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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

V...

Há uma lâmpada quebrada para cada coração partido na Broadway...
A vida é um jogo cheio de luzes que podem ser quebradas.
Você recebe fantasias e um resumo da peça
Depois é largado para improvisar
 Neste vil cabaré...

Não há mais gatinhos sendo acariciados.
Só mandados, formulários, memorandos e ordens de despejo...
Há sexo, morte e imundice humana,  tudo por dez centavos.
Os trens pelo menos saem na hora certa...
Mas não vão a lugar algum.

Diante de suas responsabilidades,
Seja de costas ou de joelhos, há senhoras que gelam
E não ousam partir...
Viúvas que se recusam a chorar vestirão cintas-ligas e gravatas borboletas
E aprenderão a levantar bem alto as suas pernas
Neste vil cabaré.

Finalmente o show de 1998! Balé no palco ardente!
O documentário visto na tela rasgada...
O poema aterrador rabiscado na página amassada.
Há o policial de alma honesta que conhece a cabeça de quem está no timão
Ele resmunga e enche o seu cachimbo com um sentimento de intranqüilidade.
Em seguida, revista rapidamente os restos rotos de uma impressão digital ou mancha escarlate
E empenha-se em ignorar os grilhões que o acorrentam...
Enquanto seu mestre, em trevas próximas, inspeciona as mãos com olhos brutais
Que jamais fitaram as coxas de uma amante, mas que esganaram a garganta de uma nação.
Ele anseia, em seus sonhos secretos, o áspero abraço de máquinas cruéis,
Mas sua amante não é o que parece e ela não deixará  bilhetes.

Finalmente o show de 1998! A tragédia! A grande Ópera Barata!Suspense sem Esperança!
 A Aquarela na galeria inundada.
Há a jovem que quer. Mas ela não pede.
Ela está desesperada pelo amor se seu pai.
Acredita que a mão sob a luva pode ser a que precisa segurar.
Embora duvide da moralidade de seu anfitrião,
Ela decide que será mais feliz na Terra-do-faça-o-que-quiser
Do que ser jogada ao relento.

Mas o pano de fundo se rasga, os cenários desaparecem e o elenco é devorado pela peça.
Há um assassino na matinê.
Há cadáveres na platéia.
Os produtores e atores não estão certos se o show terminou.
Com olhares oblíquos eles esperam suas deixas.
Mas a máscara apenas sorri.

Finalmente o show de 1998! A musica-tema que ninguém conta! O balé do toque de recolher!
A Divina Comédia!
Os olhos de marionetes estranguladas por suas cordas!
Há emoções e calafrios, mulheres em abundância...
Há marchinhas e surpresas, há de tudo, para todos os gostos.
Reserve a sua poltrona!
Há perversos e danosos...
...Mas não há gays...judeus...ou negros...
Neste carnaval de bastardos!
Neste vil cabaré!

Alan Moore

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Entre o Templo e o Arrudas




Acendi a mirra e a vela e recitei o pouco que eu me lembrava de como seria  uma oração. “Deve passar”, pensei...

Soou mais ou menos como um memorando de Departamento Pessoal, mas foi o melhor que pude fazer nas minhas circunstâncias e creio que Deus já me conhece o bastante para perdoar a minha fervorosa falta de fé.

E eu não vou antagonizar quem pode, a qualquer momento e por razões que eu nunca vou compreender me vaporizar com um raio ou coisa que o valha.
Não que isso importe.

Parece-me muito mais glorioso morrer fulminado por um raio do que atacado de sífilis ou hérnia de disco, supondo-se que alguém ainda morra de sífilis ou que hérnia mate ou mesmo que haja glória em algum tipo de morte.

E eu fico aqui, conjecturando a natureza do divino e me sentindo um rematado tolo por estar orando para divindades nas quais nem mesmo acredito.

Certo...Eu sei que estou pensando demais na morte, mas o que você queria? Templos religiosos não são sempre uma droga de lembrança de que vamos todos morrer?.
Caramba!
Que pensamentos para se ter ajoelhado diante de um altar!

