domingo, 17 de julho de 2011

Pólen Cinzento


Depois que Ser deixou de ser a questão, e muitas estações ficaram para trás na poeira e tempo da memória, descobri que havia, na ânsia da viagem, comprado um bilhete só de ida. Não importava, é claro...

Não é que eu tenha esquecido de rezar na partida, se é que algum dia eu tenha aprendido isso. É só que eu acho que a secretária eletrônica de deus já está sobrecarregada com minhas antigas e ignoradas orações. Deixei meus recados após o "bip", mas não vou esperar que me ligue de volta para só então seguir viagem... Estou divagando...Café demais e sono de menos têm um curioso e semelhante efeito: Escurecem os dentes e os sonhos...

Descia a Rua da Bahia apressado, porque ninguém iria me encontrar na praça, próxima a estação, e eu não queria me atrasar para mais um desencontro...Andava depressa, porque se tempo é dinheiro , eu ando com pouquíssimos minutos no bolso ultimamente.

Daí eu quis um pacote de amendoins para a viagem, porque estava me deliciando com a sensação um tanto terna de ser um completo estúpido, mas quis ir mais longe em minha estupidez e comprei um sonho.

Não, não foi o doce açucarado e enjoativo do balcão ensebado da padaria. Foi um devaneio onírico mesmo, desses que criamos ao acaso, quando sentimos saudades do que nunca tivemos.

Comprei um. Custou-me apenas alguns segundos olhando um outdoor . Foi coisa barata, como o são quase todos os sonhos, quando não são de graça. Sonhar não custa quase nada. Custosa costuma ser a realidade e nós quase nunca conseguimos custeá-la.

Deliciei-me com o sonho, sabendo-o fugaz. Devorei-o, pois consegui me convencer por um minuto que todas as coisas efêmeras tem de ser fruídas com sofreguidão. Ainda assim dividi um pedaço com um pedinte que me olhava com olhos esfaimados, mas arrependi-me de o fazer. Não é sábio oferecer sonhos a quem perdeu tudo.

O trem cumpriu pontualmente o seu atraso e eu fiquei feliz com o fato de que sempre se pode contar com os erros das coisas. No vagão sacolejante segui viagem tranqüila, embalado como uma criança ao colo, embora não me recordasse se já tive uma infância ou mesmo um colo que a amparasse. Mas a sensação era boa com um sopro de novidade.

Não fosse o trepidar das rodas metálicas nos férreos trilhos, eu poderia devanear que na verdade o trem estava parado e era o mundo que corria ao lado dele, um borrão colorido em enlouquecida carreira contrária.

...

E se eu desistisse de ser inteiro? E se eu me entregasse à sensação cada vez mais prazerosa de ser rarefeito como um fantasma na neblina?

Enquanto o trem passava por túneis cavados nas rochas ao custo de muitas mãos calejadas e costas quebradas, e serpenteava sinuoso por entre as curvas das Gerais, eu imaginava que o vento, que cava os canyons por milênios e que me assoviava agora no rosto, levava pequenos fragmentos meus, espalhando-me como um pólen cinzento por entre as cores das montanhas.

A idéia me agradava e arrisquei-me a uma bronca do cobrador de bilhetes, mas escancarei a janela, no desejo que o vento levasse parte de mim e de ser infinito com as muitas Minas Gerais. Ou como o vento que não conhece fronteiras e sopra para o ar as almas mais leves...

Mas o apito agudo do trem que anunciava o momento da chegada, era na verdade um guarda de trânsito na esquina com a Rua dos Timbiras, tentando freneticamente desengarrafar o trânsito da tarde de sexta feira. A verdade, é que eu sonhava ao descer para o centro, e acabei tomando o metrô em sentido contrário ao trem que correria para as montanhas, não no inicio de uma manhã iluminada, mas ao fim de mais um dia estafante.

 Sem vento nos cabelos e sol no rosto, mas com ar condicionado e o odor almiscarado de uma centena de perfumes, loções e suor misturados, a viagem de poucos e angustiantes minutos durou exatamente  sete estações e o tempo em que um sonho morria.
O metrô deslizava velozmente a caminho de casa e a massa compacta de seres humanos exaustos que me apertava não me permitia iludir-me de modo algum a respeito da minha fluidez.

 Arrastei o resto de mim para fora do vagão na estação São Gabriel e ganhei o ar frio da noite...

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