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segunda-feira, 23 de abril de 2012

Pétalas Quebradas




Amo versos sombrios e trovas obscuras- odes infernais, uivos para a lua-
Menos pelo que têm de obscuro ou sombrio,
E mais pelo que têm de real em sua dor que grita...
Tenho, pelos versos doces venturosos na boca e na mente
Da gente que se afoga num desespero cinza enquanto gargalha,
A mesma repulsa que me desperta
Os salmos entoados com pompa na boca dos incrédulos
Enquanto em secreto, secretam maldições.

E eu, desprovido da capacidade de entorpecer-me de alegria cinza
-quer retórica, quer genuína -
Ou de ter uma Fé - quer retórica, quer genuína-
Desdenho no meu desdenhar sutil, das pequenas alegrias e vilezas piedosas do cotidiano.

Você pode desenhar o mundo em negro numa folha branca,
Ou em branco num fundo negro.
Ainda será muitas vezes mais real, verdadeiramente mais real
Do que as cores caleidoscópicas de uma aurora para olhos míopes para o óbvio.
– ou você por acaso pensa que seus olhos podem enxergar todos os espectros da cor?

Porque este é um mundo de contrastes e não existe afetação na natureza.

E porquanto criaram barreiras entre eu e a Humanidade
E entre eu e minha própria humanidade
Repugno, sentencio ao cadafalso  todos os “nobres idealismos” por falsos;
Por não sustentarem adequadamente a humanidade,
Por me desadequarem enquanto humano que sangra,
Por deslegitimarem o fogo do meu ódio aos que me perseguem,
E por falsearem a legitimidade do amor que me legam
Aqueles que sorrindo me beijam...

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Corujices Minhas: Laura


Abaixo está o primeiro poema que já escreveram para mim. E eu não poderia estar mais orgulhoso. É muito mais do que especial, porque foi escrito pela pessoa que mais amo neste e em todos os mundos (e que é, ela própria, o melhor poema que já fiz), o que configura um caso muito feliz de amor correspondido.
 Corujices à parte, minha filha de dez anos escreveu o seu primeiro poema e acaba de desbancar no meu ranking de poetas preferidos, o imortal Fernando Pessoa, a maravilhosa Bronte, o mágico Butler Yets e muitos outros.


Um raio encontrei.
Uns pingos de chuva eu vi.
Mas eu vi o raio...E o raio...
Sempre gostei de você.
E quando eu olho pra você,
Eu vejo um raio das nuvens.
Eu amo você.


Laura Campos






Implicâncias Minhas: Fulano, Farmacêutico.



Entrei na farmácia perto das onze da noite. Era uma daquelas farmácias com uma decoração moderninha e que parece mais um mini-shopping do que uma drogaria. É uma boa estratégia essa de vender varias coisas numa farmácia, porque você entra atrás de um analgésico e acaba levando um pacote de ração para seus gatos (coisa de que, aliás, eu também estava necessitando naquele dia).  

Estava vazia, exceto por um casal de idosos que no balcão de remédios, monopolizava as atenções do único funcionário de plantão. Sujeito bonito, tal como as pessoas entendem a beleza masculina. Fortinho, cabelos muito claros e impecáveis, assim como o seu jaleco onde pendurado um crachá o identificava como Fulano de tal, Farmacêutico. Muito engomado, muito aprumado... Dir-se-ia que sua mãe ou esposa provavelmente o engomava a ferro antes de ele por o pé na rua. Atendia o casal de idosos também aprumados. Senhor bigodudo, com óculos de aro de tartaruga, calças de linho e camisa de seda. Ela, senhora muito distinta (tal como as pessoas entendem a distinção), cabelos brancos rigidamente alinhados com laquê (eu acho, porque o cabelo dela dava a impressão de coisa sólida, muito compacta), colar no pescoço e fala suave. Aquele distinto casal era do tipo de “aristocracia mineira” que freqüentemente encontramos nesses locais “metidos a besta”, como shoppings ou restaurantes “bem freqüentados”.


Fulano Farmacêutico os atendia com muita solicitude, dando longas explicações sobre os horários em que deviam ser tomados, reações adversas e outras informações que a mim pareciam ser mais da alçada do médico que os receitou do que do farmacêutico que os vendia. Azar! Nada tinha com aquilo. E meu deus,  como tomavam remédios aquela dupla de velhinhos aristocráticos! Tinham ao balcão bem uns trinta tipos de caixas de remédios e estou certo que a segunda metade daqueles remédios, serve, provavelmente, para combater os efeitos colaterais advindos da primeira metade tomada.

Estava quase saindo em busca de outra farmácia 24 horas, quando o casal recolheu sua cota de remédios e despediu-se do farmacêutico. Este, ainda dentro do seu proceder solicito, despachou-os com toda formalidade e educação. Gostei dele. Gosto de gente educada e principalmente, de gente paciente e aquele rapaz engomado demonstrou no trato com o casal de idosos, ser bem fornido de tais atributos.
Ledo engano!


Logo que os idosos se retiraram (e o farmacêutico os acompanhou com o olhar até chegarem ao caixa, ignorando completamente a minha presença junto ao balcão, coisa que estava me enervando) aproximei-me para pedir por minha vez o remédio que precisava. Assim que se dignou a olhar a minha pessoa, Fulano farmacêutico passou por uma curiosa transformação:

Sorriu, abandonou a postura rígida em que estivera quando atendia os idosos, assumiu um ar displicente e posso afirmar com segurança, que ficou com o corpo numa posição meio-diagonal curiosa. Até o tom de sua voz pareceu outro quando, ainda sorridente, abriu a boca para me atender desse modo:

- Fala aí, Guerreiro!

Guerreiro? GUERREIRO?
No curto espaço de tempo que levou entre a fala dele e a minha resposta, minha mente imaginou umas cenas engraçadas e eu meditei umas indignações a velocidade da luz.


“Guerreiro? Esse sujeito engomado me chamou de guerreiro... Que modo mais peculiar de atender um cliente! Que quererá dizer com isso? Vejamos; imagine eu trajando uma túnica de couro cru, tendo numa mão um machado de bronze  de quinze quilos e na outra um escudo de madeira, mais um capacete com chifres e...Não, espere...Isso é muito nórdico. Minha ancestralidade é de um tanto mais ao sul do equador. Hummm...Talvez um guerreiro Massai, de dois metros de altura, com uma lança de três metros e um escudo de quatro!? Não. Onde vou alojar nessa imagem os meus parcos 1,69 metros?”

