sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Perpétuos




Tem umas coisas que acrescidas ao muito que já nos ferve como uma febre mental, acabam por mandar nosso sono pro espaço.  Se por acaso alguém vir uma tonelada de noites mal dormidas flutuando por aí, gentileza remeter a este pobre blogueiro insone.
Bem, estava fazendo uma pequena e lúgubre contabilidade do ultimo ano (habito pouco saudável que a ninguém recomendo) e nas visitas desagradáveis que Dona Morte andou me fazendo, enquanto prossegue a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens". Por ordem:

-Um acidente de carro

-Meia dúzia de “quase-atropelamentos”

-Alguns choques elétricos (coisa de pouca monta, uma vez que estou convencido que seriam necessários muitos milhares de volts para me deixar  realmente “chocado”)

-Algumas balas perdidas que certamente passaram tão rápido rente a minha cabeça, que não as percebi (talvez seja exagero, mas são tempos perigosos os que vivemos).

-Stress capaz de transformar o sangue em lava fervente e ácido.


Para ser honesto, da pequena lista acima, apenas o acidente de carro aconteceu de fato e de direito, o restante trata-se apenas de especulações da minha parte ou exageros propositais, de uma série de modos horrorosos que me ocorreu, pelos quais eu poderia ter morrido. 2011 tem sido um ano bem difícil...

Sem sair do assunto, mas pegando um pequeno atalho, a obra de Neil Gaiman parece ser um elemento da minha vida cujo apreço compartilho com quase todo mundo que é importante para mim. Leio há bastante tempo ( o sujeito é ídolo de ninguém menos do que Alan Moore!!)  e por influencia de alguns amigos em especial, releio bastante também.  E da mitologia criada por Gaiman em sua principal obra “Sandman”, até o inicio deste ano, seguindo minha inclinação natural de “teimoso-do-contra”, temi  estar sob o signo de todos os Perpétuos.



Desejo e eu nunca nos entendemos, nunca nos demos bem. Ele/Ela não gosta de mim e a antipatia é recíproca. Não nos sintonizamos e por vezes chego a odiá-lo, porque talvez seja prepotência da minha parte, mas sinto lá no fundo dessa minha veia estóica, haver uma certa perda de dignidade quando se cede a Desejo e quando acontece, irrita-me imaginar o sorriso sarcástico dele/dela, saboreando o momento que o meu eu simbólico cedeu ao meu eu animal.E quando posso, a/o ignoro ou empurro tão para o fundo da consciência, que um asceta parecer-se-ia a um fauno em comparação comigo.


Desespero passa tempo demais comigo para que eu sinta por ela mais do que o escravo sente pelo amo. Ela é familiar demais. Presente demais. E o fato de cada vez mais me habituar a essa presença, a torna maçante, como aquela pessoa que você é obrigado a ver todos os dias e que conta sempre a mesma piada, fala sobre os mesmos assuntos...Seu anel  está tão constantemente fisgando o meu coração, que já o considero um adorno, como um piercing, em que a ferida já cicatrizou em torno da agudes do esporão...


Destruir nunca foi meu forte ( a não ser a minha auto-estima em momentos de crassa estupidez). Romper com as coisas antigas para que o novo surja é o que faz com que eu goste de Destruição. Tudo parece ter surgido da entropia de algo que veio antes, como o fato de que os átomos que compõe os nossos corpos foram antes átomos de outras coisas e de outras e de outras até a origem de tudo. Acabo pensando, quando penso em Destruição, que, em direção ao passado, somos feitos da mesma coisa. Isso também me leva a pensar, numa direção a frente, que aquilo que me compõe vai um dia fazer parte de  outra coisa e outra, até que a entropia nos transforme de novo no deus ou na deusa que talvez tenha dividido a sua forma e consciência nisso tudo que somos e que temos a nossa volta.


Não acho Destino factível, mas gosto dele ainda assim, como gosto de tudo o que fica no campo do fantástico. Existem coisas, eventos no universo que não parecem admitir questionamento. Elas simplesmente são. E existe um conhecimento do qual, uma vez adquirido, não se pode abrir mão. Não se pode escapar ao conhecimento de certas coisas, como se ele estivesse atado em nossos pulsos por algemas e correntes. Identifico-me a Destino, porque como ele, sou cego para algumas coisas, com o diferencial que Destino não precisa de olhos para ver, para saber, e eu vou tropeçando no escuro, batendo a canela nas quinas das coisas e metendo o nariz em lugares, sejam físicos ou psicológicos, onde eu bem faria em manter-me distante.