Não sei o nome da divindade, santo ou seja lá o que era aquela imagem levemente andrógina para quem  dirigi preces. Eu deveria ter arrematado o meu arremedo de oração com um “a quem interessar possa”, mas claro, minha irreverência tem o limite exato da autopreservação.
Nem mesmo sei que raios de templo era aquele  em que entrei. Não sei de nada.  Apenas sei que prometi rezar e apesar de saber que muitas coisas estão além das minhas lágrimas ou orações, eu sei também que ainda estou próximo demais da droga da minha consciência que não me permite quebrar uma promessa. Lembre-me de nunca fazer promessa para não ter que ser tentado a quebrá-las

Gostei da calmante luz de velas e o sacerdote até que foi bem simpático e entendeu sem que eu precisasse dizer que eu queria ficar sozinho. Isso foi bem constrangedor...Não gosto de sacerdotes e não queria simpatizar com aquele. Fazer-se simpatizar contra a minha vontade foi uma violência por parte daquele padre, pastor, rabino ou seja lá o que ele era e eu fiquei irritado por ficar pensando nele com simpatia.

“Que droga estou fazendo aqui?”

Pedir alguma coisa aos deuses me parece como comprar alguma coisa  naqueles sites que nunca te entregam o que você comprou, mas te mandam um monte de emails justificando a demora. “Nós só queremos o seu bem estar, e o de sua família”.
E sem SAC  ou 0800 para reclamar!

Ainda assim usei todo o fervor de que dispunha, o que não era muito. Gastei boa parte da minha energia numa inútil discussão de trânsito pela manhã. Entre uma conta  e outra do japamala (ou terço..não se a diferença) ocultei durante todo o tempo em que estive ali em devoção, o que eu realmente queria dizer a Deus. Mas aliviava a minha consciência saber que ele sabia que todos ajoelhados ali evitavam pedir o que realmente lhe ia ao coração. Era estranho pensar que eu estava irmanado àquelas pessoas devotas justamente em minha falsidade litúrgica.

Não tenho fé do tamanho de uma semente de mostarda para pedir algo aos deuses, mas a tenho do tamanho de uma montanha para jogar uma moeda no arrudas e fazer um pedido.
Terminei o que fui fazer ali e na saída pedi ao santo ou divindade entalhado em gesso pintado de bronze, que se não pudesse por qualquer motivo me atender no que eu havia pedido, pelo menos me desse a graça de jamais permitir que eu me ajoelhe novamente diante de um altar.  Se não me atendesse em ambos os casos, poderia ir pro inferno. Ou me mandar pra lá. Pouco me importava...

Só para me certificar, na saída parei em cima do Boulevard Arrudas e gastei uns oito minutos revirando os bolsos atrás de uma moeda....


sábado, 31 de dezembro de 2011

Trinta e Seis Sombras



Trinta e seis sombras
Espiralaram como redemoinho ao meio dia empoeirado
E deslizaram por meus dedos como água.
(Cristalina fosse, nem sede teria minha alma esfaimada)
Mas correm os anos como moleques despreocupados na manhã,
Até que vem a tarde e a noite surpreende nos seus cabelos
Um fino orvalho e o esbranquiçado da senilidade.


Nós envelhecemos, nós desaparecemos da memória
Fechamos os livros e os olhos
Mas Graograman ainda corre pelas dunas coloridas...


Tenho ilusões, pesadelos delicados
Nas quais meu sangue cai pelo conta-gotas de uma ampulheta...
Segundos como dias, horas feito anos...
E semanas como morosos milênios .
E pelos cantos se acumula ainda uma poeira insólita
Que minha inquietação varre de outros tempos.


Na porta da esplêndida Casa,
Entalhados em mármore róseo e chumbo, os dizeres:
“deixai ó vós que entrai toda a esperança”.
Brilha em neon como letreiro de motéis baratos...
Uma ameaça, sedutora como uma promessa de amor.

No mar...
Olhos embaçados,
Esforço-me por ver ainda por entre essa névoa espessa
Um farol qualquer que me leve de volta ao porto.
Mas mesmo sem luz, sei ler no grito das gaivotas
A promessa de uma terra não muito além dessas ondas.
Talvez na próxima aurora eu não reveja um crepúsculo,
E a meiguice de uma praia venha me saudar os braços exaustos
Da labuta com Poseidon e suas vagas.

Afeito ao mar revolto, habituado ao vento salino,
O pensamento ou vento que não  estrala como um açoite nem parece real.
Miragens não movem barcos ou sonhos e a calmaria não me acalma...