“Talvez um Bantoo ou um Yorubá?”

“Um Cartaginês ou sudanês da antiguidade talvez? Não, sou esquálido demais para isso...”


E foi assim que cheguei à conclusão de que não, eu não sou um “guerreiro”, e o modo como aquele Fulano Farmacêutico me tratou, foi um inconsciente e ainda assim indesculpável gesto de racismo velado. Oras, para o vovô de óculos de aro de tartaruga é “pois não senhor” e “volte sempre senhor” e para mim é “Fala aí guerreiro”?

Certo. Sujeito negro trajando jeans desbotado e camisa de tecido sintético só pode ser um “mano”, um “guerreiro da quebrada” e é claro que é desprovido de boas maneiras ou não sabe falar senão a linguagem do gueto, de modo que Fulano Farmacêutico pensou que pode muito bem dispensar o profissionalismo e a cortesia e me tratar em termos de fingida simpatia, que é outra forma de racismo paternalista que considero detestável. Alguns podem argumentar que os modos... informais de Fulano farmacêutico eram apenas e simplesmente um tipo de simpatia e eu concordaria com estes, caso ele tivesse dispensado um tratamento idêntico ao casal de idosos. Seria o caso de tratar o velhinho como “truta” ou a velhinha como “tiazinha”. Mas isso não aconteceu. E preconceito “positivo” ainda é preconceito!

Quero e tudo me leva a crer que ele não teve a intenção de me ofender e na verdade, usou uma lógica absurda, talvez a de que “pessoas diferentes devem ser tratadas de modo diferente”. E é fato que a maioria das pessoas racistas ignora que o são e mesmo reagem com fúria quando lhes denunciamos os gestos racistas. Da mesma forma, muitas pessoas que sofrem discriminações preferem pensar que não aconteceu, ou que se tratou “ de um engano”. Queria poder sublimar a coisa desse modo... Tornaria a minha vida algo mais ilegítimo, mas é certo que seria mais fácil aceitar as coisas como são.


Mas não! Fulano farmacêutico a pretexto de “ser simpático” me destratou e tal gesto merecia e exigia pronta resposta. E eu a dei do seguinte modo; Aproximei-me do balcão dando-lhe meu mais simpático sorriso e olhei-nos olhos. Falei do modo mais formal e afetado possível:

-Muito “Boa Noite” para o senhor também, senhor... (e enfatizando a palavra “senhor”, inclinei-me para olhar o seu crachá, como se não soubesse o nome dele. Voltei a olhar para ele e fiz uma pausa de uns milissegundos como que para me certificar de que o rosto correspondia a fotografia do crachá), Senhor Fulano. Necessito  da medicação (X).


Aos meus gestos e fala Fulano Farmacêutico ficou desprovido de gestos e fala. Sua pele assumiu umas cinco cores camaleônicas. Parou de sorrir imediatamente e ficou rígido.

-Pois não senhor. Só um momento senhor!


E assim fui alçado da categoria de “guerreiro” para a minha legitima posição naquele momento. Eu era um “senhor”. E não por ter trinta e oito anos. Eu o seria ainda que tivesse dezoito ou vinte e pouco. Sou um homem, um estranho e um cliente e nada justificava aquela atitude pretensamente “amistosa” da parte dele, senão o programa de tolos estereótipos raciais e sociais que certamente rodou no processador daquele “simpático” farmacêutico. Esperei que voltasse com a minha medicação. Já então era o mesmo farmacêutico solicito e educado que atendeu o casal de velhinhos aristocráticos. E em educadas escusas me informou que o remédio estava em falta (numa farmácia em que nada, nem ração de gatos e nem mesmo bengalas faltava), mas que havia um similar de outra marca e laboratório e se eu queria levar este. Ainda com seca afetação eu disse:


-Conquanto tenha a mesma fórmula, o mesmo princípio ativo e a mesma posologia, não faço quaisquer objeções.

E após me tranqüilizar quanto a isso, mostrando a bula inclusive, perguntou se eu trouxera a “receita”.

-Se o senhor se refere à prescrição médica, aqui está.

E escorreguei a “receita” (que já estava sobre o tampo e debaixo dos meus dedos) pelo balcão que ele pegou e conferiu devolvendo-me a cópia.
Por minha vez, conferi cópia e medicamento, e ainda afetado e cerimonioso agradeci a atenção prestada.

- Muito obrigado Senhor Fulano. Tenha uma boa noite.

O costumeiro (e temporariamente esquecido) profissionalismo de Fulano farmacêutico  despachou-me com o “Obrigado senhor, volte sempre senhor” apropriado.

Paguei e saí certo de que Fulano entendeu o recado. Não estou tão  certo de que vá tratar alguém com mais ou menos profissionalismo e sem comportamentos raciais ou elitistas, mas certamente vai se lembrar de que numa noite dessas um “mano” passou pelo balcão e mostrou a ele um pouco de boa educação.De todo modo, penso que o melhor modo de lidar com uma atitude (inconsciente ou não) com a qual eu não concorde é ainda fazer mais do que brigar ou exigir direitos, embora por vezes o caminho seja este.  Puni Fulano com o modo mais efetivo de se combater um preconceituoso:

Eduquei-o.

Infelizmente, no processo me esqueci completamente de comprar a ração de gatos...

terça-feira, 27 de março de 2012

Das Coisas que Me Ocorrem Quando Paro de Olhar Pra Dentro...




Esse é o principio ou também e talvez, o fim de toda angústia (se minha ou alienígena a mim, não estou no momento equipado para dizer, mas que conheço e reconheço)
 e que talvez seja um pensamento que mais confunda do que explique:


A alma irremediavelmente nômade, peregrina, a sonhar com espaços e pensamentos abertos,
atada por mil Nós (em pronomes e substantivos) a um corpo, com todas as suas vicissitudes,
Irremediavelmente  enraizado  nas minúcias voláteis da vida cotidiana...


Digamos, despretensiosamente, o que na prática significa que é uma fala carregada com todos os anseios de que dispomos, que uma ausência pode ser das presenças a mais constante.
Cortante.


"Corvos voam com corvos", e as vezes, ou com mais frequência do que é aceitável, entedia o olhar, olhar para o azul do céu forrado de asas multicores e não ver por entre estas a cálida figura de uma ave, que é como você,aço de sua têmpera...
Estaremos realmente entrando em extinção?



quinta-feira, 22 de março de 2012

Ofertas e Vergonha.



