sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Estranho Diálogo/Monólogo




Estava parada ali durante um tempo que ignoro. Sua postura era tão natural que dificilmente eu teria imaginado que ela não fazia parte daquela paisagem (A não ser talvez, pelo fato de haverem dezenas de borboletas e peixinhos saindo dos seus cabelos). Como fingia não dar por sua presença, embora sentisse seu olhar fixo em mim como os de uma leoa em uma gazela em vias de ser abatida (pensei nisso alguns segundo e vi que a comparação era ridícula, mas apropriada), aproximou-se o bastante para deixar sem sombras de duvidas que não estava disposta a ser ignorada.
“Olá!“
Eu sou Lou Andreas Salomé” – Apresentou-se.
É claro que é - respondi ainda de cabeça baixa – E também muitas outras pessoas. Posso imaginar um monte de nomes pra você. E nenhum deles vai ser o seu.
“É verdade, mas eu estou aqui e você não sabe como me tratar.. E mesmo que eu não te diga o meu nome, você sabe quem eu sou.”
- Ora, você é, suponho, um fantasma e eu não acredito em fantasmas (eles têm o péssimo hábito de contar mentiras)- respondi elevando o olhar pela primeira vez para olhar o precipício – Não precisa dizer seu nome. Não quero que o diga. Eu sei quem você é.
“E você fica aí, impassível como o condenado no cadafalso? Ora, não está surpreso por ver-me aqui? Não está nem mesmo assustado?”
- Estou... Dentre outras coisas. Não pensei que eu estava tão mal a ponto de alucinar. Mas caso não tenha notado, estou em plena sala de aula.
“Claro que notei” – retrucou sorrindo. Era a primeira vez que eu a via sorrindo e então tive certeza de que alucinava. Aquele sorriso que eu nunca vira era exatamente tal qual eu o imaginei muitas vezes em noites insones. Parecido demais ao que eu imaginara para ser verdadeiro “É por isso que não está realmente falando comigo, mas pensando as palavras para me responder.”
E aproximando o seu dedo do meu rosto de modo zombeteiro e acusatório sentenciou “Você não fala comigo porque não quer que seus colegas pensem que você é louco!”
Só então percebi que realmente não estava falando com a boca. Ergui os ombros – Isso eles já desconfiam, moça. Só não vejo motivo para  que vejam confirmadas as suas suspeitas.
Ela gargalhou...Uma risada alta, alegre e esganiçada. Tal qual eu imaginei que seria a sua risada e isso também parecia ser um erro. Sua gargalhada tinha qualquer coisa do som de milhares de sininhos tocando,  como estrelas dentre as quais havia uma rosa perdida, como se eu estivesse ouvindo crianças em algazarra em algum lugar lá fora, sem que eu soubesse realmente de onde vinha o som. Enquanto ela o fazia, eu fiquei observando-a  com a naturalidade de quem olhava para um fantasma. Eu girava uma caneta por entre os dedos enquanto um filete de suor desagradavelmente frio descia pelas minhas costas.
Cabelos vermelhos, roupa exageradamente colorida, olhos de cores estranhas e o rosto parecido a uma escultura grega ou uma mascara da Commedia delArte, mas aquela moça era mais como o mar. Nunca a olhava duas vezes e a via do mesmo modo. O ar em volta dela tremulava como uma flâmula e mudava sempre que eu tirava os olhos dela por um segundo.
“ Então” – Continuou depois de tomar fôlego o que achei estranhíssimo, uma vez que fantasmas (ou alucinações) supostamente não respiram – Talvez sua loucura explique o porquê estou aqui falando com você se já não estou mais neste mundo, não é?”
Cocei a cabeça por detrás da nuca. Um irritante e inevitável cacoete quando estou desconcertado.
 - E verdade... Mas talvez eu mesmo nunca estive de fato neste mundo...Embora também não esteja no mesmo que você.  Então, não fique se gabando por não estar neste mundo!
- A minha loucura costuma explicar tudo. Posso lidar com isso, no entanto. Mas como eu disse antes, estou no meio de uma aula, por isso se não se importa, poderia vir me assombrar depois que eu terminar aqui? 