E a noite escura em que o horizonte se traveste de trevas
Há de me contar ainda uma ou duas histórias
Antes que eu aporte.
Apenas um breve repouso e parto novamente
(A impaciência do vento agita as velas do meu espírito)
Para encontrar a glória de romper com uma frágil escuna
Os alegres abismos em que o leviatã abre as suas presas.


O porto não é o lugar de chegada,
Mas um trampolim de onde saltar novamente para o infinito.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Não Pise na Grama




Então me sentei ao pé daquela  árvore. Chutei para longe a plaquinha recém colocada com os dizeres “não pise na grama” e pensei irritado para que diabos serviria uma grama senão para ser pisada, senão para ter a sua suavidade sentida pelos pés cansados...Confesso:sou a porcaria de um utilitarista, e a praça tem trocentos metros de grama e não iria ser daquele pouco mais de metro e meio que eu iria abrir mão.

E fiquei durante um tempo  gozando a sensação bem familiar de não ter, a não ser o pé daquela árvore dentre todos os lugares do planeta,  lugar algum neste planeta que eu pudesse  chamar de lar. 

Sensação reconhecível como minha, coisa mais familiar do que a alma que me habita, rebelando-se, protestando para abandonar-me, porque assim como não reconheço neste mundo como lar nada que esteja além das fronteiras do pé dessa árvore, minha alma não reconhece  como casa o corpo que habita e eu permaneço em fragmentos e em discordância até com as minhas contradições.

E o inferno sorri...

...e então quando sinto a grama e olho por momentos para essa praça, tudo tão frágil e tão brilhante; cachorrinhos, flores, crianças, pássaros e o som fervilhante da cidade em torno dela,  a cena  se move em minha mente e por uns momentos chego a duvidar de que algo de fato morra no mundo...

Daí a mesma grama me lembra, minha mente salta a cena e eu vejo a teatralidade, a maré de gente perdida de si, fantasmas pálidos se aquecendo em banalidades enquanto a iluminação de natal desmorona,  a cena congela em meu coração e chego a duvidar de que algo no mundo de fato viva...

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Da Inadequação Do meu Existir




Você sabe, chega uma hora que simplesmente não se pode mais ignorar certas coisas.  

Por exemplo,  que a dialética só é possível na presença do Outro. É entediante entabular uma conversação consigo  próprio e você...Você já está levemente farto da própria conversa. E então recita:
Oh, Dio...me duelle tanto!

Quando dão em nada todas as suas tentativas de mergulhar sua angustia no teatro da vida interpretando solitários papeis coletivos, sorrindo quando queria mesmo era praguejar; sustentando uma felicidade fingida, tão ilusória quanto o bálsamo do tempo que já não serve como a prometida panacéia, ou você faz as pazes com aquilo, ou aquilo te devora. 

Imagino que isso seja mais ou menos o equivalente às picadas diárias de um diabético. Acabamos por nos acostumar  à dor e ela se torna tão e uma constante, que apenas em momentos de pura ausência do Eu (leia-se êxtase etílico) você percebe que ela está lá.  
Onde deveria estar a sua completitude.

Mas a rotação da terra te joga para fora da cama todas as manhãs e a pulsação do mundo não te dá folga ou tempo sequer para respirar, quanto mais para se lamentar. Você tem que andar mesmo meio morto. Mesmo sem calma, mesmo sem alma... A falta de sono é sempre uma ótima desculpa para a opacidade de seu olhar e para a languidez dos seus modos.

Exercite o inerte "músculus sorrisus" do seu rosto.
Esconda a sua tristeza suave como o viciado oculta as marcas do seu vício.
Ou o baile de máscaras pára e todos se voltam para você zangados porque você interrompeu a dança com a inadequação do seu existir.

Têm horários a cumprir o e trânsito na Cristiano Machado vai estar tão infernal quanto a noite insone que você teve. E o dia vai se arrastar tão intragável quanto aquele café frio e apressado que você deixou pela metade antes de perder mais um ônibus.

Então, enquanto o mundo desaba num dilúvio e você se esforça para lembrar como são aquelas tardes quentes em que o sol derrama ouro pela janela e o vento do leste te traz aromas de alturas inacreditáveis, você se pega a olhar para o nada  e sua mente vazia nota de novo o vazio ali.  Dá-se conta mais uma vez de que algo está faltando no mundo e já tinha prometido ao menos tentar  ignorar essa falta. 
Só que é estranho ignorar que apenas metade de você está realmente em  si, que você está pensando com meio cérebro, respirando com apenas um pulmão e que o Átrio e Ventrículo que te sobraram meio a esquerda do seu meio peito, já não dão conta de bombear  eficientemente o oxigênio para o seu meio corpo.