E foi com vergonha que sai daquela loja, onde comprei sem saber bem o porquê, aquele projeto de virtude que eu nem mesmo queria, mas que a fala hábil de outros e meu ridículo desejo por aceitação, convenceram-me de que era meu anseio. Já agora não sabia o que fazer com aquilo. Era pesado, eu mal dava conta de carregá-lo, quanto mais de sustentar aquilo por muito tempo. E eu já tinha tanta quinquilharia na consciência, tantos desejos importados, tanta afetação, tantos automatismos sociais, tanta fala bonita decorada, tantos sorrisos falsos e simpatias forjadas, tanta crença fingida, tantos modos e medos de disfarçar meu desajuste, tanto... Que ficava cheio do alheio ao mesmo tempo em que me esvaziava pouco a pouco de mim.


Mas que ser humano desprezível eu vi, quando me olhei refletido no vidro espelhado daquela loja cuja vitrine anunciava mais um porrilhão de falsidades brilhantes em oferta:

 Seja um príncipe luminoso, por apenas $ 19,95!

Torne-se um bom cidadão por apenas $16,00!

Aprenda a cativar os outros falando sempre a coisa certa por $26,15!

Olhei em volta para ver se alguma loja oferecia, senão uma aspiração atroz, ou uma ferocidade autentica ao menos o direito de ser às vezes um legítimo e livre filho da puta. Alguma patifaria sincera, algum pecado que não viesse com uma tonelada de culpa numa venda casada. Algo que calasse um pouco a vergonha de ser humano e falho. Mas qual!

Senti vergonha de sentir vergonha de assumir, que eu gosto da noite e das coisas tomadas por tristes quando são na verdade  profundas e que a maioria teme por ter um coração superficial. Por ter simpatizado e me identificado com o Góllun e seu tormento um tanto canalha e ter me entediado com os olhos meigos e cheios de ternura de Frodo Boffin. Senti vergonha de ter estendido as mãos suplicantes diante de altares vazios e ter pensado que se minhas orações não despertavam respostas, era apenas porque eu era indigno de obtê-las e não porque estava orando para os altares  errados.

E de não ter percebido que só era necessário um pouco de honestidade para quebrar o grilhão.
Sai com uma sacola cheia do lixo que me convenceram que eu deveria comprar para ser um ser humano decente e no estomago uma sensação vazia de que já então havia muito pouco de mim para defenestrar e preencher o espaço com aquele lixo ideológico, fingido,disfarçado de virtude. E é coisa complicada reconstruir uma alma a partir de um fragmento.

Comprei por um preço muito alto, aquilo que me destruiu.
Só me resta esperar a fatura no fim do mês...
E quebrar a droga do cartão de crédito!

segunda-feira, 19 de março de 2012

Saudosista Assumido

Um vídeo ótimo de uma das bandas de que mais gosto. The Smiths, junto a Joy Division e The Cure foram em minha opinião as bandas mais significativas do Punk Rock e Alternativo das ultimas décadas.
Ver esse vídeo me fez lembrar de um tempo em que para sermos "cool" não era necessário nos comportarmos como "jackass", como parece ser a regra hoje.

E fiquei pensando se afinal não nos esquecemos de como fazer (e escutar) boa música.
Como diria minha amiga Thuany Freitas, "saudades das minhas lembranças"...









quinta-feira, 15 de março de 2012

Uma Pequena Nota de Des-clarecimento


Me ocorreu e isso que me ocorreu é uma coisa tensa, eu diria, e como o termo “tenso” está muito em voga hoje em dia e eu me penso naturalmente alérgico ao que “está em voga”, sinto- me um pouco tolo e levemente traído por mim mesmo ao usar essa palavra.

Ao diabo, com isso! 
Até que eu tenha um meio, capacidade e interesse de falar sem palavras (fonadas ou escritas), não hei de pensar que a moda se apossou e na mesma hora me desapossou do uso da  língua portuguesa.

É apenas que me ocorreu depois de uma persistente febre seguida de uma preguiça tenaz, que nós somos todos crianças entediadas num jardim de novidades voláteis. O problema é que nenhuma novidade extingue  o nosso tédio obstinado e queremos sempre um brinquedo novo e maravilhoso, quando aquele que há um minuto nos iluminava o olhar, tem seu brilho pouco a pouco esmaecido.

O problema é que ali naquela esquina, algo vai me encontrar, algo vai se abater sobre a minha cabeça e eu acabei por pensar que é absurdo esperar que seja sempre algo venturoso. Posso esperar que me caia na cabeça, talvez a módica quantia de alguns milhares de dólares (coisa que me seria bem útil), mas jamais vou pensar que os mesmo virão do céu embalados num cofre de meia tonelada, como naqueles desenhos viciantes de Hanna e Barbera.

Porque desejos são mais traiçoeiros do que sonhos, tenho de me lembrar de nunca esquecer que devo ter redobrado cuidado com aquilo que desejo.
Talvez seja trágico consegui-lo.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

São Tempos Difíceis...




"Já tive sonhos que nunca mais me abandonaram
e que me mudaram as idéias; espalharam-se dentro de mim, como
o vinho se espalha na água, e alteraram a cor dos meus
pensamentos."


Li isso há tanto tempo em “O Morro dos ventos Uivantes” e fiquei tanto tempo sob o impacto dessas palavras, que sim, elas também se espalharam dentro de mim e alteraram a cor dos meus pensamentos. Ou os meus pensamentos se tornaram tão densos que por causa deles eu tenho lá aqueles sonhos estranhos (mesmo acordado) e eu também acabo acordando sempre com aquela sensação de que “duendes me usam como saco de pancadas durante a noite”.

Chega-se a um ponto que o que é pensamento e o que é sonho fica indistinto e ou os pensamentos são os  sonhos disfarçados de razão ou os sonhos são uma forma mais subjetiva e mais elevada de pensamento.

Não sei...

Só sei que tenho pensado que embora eu lamente, (num luto que cada vez mais me parece impossível de elaborar), que certas pessoas morram (quando a coisa mais importante do mundo é que estivessem vivas), lamento em maior medida, embora não tão dolorosamente, que a maioria das pessoas que me cercam, embora respirem, não estão de fato vivas.

E que quando se perde a referência o que fica tem mesmo de valer o esforço da existência...