“E você acha que eu tenho o que? Uma carteirinha de assombração ou um passe livre entre lá e aqui? Que posso ir e vir ao meu bel prazer ou a sua bel conveniência?”
- Se você é mesmo um fantasma, isso deveria ser prerrogativa sua, eu acho. Na verdade, não acho nada.  Só que essa é uma conversa estranha para se ter com alguém que existe apenas  na minha imaginação.
"Então suponha que eu seja um produto qualquer da sua mente" - e senti que minha amiga fantasmagórica se impacientava comigo. Vangloriei-me intimamente.(Jesus! Consigo irritar até os mortos!) - "E que você possa me fazer sumir com um comprimido de Lítio ou de Válium... Ou seja lá o que se toma nesses casos (se for um bom aluno, você vai saber). Você, no entanto não tem nenhum desses remédios consigo, então pode se dar ao  luxo de ter um pouco de cortesia para  com um sintoma de sua mente doente e me dar um pouco de atenção.  E olhe só para isso; - Então se aproximou o bastante para eu saber que além de ter alucinações auditivas e visuais, também estava tendo alucinações olfativas, porque eu podia sentir-lhe o cheiro. Cheirava a girassóis.  Apontou o dedo translúcido para o meu caderno  – "Desde que eu cheguei aqui você não escreveu nada além de nomes de pássaros  e nem está ouvindo o que o professor está dizendo."
Olhei para o caderno e, diabos, vi que ela tinha razão. Tordo, Melro, Canário...Corvo...  Onde deveriam estar nomes de partes do cérebro e estruturas nervosas. Mas ela não estava completamente certa. Eu já não ouvia o professor desde que a aula começou.
"A aula é chata" – Continuou minha alucinação revirando os olhos bicolores enquanto o ar tremulava e se enchia de peixinhos – "O professor é chato e você também é. Eu também sou... Ou era... E é muita chatice para caber numa só sala!"
E voltando a dar aquela risada alta e alegre de mil sinos e crianças alhures, minha debochada e fantasmagórica “Lou Salomé” me puxou pela manga da camisa "Vamos lá pra fora!"
Acrescentei  alucinação tátil à lista de sintomas. Meu prognóstico não era nada promissor.
Foi um pouco constrangedor sair no meio de uma aula (eu nunca fui um bom gazeteiro), mas teria sido pior ter deixado escapar um murmúrio qualquer e ser surpreendido em plena crise alucinógena. Então, saímos andando pelo corredor e paramos diante do vão da escada.
- Daqui a pouco – Eu avisei  -  esses corredores vão estar apinhados de gente, então se quer me dizer algo é melhor ser rápida.
"Eu era rápida - explicou Lou- Rápida no pensar. Rápida no viver...Rápida demais e atropelei a vida tanto quanto ela me atropelou.Estava sempre apressada para viver e então vivi densamente num tempo muito suave.... Queimei como uma estrela cadente. Com a diferença de que eu caí pra cima e iluminando o céu, deixei a terra as escuras...A vida pode acabar te matando se você não tiver cuidado. E eu demorei a vir aqui. E foi difícil! Não me peça rapidez, porque isso não faz o menor sentido.´E é engraçado quando se pensa nisso, porque já não tenho pressa e agora sei nunca tive motivo para ter. Agora  eu tenho a eternidade. Mas ela é como um brinquedo de que se cansa logo. Tenho toda a eternidade pela frente...E atrás e dos lados e pra cima e pra baixo e para dentro!" Sorria e farfalhava peixes e borboletas.
-Mas que ótimo!  Mas seria bom que você se lembrasse de que eu não tenho a eternidade pela frente - E olhei para o meu relógio que agora mais me pareceu uma algema – Só vinte e três minutos. Não acredito em eternidade, moça. Nem agora e nem depois, mesmo te vendo aqui em carn...Sei lá...Ectoplasma ou seja lá de que forem feitos os fantasmas.
