domingo, 30 de janeiro de 2011

Quem tem medo de comédias?



37ª Campanha de popularização de teatro & dança em Belo Horizonte...Iniciativa maravilhosa que ajuda a propagar o gosto por uma das mais antigas formas de manifestação artística. Preços acessíveis e ampla divulgação fazem dessa campanha um sucesso. Passo pelo posto de venda de ingressos todos os dias e é com satisfação que vejo todos os dias uma fila ali com o mais heterogênico tipo de gente disputando os ingressos. Entrei na fila para disputar um para assistir a “Diários de um Louco” (minha favorita do catálogo, que diga-se de passagem, é muito bem feito). Quando recebi o catálogo de peças, porém, confirmei algo que começou a me inquietar tão logo movido por um entusiasmo que muito tem de pueril (mea culpa), comecei a chamar amigos para assistir a uma peça. Unanimidade nas respostas não houve. Uns aquiesceram, outros declinaram(alguns  de um modo curioso):

- Odeio teatro! - obtemperou um.

-Mesmo? Já foi muitas vezes?

-Deus me livre! Não! Nunca!

-Então como pode odiar se nunca foi?

- Me disseram que é chato pra cacete! Um bando de gente metida a besta assistindo outro bando de gente metida a besta falando asneiras do tipo “ser ou não ser” e...

Nessa altura interrompi a conversa, porque já podia prever onde aquilo ia chegar e eu estava de má vontade para discutir com a ignorância alheia. Me basta ter de lidar com a minha. Sou um egoísta que não se preocupa de modo algum em salvar as almas alheias. Quando muito cuido da minha e muito mal.

Não tive sorte com alguns outros, mas o que me deixou encucado realmente, foi o fato de que aqueles que aceitaram, em sua maioria, optaram por assistir a uma comédia.

“Drama? Nem a pau! De triste já basta a vida”

“Dança? De jeito nenhum! Fala sério! Eu prefiro dançar a assistir outros dançando”

E por ai vai. Todos arrumando um ou outro argumento para justificar a preferência por comédia. De fato, o catálogo de peças da Campanha, cioso dessa tendência, apresenta 57 comédias do total de 100 peças. E é só correr o olho pelo resumo dessas comédias para ver que em sua maioria, giram em torno dos temas, sexo, homossexualidade, adultério ou com as diferenças de “minorias”. Nada, absolutamente nada contra comédias (embora eu possa fazer a ressalva de que sexo, homossexualidade e outros temas explorados, já são assuntos espinhosos e difíceis de lidar no quotidiano e não sei se tratar tais temas de modo jocoso com tanta insistência ajuda a torná-los menos espinhosos).


Sou um sujeito debochadíssimo e tenho uma inclinação para o humor tão ácida que por vezes tenho de dosar para não ser inconveniente. Mas isso nunca me pareceu motivo para me privar de mergulhar em outras emoções que não fossem a despreocupada hilaridade, como se a vida girasse em torno dos prazeres e alegrias que o mundo me pode proporcionar. É necessário um Sabath emocional, um tempo ou uma pausa para refletir  e sentir aquilo que nos espera também em cada esquina da vida: O sublime, o trágico, o triste, o amargo, o profundo. 


O mesmo perigo ronda o espírito Humano; o de intoxicar-se com o excesso de um ou de outro aspecto de nossas vidas, quer o hedonismo, que o trágico. De um lado você teria uma vida vazia de significado, do outro, o mais profundo desespero.  Por isso me preocupa quando vejo alguém fugir de temas que deveriam ser objeto de reflexão,  sem medo (ou pelo menos, sem um pavor desarrazoado).  Temas como morte, abandono, perda, dor, angustia... Nós lidamos tão mal com essas coisas justamente porque as tratamos como esqueletos no armário. Fingimos pensar  que estas coisas não  fazem parte da existência humana, até que vem a vida e nos põe face a face com tais e então, ficamos desamparados. 


Eu vou morrer um dia, é fato. Como todo mundo vai mais cedo ou mais tarde.  A morte é parte da vida. Então porque diabos deveria me incomodar assistir uma peça de teatro que fala sobre a perda de alguém para a morte? Porque a vida nos assusta tanto que fugimos dela e de sua densidade por detrás de uma parede de gargalhadas como se só o riso existisse?

Gosto de comédias. Muito! Mas se teatro é arte e a arte imita a vida, não me parece certo cometer o erro de querer ver desfilar diante dos meus olhos apenas um dos muitos aspectos dela.

Ah, esqueci de mencionar que além de egoísta e debochado, também sou um chato.

Karma, neh? É um estilo de vida...

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