São mesmo tempos difíceis para os sonhadores...

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Reencontre-se




Recupere a sua compreensão e conexão com o absurdo. Que há com você? Se ignorar  o vazio voraz que te devora, que te consome pouco a pouco, disfarçando a sua indiferença com ideologias que te abandonam como uma amante infiel, que vai colocar em seu lugar? O que vai usar para tapar o abismo, que não seja uma panela de retórica positivista, frívola e irreal? Por acaso a irrealidade não é uma versão enganadora do nada? Uma camada de gelo fino disfarçada de chão a sustentar os pés alegres de homens inconscientes a dançar? (lembre-se da lição de Atreyu: O nada não pode ser destruído. Deve ser preenchido). Preencha o nada com o seu Eu. Deixe-se ser um indivíduo íntegro, não no sentido da moralidade, mas da inteireza, da coesão.  O Nada não é o inimigo. O seu medo dele é que é. Derrote o medo, abrace o nada. Nele, há muito mais espaço para ser Você. O nada é real. As verdades são pura abstração.

Então Carl Gustav Jung estava certo nisso: “Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, desperta”. (até porque, é quase impossível alguém estar errado em tudo, e eu implico com Jung por causa da minha lealdade canina ao velho Sig e da minha alergia ao misticismo, que Jung abraçou)
Eh, Bien, sou eu novamente.
Lembrei-me de uma cena de um dos melhores filmes a que assisti no ano passado; Cisne Negro. Quase no finzinho do filme, Natalie Portman tem o corpo coberto de penas negras (é o tal cisne negro dando as caras) e sorriu de satisfação. Curiosamente, salvo engano, é a única cena do filme em que ela sorri, o que me faz pensar se a miséria da vida dela não era o seu Cisne Branco. Voltar para dentro de mim mesmo, a sensação foi parecida. Com a diferença que eu sempre tive “plumas negras” e meus problemas começam quando cismo, sei lá por que, que tenho de ser colorido como uma droga de Arara.

Todo mundo precisa ficar um pouco só, para reaprender a respirar com seus próprios pulmões (é a primeira coisa que a gente aprende na vida, mas a própria vida comunal acaba por nos fazer esquecer, daí sufocamos na multidão). Apenas um pouco de solitude, coisa que as circunstâncias ( e em certa medida, nossa  própria covardia) não nos têm permitido é necessário para lembrarmos. (Um pouquinho de tempo e  duas ou três musicas de Himogen Heap pode surtir um efeito similar ao que uma bolsa de sangue teria para um hemorrágico).

Estar dentro da própria pele  é bastante atormentador, mas é um tormento confortável e familiar, porque é o Seu  tormento, e não as agruras alheias que as pessoas teimam em colocar sobre ombros outrem.
Preciso sempre me lembrar de que se existe ressaca moral, também existe embriagues moral, e esse é o tipo de porre de que qualquer um deve se envergonhar. Ficar embriagado de ideologias ou da inconsciência de si é o pior tipo de carraspana que alguém pode tomar.

Sem direito a um antiácido psicológico.

O Abismo de Mim



Uma pedra  lançou-me no abismo.
Atentou para ouvir
O eco do meu corpo, quando eu batesse no fundo
Quando meu grito ressoasse no nada.
“O abismo a que me empurras – disse a Esfinge – Não é maior
Do que aquele que existe em tua alma”

Não houve som e nem dor,
Quando me choquei contras as rochas .
Apenas uma nuvem de dentes de leão flutuando no ar
E o som do farfalhar de folhas secas
Levadas pelo vento.

Bobagem.
Não há vento no abismo profundo,
Como não há alegria nas horas escuras
Quando seu mundo parece retrair e morrer.
Deve deixar que as sombras dancem com as sombras
E as luzes de tua alma,
Que dancem com as luzes que emanam das almas felizes.
Como morrem os anjos?
Como abraçam o vazio os homens alados, cujos sonhos voam?

Morrem como morrem todos os homens,
Sozinhos e com medo, antes que a cortina caia.
Lançando no eterno a esperança de alcançar o mar infinito
O verde e o campo onde caminhariam para sempre.

Uma pedra lançou-me ao abismo.
Está claro que não morri.
E o que não me mata, torna mais louco.
Fiquei carregado da  sabedoria de nada saber,.

Há conforto na sabedoria.
Há abrigo na ignorância.

Mas a loucura....
Abraça-me os ombros como uma consorte.
E me seduz com beijos doces, alucinógenos...
Dota-me de asas imaginarias
E enche a minha cabeça de um céu ilusório:

Mas no vazio, a queda para baixo ou para cima
Não faz diferença alguma.
A pilhéria da vida é a mesma.
Se a ouvir de cabeça pra baixo
Terá a mesma graça
Nenhuma corrente te prende à sombra do mundo,
Exceto as que tu mesmo forjas com lágrimas
Exceto a paixão à própria prisão.

 Uma pedra atirou-me no lago
Atentou  para contar as ondas que se formaram
Quando eu  afundei...

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Subverta-se



Parece até que era uma afronta ou por afronta, mas não, você não escolhia ser um oxímoro ambulante para debochar daqueles que escolhem terceirizar suas escolhas.

Era apenas por sentir que não tinha e nunca teve escolha alguma, a não ser escolher por si mesmo.

Claro, o que acabei de digitar é uma deslavada mentira.
A verdade e que você era assim pelo puro e bruto prazer de andar na direção contrária à multidão. Esse era o único prazer genuíno e digno da grandeza do seu espírito livre. Você sentia que só possuia uma única vida e já não tinha certeza de haver um “segundo tempo” ou então era uma certeza tão tênue, que sem perceber (ou habilmente fingindo não perceber) você permanecia tentando acumular o ouro onde a traça come e o ladrão rouba. .

Você percebia que nasceu sozinho (porque venhamos e convenhamos, sua mãe estava com preocupações maiores naquele momento e só depois do choque inicial do nascimento, é que pode te amparar um pouco), que vivia sozinho porque por mais amigos e amantes e amados tivesse, viessem e se fossem, quem é que sabia ou queria saber o que se passava na escura noite ou nos dias solitários por trás de todos os seus sorrisos e afetações?