Você sufoca pela metade.

Se ao menos não tivesse se desinvestido da capacidade de se intoxicar de idealismos e ignorar a si mesmo, talvez seu pensamento ultrapassasse menos o breu daquelas nuvens acima do horizonte e talvez você não fosse bater às portas daquele mundo além da bruma, atrás de uma paz que não te pertence.
Deixe doer. Só há dor onde há vida.

É a sua principal referencia... É o que melhor descreve a sua sensação de estar flutuando na borda de um buraco negro que ameaça, mas jamais te engole.

Nunca foi difícil lidar com o cinza . São as cores talvez  inexistentes com as quais sonham os seus pensamentos daltônicos, a deixar esse rio de água gelada correndo pelo seu estômago. E você sendo  monocromático, passando a vida a pensar que deveria ser caleidoscópico, quando o que realmente deveria ter feito é aprendido a apreciar  melhor  a coesão do cinza em si. E só depois de amassar o nariz em muitas portas fechadas e de recolher cacos de sonhos em sarjetas sujas é que acabou  entendendo que  não há almoço grátis e nem atalhos fáceis na vida. 

 “...e o Nada é o vazio que resta! ”
Você o cria sempre que coloca pensamentos importados ou  anseios alheios (tudo feito pra você, mas não por você) no lugar onde a pira do seu Eu deveria arder em chama alta, iluminando a escuridão.

Perto da sua curta adolescência, decidiu não beber (promessa que tem cumprido mais ou menos displicentemente) e acabou  levando essa abstemia para a vida ( e para a sua tragédia, a esse derivado da promessa tem sido mais fiel do que seria salutar).

O que talvez tenha sido o maior erro de que não vai se arrepender. 



domingo, 18 de dezembro de 2011

Fragmentos de "Os Hamlets"



Abaixo, estão os versos mais marcantes (em minha nada humilde opinião) recitados pelo Professor da Puc Minas Luciano Luppi, no excelente monólogo "Os Hamlets - Uma releitura", durante a Jornada do Fórum do Campo Lacaniano 2011. Lamento não me lembrar os versos na íntegra, mas estes, são inesquecíveis...


 Ser ou não ser, eis a questão
 Será mais nobre suportar na mente as flechadas da trágica fortuna, 
Ou tomar armas contra um mar de obstáculos e, enfrentando-os, vencer? 
Morrer — dormir, nada mais; e dizer que pelo sono se findam as dores, 
Como os mil abalos inerentes à carne — é a conclusão que devemos buscar. 
Morrer — dormir; dormir, talvez sonhar — eis o problema: 
Pois os sonhos que vierem nesse sono de morte, 
Uma vez livres deste invólucro mortal, fazem cismar.
 Esse é o motivo que prolonga a desdita desta vida.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Nenhuma constituição
E nenhuma revolução
Jamais pensaram em garantir, para os homens,
O Direito de Respirar 
Nenhum direito mais necessário,
Pois vivemos o tempo todo nos sufocando uns aos outros.
Você me sufoca:
- Sempre que não posso dizer para você o que faço,
O que sinto e
O que penso.
- Sempre que preciso controlar minha voz e meus gestos,
Para que você não perceba minhas intenções.
- Sempre que me ponho a justificar o que faço
Frente a meu Juiz interior – que é você.
- Sempre que reprimo meus desejos
Porque todos vigiam a todos, para que ninguém faça
O que todos gostariam de fazer
O que seria bom que todos fizessem.
Amar, cantar e dançar…
Minha vingança é fazer o mesmo com você.
Por isso digo que vivemos todos nos sufocando,
E que jamais se pensou em garantir para todos, o direito
De respirar.
Nós nos negamos o mais fundamental dos direitos –
O de viver.
Por isso vivemos sufocados – angustiados – infelizes.
É preciso renascer – e é possível renascer.

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!



                                                                             Shakespeare, Pessoa, Gaiarsa & José Régio 

domingo, 11 de dezembro de 2011

Discordando do Grande Mestre Nietzsche





"Depois que um vento se opôs a mim,"
batalho contra qualquer sopro.

