”.


Fulano Farmacêutico os atendia com muita solicitude, dando longas explicações sobre os horários em que deviam ser tomados, reações adversas e outras informações que a mim pareciam ser mais da alçada do médico que os receitou do que do farmacêutico que os vendia. Azar! Nada tinha com aquilo. E meu deus,  como tomavam remédios aquela dupla de velhinhos aristocráticos! Tinham ao balcão bem uns trinta tipos de caixas de remédios e estou certo que a segunda metade daqueles remédios, serve, provavelmente, para combater os efeitos colaterais advindos da primeira metade tomada.

Estava quase saindo em busca de outra farmácia 24 horas, quando o casal recolheu sua cota de remédios e despediu-se do farmacêutico. Este, ainda dentro do seu proceder solicito, despachou-os com toda formalidade e educação. Gostei dele. Gosto de gente educada e principalmente, de gente paciente e aquele rapaz engomado demonstrou no trato com o casal de idosos, ser bem fornido de tais atributos.
Ledo engano!


Logo que os idosos se retiraram (e o farmacêutico os acompanhou com o olhar até chegarem ao caixa, ignorando completamente a minha presença junto ao balcão, coisa que estava me enervando) aproximei-me para pedir por minha vez o remédio que precisava. Assim que se dignou a olhar a minha pessoa, Fulano farmacêutico passou por uma curiosa transformação:

Sorriu, abandonou a postura rígida em que estivera quando atendia os idosos, assumiu um ar displicente e posso afirmar com segurança, que ficou com o corpo numa posição meio-diagonal curiosa. Até o tom de sua voz pareceu outro quando, ainda sorridente, abriu a boca para me atender desse modo:

- Fala aí, Guerreiro!

Guerreiro? GUERREIRO?
No curto espaço de tempo que levou entre a fala dele e a minha resposta, minha mente imaginou umas cenas engraçadas e eu meditei umas indignações a velocidade da luz.


“Guerreiro? Esse sujeito engomado me chamou de guerreiro... Que modo mais peculiar de atender um cliente! Que quererá dizer com isso? Vejamos; imagine eu trajando uma túnica de couro cru, tendo numa mão um machado de bronze  de quinze quilos e na outra um escudo de madeira, mais um capacete com chifres e...Não, espere...Isso é muito nórdico. Minha ancestralidade é de um tanto mais ao sul do equador. Hummm...Talvez um guerreiro Massai, de dois metros de altura, com uma lança de três metros e um escudo de quatro!? Não. Onde vou alojar nessa imagem os meus parcos 1,69 metros?”

“Talvez um Bantoo ou um Yorubá?”

“Um Cartaginês ou sudanês da antiguidade talvez? Não, sou esquálido demais para isso...”


E foi assim que cheguei à conclusão de que não, eu não sou um “guerreiro”, e o modo como aquele Fulano Farmacêutico me tratou, foi um inconsciente e ainda assim indesculpável gesto de racismo velado. Oras, para o vovô de óculos de aro de tartaruga é “pois não senhor” e “volte sempre senhor” e para mim é “Fala aí guerreiro”?

Certo. Sujeito negro trajando jeans desbotado e camisa de tecido sintético só pode ser um “mano”, um “guerreiro da quebrada” e é claro que é desprovido de boas maneiras ou não sabe falar senão a linguagem do gueto, de modo que Fulano Farmacêutico pensou que pode muito bem dispensar o profissionalismo e a cortesia e me tratar em termos de fingida simpatia, que é outra forma de racismo paternalista que considero detestável. Alguns podem argumentar que os modos... informais de Fulano farmacêutico eram apenas e simplesmente um tipo de simpatia e eu concordaria com estes, caso ele tivesse dispensado um tratamento idêntico ao casal de idosos. Seria o caso de tratar o velhinho como “truta” ou a velhinha como “tiazinha”. Mas isso não aconteceu. E preconceito “positivo” ainda é preconceito!