"Está bem" – Ela se calou e eu fiz o mesmo. Olhava para o vão da escada a minha frente e para o piso lá em baixo. Sei lá porque, mas sempre faço isso em lugares alto. Acho que todo mundo faz. Estávamos no décimo andar. Apesar da estranheza da minha situação, minha amiga espectral não me deixou ficar devaneando.
É atraente, não é?
-Que...? O que é atraente?
"O abismo, é claro!" Olhei lá pra baixo e fingi que sabia do que ela estava falando, como se o abismo fosse a mesma coisa  para nós dois.
- Sim... É sim... E o problema nunca foi cair...
"Eu sei. O problema é bater no chão. Por isso caí para cima. Na falta de uma direção, às vezes você cai para dentro de si mesmo. Se cair de mau jeito, faz um estardalhaço danado."
...Então, depois que se despedaça em algum canto remoto do seu Eu, reúne seus cacos e constrói algo parecido a um vitral, mas aquilo que se ergue de modo algum lembra aquilo que um dia foi você...
Meus sintomas estavam se agravando, porque agora que estou contando, não estou certo de quem disse o quê, o que talvez não importe, já que eu estava provavelmente falando comigo mesmo.
"A queda para dentro de si também costuma ser longa, e lá, no vazio, ninguém vai ouvir  nem mesmo o eco do seu grito."
-E está aqui para isso? Para me avisar para ter cuidado, me prevenir contra o fascínio do abismo ou algo assim? Veio me salvar?
"Quanta pergunta! Está me tendo em alta conta, querido. Não. Não vim por um motivo altruísta. Mas já que tocou no assunto, você se se lembra do conto de natal do Dieckens?"
-Aquele sobre espíritos dos Natais...? Ei! Espera aí...!
Ahahahahah! Relaxe! Não estou aqui para te levar numa viagem ao passado ou coisa assim. Você ia me mandar pro diabo e ainda ia continuar avarento naquilo que te é caro. No que, admito, você não está errado. Só falei para ilustrar o que eu tenho a te dizer. Esqueça. Só quis fazer graça seu mal humorado!"
Fiquei aliviado. 
Tudo bem que eu às vezes sou mesmo como o Scrooge em alguns aspectos, mas só me faltava alucinar algo relacionado a um feriado que eu nem mesmo celebrava... Neste momento um colega igualmente gazeteiro passou e me deu um doído e sonoro tapinha camarada nas costas, ao que retribuí com um “oi” carrancudo. Desapareceu nos corredores  olhando curioso para o mesmo vazio em que eu fixei o olhar logo depois de lhe resmungar um cumprimento. Será que esse pateta não percebe quando alguém quer ficar a sós com seus fantasmas?
- E então – Voltei à minha alucinação – o que tem de tão importante assim para me dizer para vir sei lá de onde e me arrancar da sala de aula (numa matéria que inclusive eu já estou em vias de ser reprovado)?
Eu não tinha intenção de ser rude, é claro. Mas justo nos momentos em que não quero ser é que sou. Além disso me formigava uma vaga impressão de que se não mantivesse uma formalidade levemente ácida, minha amiga fantasmagórica ( e metade da Academia) haveria de testemunhar um espetáculo dos mais lamentáveis. Eu por certo iria irromper num choro ridículo e sentido e faria todo tipo de acusações e lamúrias. Já havia um tempinho, desde que a notei  ali que minha pulsação estava acelerada e eu suava em uma quantidade tão extraordinária que, estava certo,  estaria desidratado antes de a aula terminar. Fiquei esperando a resposta.
Ela se adiantou para bem perto de mim e ficou muito grave. Minha transpiração e pulsação redobraram o ritmo.
"O que eu tenho a te dizer é de uma simplicidade complexa...Ou de uma complexidade simples (depende mais de seus ouvidos do que da minha voz)"
"Entender isso vai exigir de você mais neurônios do que você precisa para passar naquela sua matéria chata..."
"É a coisa mais...Metafísica que eu já disse e que alguém já ouviu, então preste atenção:"
E eu prestei.
Ela fez uma pausa dramática de alguns segundos, ainda grave, ainda fantasmagórica disse com toda a cerimônia:
"Respire!"
