sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Meu Momento "Nelson Rodrigues"




“Aqui é a Zona Boêmia, nego. Todo mundo aqui tá a fim de se dar bem”.

Como assim, “se dar bem”?

Cê sabe...Grana... prazer... os dois. Todo mundo quer. Tem gente que quer os dois. Tem gente que só arranja indaca...Mas no geral, todo mundo que vem aqui quer alguma coisa que só acha na Zona.”

Estávamos sentados na sarjeta (lugar bacana para uma entrevista) bem perto do ponto de ônibus. Meu interlocutor deixou seu carrinho de papelão do outro lado da rua, próximo a um lugar onde anunciavam cabines individuais de vídeos eróticos. O ferro velho onde ele venderia sua coleta da tarde era perto, mas havia muitos carrinhos por lá e ele já sabia que ia demorar para pesar e receber o dinheiro pelo seu material. 

Sempre que alguém vai sondar as personagens daquele universo underground, tem por objetivo entrevistar uma garota de programa ou um traficante, mas eu não tenho vocação pra correr riscos desnecessários apenas para colher dados para um TCC.

Um “morador de rua” acessível era uma boa opção e aquele depois de regatear por uns minutos, concordou em falar comigo e me mostrar um pouco da “quebrada”

Todo mundo?

“Todo mundo. Putas, maloqueiros, os noiados, pivetes, o pessoal do movimento (traficantes) tiozinhos, gambés (policiais), até você...”

Eu? Você acha que estou aqui atrás de “prazer ou dinheiro?

“Sei lá...Ce é o que mesmo, nego? Psicólogo?”

Confirmei. Eu sabia que não adiantava falar que era só um estudante. As pessoas sempre encasquetam que é a mesma coisa.

“Psicólogo é tudo doido!”

Sorri amarelo, fingindo que era a primeira vez que ouvia aquele tipo de comentário.

“Sei lá o que você quer...Quando ce chegou ai, eu pensei que ce era viado.”

E dizendo isso, me olhou inquisitoriamente, como para checar pela minha reação se eu confirmaria suas suspeitas. Sorri novamente como se fosse a primeira vez que eu ouvisse um comentário semelhante. Já me senti elogiado, porque toda vez que alguém pensa que eu sou homossexual, é por demonstrar alguma característica positiva que as pessoas atribuem a eles como se fosse negativa, uma contradição que sempre me confunde. Ele confirmou.

Sério?! Porque pensou que eu fosse gay?

“Ah, ce chegou aí cheio de educações, sorrindo...Nessa quebrada aqui, só viado chega na gente assim.”

Mesmo assim você aceitou conversar comigo. Foi bacana da sua parte...

“Na boa. Rua não é lugar pra preconceito, nego e sabe o que as meninas dali (prostitutas) dizem;Uma conversa, um copo dágua e um boquete não se nega a ninguém’.

E desatou a rir mostrando seus dentes arruinados. Ali estava algo que eu nunca tinha ouvido. Na verdade, era um versinho indecente cuja primeira parte não me lembro bem.

“Mas pode esquecer da ultima parte porque não vai rolar não! “

E riu mais ainda. Ri junto. Muito.
Eu ia brincar que ele me decepcionava assim, mas achei melhor simplesmente rir com ele. Aquele seria o tipo de comentário grosseiro “adequado” apenas entre amigos bem achegados e  debochados (e/ou desbocados). Eu era um estranho. Deve-se ter cuidado ao fazer piadas com pessoas cujo senso de humor não se conhece a extensão e compreensão. Aprendi há tempos e do pior jeito.

“E aí? Ce não me respondeu...”

Não respondi o que?

“Ce sabe... Tu é biba ou não é?”

Eu ia responder que ele não tinha me perguntado. Pelo menos não diretamente, mas 
respondi;

Não. Não tenho essa honra.

E me lembrando de uma brincadeira que fiz com uma amiga nos meus tempos de harlequim, emendei:

Sou desgraçadamente hétero!

Só depois de ter falado e observar que ele não compreendeu o meu gracejo é que me arrependi de ter falado. Esqueci o cuidado que havia tido uns segundos antes. Droga de mania de não perder a piada! Isso trai a gente nos momentos mais impróprios. Quando se faz um comentário que uma pessoa não compreende, é comum essa pessoa pensar que estamos debochando dela e isso numa conversa com alguém com baixa auto-estima como um morador de rua equivale ao “Tá me tirando?”

Ele não entendeu, mas deixou passar. Não pareceu muito convencido da minha heterossexualidade, mas ainda parecia a vontade comigo.
De repente, olhou para alguém que vinha de um ponto da rua que eu não consegui ver imediatamente e ficou tenso.

“Aí...Fica esperto!”

Três gigantes vestidos de fardas caqui estavam bem em cima de nós quando cheguei a vê-los e amaldiçoei o meu pouco sangue frio, porque devo ter arregalado os olhos assustado, o que certamente gerou suspeitas e nos valeu uma humilhante revista no paredão. Jogaram todo o conteúdo da minha mochila no chão e fizeram um monte de perguntas que eu respondi com monossílabos. Estava morrendo de medo de o meu entrevistado estar com alguma droga nos bolsos (como era quase certo que tivesse). Se isso acontecesse, duvido que dizer “estou aqui apenas fazendo pesquisa para o meu TCC”, me salvaria de ter de assinar um termo circunstanciado ou prestar serviço comunitário. Ninguém iria engolir uma conversa daquela.