Quero e tudo me leva a crer que ele não teve a intenção de me ofender e na verdade, usou uma lógica absurda, talvez a de que “pessoas diferentes devem ser tratadas de modo diferente”. E é fato que a maioria das pessoas racistas ignora que o são e mesmo reagem com fúria quando lhes denunciamos os gestos racistas. Da mesma forma, muitas pessoas que sofrem discriminações preferem pensar que não aconteceu, ou que se tratou “ de um engano”. Queria poder sublimar a coisa desse modo... Tornaria a minha vida algo mais ilegítimo, mas é certo que seria mais fácil aceitar as coisas como são.


Mas não! Fulano farmacêutico a pretexto de “ser simpático” me destratou e tal gesto merecia e exigia pronta resposta. E eu a dei do seguinte modo; Aproximei-me do balcão dando-lhe meu mais simpático sorriso e olhei-nos olhos. Falei do modo mais formal e afetado possível:

-Muito “Boa Noite” para o senhor também, senhor... (e enfatizando a palavra “senhor”, inclinei-me para olhar o seu crachá, como se não soubesse o nome dele. Voltei a olhar para ele e fiz uma pausa de uns milissegundos como que para me certificar de que o rosto correspondia a fotografia do crachá), Senhor Fulano. Necessito  da medicação (X).


Aos meus gestos e fala Fulano Farmacêutico ficou desprovido de gestos e fala. Sua pele assumiu umas cinco cores camaleônicas. Parou de sorrir imediatamente e ficou rígido.

-Pois não senhor. Só um momento senhor!


E assim fui alçado da categoria de “guerreiro” para a minha legitima posição naquele momento. Eu era um “senhor”. E não por ter trinta e oito anos. Eu o seria ainda que tivesse dezoito ou vinte e pouco. Sou um homem, um estranho e um cliente e nada justificava aquela atitude pretensamente “amistosa” da parte dele, senão o programa de tolos estereótipos raciais e sociais que certamente rodou no processador daquele “simpático” farmacêutico. Esperei que voltasse com a minha medicação. Já então era o mesmo farmacêutico solicito e educado que atendeu o casal de velhinhos aristocráticos. E em educadas escusas me informou que o remédio estava em falta (numa farmácia em que nada, nem ração de gatos e nem mesmo bengalas faltava), mas que havia um similar de outra marca e laboratório e se eu queria levar este. Ainda com seca afetação eu disse:


-Conquanto tenha a mesma fórmula, o mesmo princípio ativo e a mesma posologia, não faço quaisquer objeções.

E após me tranqüilizar quanto a isso, mostrando a bula inclusive, perguntou se eu trouxera a “receita”.

-Se o senhor se refere à prescrição médica, aqui está.

E escorreguei a “receita” (que já estava sobre o tampo e debaixo dos meus dedos) pelo balcão que ele pegou e conferiu devolvendo-me a cópia.
Por minha vez, conferi cópia e medicamento, e ainda afetado e cerimonioso agradeci a atenção prestada.

- Muito obrigado Senhor Fulano. Tenha uma boa noite.

O costumeiro (e temporariamente esquecido) profissionalismo de Fulano farmacêutico  despachou-me com o “Obrigado senhor, volte sempre senhor” apropriado.

Paguei e saí certo de que Fulano entendeu o recado. Não estou tão  certo de que vá tratar alguém com mais ou menos profissionalismo e sem comportamentos raciais ou elitistas, mas certamente vai se lembrar de que numa noite dessas um “mano” passou pelo balcão e mostrou a ele um pouco de boa educação.De todo modo, penso que o melhor modo de lidar com uma atitude (inconsciente ou não) com a qual eu não concorde é ainda fazer mais do que brigar ou exigir direitos, embora por vezes o caminho seja este.  Puni Fulano com o modo mais efetivo de se combater um preconceituoso:

Eduquei-o.