E você sabia que morreria também sozinho no final, quando a luz se apagasse e todo o resquício de sua pouca fé seria posta a prova. Onde estariam neste momento aqueles que te amam? Provavelmente ali, segurando a sua mão, sofrendo por você (na verdade, sofrendo por eles mesmos, porque sua morte lhe doeria, mas não faça julgamentos, porque é um sofrimento sincero ainda assim). Estariam ali tentando te dar algum conforto, mas você estaria só, porque seria  o seu coração  parando, a sua respiração cessando e  a sua vida se esvaindo...

Então, porque por vezes se esquece de tudo isso e fica pensando que precisa mesmo estar em uma simbiose psicológica com o mundo? Porque tem de se render a tirania da aceitação alheia numa síndrome de Estocolmo para a sua alma? Porque acha que sua vida deve ser como um maldito comercial de margarina?

Tem um preço a se pagar pela realidade da sua existência, pelo direito de ser você mesmo e pense se ele é tão alto e penoso quanto o valor do ingresso para desaparecer imerso na coletividade sem alma.

O preço é a mais absoluta solidão, mas nesse caso, você vai estar a sós consigo mesmo e eu ainda não sei que melhor companhia possa um ser humano almejar. A solidão não é o demônio que pintam ou pelo menos, não é tão medonho quanto o estrangulamento do seu Eu no coletivo.

Só que te ensinaram a não gostar de estar consigo, a temer ficar sozinho e nu diante de si mesmo, taxaram de egoísta o seu olhar para dentro,chamaram de "masturbação mental", como se um minuto de autismo intelectivo fosse um crime de “lesa humanidade”, quando o que realmente temem é que você se ame mais do que ama aquilo que escolheram que você amasse.


Não sei se é realmente possível amar o que é para você ou o que você tem. Não se ama o que se tem ou o que tem você.Talvez apenas seja possível amar o que é com você. O que coexiste com você em singularidade própria.
Aquilo que não é sua própria imagem distorcida num espelho de vaidades vazias.
Aquilo que não se desconfigurou apenas para agradar seus olhos.
Aquilo que não responde como um autômato à fugaz palpitação dos seus hormônios.
Aquilo que permanece dentro de sua própria pele, sem máscaras, acariciando com amor os limites entre o que é ele e o que é você.
Um ser humano íntegro.
Um Eu que permanece um Eu em sua companhia, sem buscar te sufocar com o nós.
Encontro, sim. Anexação, não! 

Não permita que te convençam de que é desejo seu ter aqueles arreios a tolher sua mente e vontade e vida. Não pague com o ouro da sua liberdade pelos grilhões e pelos serviços do carcereiro. Te ensinaram a temer a noite e você sente frio naquele momento logo após o sol desaparecer, como se fosse a sua vida se pondo com o sol e não subindo com a lua. Mas a noite é só e apenas o outro lado da realidade por detrás dessa gaiola confortável onde você se meteu.
Você é um corvo de plumas obsidianas fingindo ser um canário amarelo, quando devia mesmo era amar ser um corvo. 
Você é um Eloi inocente, alimentado e nutrido pelos Morlocks...Sabe como a história termina.

O que não querem que você saiba, é que não há na floresta lá fora nenhum lobo que seja mais aterrador do que a mão a te colocar alpiste todas as manhãs.
Que a gaiola nem mesmo tem tranca (é o seu medo a te manter preso).
Que você tem asas e elas são tão poderosas quanto for a sua determinação.
Que a árdua sobrevivência é mais gratificante do que a desprezível rendição.
Que mais vale o leão morto em combate na selva do que o poodle vivo no travesseiro de seda.

Nem é preciso pensar muito. É o momento de esquecer a lógica, se esta é mais um elo da longa corrente.
Rebele-se, não contra o mundo, mas contra si mesmo, contra o conforto, contra a maciez da vida de limites auto-impostos. Seja Um. Seja Livre! Chega de andar nas calçadas e na sombra. Arrisque-se.
Ande pelo meio da rua até encontrar um carro sem maçanetas na porta e então, caia para cima como uma estrela ascendente.




quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A vida é Detalhe.




Não me recordo de ninguém estender-me seus sonhos como um tapete (a não naqueles casos de crasso engano. Erraram o endereço da entrega). E forço a mente num esforço inacreditável, para tentar descobrir um só motivo para que alguém o fizesse. Seria uma atitude de uma magnanimidade e também de uma tolice extrema e linda por ambos os motivos. Gosto de gente magnânima e de gente tola. O difícil é discernir entre um e outro. Ainda assim, seguindo o exemplo de alguém bem sábio (tinha muito de magnânimo, mas quase nada de tolo), aprendi a flutuar para não pisar em sonhos alheios, porque é evidente que seguindo a minha natureza distraída, (seria por distração e apenas por isso), eu pisoteasse os anseios oníricos de outrem. Na maioria das vezes não ha recíproca e nesse caso minha outra natureza, a vingativa, derivaria certo prazer nesse vandalismo psicoemocional.

Disseram-me uma vez que a vida é só um detalhe. E a ingratidão da minha memória fraca apagou quem mo disse, de modo que não posso citar a fonte. Sinceramente, a maioria das coisas relevantes naquilo que aprendi ao longo da vida, aprendi das fontes mais inusitadas e por isso mesmo difíceis de ser lembradas. Alguém que encontrei  numa noite dessas, depois de pegar por acaso, a curva errada num sonho desgarrado. Minha natureza distraída me fez conhecer tipos maravilhosos, porque eles quase sempre estão onde ninguém está olhando. E como são esses “lugares” que sempre atraem o meu olhar, tenho cá esse bônus derivado do que deveria ser um deficiência. E foi assim que conheci esse que me sussurrou a irrelevância da vida. Esse alguém não faz questão de ser lembrado e acredito até que se aborrece quando me lembro dele. Desculpe por isso meu amigo onírico, seja lá quem ou o que você for.

“A vida é só um detalhe. A chama fraca de uma vela que o menor sopro pode apagar. Importa mesmo é a luz que se pode derivar dessa chama, porque quando ela se apaga, a luz continua a brilhar por muito tempo”. Foi há algum tempo  embora eu não falasse nada na hora, há uns dois janeiros atrás deixei de estar interessado unicamente na “luz e na virtude”. Escuridão e vício também fazem parte de nós e quem ignora isso é justamente o tipo que sucumbe a eles com mais freqüência. Dois janeiros... Se não me trai novamente a memória foi a mesma época em que apostatei do culto à deusa Felicidade. Tenho mais o que fazer...Cuidar desse detalhe que é a vida.