Sonho não chega a ser um personagem que eu goste ou desgoste. Eu apenas me submeto. Ele tem o dom de esmaecer as cores da realidade pelo violento contraste existente  entre o lá e o aqui. Mas pela aura de tragicalidade envolvendo Morpheus e sua melancolia persistente, e aquela consciência da perda de algo precioso que ele manifesta sempre, eu não gosto de Sonho. Eu sou o próprio (e antes que alguém pense que estou me vangloriando, advirto que de forma alguma considero isso uma vantagem).



E Delírio...
Ah, eu amo Delírio! É a minha favorita...Delírio, embora Gaiman não coloque dessa forma, é um tipo de anti-Destino. Ela é o único escape para e da realidade e da dureza desta. Porque a loucura é o único conforto de que dispõe a mente de quem está acorrentado pelo conhecimento de certas coisas, quando a ignorância e o conforto advindo desta já não é mais uma opção. O mundo de Delírio é um refugio onde a alma pode se perder em suas próprias singularidades. Delirar é ser livre de muitas amarras...Ou como a propria diz nas palavras de Erasmo de Roterdâ:

  "Embora os homens costumem ferir a minha reputação e eu saiba muito bem quanto
meu nome soa mal aos ouvidos dos mais tolos, orgulho-me de vos dizer que esta Loucura
sim, esta Loucura que estais vendo é a única capaz de alegrar os deuses e os mortais"

 Não obstante o fato de eu  sonhar, desejar, me desesperar, destruir , delirar e estar sob o julgo de um destino por vezes implacável e delirar suavemente, nunca temi (pelo menos conscientemente) a Morte.


Meu pragmatismo sempre me fez pensar no absurdo de se temer  a Morte, porque acredito que até seja possível evitar-se as dívidas, mas a Morte é o fim natural de tudo, de uma borboleta que vive um mês a uma estrela com bilhões de anos. Todos marchamos para o inexorável fim e isso nunca me pareceu algo a ser racionalmente temido. Como se houvesse algo de racional no temor...

Afirmo, sem risco de me pegar falseando minhas impressões para manter uma retórica (de novo, ao menos conscientemente), que continuo imune ao medo da MINHA morte. A de outros é coisa completamente diferente.  Compreender que tudo deve morrer, embora toda a nossa mitologia e filosofia persistam em  tentar conquistar a morte, não diminui a dor que fica na ausência, no vácuo onde devia haver alguém. Se a Morte é perpétua, a vida é efêmera e a lógica desse raciocínio pode até confortar quando se pensa no próprio fim (e qualquer um que não receie o julgamento alheio em relação aos próprios sentimentos, vai confessar ao menos para si mesmo que muitas vezes tem amado e até mesmo desejado a própria morte), mas não vai preencher o vazio que fica quando se pensa que aquele para onde flui a sua energia libidinal está em vias de desaparecer ou então já se foi.

Não é difícil compreender o funcionamento do pensamento de alguém que crê num além para fora da esfera da matéria. Pensar num infinito campo verde onde poderemos reencontrar nossos amados é um conforto genial criado pelas nossas muitas religiões. E embora eu não seja capaz de partilhar de tal conforto, pensar a morte alheia me fez ser mais indulgente e compreensivo com quem se anestesia com crenças ou álcool ou outra forma de abstrair da dor da vida. A dor da perda é aterradora.

Talvez eu ame a Morte no dia que ela vier por mim (e não mais  mim), quando sua visita vier silenciar minhas dores e não mais recrudescê-las (aí, ela que se entenda com quem sentir a minha falta). Quando suas visitas fortuitas não mais vierem tornar insuportavelmente longo aquele instante que o ponteiro leva para saltar de um segundo a outro. Quando ela silenciar a minha voz e não aquelas que amo, quando parar de colher o dourado do trigo deixando o joio vicejar no campo do mundo.

Talvez eu esteja sendo injusto mas se há algo em que um ser humano pode legitimamente ser injusto, é naquilo que não compreende (porque a compreensão obriga a tolerância) e apesar de ter obtido muito o que pensar a respeito quando estive pensando a morte nos posts de Pandora e Rafael, acho que por um bom tempo, por razões muito minhas, Morte vai ser o Perpétuo de que menos gosto.
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