Huckleberry Finn- Ou a Minha inclinação para o Existencialismo



Lembra-se quando havia um azulado em seu sorriso e o futuro se estendia no infinito como um tapete prateado de uma eterna infância? Quando encontrava pequenos tesouros apenas por caminhar a beira de um córrego procurando quartzos ou lia um livreto da “Coleção Vaga-lume”? Lembra-se de como ria das diabruras de Thom Sawyer  e voava nas aventuras do pequeno canalha e desamparado guerreiro infantil,  Huckleberry Finn?  

Quando havia mais na vida do que essa sutil dor de existir que cobre tudo como uma manta cinza?

Bem, seu corpo cresceu, adoeceu... Adolesceu, amadureceu e o mundo te engoliu, te vendeu anseios e, (pasme!!), conseguiu te convencer que eram seus aqueles desejos de status e riqueza . Você vendeu barato o azul do seu sorriso para receber em troca o amarelo dos sorrisos de aprovação dos outros, uma tentativa tola de fazer parte, quando o que você realmente queria era ser aceito. E agora as únicas portas que você procura abrir, são as que te levam ao emprego mal remunerado, à vida mal vivida, às relações sufocantes e simbióticas (quando não parasitárias) e ao jugo inacreditavelmente pesado da vida comunal.

 Deixou de ser Um, para se tornar mais um, ao preço de sua alma.

 Uma nulidade indistinta em meio a seis bilhões de pontos cegos.

A sua alma, o que restou do pequeno vagabundo, do livre  Huck Finn em você, se rebela e anseia (oh como anseia!) mandar o mundo ao diabo  e descer o rio da vida em mais uma jangada...

E enquanto você pensa que não são os cabelos brancos que te dão um ar de decadência, mas sim os cabelos pretos restantes, você suspira, olha para a janela, vê as nuvens deslizarem macias no infinito azul que antes iluminava o seu sorriso e sente ódio de si mesmo por ter crescido. 

E mais ainda por não ter crescido o bastante para não mais se importar por ter crescido.

Não seria assim, você raciocina, se todos os seres humanos nascessem com um relógio embutido na carne. Se pudessem fazer voltar o ponteiro do tempo ou mesmo emperrá-los. Deter a marcha inexorável, não da morte da vida (porque essa só assusta os fracos e covardes), mas da morte em vida (essa sim, apavora quem anseia um horizonte mais amplo), da entropia que primeiro rouba o azul do seu sorriso, depois arranca o significado das coisas que você aprende a desamar por fúteis e por fim, o nada se apossa da sua alma. 

A sua alma se torna o nada.


Ninguém vive dentro do tempo. 

 E a iminência de um beijo é sempre mais excitante do que o beijo.

E a iminência de um soco é sempre mais dolorosa do que o soco.

A iminência de um ser humano, a jovem promessa que suspira e lateja em sonhos cada vez que vê nas núvens, mais do que vapor de água esbranquiçando o céu,  a larva sonhadora,  é sempre mais iluminada do que o ser humano que brota e viceja na sua condição de nada, além de carne, sangue, falhas e uma magnífica singularidade.


Isso é ser humano. E “ou você é...Ou o buraco te ensinará a ser”.
Quando a perda do azul (mais cedo) e de parte de seu espirito (mais tarde e não há muito tempo), se torna dolorosamente consciente, em silêncio você pragueja contra todos os deuses, vivos, mortos e não nascidos (porque é da natureza humana atribuir culpa a alguém e você já está cansado de culpar apenas a si mesmo), e sente um rejubilo infantil por sua vingança muda, porque é um tolo, mas não o bastante para ignorar que não se deve andar na sombra dos deuses invejosos.
E esse é o meu vir-a-ser

Ser a iminência do absoluto ser humano, ciente do eterno e insaciável nada.  


domingo, 27 de novembro de 2011

Outra Conclusão Desconfortável...





A tragédia da minha vida tem sido estar atrasado para o que é importante, mas sempre aproveitar todas as oportunidades que me surgem de agir estupidamente.

PS: Relógios e tempo são coisas que odeio amar  tanto ou mais que amo odiar. E invejo qualquer um que decifre o oxímoro desse sentimento...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Uma Frase que caiu na minha consciência...


"Talvez já me tenha levado até o umbral da minha história."

Becket

Meu Meio-Diálogo




Pensar dói.