Foi mais ou menos isso que me disseram ou não. Provavelmente eu disse isso a mim mesmo por entre momentos de pura embriaguês poética, quando meu desejo de que nós sejamos um pouco mais do que carne, sangue e erros, transborda da taça dos meus devaneios.

 Prefiro acreditar que ouvi de outras pessoas, porque como tenho o habito enervante  de sempre me enganar a respeito de coisas boas, embora eu tenha algumas certezas, estou seriamente decidido a duvidar de todas elas.

Acho que estou precisando é  me alegrar um pouco. O planeta não vai cair fora da órbita se eu me alegrar um pouco, relaxar os ombros e parar de fingir que eu sou o Atlas. Eu acho, mas minha megalomania gosta de pensar que sim, que cairia. Daí, em momentos de mau humor eu gargalharia só por picardia e pelo prazer sádico de ver o mundo indo pras cucuias! Alguém aí por acaso tem um pouco de bom senso pra vender? Deixei todo o que tinha nos bolsos de um casaco que estava usando umas seis ou sete encarnações lá atrás...
Sou mesmo ridículo!

Mas tenho salvação.Três coisas são capazes ainda de me inebriar e me deixar contente: Vinho (tinto, suave e bem barato), que me transforma no mais ardoroso e patético dos apaixonados (por tudo); Passar uma tarde a encher o céu de bolhas de sabão com a minha filha; e poesia, que é o melhor  meio de tradução do absurdo e da beleza terrível da vida. Que é só um detalhe.
São mais de onze da noite, e das duas primeiras coisas que me inebriam e me alegram, uma dorme como um passarinho ( e verdade seja dita, que pensaria do precário juízo do seu velho pai se este a convidasse a fazer bolhas de sabão  a estas horas?). A outra, receio que só tenha uma garrafa de vinho seco, caro e horrível! Um...presente de grego que preciso agradecer adequadamente. Vou deixar para temperar carne... A terceira coisa a me deixar feliz parece ter tirado folga essa semana. E eu nem sabia que versos tiravam férias...Fazer o quê...? Ces’t  La vie
E a  vida é só um detalhe...

Valerie



"Eu não sei quem você é. Por favor, acredite. Não há como convencê-lo de que isto não é mais um truque deles.
Mas não importa.
Eu sou eu e não sei quem é você,
Mas eu te amo.
Tenho um lápis, bem pequenininho que eles não encontraram. Escondi dentro de mim. Eu sou uma mulher.
Talvez não possa escrever de novo, por isso essa será uma carta muito longa sobre minha vida. É a única autobiografia que vou escrever e, oh, Deus, estou escrevendo num papel higiênico."

"Eu nasci em 1957. Chovia um bocado. Passei no teste de avaliação e fui pra uma escola feminina.
Eu queria ser atriz.
Conheci minha primeira namorada na escola.
Seu nome era Sara. Tinha quatorze anos e eu quinze. Nós duas estávamos na classe da Srta. Watson.
As mãos dela...Elas eram lindas!
Na aula de biologia, contemplando um feto de coelho num jarro de picles, fiquei ouvindo a Sra. Hird dizer que isso era uma fase da adolescência, que as pessoas superam.
A Sara superou.
Eu não."

"Em 1967 parei de fingir e levei uma namorada, Christine, pra conhecer os meus pais. Uma semana depois fui pra Londres e me matriculei na Escola Dramática. Mamãe disse que eu parti o coração dela...
Mas minha integridade era mais importante. Isso é egoísmo?
Pode não ser muito, mas é tudo o que nos resta aqui.
São os nossos últimos centímetros, mas neles, nós somos livres."

"Londres...
Eu era feliz em Londres.
Em 1981 interpretei Dandini em “Cinderela”, meu primeiro trabalho profissional.
O mundo era estranho, farfalhante e conturbado, com platéias invisíveis por trás das luzes quentes e ofegantes. Glamour..."

"Era excitante e, ao mesmo tempo, solitário...
Eu ia ao Gatewars ou outras casas noturnas, mas eu era bem retraída e não me misturava facilmente. Eu via de tudo, mas nunca me senti confortável. Lá havia muitos que só queriam ser gays. Era a vida deles. Sua ambição. Era só disso que falavam e eu queria mais do que aquilo..."

"O trabalho evoluiu. Consegui pequenos papeis em alguns filmes, depois outros maiores.
Em 1986 participei do “Dunas de Sal”. Ganhou todos os prêmios, mas não o público.
Conheci Ruth trabalhando nele. Fomos morar juntas no dia dos namorados. Ela me mandava rosas e, Deus, nós tínhamos tanto...
Nós nos amávamos e foram os três melhores anos de minha vida."

"Em 1988 veio a guerra.
Depois disso não houve mais rosas.
Para ninguém."

"Em 1992, depois que tomaram o poder, começaram a prender os homossexuais. Levaram Ruth enquanto ela procurava comida. Porque eles têm tanto medo de nós?
Queimaram Ruth com pontas de cigarro e forçaram a coitada a dar nomes. Ela assinou uma declaração de que foi seduzida por mim. Eu não a culpei. Eu amava Ruth, não podia culpá-la...
Mas ela sim.
Ruth se matou em sua cela. Ela não pôde viver depois de me trair. Após ceder aqueles últimos centímetros.
Oh, Ruth..."


"Eles vieram me buscar. Disseram que todos os meus filmes seriam queimados
Rasparam meu cabelo, meteram minha cabeça numa privada e fizeram piadas sobre lésbicas.
Fui trazida para cá e drogada. Não sinto mais minha língua e nem posso falar.
A outra lésbica daqui, Rita, morreu duas semanas atrás e acho que vou morrer logo também.
É estranho que minha vida possa acabar neste lugar horrível. Mas por três anos eu recebi rosas e não tive de prestar contas a ninguém.
Eu vou morrer aqui. Cada centímetro de mim morrerá.
Exceto um."

