domingo, 13 de março de 2011

O Funk e o Desrespeito aos Outros e a si Mesmo - By Sahge


Acredito que boa parte do meu mau-humor da segunda feira venha do fato de que como em quase todo bairro de periferia, o meu passa pelo final de semana inteiro ao som de uma musica insuportavelmente alta. Fosse apenas o fato de ser música, brega ou banal, ou mesmo a um tipo qualquer de musica que não me agradasse, tudo iria razoavelmente bem, mas o tipo de musica que meus vizinhos não só ouvem alto, mas fazem questão de colocar as caixas de som no quintal não é só ruim, mas é de um mau gosto inacreditável e beira a pornografia sonora. 

Não sou moralista (na verdade, tenho horror à gente moralista) e tento (muito mesmo) ter respeito pela liberdade de escolha de entretenimento de quem está  a minha volta, desde que este permaneça em particular e não seja nocivo física ou psiquicamente a outros...O grande problema é que a recíproca não é verdadeira, uma vez que a minha liberdade de escolher “não ouvir” é arbitrariamente ignorada. Talvez seja um pensamento fatalista, mas não espero mais colher amoras num pé de romãs. Gente que não respeita a si própria dificilmente vai respeitar os outros.  Só me resta mudar para paisagens não tão turbulentas, o que , dada a propagação desse tipo de musica, talvez não seja viável em terras tupiniquins .

O que me enerva também é a maneira paternalista  com que a questão do Funk é tratada nos meios  acadêmicos e sociais. Há uma tendência a ver como “uma expressão da cultura da periferia” como se fosse uma produção genuína e uma forma de arte, quando na verdade isso tem sido um instrumento nefasto de destruição da auto-estima de um povo , de propagação da misoginia e da banalização das já fragilizadas relações humanas. Não vou nem questionar a qualidade da sonoridade da musica em si, mas qualquer um que leia aquelas letras e tiver a metade da sensibilidade e inteligência de uma ostra, vai ficar chocado com o mau gosto, com a mediocridade das letras e com a pavorosa  ideologia criminosa por detrás daquelas letras. 


É um crime o que fazem essas musicas, na auto-imagem daqueles que a ouvem e a propagam. Uma coisificação do Eu humano, como se as pessoas de repente se tornassem e se tratassem umas as outras como nada. Manter esse discurso sociológico de “expressão cultural” - e a maioria o faz para ouvir as claques aplaudindo e para ouvir entoarem os loas ao fato de que não é um pensador etnocentrista, mas no fundo, ou despreza essa cultura de periferia ou dela se serve ocasionalmente para extravasamento de sua libido -  fica difícil quando se vai a um baile funk. O modo como as mulheres, meninas em formação, são tratadas nesses lugares é algo abominável. Funk é uma abominação, porque contribui para reduzir as pessoas  a um estado de animalidade chocante. E mais chocante ainda é observar que aqueles que mais são agredidos  por essa ideologia odiosa, não só gostam desse tipo de “musica”, mas o defende furiosamente.  


O problema é que a despeito de toda a rabugisse do meu discurso, sou um otimista inveterado, (mas um otimista não ideológico). Considero a humanidade destinada à grandeza e vejo todo homem e mulher como um gigante em potencial...Observar uma aberração disfarçada de cultura, entre os muitos instrumentos de que se servem  os interesses dominantes para atacar nossa auto-estima, se propagar cada vez mais e ninguém se preocupar com isso com seriedade, me deixa desalentado, porque é muito fácil observar os efeitos dessa “musica” na psique daqueles que a ouvem e na visão de si e dos outros que estes têm. 


Estão nos esmagando, nos transformando em formigas, e em tempos em que a religião está em franca decadência, estão usando para isso o segundo elemento de dominação psíquica; o sexo. E já faz alguns meses em que tenho ouvido pessoas cantarolar uma musica cujo texto não vou transcrever e quando dizia que não a tinha ouvido, olhavam-me como se eu tivesse acabado de descer de um disco voador do planeta Marte. Consegui manter meus ouvidos “virgens” dessa abominação durante meses, mas esta manhã  (07:24 de um domingo) meus vizinhos defloraram meus ouvidos e até agora, 21:26 tenho de dividir minha audição entre o som vindo da igreja a direita e do vizinho funkeiro a esquerda.

Talvez no fim seja uma coisa boa a morte, porque eu acredito que se nada acontecer, eu ainda  vá viver uns trinta ou quarenta anos. Por que parece, (impressão que tenho desde o advento da Lambada em 1988, passando pelos muitos BBBs e afins,  breganejos, funk melodys da década de 90, axés de todos os matizes, etc...)  que estamos entrando num período de idade média cultural. Posso aceitar ser atormentado sonora e visualmente por quarenta anos, mas supondo-se que esta idade média dure tanto quanto a outra, ser torturado desse modo por mil e quinhentos anos? Nem o inferno seria tão ruim.

Sinto muito, mas estou as vésperas de uma segunda feira e de mal humor justificado. Provavelmente estarei melhor amanha, logo, para quem conseguir dormir, boa noite e bons sonhos!

4 comentários:

Ana SS disse...

Super justificado o seu mau-humor. Mas não se preocupe, amanhã é segunda e vai piorar...rs

Queria eu ter centenas de headphones e sair por aí distribuindo aos adolescentes (de diversas idades) que ouvem funk no celular no volume mais alto possível.

Gosto musical não se discute, mas´devemos exercitar diariamente nossa alteridade.

Pandora disse...

Mesmo sendo membro desde sempre de uma igreja neo-pentecostal (ou talvez por ser membro de uma desde sempre) eu sempre pensei que não deve ser muito agradável viver próximo a uma igreja. É, definitivamente depois de dizer algo assim eu tenho que concordar com Júnior e admitir que a essa altura meu lugar no céu pode está comprometido!

Mas sim, amanhã é segunda-feira de novo, o carnaval foi longo, os ouvidos já foram saturados de tudo o que não presta, a ideia do inferno está as portas e eu acredito que o meu mau-humor reforçado da segunda-feira é quase um direito divino ou no minimo!

Sahge disse...

Ana, você tinha dupla razão... A segunda foi realmente pior! Rsrsrsrs
Melhorou na terça...
E quanto à alteridade, a compreensão dela junto a outras coisas, evita que eu me torne um misantropo. E o que me deixa angustiado de fato, é a ideologia por detrás dessas músicas, que como ser humano, me sinto profundamente atingido por ela. E na impossibilidade de distribuir headfones para meus vizinhos, acabei comprando um pra mim! rsrsrs

Obrigado, pelo comentário e pela idéia...

Sahge disse...

Pandora, o curioso sobre a igreja, é que ela não chega a incomodar ( a não ser em dias de festa). Mas ouvir música sagrada de um lado e música profana do outro, criando uma algazarra hibrida...Jesus! O resultado faz com que ambas me pareçam igualmente desagradáveis. Mas a verdade é que fico realmente impaciente quando o barulho que já me ocupou os tímpanos o dia inteiro adentra a noite e vem perturbar até mesmo a paz dos meus pesadelos...