Infelizmente, no processo me esqueci completamente de comprar a ração de gatos...

terça-feira, 27 de março de 2012

Das Coisas que Me Ocorrem Quando Paro de Olhar Pra Dentro...




Esse é o principio ou também e talvez, o fim de toda angústia (se minha ou alienígena a mim, não estou no momento equipado para dizer, mas que conheço e reconheço)
 e que talvez seja um pensamento que mais confunda do que explique:


A alma irremediavelmente nômade, peregrina, a sonhar com espaços e pensamentos abertos,
atada por mil Nós (em pronomes e substantivos) a um corpo, com todas as suas vicissitudes,
Irremediavelmente  enraizado  nas minúcias voláteis da vida cotidiana...


Digamos, despretensiosamente, o que na prática significa que é uma fala carregada com todos os anseios de que dispomos, que uma ausência pode ser das presenças a mais constante.
Cortante.


"Corvos voam com corvos", e as vezes, ou com mais frequência do que é aceitável, entedia o olhar, olhar para o azul do céu forrado de asas multicores e não ver por entre estas a cálida figura de uma ave, que é como você,aço de sua têmpera...
Estaremos realmente entrando em extinção?



quinta-feira, 22 de março de 2012

Ofertas e Vergonha.



E foi com vergonha que sai daquela loja, onde comprei sem saber bem o porquê, aquele projeto de virtude que eu nem mesmo queria, mas que a fala hábil de outros e meu ridículo desejo por aceitação, convenceram-me de que era meu anseio. Já agora não sabia o que fazer com aquilo. Era pesado, eu mal dava conta de carregá-lo, quanto mais de sustentar aquilo por muito tempo. E eu já tinha tanta quinquilharia na consciência, tantos desejos importados, tanta afetação, tantos automatismos sociais, tanta fala bonita decorada, tantos sorrisos falsos e simpatias forjadas, tanta crença fingida, tantos modos e medos de disfarçar meu desajuste, tanto... Que ficava cheio do alheio ao mesmo tempo em que me esvaziava pouco a pouco de mim.


Mas que ser humano desprezível eu vi, quando me olhei refletido no vidro espelhado daquela loja cuja vitrine anunciava mais um porrilhão de falsidades brilhantes em oferta:

 Seja um príncipe luminoso, por apenas $ 19,95!

Torne-se um bom cidadão por apenas $16,00!

Aprenda a cativar os outros falando sempre a coisa certa por $26,15!

Olhei em volta para ver se alguma loja oferecia, senão uma aspiração atroz, ou uma ferocidade autentica ao menos o direito de ser às vezes um legítimo e livre filho da puta. Alguma patifaria sincera, algum pecado que não viesse com uma tonelada de culpa numa venda casada. Algo que calasse um pouco a vergonha de ser humano e falho. Mas qual!

Senti vergonha de sentir vergonha de assumir, que eu gosto da noite e das coisas tomadas por tristes quando são na verdade  profundas e que a maioria teme por ter um coração superficial. Por ter simpatizado e me identificado com o Góllun e seu tormento um tanto canalha e ter me entediado com os olhos meigos e cheios de ternura de Frodo Boffin. Senti vergonha de ter estendido as mãos suplicantes diante de altares vazios e ter pensado que se minhas orações não despertavam respostas, era apenas porque eu era indigno de obtê-las e não porque estava orando para os altares  errados.

E de não ter percebido que só era necessário um pouco de honestidade para quebrar o grilhão.
Sai com uma sacola cheia do lixo que me convenceram que eu deveria comprar para ser um ser humano decente e no estomago uma sensação vazia de que já então havia muito pouco de mim para defenestrar e preencher o espaço com aquele lixo ideológico, fingido,disfarçado de virtude. E é coisa complicada reconstruir uma alma a partir de um fragmento.

Comprei por um preço muito alto, aquilo que me destruiu.
Só me resta esperar a fatura no fim do mês...
E quebrar a droga do cartão de crédito!
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