"Um só.
É pequeno e frágil e é a única coisa do mundo que ainda vale a pena se ter.
Não devemos jamais perdê-lo, vendê-lo ou entregá-lo.
Não podemos deixar que alguém tire de nós.
Não sei quem você é. Se é homem ou mulher.
Talvez eu nunca o veja, nem te abrace, nem bebamos juntos...
...Mas eu te amo.
Espero que consiga fugir.
Espero que o mundo mude, que as coisas melhorem e que, um dia, as rosas voltem.
Queria muito poder te beijar..."
                                               
                                       Valerie

Alan Moore em V, de Vingança

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Metalinguagem


Talvez fosse apenas um ruído. Mas para ouvidos treinados bem poderia ser um Dó Maior ou um Si Bemol. Ouvidos atentos e uma batuta poderiam transformá-lo num Adágio sustenido ou organizar um conjunto deles numa sonata. E embora eu sentisse música até no vento passando pela fresta da janela, nunca achei importante ou soube diferenciar o que era Clássico do que era Barroco ou mesmo uma Marchinha simples do que era Samba de Raiz. E como também tinha uma voz desagradavelmente anasalada, deixei de lado minhas aspirações musicais e me voltei para as cores.

Talvez fosse só uma mancha na tela, mas para olhos atentos bem poderia ser uma possibilidade. Bastava um pouco de boa imaginação junto a um bom pincel e mão hábil que o empunhasse para moldar um sonho na tinta. Como estava sempre desprovido dos dois últimos itens, abandonei desde aí minhas pretensões às artes visuais.

Aprendi a ler e o mundo subitamente ficou enorme.
E então me tornei cego e surdo para tudo o que não estivesse em letras, em linhas e nas entrelinhas. Não estou falando exclusivamente de livros...O caso é que eu não vejo e nem ouço realmente nada. Eu leio tudo. Até mesmo aquilo que não está escrito (e isso curiosamente não permite ser ignorado, de modo que embora não queira, a isso tenho lido mais atentamente). Sons são palavras. Imagens também. Mas para lê-las corretamente é necessário se submeter a algo no som e na imagem que transcende a sua superficialidade... Isso também é ser anacrônico.

Que pena... Talvez eu não me tornasse um Renoir ou um Monet, ou mesmo chegasse próximo da virtude de um Eric Satie ou Villa Lobos, mas é bem possível que eu conseguisse encantar os olhos das pessoas com uma tela colorida ou alegrar uma festinha tocando violão, ao invés de perturbar-lhes os pensamentos obrigando-as a pensar naquilo que não querem. Em vez de me concentrar na respiração entrecortada do flautista por entre as notas e tentar adivinhar se era homem ou mulher, jovem ou idoso a tocar uma ária ou de chamar a atenção para a densidade de um verso numa musica que todo mundo quer simplesmente dançar.

Era só um moleque e fiquei perplexo quando numa festinha, vi um bando de gente dançar ao som destes versos:


"Tudo o que viceja também pode agonizar,
e perder seu brilho em poucas semanas...
E não podemos evitar que a vida trabalhe com seu relógio invisível
Tirando o tempo de tudo o que é perecível..."



Nunca entendi como alguém pode dançar ao som de algo dessa profundidade. Ficar paralisado, absorvendo o impacto daquela letra ao invés de ir dançar como todo mundo acabou com a festa para mim. Ao longo da vida, não foram poucas as festas que arruinei para mim mesmo por causa dessa mesma perplexidade. Para aqueles que seguem a filosofia de "a vida é uma festa", talvez eu tenha arruinado a minha vida.

É certo que eu teria me dado melhor com as meninas quando eu era garoto, se lhes elogiasse os cabelos sedosos e as curvas sinuosas em vez de ficar perguntando o que era aquela sombra que se esgueirava atrás do olhar delas e que elas tentavam disfarçar com sorrisos forçados... Se aprovasse e disse como são lindas todas as coisas que falavam, ao invés de realmente prestar atenção naquilo que diziam sem falar.

Mas pareço ter nascido com o dom de desmanchar a folia dos momentos em que eu deveria simplesmente deixar a maré da superficialidade me levar.

Agora, sem a virtude de um bom pintor ou musicista, lastimo ter de admitir que apesar de saber ler mesmo o que não está escrito, tampouco tenho o dom para as palavras e acabo por perceber que não consigo de fato me comunicar com as pessoas, porque embora seja bom em ler, sou péssimo em escrever, ou seja, é uma comunicação de uma via só. Um monólogo apagado onde deveria arder um diálogo. É mais ou menos como saber tocar piano, mas não ter dedos.

Acabo falando o que não devo, a coisa errada, na hora errada, do jeito mais errado possível. Apenas com a intenção certa. Com malditas boas intenções, que são as piores. E se de “boas intenções o inferno está cheio”, fico me perguntando para onde vão afinal as más intenções...

Ou faço pior ainda, nos momentos em que deixo de ser Eu e tento agir como Nós. Aí acabo agindo como um touro bravo em loja de porcelana. Nesses momentos de ausência do Eu, acrescento analfabetismo intelectual a minha surdes e cegueira emocional.

É comum quando alguém conhece uma pessoa surda e nunca teve contato com alguém nessa condição, a pessoa começar a usar mímica ou mesmo falar aos gritos (como se o outro fosse ouvir ou entender). A sensação é parecida. Ele é surdo, mas é você quem não consegue se comunicar.
É você, quem não consegue se salvar.

Em alguns momentos... Para ser honesto, em momentos mais freqüentes do que gosto de admitir, sou completamente cego, surdo, iletrado e estúpido.

E o inferno sorri...

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Pergunta 2



Porque diabos eu vivo me esquecendo de que preciso respirar?