E eu fiquei ali, esperando o restante da sua fala fantástica. Ela apenas me olhava, como se estivesse avaliando o efeito de suas palavras sobre mim. Fiz um gesto de quem não está entendendo nada.
- E...?
"Respire, droga! Precisa mesmo ouvir mais do que isso pra entender?"
- Agora é você quem está me tendo em alta conta! Eu não estou entendendo...Ou estou, mas é certo, estou entendendo do jeito errado...? Respirar? Quer que eu respire?
"Claro! É a coisa mais importante do mundo! De todos os mundos. E para mim que já não respiro... Como antes... É muito importante que você comece a respirar..."
Cocei atrás da nuca...
- Não entendo...Eu estou respirando!
E dizendo aspirei e expirei profunda e demoradamente e ao fazê-lo, olhei-a impaciente, como se dissesse; "Não é óbvio?!"
Ela sorriu. Seu olhar bicolor derramava uma insuportável indulgência sobre a minha ignorância e eu me senti um garotinho levando uma reprimenda.
"Olhe...Já tem um bom tempo que você não respira de verdade. Apenas olha para o longe, suspira e prende a respiração nesses momentos cada vez mais freqüentes em que sua vida parece atrofiar e diminuir. Isso é meia vida, que é bem pior do que não estar vivo em parte alguma do seu corpo."
"A sua respiração é como uma... Fumaça sacrificial. Ela chega a lugares que você nem acreditaria. Ela ilumina os espaços vazios! Sua risada também. Inclusive as mais debochadas e quem já está fora deste mundo colhe suas risadas no ar como quem colhe flores num campo. Disputam até. Elas são gostosas como guloseimas!"
"Mas a sua respiração é o vento nas árvores lá de onde eu venho. Meu vento - Ninguém de lá toca nela, porque eu tenho ciúmes. Até divido as suas risadas, mas nunca a sua respiração -  E as batidas do seu coração são como uma canção de ninar para os deuses (você não gosta deles, mas eles são apaixonados por  você)...E aqueles momentos em que você se entrega as pequenas e frugais  paixões e se alegra um pouco, esses são o nosso Carnaval."
"Eu não sei ao certo como te fazer saber o quanto é importante que você esteja feliz, mas se você não estiver feliz, não posso descansar. A sua felicidade, a sua respiração é o meu descanso. Então por favor, respire!"
Não sabia como responder aquilo. As aulas acabaram e os corredores começaram a ficar cheios. Duas ou três pessoas passaram através dela como se ela fosse fumaça. Eu estava pálido. E em vias de chorar copiosamente, apesar de acabar de ter sido advertido que isso a aborrecia.
- E eu pensando que a melhor  homenagem que se podia prestar aos que se foram eram nossas lágrimas... O que eu não entendo, é porque você pensa que tem mais direito ao descanso do que eu...
"Eu não  penso. Eu não tenho... E nem você pensa isso.  Mas nós dois sabemos que é uma questão envolvendo aquilo de mim que ficou em você e aquilo de você que eu levei comigo."
"E mais uma coisa..."
Daí pra lá a coisa ficou confusa. Dezenas de alunos se acotovelavam no corredor e eu sequer ouvia meus próprios pensamentos. Não ouvi a ultima coisa que ela disse e não estou certo se realmente alucinei isso ou se foi mais um desses sonhos malucos provocados pela minha mania de comer demais antes de dormir.
Lembrei-me daquela idéia boba de que se eu espirrasse ou matasse um certo inseto, poderia desencadear uma série de eventos que acabariam por matar mil chineses de fome ou coisa assim...

Tolice é claro e eu já perdi lá atrás o compromisso de atender a sonhos perdidos ou alucinações desgarradas. Fico realmente aliviado de não ter tido tempo de fazer promessas que certamente não iria cumprir. Não sei se foi um sonho, mas por via das duvidas ( a vida é sonho), estou tendo o cuidado de respirar mais (nem tanto de dar risadas, embora não me furte a isso) e suspirar menos...

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