E por causa dessas cefaléias de pensamento, a maioria das pessoas sabiamente opta cada vez mais por mergulhar suas inquietações nas percepções sensoriais. Você sabe que faria companhia  a elas de bom grado nessa alienação do Eu, mas tem de lidar com seu inferno íntimo. Seus olhos dizendo que as cores choram de dia e as trevas entoam aleluias a noite. Sente o sabor azedo do linho em contato com sua pele e seus ouvidos atestando o tempo todo que tudo o que você come, tem a cor do desespero. 
E você, que nem aspirina toma, parece ter nascido com LSD nas veias.

Existem  aquelas coisas que você quer e pode compartilhar com aqueles que ama. Geralmente, amenidades, coisas pouco ou nada perturbadoras que não tiram o sono de ninguém. Outras, em muito mais densas, você só pode , na falta das bem treinadas orelhas de um Analista, gritar para dentro de você mesmo e num exercício de imaginação acreditar que não é o eco reverberando no vazio, mas uma voz interior te respondendo.

E você teima em ser denso num mundo de suavidades.

Daí você se move apenas porque ficou tempo demais na mesma posição e suas pernas têm cãibras (falta de potássio e perspectivas) Estivesse sentado numa praça, sua imobilidade confundiria os pombos e você seria obrigado por uma razão ainda mais desagradável do que cãibras a mover-se.  Não há um só lugar neste planeta onde possa aquietar a sua tranqüila monotonia.

Você só precisa da ferramenta certa para demolir essa fortaleza onde se encastelou a sua vaidade. Talvez uma pesada marreta de bom senso com que filosofar a sua solidão. Porque é tão importante ser bem visto aos olhos alheios quando aos seus próprios olhos você é invisível? E continua invisível ainda que te vejam com olhos bons ou maus, porque nunca verão além daquilo que desejam.
Você teima em ser profundo, num mundo de superficialidades.

Compre um livro de auto-ajuda, compre um carro bonito, consiga títulos e honras, colecione  palavras doces e pensamentos felizes e todo mundo vai te amar. Ou pode fazer o oposto e vitimizar-se além do humanamente digno e atrair compaixão, que é a mais ínfima migalha de respeito que lhe podem legar.

Pardais podem viver de migalhas, mas e se você tiver a natureza de uma águia ou de um corvo? Um poleiro seguro e afagos na sua cabeça outrora orgulhosa são um preço justo a se pagar pela perda da sua liberdade?
Sem mais vento no rosto?
Sem mais a alegria louca da queda livre?
Sem mais a divina perdição das almas vadias?

Livre- o Céu de ver-se repentinamente livre do seu céu!

Alguém passou por você numa esquina na Savassi e te olhou com um ar atrevido. Sentiu imediatamente o antagonismo e se perguntou  em que pesadelo ou sonho, (posto que nunca o viu cá, deste lado da realidade)  aquela alma contendeu consigo para sustentar assim o seu olhar de desafio em recíproca. Você gostou dele! Estivessem ambos livre das amarras sociais, teriam entabulado estranha conversa e é possível que se tivessem atracado em violenta fúria irracional. E você sente vergonha em admitir que já passou da idade de sentir vergonha em confessar que teria gostado disso. É o selvagem inerte em si, latente, domado por mil minúcias mundanas. Tanto quanto as mesmas que debelaram o espírito do  sujeito de quem se sentiu imediatamente irmanado. Que brutal mundo civilizado esse em que você vive!

E foi engraçado, porque ao vê-lo partir levando em si uma sufocada antipatia por você, sentiu tornar-se  mais real aos olhos deste estranho que te antipatizou, do que aos da maioria que lhe demonstram afeto .
Fugindo por entre a selva de concreto e lojas bacaninhas, esgueirando a sua estranheza por entre carros e pequenas iniqüidades do cenário urbano, vai...

Celebre a sua singular condição de estranho numa terra estranha, que é ao mesmo tempo sua casa e sua prisão. Subversão também é isso: amar em si aquilo que te ensinaram a odiar por razões não suas...

sábado, 12 de novembro de 2011

Uma Conclusão Desconfortável...



...dos restos de uma conversa com um amigo e após uma semana em que estive em infrutíferos debates ínteriores e exteriores, ouvindo e falando tolices e avaliando as vantagens de me encerrar num mutismo salutar, concluí que;

Em muitos seres humanos, Cérebro e Inteligencia não estão necessariamente associados. A existência  do primeiro não implica obrigatoriamente na presença  do segundo...

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