Inadequados


Talvez ele...
Senhor idoso em terno caro e bem cortado e gravata. Um tanto calvo, sem que isso lhe privasse de uma certa exuberância na cabeça. Tinha bigodes grisalhos levemente amarelados pela fumaça de cigarros e sobrancelhas  como lagartas sobre os olhos claros. Era a elegância em pessoa. Deixou o carro parado na avenida Afonso Pena e entrou no parque municipal a pé. Tão logo se sentou num banco, foi “assaltado” por uma multidão de gatos do parque. Saudaram-lhe como a um velho amigo, trançando por entre as pernas, dando mordiscadas nos sapatos de couro. A toda essa manifestação de afeto o senhor elegante suportou com estoicismo e simpatia e ouso até afirmar pela recíproca em afagos e coçadelas nos bichanos, que ele sentia prazer  na companhia dos gatos.
 Gatos são criaturas arredias, desconfiadas por natureza...E os do Parque Municipal tem todos os motivos para serem ainda mais e como eu gosto de qualquer um de quem os gatos gostem, aquele homem conquistou a minha simpatia imediatamente. Um gato castanho subiu-lhe ao ombro, enchendo o terno de pelos. Dois tricolores se revezavam em esfregarem-se nas pernas e muitos outros esperavam a vez ou simplesmente saltavam-lhe ao colo em busca de comida e cumplicidade (duas coisas que conquistam o coração dos bichanos).
O senhor idoso elegantemente vestido tirou dos bolsos o que parecia ser um punhado de ração ou biscoitos. Esparramou aos seus pés e enquanto os gatos se deliciavam, olhava satisfeito para eles. O que quer que fosse estava embalado em papel alumínio (feito em casa) e eu fiquei imaginando aquele senhor, o dia inteiro dentro de algum escritório, participando de reuniões com outros senhores idosos de modos austeros, tendo nos bolsos um pacote de petiscos para os gatos vadios do parque...
Anacrônico...Inadequado...
Muito lírico. Deus! Como eu adoro BH!
Não satisfeito, sacou dos bolsos do terno uma dessas garrafas achatadas que as pessoas costumam usar para guardar bebidas e um pires pequeno. Vodka? Whisky?
Leite!
Passei da curiosidade ao encantamento. Que tipo de ser humano era aquele? Enquanto os gatos tinham o seu festim, fiquei observando melhor aquele homem. Reconheci o cansaço naqueles olhos cor de folha, um cansaço que nada tinha a ver com um estafante dia de trabalho ou com o longo  tempo vivido. Ele já tinha aquele cansaço no olhar desde muito jovem (eu tinha certeza disso). Olhava para o nada, concentrando sua atenção em algo que transcendia os gatos, o burburinho da cidade, o parque lotado de gente e a chuva que ameaçava o céu com nuvens espessas. De vez em quando saia de seus devaneios e tornava a encher o pires de leite. Estranho homem de terno, tendo como fio com a realidade a companhia de uma tribo de gatos vadios no Parque municipal.
De olhar perdido no infinito, ficou durante um longo tempo remoendo em secreto os seus pensamentos, tendo o olhar subitamente desanuviado e o rosto iluminado por um sorriso, quando os gatos tendo terminado o seu pequeno banquete, voltaram a prodigar-lhe os seus mais sinceros e efusivos carinhos. Intruso e espectador, senti impulsos de ir até lá e sentar-me no mesmo banco. Eu não diria nada, é claro. Apenas me deixaria ficar por ali tempo o bastante para unir meu silêncio ao dele. Talvez ele percebesse que existe outro Um.  Que ele não é o único Eu em meio a uma multidão de “nós”.
Antes porem, que eu fizesse qualquer coisa, começou a chover. Gatos correram, pessoas correram, a cidade correu em busca de abrigo. O homem idoso de bigodes amarelados calmamente  recolheu o pires e o papel laminado, rosqueou a garrafa prateada, pôs no bolso do terno, se levantou e andou vagarosamente até o carro, como se não estive caindo um dilúvio do céu nublado. Eu estava meio hipnotizado  pela cena e só percebi que estava  igualmente encharcado muito depois que o carro dele desapareceu subindo a  Av. João Pinheiro.
Talvez ela...
Menina bem jovem. Adolescente com pele muito clarinha de quem nunca pegava sol ou poeira. Tinha toda a aparência de quem jamais andou mais do que uns poucos quarteirões a pé. Estava a minha frente na fila do supermercado. Bonitinha, embora eu não esteja muito certo de saber mais avaliar a beleza dessa faixa etária. Se é que algum dia eu soube.  Havia algo nos seus modos que a faziam destacar na paisagem. Uma leveza estranha, quase surreal. A fila estava longa, final de sexta feira, gente com carrinho lotado de compras a nossa frente, irritados com a demora no atendimento...E ela a placidez em pessoa. Cantarolava baixinho numa língua cheia de “R” que eu não conseguia discernir (gaélico?) uma musica  que era...não sei...Talvez fria demais para aquela voz de Contralto. 
Vestido de algodão cinza e uma jaqueta jeans que já saiu de moda quando eu era garoto. Tênis de tecido e cadarços e um chapéu no mínimo estranho...Parecendo chapéu de pesca (mas que diabos eu entendo de chapéus ou de moda?). Tenho certeza de que aquela roupa ficaria horrível em qualquer uma que não fosse ela. Nela, ficava...encantador. Debaixo da axila tinha um livro que com muito esforço e indiscrição consegui descobrir o título: “Origens do Totalitarismo – Hannah Arendt”.  Olhei para aquele rosto pálido e um tanto infantil e fiquei imaginando porque diabos uma pós-púbere estaria lendo aquele livro.
 Comprava uma beberagem feita de mamão e laranja. Estava na fila há vinte minutos para comprar uma coisa tão... Desimportante... Coisa que ela poderia comprar mais rapidamente na padaria do outro lado da rua. Um livro denso numa mão, uma tolice industrializada na outra.  Uma quelóide numa das narinas, uma argola pequenina na outra. Paciência e persistência em colisão . Dos cabelos bem penteados se destacava uma trança multicolor e na ponta dessas, uma meia lua sorridente.
Anacrônica...Inadequada.
Pagou com algumas moedas que retirou de uma bolsinha em forma de Mickey Mouse. Contou pacientemente as moedas, ignorando por completo as pessoas na fila, que se impacientavam com aquela sua paciência. Antes de sair ela olhou em minha direção, mas não pude ver realmente o seu olhar, porque seu olhar não estava ali. Este se perdeu muitas milhas atrás de mim. Fui atravessado. Ela parecia olhar o mundo como se esse fosse transparente.
Depois que ela saiu já bebendo a sua compra, acompanhei com o olhar enquanto ela atravessava a rua e parava perto de um moleque de rua que lhe falou. Ela sorriu, olhou diretamente para ele, (depois de ter fuzilado uma fila de “pessoas respeitáveis” com seu olhar de raios x).  Apontou na direção da rodoviária. Antes de ir, revirou a bolsa em forma de Mickey Mouse e tirou de lá algumas notas enquanto o moleque de rua, duas vezes mais alto do que ela aproveitava para tomar um pouco da sua bebida. Deu as notas ao moleque, se despediram e ela acenou sorrindo para o garoto. Continuou a tomar a sua bebida e desapareceu virando a esquina com a Rua Goitacazes... Fiquei arrepiado. O que ela tinha acabado de fazer foi perigoso e anti-higiênico, mas lindamente humano.
Na saída do supermercado ainda comprei uma daquelas bebidas que ela tomou.
Horrível! Mas tomei até a caixinha ficar vazia...Persisti até que se tornou a minha bebida favorita.
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