Minutos depois os policiais estavam revistando outras pessoas num bar ali perto, eu estava catando os meus “trens” na calçada e meu colega de sarjeta estava acendendo um cigarrinho do capeta enquanto fazia um gesto obsceno na direção dos policiais enquanto sibilava um palavrão.

Fiquei gelado.

Como é que não encontraram isso com você?

“Quem falou que não encontraram? Tá pensando que esses putos tavam atrás de baseadinho? Rá! Tão a fim de peixe grande, né não nego?”

Mais tarde ele me mostrava os personagens mais comuns da Zona boêmia. Estendeu-me o cigarrinho de canabis, que recusei  explicando que já tinha vícios demais na vida, sem explicar quais vícios. Ele deve ter ficado pensando que eu falava de drogas. Resmungou um “foda-se-sobra-mais-pra-mim” e apontou para um sujeito.

“A lá o pastor! Fica o dia todo ali pela praça da rodoviária pregando e no fim da noite escorrega escada acima no Brilhante. Cliente antigo, nego!”

“Ô lá o tiozinho casado. Presta atenção...”

O “tiozinho casado” era um senhor gordinho, de aspecto respeitável que parecia indeciso entre a fila do ônibus para o subúrbio e a fila de clientes subindo as escadas do inferninho de luz vermelha. Parecia cansado, mas aparentemente tinha necessidades mais urgentes do que o descanso. Subiu as escadas.

Ele me mostrou mais uma dúzia e tanta de almas perdidas na Zona boemia naquelas duas horas em que estive sentado com ele na calçada. A prostituta casada cujo marido buscava de carro todo fim de madrugada, o pivete que já tinha tomado “trocentos” tiros, o bebum que era filho de milionário da Serra (tem mansão e tudo o mais, nego!) e mais um monte de gente sofrida.

“É assim o dia todo, nego. E a noite toda. Gente sobe, gente desce, policia chega e esculacha, neguinho movimentando mercadoria e noiado morrendo igual cachorro com a boca espumando. A Zona é foda, mas todo mundo quer alguma coisa da Zona.”

Ele parecia sempre falar da fauna da zona boemia como se fosse alheio a ela, como se pairasse acima daquela miséria toda ao invés de mergulhado nela até o pescoço. Parecia se vangloriar com a falta de força moral daqueles que freqüentavam a zona, como se essa fraqueza pusesse em evidencia para ele próprio um tipo qualquer de força de que era provido e que faltava aos outros.

E você quer o que?

“Sei lá nego... A gente fala que quer ir pra casa, ver a coroa (puta que pariu! Faz uma rapa que não vejo a velha!), a gente fala que quer sair da rua, largar a vida ruim e tal, mas tem aquela coisa: Pra baixo todo santo ajuda e até o capeta empurra. Pra cima só Jesus.” Se o cara não pega com deus, continua fodido.”

Eu já havia ouvido aquilo antes também.
Perto da onze e pouco o ultimo ônibus para o meu bairro estava virando a esquina da Rio de Janeiro com Guaicurus. Me despedi.

Vou nesse aí.

Estendi a mão e ele me estendeu a sua me puxando para um constrangedor e inesperado abraço.

“Vai na fé, nego! Cuida da sua princesa “ (eu havia mostrado uma fotografia da minha filha quando ele perguntou se eu tinha família).

Já no pé da escada do ônibus, perguntei:

Ei, você disse que era desconfiado como o cão. Porque aceitou conversar comigo?

Ele riu antes de atravessar a rua em direção ao seu carrinho de papelão e respondeu.

“Tá de sacanagem, nego?! Eu te falei, porra! Ce ri o tempo todo, mas tem a cara mais triste do que qualquer um daqui da Zona. Achei que ce tava precisando desabafar com alguém...”

O ônibus arrancou logo depois e eu fui pra casa pensando que havia perdido uma boa oportunidade de  me consultar com um solidário experiente analista da miséria humana.





3 comentários:

Pandora disse...

Boemia me lembra Nelson, mas não o Rodrigues, e sim o Gonçalves, meu pai é fã dele de longuíssima data. Ao longo de minha atribulada convivência com painho, um motorista que sempre trabalhou a noite e terminou os anos de serviço trabalhando no serviço de limpeza urbana, desenvolvi a teoria de que "o mundo dos que acordam quando todos dormem é pesado e sombrio, a noite boemia é um tipo de bolha onde todos os pesadelos e sonhos macabros se tornam concretos, tem alguma coisa lá que mata de forma muito lenta e dolorosa quem se aproxima demais. Viver ou contemplar os limites da miséria humana tanto é perigoso como pode tornar as pessoas perigosas, além de estranhamente entendidas em coisas que a maioria ignora".

Tenha cuidado meu amigo, cheros e Boa Semana!

Garota Insana disse...

Fico em transe quando leio vc. Fico pasma com toda essa desenvoltura! rs

Sempre me coloca no chinelo na insignificância...hahaha Vai ser culto assim... Nem vou dizer onde...ops!

Sabe, eu adoro me arriscar no desconhecido. Gostei muito desse seu momento.
Está faltando autenticidade e personalidade nesse mundo... Não somos todos iguais, nem nunca conseguiremos ser. Isso é uma das coisas mais interessantes na humanidade...

Pandora disse...

Insana, vc fuca em transe eu fico bêbada, Sahge se mostrou melhor que vinho para embaralhar os sentidos... O vinho só me deu sono!!!